O “marxismo errático” de Varoufakis não é resposta

Posted on 30 de Março de 2015 por

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Greek finance minister Yanis Varoufakis in London

23/03/2015

É necessário tornar claras as ideias que sustentarão as lutas vitoriosas da classe trabalhadora europeia

Peter Taaffe (Secretário Geral do Socialist Party, secção do CIT na Inglaterra e País de Gales, da revista mensal Socialism Today)

O ministro das finanças grego é uma figura chave do governo do Syriza na Grécia — eleito com um programa radical anti-austeritário. Descreve-se como um “marxista errático”. Mas que defende ele então? E que programa fará avançar a luta dos trabalhadores gregos?

Yanis Varoufakis, o exuberante ministro das finanças do novo governo grego liderado pelo Syriza, tem desempenhado um papel de protagonista no drama que se desenrola entre o povo grego, brutalmente atingido pela austeridade, e as exigências cruéis da União Europeia (UE) para que engulam mais do mesmo. A postura aparentemente desafiante do primeiro ministro, Alexis Tsipras, exigindo um alívio temporário para a Grécia, capturou a imaginação e o apoio da classe trabalhadora europeia e dos gregos. No recente périplo pela Europa, Tsipras tem sido apoiado por Varoufakis, sem gravata e calçando botas de motard, para se encontrar com os seus pares da UE, como o imbecil aprumado George Osborne [ministro das finanças britânico].

As sondagens reflectem isto, com o Syriza a obter  36% de votação nas legislativas e agora, de acordo com o Observer, “a 25 de Fevereiro, as projecções mostram que o apoio ao Syriza saltou para os 47,6%… Na última semana, o ministro das finanças Yanis Varoufakis — visto como excêntrico pelos seus pares — foi abordado por eleitores apoiantes enquanto deambulava pela Praça Sintagma”. Até a classe média e conhecidos ‘empreendedores’ aclamaram o governo por parecer desafiar as exigências ‘imperialistas’ vindas da Troika e da Europa: “Eles devolveram-nos a nossa voz… Pela primeira vez, há a sensação de que o governo está a defender os nossos interesses”. (Observer, 1 de Março)

Este estado de espírito reflecte a resistência amargurada do povo grego em relação ao estatuto quase neocolonial que a Europa ‘rica’ lhes tem conferido — os capitalistas, banqueiros, etc., que dominam a UE. Mas a crise não desapareceu, nem tão pouco as exigências de mais austeridade viciosa. A realidade é que o governo se encontra  no fio da navalha e poderá ser confrontado com mais exigências humilhantes e derrotas no espaço de meses. Ou poderá apelar ao povo grego, em primeiro lugar à classe trabalhadora, e igualmente apelar à classe trabalhadora europeia e mundial por solidariedade e acção comum.

Respondendo a isto, o The Guardian relata (9 de Março): “O governo anti-austeridade grego espalhou o espectro de mais conflito político neste país flagelado pela crise ao dizer que considera convocar um referendo ou novas eleições…”. Também subiu de tom — naquilo que foi essencialmente uma acção de propaganda — ao anunciar a sua intenção de processar o capitalismo alemão pelos crimes do nazismo contra o povo grego, exigindo um montante de indemnizações que poderá rondar os 341 mil milhões de euros, mais do que suficiente para cancelar a dívida grega!

O Marxista errático

Confrontado com a chantagem da Europa capitalista, procurar um novo mandato será certamente uma opção, mas com base em que programa? Isto levanta ainda outra questão: quais são os princípios orientadores e as perspectivas do governo, particularmente dos seus protagonistas? Se um discurso de Varoufakis em 2013, subsequentemente transformado num extenso artigo pelo Guardian a 18 de Fevereiro de 2015, é um guia, a expectativa de mudança fundamental para a classe trabalhadora é remota. Felizmente, essa mudança poderá ser forçada pela intervenção das massas e não decidida por ele ou mesmo pelo governo, naquela que é uma situação volátil e dinâmica, ao compelir o governo a introduzir medidas urgentes, tais como a nacionalização democrática da banca e agências financeiras. Este é o mínimo necessário para prevenir a sabotagem capitalista, que já está a acontecer, reflectida diariamente na saída de milhares de milhões de euros da Grécia.

