Grécia: Porque é que o Syriza e o KKE não conseguiram um acordo?

Posted on 30 de Janeiro de 2015 por

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SYRIZA-KKE

Por políticas socialistas para acabar o pesadelo da austeridade!

Artigo do Xekhinima (CIT na Grécia) de 26 Janeiro de  2015, traduzido do inglês

Coligação Radical de EsquerdaSyriza formou uma coligação com o partido dos Gregos Independentes, um partido que emergiu de uma cisão da Nova Democracia e que  por conseguinte é um partido fiel ao sistema capitalista e que está penetrado da lógica do capital e das «forças do mercado». A cooperação do Syriza com tal partido é, claro, uma armadilha perigosa!

O Syriza moveu-se nesta direção depois de ter contacto o KKE (Partido Comunista Grego) para discutir a possibilidade de formar uma coligação para um governo de esquerda. O KKE recusou qualquer forma de colaboração, recusando mesmo dar um voto de confiança a um governo liderado pelo Syriza. Esta posição, ie, uma recusa pelo KKE foi repetida muitas vezes publicamente pela sua liderança ao longo da campanha eleitoral. Uma fonte não oficial do Syriza diz que Tsipras telefonou ao secretário-geral do KKE, Koutsoumbas, na noite da eleição que este recusou mesmo entrar-se com Tsipras.

Porque recusou o KKE?

O KKE justificou esta recusa com base em “diferenças ideológicas e políticas”.

Mas o que impediu o KKE de dizer “sim” a trabalhar com o Syriza “dentro de certas condições”? O que impediu o KKE de colocar um número mínimo de condições como necessárias para uma possível cooperação/voto de confiança, i.e. uma série de medidas no interesse da classe trabalhadora e do povo grego contra o poder do grande capital?

O KKE podia ter dado um voto de confiança ao governo do Syriza, numa de base e desde que implementassem políticas pró-trabalhadores. Podia ter dado um voto de confiança mas ao mesmo tempo declarar manter a sua total independência ideológica, política e organizacional. A liderança do Syriza não teria assim qualquer “justificação” de se virar para os populistas de direita Gregos Independentes. O KKE poderia assim ser capaz de chegar às bases de esquerda do Syriza e aos milhões de trabalhadores que votaram neles, para se livrar do barbarismo dos troikanos.

KKE ‘orgulhoso’

Os líderes do KKE dizem estar “orgulhosos” de terem mantido suas forças e aumentá-las ligeiramente em comparação a Junho de 2012 (em cerca de 1%). Mas, na realidade, o seu apoio caiu, para 3% abaixo das eleições de Maio de 2012 e para metade das suas percentagens de apoio em 1981 (que rondavam os 11%).

É possível a um “partido comunista” que se descreve a si próprio como um partido revolucionário, numa das mais graves crises económicas de sempre, e enfrentando uma catástrofe social massiva, dizer-se feliz por ganhar 5,4%? Um partido revolucionário socialista/comunista com uma base significativa na classe trabalhadora como o KKE devia, nestas condições, “descolar” (como os Bolcheviques durante 1917). Mas ao invés de tentar perceber o que estava errado com as suas políticas, os líderes do KKE declararam-se “satisfeitos”!

Que significa “cooperação”?

O KKE poderia ter proposto ao Syriza um programa pró-classe trabalhadora mínimo como precondição necessária à cooperação/voto de confiança. Poderia ter proposto, como mínimo para a cooperação, uma série de medidas tal como, restabelecimento do salário mínimo, pensões e relações laborais, investimento massivo na Educação e Saúde, pelo fim das privatizações e pela abolição do TAIPED (i.e. privatizações impostas pelos memorandos) pela renacionalização de todos os serviços públicos privatizados, pela passagem do sistema bancário para a propriedade, controlo e gestão dos trabalhadores etc. (algumas delas já começaram de facto a ser implementadas pelo governo do Syriza).

