Grécia: Perspectiva de vitória do Syriza levanta esperanças dos trabalhadores

Posted on 21 de Janeiro de 2015 por

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A intervenção em massa da classe trabalhadora é vital para lutar por políticas socialistas.

 AndrosA 19 de Janeiro, seis dias antes das eleições gerais gregas, o socialistworld.net falou com Andros Payiatsos do Xekinima (CIT na Grécia).

Da última vez que falámos, contaste-nos como uma campanha de medo foi desencadeada pelo regime na tentativa de fazer com que as pessoas não votassem no Syriza. Como é que isso se tem desenvolvido?

Os círculos da classe dominante e dos seus representantes políticos já estão desmoralizados. Começaram uma grande campanha de medo, mas tornou-se absolutamente claro que não teria qualquer efeito significativo e que o Syriza será o próximo governo. A questão agora é: o governo será de minoria ou de maioria? Embora a classe dominante ainda tente manter a campanha de medo, é muito fraca e ineficaz. Agora mudaram o seu foco para “domesticar” o Syriza, para garantir que o partido governará dentro dos limites que lhe impõem.

Qual é que parece ser o resultado provável das eleições, agora?

É geralmente aceite, aqui e internacionalmente, que o Syriza vai ganhar. Na última semana, houve um pequeno aumento para Syriza nas sondagens — cerca de 1%. Na verdade, trata-se de uma estabilização da vantagem do Syriza. Se incluirmos as abstenções, o apoio ao Syriza está à volta de 25 ou 27%, se descontarmos as abstenções, sobe para cerca de 30-33% — quase suficiente para um governo de maioria.

Quais são as alternativas para um governo de maioria do Syriza?

A liderança do Syriza vê o partido “Gregos Independentes” — uma cisão populista e “patriótica” do partido Nova Democracia (o principal partido capitalista de direita) como a possibilidade mais viável para um parceiro de coligação. Este partido tomou uma posição contra o Memorando da Troika desde o início.

A maior parte da esquerda não está disposta a cooperar com o Syriza. O Partido Comunista (KKE) rejeita até a possibilidade de votar no parlamento para que o Syriza forme um governo — têm uma posição sectária desastrosa.

Se os “Gregos Independentes” não tiverem deputados suficientes, o Syriza será forçado a colaborar com os partidos que são considerados partidos “da Troika” (aqueles que aceitaram e implementaram ou, em geral, apoiaram as políticas de austeridade infligidas à Grécia pelo Fundo Monetário Internacional, a União Europeia e o Banco Central Europeu), como o partido “O Rio” (To Potami) ou o novo partido do ex-primeiro-ministro do PASOK, George Papandreou, o “Movimento Social-Democrata”.

Que resposta dá a classe dominante à crescente probabilidade de uma vitória do Syriza?

Agora concentram-se em tentar garantir que um governo Syriza será tão estável e eficaz quanto possível para eles. Largas secções dos porta-vozes dos capitalistas, na Grécia e internacionalmente, dizem que “chegou a hora de negociar” e que “é preciso ser flexível”, etc. Esta é uma tentativa de incorporar o Syriza no sistema e impor um travão aos perigos que o Syriza pode representar para os interesses dos capitalistas em termos da libertação de poderosos movimentos de massas e da tomada de medidas anti-austeritárias.

Mas é importante saber que isto não é uniforme. Por exemplo, a classe dominante alemã e dos países circundantes ainda têm uma posição de linha-dura contra qualquer negociação séria. Sem dúvida que estão dispostos a fazer algumas concessões a um governo Syriza nas negociações, mas de carácter muito limitado.

Como é que o Syriza está a responder à pressão?

A liderança responde exactamente da maneira que a classe dominante pretende. O programa tornou-se completamente ambíguo. Mesmo algumas das reformas consideradas como muito básicas estão agora em questão.

Por exemplo, Tsipras, o líder do partido Syriza, foi recentemente questionado numa entrevista acerca da grande luta do povo de Halkidiki contra as minas de ouro. Não tomou nenhuma posição clara, disse que “a lei será cumprida” e que “os contratos serão escrutinados” — que significa isto?

Em relação ao [aumento] do salário mínimo, que era um dos principais pontos do programa do Syriza, agora não está claro quando é que isso será feito — fala-se de uma implementação gradual. Em relação às privatizações e às demissões de milhares de funcionários públicos que já ocorreram, dizem: “vamos averiguar a legalidade do ocorrido.”

Perante disto, pouco é o entusiasmo real pelo Syriza, na sociedade. Mas sente-se também que não há outra escolha, de que é necessário votar no Syriza e dar-lhe um governo de maioria, se possível. Há um sentimento de que, ainda que eles façam só um décimo do que prometem, as coisas ficarão melhor do que estão hoje.