O mesmo se aplica ao cancelamento das privatizações escandalosas e a preços de saldo, a prevenção dos despejos, etc., prometidos por Tsipras e pelo Syriza antes das eleições. No entanto, é de equacionar a possibilidade de as massas, que estão generosamente a dar tempo ao governo para implementar o seu programa, perderem a paciência e decidirem agir através de um novo movimento ‘occupy’, ocupando não apenas as praças mas também as fábricas e locais de trabalho.

Varoufakis descreve-se a si próprio como um “Marxista errático”. A sua análise é certamente errática e em nada consistente com as exigências da classe trabalhadora e movimento dos trabalhadores na Grécia. Existem resquícios de ‘marxismo’ na sua análise, em escritos económicos marxistas, por exemplo, que não estão, de todo, completamente correctos. Mas mais alarmante ainda, dada a sua posição de relevo no governo, é a sua conclusão de que ‘é necessário salvar o capitalistmo europeu de si próprio’.

Ele escreve: “Em 2008, o capitalismo teve o seu segundo espasmo global”. No entanto, 2008 marcado pelo início da crise mundial do capitalismo, não foi nenhum ‘espasmo’. A nossa caracterização desde o início — quando a crise do subprime nos EUA despontou, em 2007 — não foi a de um evento económico episódico nunca antes visto, mas antes do começo de uma duradoura, devastadora e generalizada crise económica mundial. Isto tinha sido resultado de vários factores, incluindo uma série de bolhas financeiras, que analisámos durante o crescimento económico desigual. Além disso, argumentámos que o capitalismo não seria capaz de ultrapassar facilmente esta crise devastadora. A resposta do movimento dos trabalhadores deveria ser, por isso, adoptar um programa de acção socialista claro para defender a qualidade de vida e mudar a sociedade.

Mas Varoufakis retirou conclusões completamente diferentes deste evento histórico: “Será que devemos aproveitar a crise do capitalismo europeu como uma oportunidade para o substituir por um sistema melhor? Ou devemos estar preocupados a ponto de entrar numa campanha para estabilizar o capitalismo europeu? Para mim, a resposta é clara. A crise europeia é menos propensa a originar uma alternativa ao capitalismo do que é a despoletar forças regressivas que têm a capacidade de causar um banho de sangue humanitário, extinguindo qualquer esperança de movimentos progressistas durante gerações vindouras”.

Mas, se o capitalismo não está maduro — de facto, está podre — para ser substituído por um sistema mais humano e igual durante esta crise devastadora, então quando é que será oportuno almejar e lutar por uma solução socialista?

A traição social-democrata

No início da Primeira Guerra Mundial, este tipo de filosofia política — reutilizada agora por Varoufakis — levou à traição social-democrata e ao naufrágio das ondas revolucionárias posteriores. Os pérfidos sociais-democratas alemães defendiam que a primeira tarefa era salvar a ‘civilização’, ‘salvando’ o capitalismo — embora não de maneira tão aberta como Varoufakis o faz no seu artigo. Ao votarem pelos créditos de guerra para o regime do Kaiser, delegaram o socialismo e uma mudança na sociedade para um futuro distante e mais ‘favorável’.

Por seu lado, Varoufakis faz o mesmo: “Tenho pena de provavelmente não ser vivo para ver um programa mais radical ser aplicado”. Como sabe ele com que rapidez a consciência das massas gregas se irá desenvolver, particularmente sob o chicote de uma situação económica objectivamente pré-revolucionária? Até o grande marxista, Lenin, em vésperas da Revolução Russa, no final de 1916, reflectia sobre se a sua geração veria a revolução socialista. Um ano depois apenas, em Outubro de 1917, liderou a mais importante revolução proletária de sempre, o maior evento na história humana até hoje. No entanto, enquanto se indagava sobre as perspectivas do Socialismo, Lenin preparava e mobilizava incansavelmente as forças da classe trabalhadora, através do Partido Bolchevique, para que esta pudesse ter a iniciativa no momento certo e tomar o poder. A classe trabalhadora grega poderá até iniciar um processo similar para a Europa, certamente para o Sul da Europa, e quiçá mundialmente.

