O que significa o apoio de Tsipras à presidência de Prokopis Pavlopoulos?

Posted on 20 de Fevereiro de 2015 por

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A crise económica e social requer políticas independentes pró-trabalhadores e socialistas!

Declaração da redacção do Xekinima (CIT na Grécia) de 19/02/2015 [tradução editada]

O anúncio do apoio à candidatura de Prokopis Pavlopoulos à presidência, feito há dois dias pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, não caiu do céu. Era um conhecido “segredo” que o líder do Syriza iria propor como presidente um político das fileiras do partido de direita Nova Democracia (o tradicional partido de direita da classe governante na Grécia).

No seu discurso, durante a reunião do grupo parlamentar do Syriza, Tsipras argumentou que mesmo sendo “razoável” apoiar um candidato da esquerda para Presidente da Grécia, a sua proposta de apoiar Pavlopoulos era uma demonstração de que a Esquerda “nunca foi arrogante” e avançaria para a promoção da “unidade do nosso povo” que hoje é “tão necessária como sempre”.

Mas desde quando é que esta chamada “unidade do povo” está identificada com um conhecido político de direita da Nova Democracia? Pavlopoulos é um representante dos interesses do inimigo de classe, do grande capital. Quando, no governo, a Nova Democracia (juntamente com o ex-social-democrata Pasok) foi responsável pela catástrofe social do memorando (medidas de austeridade acordadas entre a Troika e os últimos governos). Pavlopoulos foi um notório ministro da Nova Democracia, comandando a polícia.

Desde quando é que esta chamada “unidade do povo” está identificada com a colaboração com os inimigos do povo? Quanto “orgulho nacional” sentem realmente os milhões de trabalhadores na Grécia quando vêem Alexis Tsipras e o “coveiro” dos seus direitos, Antonis Samaras (primeiro ministro da Nova Democracia recentemente deposto) apoiar o mesmo candidato à presidência do país?

Consenso político e social

Tsipras, explicando a sua proposta, argumentou que uma pré-condição necessária para ultrapassar as imensas dificuldades da Grécia é forjar o “consenso político mais alargado possível”. Mas consenso entre quem? Não há dúvidas de que, para enfrentar a chantagem da UE e dos credores da Grécia, a maior unidade possível entre trabalhadores, desempregados, classes médias e pequenos comerciantes, da juventude e dos pobres, é absolutamente necessária. Tal unidade entre o povo trabalhador, na base dos seus interesses comuns, é não só necessária como está, na verdade, a ser alcançada em grande medida neste momento. Um olhar para as recentes sondagens mostram que o governo liderado pelo Syriza conseguiu ganhar (pelo menos por agora) o apoio da vasta maioria do povo grego, mesmo daqueles que votaram por outros partidos nas recentes eleições.

Isto foi alcançado porque o Syriza tem, até agora, aparecido às massas como mantendo uma linha dura contra os grandes credores, em confronto (i.e. não em harmonia!) com os líderes da oposição de direita grega, como Samaras, Venizelos e os seus partidos políticos. Mas quaisquer aberturas aos partidos pró-memorando (pró-austeridade) não irá aumentar a unidade das massas. De facto, apenas trará confusão e desapontamento àquelas partes da sociedade que entusiasticamente se viraram para o Syriza imediatamente após as eleições baseados no anúncio de reformas populares (embora limitadas) pelo Syriza.

Este tipo de “unidade” entre os trabalhadores e sectores mais alargados da sociedade não tem qualquer relação com o esforço de encontrar terreno em comum com a Nova Democracia ou com os interesses patronais que a ND expressa. A verdade é que nem “todos os gregos” têm os mesmo interesses de classe nem sequer os brutais cortes do memorando atingem todos “os gregos”. Os grandes armadores, grandes homens de negócio e, em geral, o grande capital não só não foram atingidos pelas políticas do memorando como, pelo contrário, em regra geral acolheram as novas leis anti-laborais com satisfação e viram os seus lucros aumentar.

A “compreensão” e o acolhimento dos representantes políticos dos grandes banqueiros e armadores não constrói a unidade militante das bases da sociedade contra o memorando, enfraquece essa unidade. Pavlopoulos representa nada mais nada menos que esta classe – a classe do grande capital, a classe do memorando.

Democracia do Partido

Há também um outro aspecto importante na decisão de Tsipras apoiar Pavlopoulos. Qual foi o orgão de direcção do Syriza que decidiu através de discussão democrática e debate que Pavlopoulos deveria ser o candidato? Nenhum, é a resposta.

O Presidente do partido, Tsipras, trouxe no último minuto, ao Grupo Parlamentar do Syriza, a proposta que este último não tinha real possibilidade de mudar, ou mesmo discutir, já que não havia possibilidade de apresentar uma contra-proposta! Os orgãos eleitos do Syriza, como o Comité Central e o Secretariado Político, simplesmente “não existem” no procedimento de decidir qual o candidato a Presidente da Grécia a ser proposto.

Estas são tendências extremamente perigosas que (na nossa opinião) vão continuar e crescer. Tsipras usará o poder que a sua popularidade lhe confere, dentro e fora da Grécia, para funcionar como o único poder real dentro do partido. O Syriza está a desenvolver-se num partido onde a autoridade do “líder” não será questionada. Esta é uma situação bastante usual num partido político pró-capitalista, mas que a Esquerda sempre denunciou como anti-democrática e inaceitável. A raíz deste problema, como o Xekinima (CIT na Grécia) tem escrito antes, encontra-se na conferência fundadora do Syriza. A liderança do partido, baseando-se no “exército” do aparelho burocrático e da entrada em massa de ex-quadros do Pasok no Syriza, passou no congresso fundador a decisão de eleger directamente do Congresso o presidente, quando em toda a história da Esquerda o líder do partido foi eleito pelo Comité Central precisamente para que ele/a possam estar sob controlo.

O apoio do Syriza a Pavlopoulos é uma escolha que envia uma mensagem completamente errada à classe trabalhadora e às massas gregas e coloca o Syriza numa estrada escorregadia. É uma decisão ligada à tentativa da liderança do Syriza de “montar dois cavalos” de uma vez – o das expectativas da classe trabalhadora e massas gregas, mas também tentando satisfazer os patrões e a Troika. Mas este esforço da liderança do Syriza está condenado ao falhanço. Nestes tempos de profunda crise económica e desesperadas necessidades sociais na Grécia, não é possível estar ao lado dos armadores e dos trabalhadores, com os grandes empresários e com os desempregados.

A gravidade da crise económica e social e as necessidades das massas trabalhadores exigem políticas de classe independentes – políticas socialistas audazes – que rejeitem a dívida e o memorando e que melhorem consideravelmente as condições de vida dos trabalhadores, desempregados e pequenos comerciantes pobres, incluindo trazer as grandes indústrias e bancos sob propriedade pública e gestão democráticas, assegurando que as necessidades das massas são atendidas.