O Podemos é o Syriza espanhol? Os perigos da “moderação” e domesticação

Posted on 16 de Março de 2015 por

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Tradução e adaptação do artigo de Danny Byrne, na versão original em http://www.socialistworld.net/doc/7090

A eleição na Grécia de um governo liderado pelo Syriza tem encorajado as forças anti-austeridade de esquerda por toda a Europa devastada pela crise e além dela. Em nenhum lugar é isso mais evidente do que no Estado Espanhol, onde um partido visto como o ‘Syriza espanhol’, o Podemos, reúne cada vez mais apoio popular.

As sondagens colocam o Podemos repetidamente em primeiro ou segundo lugar, com mais de 20%, ameaçando a sobrevivência do sistema bipartidário espanhol, com base no PP de direita e no ex-social democrata PSOE, que já não conseguem reunir o apoio de 50% entre eles. Mais de 100.000 pessoas encheram as ruas de Madrid na “marcha para a mudança” do Podemos, numa impressionante demonstração de força a 31 de Janeiro.

Naquele que será um ano de muitas eleições no Estado Espanhol, certamente será uma força a ter em conta. As eleições regionais na Andaluzia, em Março, serão a sua primeira entrada em cena como uma grande força política, seguidas de eleições locais e regionais em Maio, e possíveis eleições catalãs em Setembro e eleições gerais em Novembro. O plano do Podemos para este ano é que estas eleições verão os seus votos inexoravelmente subir, chegando ao clímax de tomar o poder em Novembro. Embora a possibilidade de uma maioria absoluta, pelo menos por enquanto, parece improvável, a ascensão do Podemos poderá forçar os dois principais partidos capitalistas do Estado Espanhol – PP e PSOE – a formarem uma “grande coligação” para impedir o seu avanço. É claro que tal só iria acelerar a morte destes dois partidos, especialmente do PSOE.

O Syriza espanhol?

De uma maneira semelhante ao Syriza, o Podemos foi identificado nas mentes de milhões de pessoas como um potencial instrumento para acabar com o pesadelo da austeridade no Estado Espanhol e recuperar uma vida digna após 6 anos de degradação. A crise do capitalismo espanhol colocou todo o regime – conhecido como o “regime de 1978” iniciado na sequência da queda de Franco – em causa, reflectido não apenas no colapso dos partidos tradicionais, mas também na crise nacional e territorial do Estado Espanhol, especialmente em relação à Catalunha. A ascensão do Podemos reflecte esta tendência para a alternativa. Mas será ele essa alternativa?

O Podemos marcou forte presença no comício de encerramento da campanha eleitoral do Syriza na Grécia, com o seu líder Pablo Iglesias a juntar-se a Alexis Tsipras no discurso final, ouvindo-se os gritos de “Syriza, Podemos, Venceremos” a partir das multidões em Atenas . No entanto, o Syriza difere do Podemos na sua origem. Enquanto o primeiro emergiu como uma aliança de grupos de esquerda, o Podemos surgiu como um novo movimento, separado dos partidos tradicionais de esquerda.

As causas das falhas da Esquerda e dirigentes sindicais

De facto, em muitos aspectos, o sucesso do Podemos é um produto do fracasso das organizações tradicionais de esquerda e dos movimentos de trabalhadores. As lideranças dessas organizações – especialmente a Esquerda Unida (IU) e os principais sindicatos – não reconheceram que a crise inaugurou um novo período de intensa luta de classes e de mudança radical. Continuaram com as políticas fracassadas de colaboração e negociação com o sistema e com os patrões. Isto foi especialmente demonstrado pela política desastrosa dos líderes da IU de entrar em governos de coligação com o PSOE, vinculando a sua organização à implementação de – embora, numa forma mais ”leve” – austeridade.

Os mesmos líderes também recusaram abrir as suas organizações através da promoção de uma união mais significativa das lutas, e responder à intenção maciça a favor de mais participação democrática das bases, que tem caracterizado todos os movimentos e lutas mais importantes nos últimos anos. Isso fortaleceu a ideia de camadas amplas de que as organizações de trabalhadores tradicionais são estruturas políticas ossificadas e reforçaram o apelo do Podemos à chamada “nova forma de fazer política”. Por exemplo, os líderes da IU recusaram – apesar da enorme pressão de baixo – organizar eleições primárias abertas, que permitiriam à sua periferia de activistas nos movimentos sociais e de trabalhadores participar na tomada de decisões, foi uma parte importante do apelo do Podemos na sua conquista nas eleições europeias.

