Syriza chega ao poder, os antigos partidos do poder colapsam

Posted on 29 de Janeiro de 2015 por

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27/01/2015

Partidos de esquerda incapazes de formar governo – Syriza entra numa coligação com os populistas de direita Gregos Independentes

Niall Mulholland, socialistworld.net, entrevista Andros Payiatsos, do Xekinima (CIT na Grécia)

Qual é a importância dos resultados eleitorais na Grécia?

Podemos descrever o resultado como de significante importância histórica porque representou o colapso das velhas forças que dominaram a cena política grega por décadas. Também a ascensão de uma nova formação de esquerda, o Syriza, que descolou de 4-5% em 2010 para 36,5% agora, com base num programa de esquerda pró-classe trabalhadora.

Isto apesar da massiva campanha de medo lançada pela classe dominante na Grécia que ameaçou que isto significaria o colapso do país, a saída do Euro, etc. Tudo isso não teve efeito, ou apenas de forma muito limitada, nas massas que votaram no Syriza, particularmente nas áreas mais proletárias das grandes cidades onde o Syriza esteve perto da maioria absoluta.

O Pasok (o partido social democrata tradicional) foi reduzido a pouco mais de 5% – caindo para cerca de um terço do que teve em 1974, quando foi criado — abaixo da neofascista Aurora Dourada. Dividiram-se porque Papandreou (ex-primeiro ministro do Pasok) fundou um novo partido numa tentativa de se distanciar do colapso do Pasok. Este novo partido, Movimento pelo Socialismo Democrático, não foi capaz de entrar no parlamento porque obteve 2,5% quando precisava de 3%.

Na Grécia deu-se um colapso total de 27% do PIB — pior do que a ocupação nazi na Segunda Guerra Mundial, do ponto de vista económico. Há pobreza massificada — estimativas oficiais dizem que 6,3 milhões em 11 milhões estão perto ou abaixo do limiar da pobreza que se situa apenas nos 450€ por mês. O desemprego situa-se nos 26-27%, o desemprego jovem à volta dos 55%. Perto de 100.000 jovens deixou o país. Estes são elementos do colapso social e do empobrecimento massivo da sociedade. Estas são as condições sob as quais o governo do Syriza é chamado a encontrar soluções para estes problemas.

Ontem o Syriza anunciou uma coligação com o partido Gregos Independentes. Porque não consiguiu alcançar um acordo  com o Partido Comunista (KKE)?

O Syriza apelou ao Partido Comunista Grego (KKE) para formar um governo dos partidos de esquerda. O KKE recusou — este é o resultado do sectarismo e do isolacionismo geral do Partido Comunista, que usa o facto de haver diferenças no plano ideológico e político para dizer não a qualquer colaboração com qualquer força da esquerda grega. Esta é uma política geral e não apenas em relação às circunstâncias específicas com o Syriza.

Disseram que nem sequer iriam dar um voto de confiança ao governo Syriza. O KKE afirma estar muito orgulhoso porque aumentou os seus votos em 1% em relação a Junho de 2012, o que representa cerca de 50.000 votos. Isto é rídiculo, porque obtiveram 5,5% agora e 4,5% antes e, no entanto, em 1981 o KKE tinha 11%. Esta é a crise mais devastadora da sociedade grega em décadas e eles estão muito orgulhosos por receber 5,5% — é escandaloso!

Então isto permitiu à liderança do Syriza entrar numa aliança com o “Gregos Independentes” para formar um novo governo de coligação. É justo dizer que uma secção da liderança, a mais à direita, sempre foi a favor de uma coligação com os Gregos Independentes, embora nunca o tenha afirmado publicamente, para os usar como um alibi e evitar a implementação de políticas socialistas naturalmente exigidas pelas bases e pela classe trabalhadora.

Os Gregos Independentes surgiram como uma cisão populista da Nova Democracia (partido tradicional da direita) em 2012 quando Samaras (anterior primeiro ministro) deu uma cambalhota ao proclamar estar contra o memorando primeiro,para depois assinar o novo memorando no primeiro minuto no governo e concordar com a Troika na implementação de severas medidas de austeridade. Os Gregos Independentes vêm da direita. Eles não têm relação com a classe trabalhadora ou políticas de esquerda. Apoiam os mercados e o sistema capitalista. Não apelam à saída da UE e da Zona Euro mas estão contra o memorando e a austeridade. Têm um carácter nacionalista moderado (descrevem-no como “patriótico”). Não se colocam contra a UE e a Zona Euro mas podem estar dispostos a seguir esse caminho se chegaram a um choque sério com a Troika.

É uma força que não pode dar qualquer tipo de sustentabilidade a uma coligação com o Syriza. Isto significa que o novo governo de coligação será uma formação instável porque se baseia em forças que representam campos opostos.