Por oposição, a perspectiva dos sociais-democratas alemães e daqueles que os seguiram, levou-os a tentar salvar o capitalismo entrando em governos capitalistas manchados de sangue. Quando a revolução alemã estalou em 1918, apoiaram abertamente os partidos capitalistas. Depois, quando estes entraram em descrédito, defenderam o capitalismo através de governos em que tinham maioria. Desta maneira, os sociais-democratas actuaram como o principal obstáculo governamental à tomada do poder pela classe trabalhadora. Rosa Luxemburgo, por outro lado, colocou, perante a classe trabalhadora e a humanidade a escolha final de “Socialismo ou Barbárie”. A sua abordagem provou-se verdadeira. O falhanço da revolução de 1918 a 1923 e as oportunidades revolucionárias que existiram entre 1929 e 1933 foram perdidas graças ao papel criminoso dos líderes dos partidos de trabalhadores de massas, os sociais-democratas e o Partido Comunista da Alemanha, que se recusaram a organizar a resistência conjunta contra os Nazis. As consequêncas já são conhecidas: a subida ao poder de Hitler e a destruição do poder organizativo da classe trabalhadora, que levou aos horrores da Segunda Guerra Mundial com os seus milhões de vítimas. É verdade que não enfrentamos hoje a perspectiva imediata de socialismo ou barbárie, na Grécia ou na Europa como um todo. Mas há elementos suficientes de barbárie na Grécia — miséria e fome inimagináveis, o crescimento da neo-fascista Aurora Dourada, etc. — indicando que, a menos que a classe trabalhadora e as suas organizações estejam preparadas para provocar uma mudança fundamental na sociedade, tais elementos poderão, com tempo, torna-se dominantes.

Salvando o capitalismo europeu

A experiência histórica e contemporânea da social-democracia — na verdade, da ex-social-democracia — mostra que esta não é capaz de prevenir a barbárie. Não consegue sequer levar a cabo uma única reforma fundamental duradoura dentro do capitalismo europeu, doente e em crise. As reformas sustentáveis, actualmente, são apenas possíveis como um subproduto de lutas radicais e até revolucionárias. Isto tem sido confirmado pelos recentes governos sociais-democratas europeus no poder e demonstrado pelas experiências do próprio Varoufakis: “Após regressar à Grécia em 2000, juntei-me com o primeiro ministro George Papandreou, esperando ajudar a combater o retorno ao poder de uma ala direita que queria empurrar a Grécia para a xenofobia, tanto na sua política interna como externa… [mas] o partido de Papandreou não só falhou ao aplacar a xenofobia como, no final, presidiu às políticas macroeconómicas neoliberais mais virulentas, que lideraram os resgastes na zona Euro, causando involuntariamente, o regresso dos Nazis às ruas de Atenas”.

Temos de recordar que, pelo menos em palavras, o Pasok do passado nem sempre se comportou com esta cobardia. Os ‘reformistas’ nem sempre traíram. Legislaram melhorias, algumas substanciais, nas condições de vida das massas. O Pasok, por vezes, virou à esquerda, adoptando até exigências ‘revolucionárias’. O despoletar da crise grega, europeia e mundial mudou tudo isso, particularmente quando o Pasok foi governo. Tal como os seus primos em Inglaterra, França, Itália, etc., o Pasok não tinha intenções de quebrar com o vício do capitalismo doente e acabou por satisfazer os desejos da troika. Isto criou as condições para o aparecimento da Aurora Dourada. O mesmo destino aguarda qualquer governo que siga as prescrições políticas e económicas de Varoufakis que se resumem, como o próprio admite, a salvar o capitalismo.

Ele escreve: “Se isto significa que somos nós, os marxistas erráticos, que temos de tentar salvar o capitalismo de si próprio, então que assim seja. Não por gostarmos do capitalismo europeu, da zona Euro, de Bruxelas ou do Banco Central Europeu, mas apenas porque queremos minimizar as perdas humanitárias desnecessárias desta crise. Uma saída grega, portuguesa ou italiana da zona Euro levaria rapidamente a uma fragmentação do capitalismo europeu”. Mas a Europa, tanto dentro como fora da zona Euro, está já fragmentada como consequência da implementação do Euro. Em vez de criar um novo internacionalismo, como os seus apoiantes defendiam, aprofundam os antagonismos nacionais, levando por vezes ao crescimento de um nacionalismo capitalista virulento.