Isso significa que para os milhões que lutam contra o que é conhecido como “regime de 1978” – especialmente aqueles vindos do movimento “Indignados” – a esquerda tradicional e os sindicatos mais pareçam uma parte deste regime do que uma força de liderança na luta contra ele. Isso abriu o caminho para algo se desenvolver e preencher o vazio, algo novo.

Em suma, o controle da burocracia de direita sobre a IU e sindicatos, e a sua continuação com as políticas fracassadas de colaboração de classe após o início da crise, produziu uma situação em que as secções activas e radicalizadas da classe trabalhadora eram mais à esquerda, e radicais, do que seus supostos ‘líderes e organizações’. Como Alberto Garzón, novo candidato principal da IU às eleições gerais do ano – da esquerda do partido – colocou: “Poderíamos dizer que a sociedade mudou mais rapidamente do que a nossa própria organização”. Isto é fundamental tanto para a actual crise profunda da IU e dos sindicatos, como para o sucesso do Podemos.

“Podemos é o povo”

O Podemos emergiu como uma força alternativa com uma agenda anti-austeridade de esquerda, e um programa de repudiar a dívida ilegítima e desfazer a austeridade dos últimos anos. Empregava muita da fraseologia e reivindicações dos indignados e outros movimentos sociais, faltando-lhe a “bagagem” de ter gerido o sistema no passado, o que se tornou atraente para uma nova geração.

Baseado em torno de Pablo Iglesias e outros académicos de esquerda, sublinhou a existência de “la casta”, uma “casta” de políticos corruptos capitalistas e oligarcas espanhóis, que tinham enriquecido no governo desde a queda da ditadura. Isto penetrou no estado de espírito das massas de rejeição dos políticos, que foi expressa pelos indignados num estado de espírito anti-partido. Iglesias e companhia desenvolveram este estado de espírito. Podemos dizia representar a entrada do “povo” na política, sobre as cabeças dos políticos desacreditados.

Seus líderes não o colocam como um partido no sentido tradicional, mas um “espaço participativo”, através do qual o povo espanhol pode obter a sua voz política ouvida como um todo. A sua principal base organizacional não é, assim, uma rede de células ou comités de base, mas “assembleias cidadãs” abertas a todos os cidadãos espanhóis, que elegem a liderança do Podemos através de eleições primárias abertas na internet, bem como a votação em consultas on-line no futuro, em algumas questões políticas importantes. Mais de 300.000 pessoas já se inscreveram para participar.

Isto significa que o “Podemos” é o povo, segundo os seus líderes. No entanto, existem algumas contradições nesta ideia e na maneira como o Podemos deseja representar “as pessoas”, como um todo. Mas não existem “pessoas” que, em vez de querer acabar com a austeridade, a apoiam? Com certeza, há pessoas que beneficiam dela – os grandes banqueiros e accionistas a quem a dívida pública odiosa é paga, por exemplo. Entender que o “povo” que necessita de uma voz política são as pessoas que trabalham, desempregados, jovens, pensionistas, noutras palavras, a classe trabalhadora mais ampla, cujos interesses são contra os do outro “povo” – a classe super-rica capitalista – é uma necessidade crucial para o movimento anti-austeridade.

Em segundo lugar, a estrutura organizacional do Podemos, enquanto que, em teoria, com base nas pessoas, não envolve totalmente as pessoas na política num sentido significativo. Para os socialistas, envolver os trabalhadores na política significa a existência de estruturas democráticas que discutam, debatam e decidam sobre a política e estratégia do movimento. E Isso significa mais do que simplesmente um clique ocasional numa eleição primária online ou referendo.