A reacção internacional à vitória do Syriza por parte da esquerda e trabalhadores tem sido entusiástica e na Grécia?

O crescimento do Syriza tem sido tratado com um entusiasmo de massas internacionalmente e parece actuar como um catalisador relativamente a organizações de esquerda e para os movimentos sociais passarem à contra-ofensiva. O potencial está definitivamente lá.

Na Grécia não se passa o mesmo. A melhor maneira de descrever a situação para a massas de trabalhadores e jovens é que estes respiraram de alívio com o resultado das eleições mas não houve um júbilo desmedido. O Syriza tem posto “muita água no seu vinho” — para usar uma expressão grega — ou seja, amenizou demasiado o seu programa, no período recente. O “programa” transformou-se em algo bastante turvo e vago.

Os trabalhadores acreditam que as coisas não podem ser tão más quanto eram — tinham um forte sentimento de que era preciso pôr fim a estes ataques bárbaros do governo e da Troika, então votaram no Syriza em massa. Mas têm muitas dúvidas sobre o que tratá o amanhã. Isto reflectiu-se no facto de as celebrações no centro de Atenas, na noite de eleições, atraírem cerca de 5000 pessoas — nem sequer metade dos membros do Syriza em Atenas. Os trabalhadores sentem-se muito contidos e mesmo cépticos sobre a vitória do Syriza mas estão muito satisfeito por terem castigado o PASOK e a Nova Democracia, os principais partidos da Troika.

A Aurora Dourada (AD) foi capaz de manter a votação, apesar da repressão do Estado que aprisionou muitos dos seus líderes. A Esquerda vê com preocupação uma possível tentativa de reconstrução da AD no próximo período?

Esta deve ser uma séria preocupação para a Esquerda. Apesar de todos os partidos de massas de esquerda subestimarem os perigos do neo-fascismo, a AD mostrou ter uma base de eleitores nucleares bastante significativa, nas centenas de milhar. É uma organização abertamente nazi e claramente assassina. Apesar disto, conseguiu manter os níveis de votação de 2012. Isto significa que há o perigo do neo-fascismo regressar em força no futuro, particularmente se o governo Syriza falhar os trabalhadores e classes médias, e a esquerda tem de estar preparada para isto.

Durante a campanha eleitoral, o Xekinima (CIT na Grécia) não foi capaz de chegar a acordo com o Syriza acerca dos candidatos, mas apesar disso participaram na campanha. Como é que correu?

Tivemos uma campanha muito boa, especialmente se tivermos em conta que só houve 11 dias de campanha. Esse sucesso deveu-se às condições debaixo das quais as eleições tiveram lugar — estas foram anunciadas de repente pela governo cessante e o Syriza e os restantes partidos tiveram mais de duas semanas para decidir as listas de candidatos. A liderança do Syriza não concordou com os candidatos que nós propusemos para as listas locais do Syriza porque sabiam que teríamos deputados eleitos e que estes seriam um pólo de oposição de esquerda tanto dentro como fora do Syriza.

No entanto, o CIT na Grécia, Xekinima, saiu bastante bem das eleições apesar da recusa do Syriza em aceitar os nossos camaradas como parte das listas. Este contratempo foi rapidamente ultrapassado porque os camaradas do Xekinima compreenderam a necessidade para a sociedade e para a classe trabalhadora que o Syriza vencesse estas eleições. Tivemos uma campanha muito forte; distribuímos quase 9000 panfletos e vendemos perto de 250 jornais diariamente. Isto levou-nos a contactar com muita gente. Estamos a planear reuniões de célula abertas, nos vários bairros, durante as próximas semanas, pois não as conseguimos fazer durante a campanha eleitoral.

O que pensas que irá acontecer nas negociações entre o novo governo de coligação grego e a Troika, em particular, com o governo da chanceler alemã Merkel? Especula-se que ela poderá mostrar-se inflexível e que, apesar dos desejos de Tsipras, isso poderia levar a Grécia à bancarrota. Mas especula-se também que, sob a pressão de manter a eurozona intacta, a Troika e Merkel tentarão renegociar a dívida com a Grécia, não livrar-se dela, mas apenas rever os prazos de pagamento.

Essa é uma questão crucial. É claro que ambos os lados querem negociar e chegar a um compromisso. A liderança do Syriza procura claramente um compromisso. Merkel parece estar preparada para algum tipo de compromisso. De outra forma, ambos sabem que isto poderia causar uma reacção em cadeia e uma grande crise na zona euro. Mas a questão é se eles conseguem chegar a um compromisso.

Merkel estará disposta, penso eu, a fazer algumas concessões. Estariam dispostos provavelmente a conceder uma extensão dos prazos de pagamento, que significaria um alívio do peso da dívida no orçamento grego anual.