Contradições da zona Euro

Desde o princípio que a criação do Euro esteve envolvida em imensas contradições. Foi uma tentativa do capitalismo — reflectindo o crescimento das forças produtivas (ciência, técnica, organização do trabalho) e a tentativa de se organizar a nível continental e mundial — ultrapassar os limites, o colete de forças do Estado-Nação. Esta era, como repetidas vezes afirmámos, uma tarefa impossível numa base capitalista, embora as fracturas nacionais tenham sido mascaradas pelo boom económico que terminou abruptamente em 2007-08.

A criação de uma moeda comum e da zona Euro geraram ilusões — entre a esquerda e o movimento dos trabalhadores, mesmo em círculos ‘trotskistas’ como o Secretariado Unificado da Quarta Internacional [corrente de F. Louçã e do extinto PSR, em Portugal — Nota do SR] — de que o capitalismo poderia ultrapassar as suas contradições nacionais e levar à emergência de um ‘capitalismo europeu’. Os defensores defendiam que isto levaria a um aumento de possibilidades para unir a classe trabalhadora a nível continental. Nós, apesar disto, previmos as divisões nacionais — estados separados, exércitos, etc — que não tinham desaparecido por completo, reapareceriam na eventualidade de uma crise económica. E é isso que está a passar-se. Na realidade, os conflitos nacionais com as suas vertentes de divisões raciais, crescimento da extrema-direita, etc., é muito maior hoje do que no início da zona Euro.

Significará isto que devemos adoptar uma estrita abordagem nacionalista, com cada país procurando a solução para os seus problemas económicos apenas dentro da esfera nacional? Pelo contrário, as forças produtivas reclamam a sua organização a nível europeu e até mundial. Mas a única força que pode historicamente alcançar isto é a classe trabalhadora. Daí o nosso slogan: ‘Não à Europa dos patrões; sim a uma confederação socialista europeia’. As lutas desenvolvidas no plano nacional estão organicamente ligadas à cena internacional — numa primeira instância, dentro da própria Europa. Isto é instintivamente reconhecido pela classe trabalhadora grega, que partilha laços de solidariedade e culturais com os trabalhadores do Sul da Europa, particularmente Espanha, Portugal e Itália, e vice-versa. Testemunha disso é a presença dos líderes do Podemos nos comícios de massas na Grécia antes das eleições.

Mal-entendidos com a Grã-Bretanha

Varoufakis, na sua análise, procura basear-se fortemente nas experiências do movimento operário britânico — foi lá que viveu durante os anos de 1980 — assim como do grego. Infelizmente, possui o pessimismo orgânico que caracterizava a ala eurocomunista do Partido Comunista da Grã-Bretanha, que se juntava à volta do jornal Marxism Today, pelo qual foi provavelmente influenciado. Este tendência capitulou completamente às ideias do neoliberalismo e, como consequência, praticamente desapareceu como tendência. Tornou-se uma peça inutil da social-democracia decadente, apoiando a liderança do Partido Trabalhista Britânico de Neil Kinnock na sua contra-revolução política contra os marxistas – levando à expulsão dos apoiantes do The Militant (precursor do Socialist Party [Partido Socialista, secção em Inglaterra e País de Gales do CIT]) — e do abandono formal da luta pelo socialismo no Partido Trabalhista.

Isso foi feito com a intenção de ‘modernizar’ o Marxismo, adaptando-o à situação presente. Na realidade, foi o abandonar da análise de classe. Varoufakis tenta algo semelhante no seu artigo, chegando mesmo a acusar falsamente Karl Marx de errar por não ter previsto como as suas ideias poderiam ter sido mal usadas no futuro — insinuando estar a falar do estalinismo. No entanto, foi Marx quem declarou, referindo-se aos ‘marxistas’ verborreicos: “Se isto é Marxismo, então eu não sou marxista!”.