O Podemos tem centenas de “círculos”, ou células, em todo o país, mas estes têm apenas um papel simbólico no seu funcionamento. A ausência de círculos de massas ou assembleias de bairros e locais de trabalho, que servem como blocos de construção do Podemos significa que, na prática,  funciona de uma forma muito piramidal, com uma liderança restrita – em torno do secretário-geral Iglesias – que decide sobre tudo, após a sua eleição nas primárias. Esta maneira de operar, embora camuflada com fraseologia democrática, atribui um papel passivo às massas, e é um obstáculo para a construção de uma força política realmente democrática para a classe trabalhadora espanhola.

Isso também foi mostrado na mobilização em massa de 31 de Janeiro, na “marcha para a mudança”. Dezenas de milhares apareceram nas ruas apenas para ser enviadas para casa depois, sendo-lhes dito para votar no Podemos quando chegar a hora! Tal mobilização devia ter servido como um ponto de partida para um movimento de massas sustentado por protestos e greves para derrubar o governo e o fim da austeridade. A provável vitória eleitoral seria apenas uma parte disso.

Isto não é uma questão académica, dado o confronto com as grandes empresas e a Troika que as medidas necessárias provocariam (como mostrado na Grécia). Qualquer governo de esquerda só pode aplicar as políticas que também pode defender nas ruas e locais de trabalho. A mobilização e auto-organização dos trabalhadores é uma preparação valiosa para tal eventualidade.

Perigos da “moderação” e da domesticação do Podemos

Os líderes do Podemos, de certa forma imitando os do Syriza, também se moveram para a direita com o crescente apoio. O programa inicial do Podemos foi de esquerda radical, prometeu uma renda universal decente para todos, o direito à habitação, o aumento dos salários, bem como a nacionalização dos sectores estratégicos da economia, entre outras medidas radicais. No entanto, nos últimos meses, os seus líderes têm moderado a sua retórica, deixando cair promessas-chave, tais como a idade da reforma de 60 anos, e o não pagamento da dívida. Enquanto o seu programa inicial sublinhou a necessidade de uma ruptura com o regime e o status quo, os seus dirigentes têm descrito recentemente o seu programa como “social-democrata”, e compararam os seus planos aos de Lula no Brasil. Isto, por sua vez, foi realizado em nome do “realismo” e um “contexto” internacional que impossibilita essas medidas.

Se chegar ao governo, o Podemos acabará por ser julgado pela sua capacidade em satisfazer as exigências da classe trabalhadora. Essas exigências, embora modestas – pão, empregos e casas, como exigidas pela “Marcha pela dignidade” de 2.000.000 de pessoas no ano passado – são inaceitáveis para a classe dominante no contexto da actual crise capitalista, como vemos na Grécia. Um governo genuinamente de esquerda teria de estar preparado para enfrentar a chantagem do capital e defender os interesses da maioria de forma determinada. Isto significaria enfrentar a Troika, impondo uma política de rejeitar a dívida ilegítima, e tomar o controle dos bancos e da riqueza para financiar uma recuperação real na qualidade de vida. Tentando conciliar os interesses das pessoas com o que é aceitável para a Troika e o capitalismo espanhol só pode terminar em crise para um governo de esquerda e desilusão em massa.

É claro que é verdade que existe um “contexto” que age contra as medidas necessárias para acabar com a miséria dos trabalhadores. Este contexto é a dominação continuada das empresas multinacionais e banqueiros, cujos mercados e instituições (nacionais e europeus) vão trabalhar contra qualquer governo que tenta governar a favor do povo. No entanto, em vez de aceitar esse “contexto” e adaptar o programa para o que é possível nele, os movimentos de massas das classes trabalhadoras contra a austeridade precisam lutar para transformar este contexto! Somente a organização e mobilização da classe trabalhadora e um governo de esquerda com uma política socialista revolucionária, para substituir a ditadura dos mercados com a democracia dos trabalhadores, com base no controlo público e democrático da riqueza, pode enfrentar esta tarefa. Tal governo poderia articular-se com os trabalhadores da Grécia, Irlanda, Portugal e toda a Europa e construir uma federação socialista a partir das cinzas da UE capitalista.

A criação de um genuíno pólo revolucionário em toda a esquerda e o movimento operário, para resistir à ameaça de “domesticação” e lutar por uma política socialista revolucionária, é uma tarefa central à qual o “Socialismo Revolucionario” (CIT no Estado Espanhol) se dedica.