Mas, por outro lado, em relação à classe trabalhadora grega, o Syriza terá de responder, no mínimo, a uma série de exigências tais como as seguintes: o salário mínimo retornar a níveis pré-crise; haver apoios sociais para os sectores da sociedade na miséria completa que não são capazes de sobreviver nem comprar comida, pagar electricidade, etc. O novo governo deve também procurar reintroduzir as relações laborais, completamente desreguladas. Têm de pôr fim às condições de escravatura, prática frequente no sector privado – onde os trabalhadores são forçados a trabalhar até 12 horas por dia, 7 dias por semana, sem pagamento de horas extraordinárias. Têm de se ver livres das minas de ouro de Halkidiki, no norte da Grécia, que são um problema ambiental bastante grande. Têm de readmitir os trabalhadores da ERT (a emissora nacional), etc.

Estas são as coisas a que o Syriza não pode escapar — as que são consideradas pela sociedade, pelos seus eleitores e pelos militantes do Syriza como básicas e imediatas! Se o Syriza não as cumprir num muito curto prazo, tal significará, imediatamente, uma grande crise dentro do partido. Portanto, o Syriza irá no sentido de cumprir estas medidas.

Mas se considerarmos estas medidas, que podem ser descritas como básicas para resolver a crise humanitária na Grécia hoje, vemos que elas destroem o programa aplicado pela Troika nos últimos quatro anos.

A questão que se apresenta, portanto, é: estará a classe dominante alemã preparada para assumir este compromisso com o governo de coligação grego? É, no mínimo, duvidoso que o faça. Portanto, embora não haja certeza em relação à correlação de forças após estas negociações Grécia/Troika, eu creio que a questão da bancarrota voltará forçosamente à agenda.

Dizemos que, caso a Grécia entre na bancarrota e se veja fora da zona euro, um governo de esquerda deve imediatamente introduzir controlo de capitais e crédito e o monopólio estatal do comércio externo, como parte de um programa alargado de medidas de emergência, que terão de ser implementadas de qualquer maneira, incluindo a nacionalização da banca e sectores estratégicos da economia, gestão e controlo dos trabalhadores, planeamento da economia, etc., para lidar com a crise, salvaguardar os direitos e condições de vida dos trabalhadores, e por uma mudança socialista fundamental.

Que papel desempenhará o Xekinima no próximo período?

A liderança do Syriza utilizará os Gregos Independentes como álibi para não aplicar as tão necessárias políticas de esquerda, pró-classe trabalhadora e socialistas. Portanto, temos de exigir a implementação de um consistente programa a favor da classe trabalhadora. Se tal significar uma crise no governo e eleições antecipadas, então que seja.

O principal papel que podemos desempenhar, juntamente com outras forças de esquerda, dentro e fora da ‘Iniciativa dos 1000’ [plataforma iniciada pelo Xekinima e que congrega vários militantes de outras organizações de esquerda na defesa de um programa mínimo e pela unidade da esquerda], é lutar por políticas socialistas a favor dos trabalhadores em colaboração com grandes secções da militância de base do Syriza.

Isto é particularmente verdade para os movimentos de base. Penso que um efeito importante deste governo na a sociedade será, num primeiro momento, o de criar alguma margem de manobra para a classe trabalhadora e movimentos sociais e, então, uma contra-ofensiva — por outras palavras, os trabalhadores irão mobilizar-se para exigir aquilo que perderam nos últimos anos.

Nesta situação, o governo Syriza poderá virar à esquerda e até mesmo levar a cabo políticas além daquilo que a liderança do Syriza tem agora em mente.

A nossa principal tarefa é fazer tudo o que pudermos para ajudar a construir e fortalecer o poder e acção independente da classe trabalhadora. Isso será determinado pelo carácter da luta de classes no próximo período.

A única solução para a crise é a aplicação de políticas socialistas, de um programa socialista. Qualquer governo que não apresente estas medidas, acabará em crise.

Então, por exemplo, apelamos para o Syriza decretar o repúdio da dívida, a introduzir um salário e pensões mínimos dignos, um investimento massivo na Segurança Social, Saúde e Educação. Um programa socialista implica também nacionalizar os grandes grupos económicos, sob o controlo e gestão democráticos da classe trabalhadora, para o benefício da maioria.

A imensa reacção positiva por todo o mundo à eleição do Syriza mostra como a classe trabalhadora grega tem milhões de aliados entre as classes trabalhadoras europeia e global. Um programa socialista aplicado por um governo de esquerda iria encontrar um eco ainda mais poderoso Europa fora e a classe trabalhadora de todo o mundo iria seguir os trabalhadores gregos. Colocaria a necessidade da luta por uma confederação socialista da Europa, numa base livre e igualitária.