Varoufakis afirmou ainda: “Esta determinação em ter a história fechada, o modelo completo, a palavra final, é algo pelo qual não posso perdoar Marx”. Mas o Marxismo não é um sistema fechado. É um método de análise flexível, testado e validado pela experiência. Nas mãos de um bom trabalhador pode ser uma ferramenta útil, mas com um mau trabalhador só pode produzir maus resultados. Com efeito, os dogmáticos, que pouco têm em comum com o marxismo genuíno, são incapazes pensar a não ser de forma unilateral e não-dialéctica. Temos deixado claro no Socialism Today [a revista teórica do Socialist Party] que discordamos daqueles que tentam mecanicamente impôr ‘leis’ à realidade — como a tendência para a queda da taxa de lucro, que não é a explicação para a crise actual. Embora defendamos a proposição básica de Marx relativamente a esta tendência, discordamos profundamente daqueles que a consideram a única explicação para a presente crise do capitalismo.

Culpar Marx pelo estalinismo, como Varoufakis claramente insinua, é errado. O estalinismo foi um produto do isolamento da revolução russa e da sua degeneração, e tem sido utilizado para corromper e representar erroneamente as ideias do marxismo. É completamente anistórico culpar Marx pelo posterior uso criminoso das suas ideias e método. Aliás, Marx antecipou os problemas da burocracia e a adopção de procedimentos não democráticos dentro do movimento dos trabalhadores e do estado operário. Daí derivam os escritos, seus e de Engels, sobre a Comuna de Paris de 1871, onde o exemplo vivo de democracia dos trabalhadores foi estudado por Marx sobre como o estado democrático dos trabalhadores deveria ser construído: a eleição dos cargos oficiais, salário iguais para representantes eleitos e trabalhadores, revogabilidade imediata dos cargos políticos, etc.

Varoufakis escreve acerca das suas experiências em Inglaterra: “Mesmo enquanto o desemprego duplicou e, depois, triplicou sob a intervenção neoliberal radical de Thatcher, continuei a manter a esperança de que Lenin estava correcto: ‘As coisas têm de piorar antes que melhorem’. À medida que a vida se tornou pior, mais crua e, para muitos, mais curta, apercebi-me que estava completamente errado: as coisas podem piorar perpetuamente, sem nunca melhorarem… Com cada ciclo da recessão, a esquerda tornou-se mais introvertida, menos capaz de produzir um programa progressivo convincente e, entretanto, a classe trabalhadora dividiu-se entre os que foram expulsos da sociedade e os que foram co-optados pela mentalidade neoliberal. A minha esperança de que Thatcher traria uma nova revolução política foi completamente errada. A única coisa que resultou do Tatcherismo foi a financeirização extrema, o triunfo do centro comercial sobre a mercearia da esquina, a fetichização da habitação, e Tony Blair”.

E vai mais longe: “Sim, eu adorava defender um programa radical. Mas não, não estou preparado para cometer o mesmo erro duas vezes. O que é que conseguimos alcançar de bom no início dos anos 1980, ao promover um programa de mudança socialista que a sociedade britânica escarneceu enquanto se atirava de cabeça para a armadilha neoliberal de Thatcher? Precisamente nada. Que benefícios alcançaremos hoje apelando ao desmantelamento da zona Euro, ou da própria UE, quando o capitalismo europeu faz o máximo por minar a própria zona Euro, a UE e a si próprio?”. Varoufakis tem um compreensão completamente errada do que de facto se passou na Grã-Bretanha. Thatcher não triunfou sem dificuldades, como ele sugere. Ela provocou a greve dos mineiros — a ‘guerra civil sem armas’ — que exerceu um grande efeito na Grécia, na altura, devido às suas próprias lutas heróicas contra a direita. Tivemos também a luta épica de Liverpool em que o nosso antecessor, o The Militant, juntamente com a Câmara Municipal de Liverpool e os seus 47 imortais vereadores trabalhistas, derrotaram Thatcher. Ela foi também derrotada na luta contra a poll tax [taxa de habitação, semelhante ao IMI], quando o Militant levou 18 milhões de pessoas a um boicote em massa que relegou a taxa e a própria Thatcher à história, como mais tarde a própria admitiria na sua auto-biografia.

