2015: Um ano de crise, mas também de luta

Posted on 25 de Fevereiro de 2015 por

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Manifestação/vigília dos lesados em papel comercial do BES

Editorial do Ofensiva Socialista de Fevereiro 2015

As nuvens escuras adensam-se.

O ano que passou não trouxe as prometidas melhorias económicas propagandeadas pelo Governo. Foi claro o falhanço da política de exportações, com a Galp a estagnar o seu crescimento externo e com as tentativas falhadas de mascarar o desemprego, tendo a taxa de desemprego subido ligeiramente nos últimos meses. Na senda de salvar as taxas de lucro, 2014 viu a conclusão da privatização dos lucrativos CTT ao Deutsche Bank e JP Morgan, pondo em risco um serviço essencial a milhões de pessoas.

O colapso do BES/GES mostra-nos quais os verdadeiros resultados das privatizações. As administrações do BES, PT e Rio Forte destruíram empresas estratégicas sabendo que o Governo, quando a hora chegasse, iria pagar as suas perdas com o dinheiro de quem trabalha. Assim foi: semanas depois do colapso, o Governo de Passos Coelho injetou 5.000 Milhões de Euros no banco falido, e os custos serão maiores à medida que mais capitalistas falidos reivindicam o seu direito de entrar no banco “bom”: o Novo Banco.

O Governo apressou-se a vender ao desbarato os ativos de valor como a Espírito Santo Saúde, e os prejuízos ficarão para os trabalhadores pagarem com o seu salário, o seu emprego, a sua reforma e com aquilo que é de todos: o que resta do Estado Social.

Em 2015 as nuvens escuras não se dissiparão, pelo contrário. O contexto internacional é de profunda incerteza. Os níveis de endividamento continuam a subir, as tensões geopolíticas adensam-se em várias regiões e o desacelerar das economias emergentes irá afetar a recuperação nos EUA e UE. A nível mundial, a nova “norma” aceite pelos economistas burgueses é a de uma “recessão gerida” e de mais austeridade para a classe trabalhadora. Com a Europa a entrar em deflação, uma nova onda recessiva, ainda mais brutal que a anterior, é eminente. A política monetária expansionista dos EUA e do Japão está também a chegar a um limite, mostrando-se incapaz de relançar a economia, mesmo que o BCE lhes siga o exemplo, continuará sem soluções.

Um ano de luta.

2014 foi um ano de refluxo das lutas. A classe trabalhadora está cansada depois de 3 anos de lutas massivas que se mostraram incapazes, salvo raras exceções, de travar o massacre social do Governo e da troika. Ao fazer o balanço temos de ter a coragem da autocrítica. Os principais responsáveis por isso foram as atuais lideranças sindicais e da esquerda que hesitaram sempre na hora H, recusando-se a construir um plano de luta sustentado, deixando assim que as grandes mobilizações funcionassem apenas como escape para a raiva dos trabalhadores. Foi assim a seguir a todas as greves gerais, foi assim a seguir ao 2 de Março.

Mas foi também um ano para fazer um balanço e aprender as lições das lutas passadas, e aqui temos de olhar para fora, pois os últimos 3 anos foram anos de luta internacional. Os estivadores deram um importante exemplo: como uma luta contínua e baseada na militância e solidariedade pode vencer; os trabalhadores belgas seguem o mesmo caminho, levando a cabo um plano de luta que culminou numa greve geral de 24 horas histórica, preparando-se agora para um novo plano ainda mais forte; a Irlanda levantou-se em massa contra a privatização da água. Do Estado Espanhol e da Grécia vemos as lições políticas destas lutas com o colapso do bipartidarismo burguês e a emergência de partidos de esquerda, que podem formar governos com programas baseados nas reivindicações dos movimentos. Na Grécia, o Syriza venceu as eleições e começa já a aplicar medidas que contrariam as tendências austeritárias dos governos passados.

Também por cá será um ano de lutas. A luta contra a privatização da TAP já começou e será estratégica, terá todo o nosso apoio, mas há mais privatizações e outros saques no horizonte. Também aí devemos organizar uma luta sem tréguas.

Será também um ano de luta política, de eleições. Estas devem basear-se na luta social e laboral, e não fazer-se em função destas. Todos seremos atacados, e por isso devemos unir as nossas lutas. Apelamos à construção de um plano de luta organizado pela base, através de assembleias e de comités de trabalhadores que se coordenem regional e nacionalmente, em ligação com os sindicatos, os partidos de esquerda e os movimentos sociais.

Mais do que nunca: uma Frente Unida da Esquerda.

Num ano que culmina em eleições, as tarefas da esquerda são tremendas. Ao mesmo tempo que temos de construir um plano de luta que derrote a austeridade, temos de construir uma alternativa política que represente essa luta e as suas bandeiras. Só uma Frente Unida entre PCP, BE, o movimento sindical e social o pode fazer.

Só com uma alternativa anticapitalista forte, que corte radicalmente com o bipartidarismo, que se baseie na luta e num programa socialista, que tenha a coragem de dizer “Estamos aqui para ganhar” pode derrotar não só este governo como também a falsa alternativa de Costa e do PS que governarão com a troika e contra quem trabalha. Enquanto a esquerda continuar a alimentar ilusões no PS e num regime falido continuará a sofrer também com essa falência e a ser olhada como parte do sistema – essa é a lição fundamental do Podemos no Estado Espanhol.

Os partidos da esquerda não podem cair novamente no erro de querer competir com os partidos capitalistas em campanhas eleitorais mediáticas e vazias de luta. Pelo contrário, a campanha deve ser a própria intensificação da luta dos trabalhadores contra os cortes, os despedimentos, as privatizações e os despejos. Devemos também iniciar um debate sobre as soluções para a crise capitalista. Esse debate deve ser feito pela base, através das mesmas assembleias e comités necessários para construir o plano de luta. Precisamos de um programa mínimo de repúdio da dívida, de nacionalização da banca e sectores estratégicos sob a gestão democrática de trabalhadores e utentes, e de investimento na criação de empregos com direitos e na reconstrução dos serviços públicos. Um programa que oponha a Democracia Socialista à ditadura dos mercados.