Ao lado de um tal “acordo mínimo”, o KKE poderia declarar livre e abertamente os seus desacordos com o Syriza, tal como, a intenção deste último de permanecer dentro da zona euro, no facto do Syriza não almejar o total cancelamento da dívida mas apenas uma parte dela etc…

Quem poderia ganhar com tal posição? Se a liderança do Syriza tivesse recusado esta “oferta” do KKE, teria ficado exposta e o apelo do KKE tanto para os trabalhadores como para as bases de esquerda do Syriza teria disparado. Se a liderança do Syriza tivesse aceitado um tal acordo com o KKE, a atração ao KKE ter sido ainda maior entre a massa de trabalhadores e bases do Syriza, porque a classe trabalhadora teria a ganhar com uma política mais de esquerda de um governo da Esquerda e porque a maioria dos trabalhadores iria identificar tais políticas de esquerda como aplicadas devido à pressão do KKE.

A liderança do KKE descreve-se como os defensores da revolução na Grécia, mas a essência do sucesso de “políticas revolucionários” é ser capaz de convencer as massas, os milhões, da necessidade de políticas socialistas revolucionárias – não de se excluir e isolar das massas num “vácuo de oxigénio” sectário em nome da “pureza” ideológica.

Governo instável com os Gregos Independentes

Atuando de uma forma “hábil”, a liderança do Syriza apelou para o KKE cooperar e quando o último recusou foram para uma cooperação com os Gregos Independentes. Nesta fase, muitos gregos consideram esta a única opçãoo para o Syriza e que os líderes do KKE contribuíram para este resultado.

Mas apesar disso, entre as bases do Syriza, e também entre muitos trabalhadores em geral, é claro que um tal governo será instável. No período inicial, os Gregos Independentes irão provavelmente concordar com uma série de políticas populares e medidas de aliviamento – o governo de coligação já está a fazer uma série de reformas bem-recebidas pelas massas trabalhadoras – mas a diferença central que surgirá, mais tarde ou mais cedo, será em volta do carácter fundamental da economia capitalista e dos interesses das elites. Será sobre as políticas de taxar a riqueza, que irá atingir os lucros das empresas e multinacionais, para não falar de nacionalizações e controlo operário e social.

Estas não são questões abstratas ou académicas! Sem tais medidas, a economia não entrará no caminho da recuperação que realmente beneficia o povo trabalhador. Sem recuperação económica a crise não pode ser ultrapassada, e levará a um tumulto social e político ainda maior.

Estas questões irão refletir-se dentro do novo governo de coligação, provocando uma crise no seu seio.

Preparação para a crise que aí vem

É por isso que a base do Syriza terá de se preparar para a crise que aí vem com os Gregos Independentes. E há apenas uma forma de o fazer, tem de haver uma luta no seio do Syriza, e da esquerda e trabalhadores fora dele, para que o Syriza adote um forte programa que irá consistentemente servir os interesses das classes trabalhadoras e dos sectores intermédios que estão a ser esmagados pelas políticas da Troika. Isso, em essência, significa um programa socialista – algo que a liderança do Syriza mostrou não ter intenção de fazer, a menos que compelida pela enorme pressão das bases de esquerda e da sociedade.

Se e quando os Gregos Independentes tornarem clara a sua recusa em apoiar quaisquer medidas governamentais que atingam os interesses da classe dominante, então o Syriza devia estar pronto a avançar para um mandato popular romper com estas eleições. As massas gregas irão compreender que os Gregos Independentes são um obstáculo à implementação de políticas que iriam servir os seus interesses. O Syriza poderia, assim, aumentar o seu apoio eleitoral para um governo de maioria, ao avançar com um programa socialista consistente! A questão se a liderança do Syriza o quer! A base de esquerda do Syriza e as massas trabalhadoras em geral, sem dúvida, querem um tal caminho. Isto, no entanto, está longe de ser claro por parte da liderança.