Em lado algum a vitória de Tatcher estava predestinada. Houve oportunidades que, se aproveitadas, poderiam ter levado à vitória do movimento dos trabalhadores. A traição dos mineiros pelos líderes sindicais, juntamente com a liderança apodrecida do Partido Trabalhista de Kinnock, que também traiu a Câmara de Liverpool, foi essencial para o seu sucesso. Julgará Varoufakis que os trabalhadores britânicos, evitando tirar conclusões socialistas e restringindo-se ao seu programa minimalista ‘progressivo’ seriam mais bem sucedidos?

A tentar comprar tempo

A abordagem de Varoufakis é retirada directamente da opinião capitalista liberal, incluindo, entre outros, Will Hutton e a sua Resolution Foundation [think-thank liberal de políticas sociais], assim como o líder trabalhista, Ed Miliband. A liderança dos companheiros de pensamento espanhóis do Syriza, o Podemos, encontra-se em posição de substituir o erroneamente denominado ‘socialista’ PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) como principal força de esquerda, precisamente porque o PSOE está descridibilizado por se rebaixar perante o capitalismo espanhol. Esta capitulação ocorreu durante o crescimento económico acentuado mas, ainda assim, o PSOE perdeu as eleições. Quão mais descredibilizado seria um governo social-democrata durante uma crise?

Basta olhar para França, onde o líder do Parti Socialiste, François Hollande, chegou ao poder prometendo um severo imposto sobre o capital e um pacote de reformas que beneficiari os trabalhadores, apenas para recuar e procurar cumprir um programa neoliberal uma vez chegado ao governo. Isto levou-o, a si e aos seus apoiantes, a um confronto directo com o que resta da esquerda dentro do partido, assim como com as forças de esquerda extra-parlamentares e com a classe trabalhadora. As consequências são que milhões de trabalhadores que votaram no Partido Socialista estão hoje completamente desiludidos e, em alguns casos, inclusivamente sentindo-se seduzidos pela extrema-direita, a Frente Nacional de Marine Le Pen.

Apesar de não o declararem explicitamente como Varoufakis, Hutton e Miliband são críticos dos ‘austeritários’ como David Cameron e a sua coligação Con-Dem [Conservadores e Democratas]. Em lugar disso, estes defendem uma forma de capitalismo ‘melhor’ ou, no caso de Miliband, ‘menos predatória’. Mas Miliband também defende, juntamente com os conservadores, cortes no orçamento público, embora prometendo que serão menos severos. Qual é o resultado político que sairá daqui? Desilusão e deserção em massa de ex-apoiantes do Partido Trabalhista. Mesmo que um governo trabalhista de Miliband chegasse ao poder, quer num governo minoritário quer como parte de uma coligação, não conseguiria levar a cabo o seu programa mínimo sem chocar com os ferozes defensores do sistema.

Justificando-se em relação àquilo que ele considera ser uma abordagem diferente, Varoufakis descreve “um capitalismo europeu repugnante cuja implosão, apesar dos seus muitos problemas, deve ser evitada a todo o custo”. Esta é uma confissão destinada a convencer os radicais que temos uma missão contraditória: amparar a queda livre do capitalismo europeu por forma a comprar o tempo que precisamos para formular a sua ‘alternativa’. No entanto, por que razão Varoufakis e outros marxistas ‘críticos’ não analisaram os processos internos do capitalismo previamente, a fim de mostrar que, antes de 2008, já este se dirigia para um colapso? Era esta a posição do CIT e da sua organização grega, Xekinima, que combinou a análise com um programa para defender a classe trabalhadora que a braços com uma catástrofe económica. Tudo isto foi ligado à ideia de aproveitar a oportunidade para reivindicar a alternativa socialista como único caminho para os trabalhadores e seus aliados. Porquê esperar pela eclosão da crise e depois pedir tempo para formular uma alternativa?

Irrealismo

Infelizmente, a abordagem de Varoufakis reflecte a posição do Syriza e da sua liderança: a recusa em delinear uma estratégia de medidas imediatas e sistemáticas que preparem a classe trabalhadora para o confronto inevitável entre o governo de esquerda e o capital, tanto dentro como fora de portas. Em vez disso, existem frases genéricas acerca da ‘justiça’ da posição grega e da razoabilidade do governo de esquerda, feitas para ‘convencer’ as forças capitalistas arregimentadas contra o Syriza da posição grega e, portanto, fazer concessões.

Os marxistas do Xekinima, assim como outros, criticaram esta abordagem como sendo politicamente ingénua e um caso grave de irrealismo — a doença mais perigosa em política, particularmente contra um fundo de crise aguda. Na situação que a Grécia enfrentou até às eleições, e particularmente agora, é necessária uma análise brutalmente realista. Uma que reconheça a intenção do capital internacional em fazer soçobrar, na Grécia, no Estado Espanhol ou em qualquer outro lugar, um governo radical que represente qualquer risco para os capitalistas.

Sem dúvida que, em geral, o plano da esquerda — e nem vale a pena falar de um governo influenciado pelo marxismo — deveria ser utilizar as dificuldades do capitalismo como oportunidade para fazer avançar o movimento dos trabalhadores em direcção a um processo profundo de mudança socialista. Em primeiro lugar, dever-se-ia tomar o controlo dos principais motores económicos — bancos e agências financeiras — para prevenir a sabotagem e chantagem dos capitalistas contra o governo Syriza.

Esta necessidade tem sido demonstrada pela fuga diária de capital privado da Grécia que, em pânico, começou ainda antes das eleições. Desta forma, o mínimo que se exige é o controlo de todos os movimentos, quer de entrada quer de saída — se necessário até para ganhar algum tempo para a mobilização da classe trabalhadora, para convencê-la da necessidade de medidas mais avançadas. Tais medidas incluiriam a nacionalização da banca e sector financeiro sob gestão democrática dos trabalhadores.

Varoufakis desenha um cenário completamente diferente. Com uma honestidade desarmante, ele escreve: “Tendo em conta isto, poderão estar intrigados por eu me apelidar de marxista… embora um marxista sem remorsos, creio que é importante resistir-lhe de várias maneiras. Ser, por outras palavras, errático no Marxismo”. A justificação para esta abordagem? Mascarar, na realidade, os seus pontos de vista ‘marxistas’. Varoufakis escreve: “Um teórico radical pode almejar … a construção de teorias alternativas às do sistema, esperando que estas sejam levadas a sério”. Mas a sua abordagem é clara: “A minha visão deste dilema é que os poderes instalados nunca são perturbados por teorias que partem de pressupostos diferentes dos seus”.

E então invoca o apoio do próprio Marx nesta abordagem. Porque, veja-se, Marx aprendeu com os grandes economistas burgueses, Adam Smith e David Ricardo, para mostrar que o capitalismo era um sistema contraditório. Com esta base, Marx compreendeu o funcionamento do capitalismo, que produziria uma crise económica e uma classe trabalhadora, a coveira do sistema, e levaria à abolição do capitalismo. A audiência a que Marx se dirigia, no entanto, não era a burguesia mas sim a classe trabalhadora e as suas organizações.

Varoufakis parece estar a defender algo diferente — trabalhar dentro do paradigma da economia burguesa para mostrar as inconsistências do seu sistema aos próprios burgueses. A sua conclusão é procurar tratamento para as doenças económicas que nos afligem — classe trabalhadora e seus aliados — apresentando soluções ‘razoáveis’ que podem ser aceites pelo capitalismo. A verdadeira essência é que a situação presente impossibilia qualquer reforma real ou duradoura num sistema assolado pela sua maior crise desde a década de 1930.

Neste momento, os olhos da classe trabalhadora europeia estão sobre a Grécia. Se os trabalhadores gregos forem capazes de se impôr nesta situação, ainda que parcialmente, isso encorajará e dará esperança a todo o movimento. Mas se os trabalhadores gregos forem derrotados, isso terá consequências para as perspectivas de luta a nível europeu, pelo menos temporariamente. Esperamos fervorosamente que a primeira perspectiva se realize. Por esta razão é necessário clarificar as ideias centrais sob as quais as lutas vitoriosas da classe trabalhadora foram conduzidas no passado. É neste espírito que partilhamos a nossa análise da situação e encorajamos todas as discussões sobre o tema de como ajudar da melhor forma a luta dos trabalhadores gregos a fase actual.