Como tem o Xekinima (CIT na Grécia) participado nas eleições, e porquê?

Apoiamos o voto no Syriza e lançámos uma enorme campanha. Produzimos 150 mil boletins de quatro páginas e uma edição especial do nosso jornal que esgotou, de maneira que tivemos de o reimprimir, o que é impressionante se considerarmos que a campanha eleitoral dura apenas 11 dias!

Como parte da “Iniciativa dos 1000” (coligação de grupos de esquerda unidos em torno de um programa anti-capitalista radical), tínhamos discutimos com o Syriza termos candidatos nas suas listas. Infelizmente, não fomos capazes de o fazer. A liderança do Syriza queria uma aliança com outras forças de esquerda, mas de natureza meramente simbólica, não tendo estas forças nenhuma hipótese real de serem eleitas.

Eles proibiram-nos de apresentar candidatos nas áreas em que poderíamos fazer campanhas mais bastante poderosas e eficazes. Nós dissemos que, se vai haver uma colaboração com outras forças de esquerda, então o Syriza tem de dar a essas forças o potencial de conseguir um bom resultado — não faz sentido vedar-lhes os seus centros de influência e permitir que se candidatem apenas nas zonas onde têm pouca ou nenhuma hipótese de ser eleitos. Além de tudo isto, houve um tempo muito limitado para a campanha. Nesta base, tanto o Xekinima como outros camaradas da “Iniciativa dos 1000” decidiram não se apresentar como candidatos [nas listas do Syriza].

A atitude da liderança Syriza face a isto é indicadora de uma tendência mais ampla. A título de exemplo, 50 indivíduos que não são membros do Syriza foram incluídos nas listas do partido em todo o país. Destes, apenas um está à esquerda do Syriza! Eles querem um grupo parlamentar que possa ser muito bem controlado pela ala direita do partido.

A principal razão para apoiamos Syriza, apesar destas limitações, é que a sua vitória terá um efeito libertador sobre a classe trabalhadora, os movimentos sociais e a sociedade em geral. Há uma expectativa na classe trabalhadora de que, com um governo Syriza, os ataques massivos parem, sejam, pelo menos até certo ponto, revertidos e que algumas das reivindicações do movimento de massas sejam satisfeitas. Assim, apesar da falta de clareza por parte da liderança e do seu acomodamento às reivindicações da classe dominante, acreditamos que uma vitória Syriza representará uma mudança significativa na correlação de forças das classes sociais na sociedade grega — pode ter um efeito catalisador e desencadear um novo período de luta da classe trabalhadora.

Talvez o Syriza não altere as leis do mercado de trabalho, que foi completamente desregulamentado, mas os trabalhadores vão sair à rua exigindo o seu direito a não ser despedidos, a uma jornada de trabalho de oito horas, ao pagamento de horas extraordinárias, e a contractos colectivos. Talvez Tsipras não esteja pronto para dar um golpe às minas de ouro da empresa “Eldorado Gold” e tirá-las de Halkidiki, mas as pessoas de Halkidiki não tem escolha a não ser exigir que a empresa pare os trabalhos nas minas de ouro. Prevemos que isto acontecerá com todo o movimento da classe trabalhadora na Grécia. Talvez Tsipras não esteja disposto a abolir o TAIPED, o órgão que supervisiona todas as privatizações “fast track” agora em curso, mas os trabalhadores vão sentir que já podem entrar em acção e resistir a estas venda ao desbarato — quer sejam vendas de empresas de utilidade pública, de praias, de montanhas ou de florestas.

Sejam quais forem os compromissos que a liderança está disposta a fazer, os trabalhadores sentir-se-ão num ambiente muito melhor para lutar na defesa dos seus direitos, e esta é a razão fundamental para se dar um apoio condicional e crítico ao Syriza.

Nós deixamos bem claro que não apelamos simplesmente ao voto no Syriza, apelamos a um programa socialista revolucionário e radical como sendo o único caminho viável que tem o governo Syriza.

O que é que o Xekinima julga que um governo Syriza deve fazer no dia seguinte à sua eleição?

Evidentemente, deve paralisar imediatamente o pagamento da dívida e rasgar o memorando da Troika, coisas fundamentais para qualquer plano de combate contra a miséria do povo grego.

Deve alterar imediatamente as leis do trabalho e as leis para as universidades (permitindo o asilo nos campus universitários, as liberdade de expressão e de reunião, etc.). Aumentar o salário mínimo para o que era antes da Troika — €750.

Encerrar o TAIPED, o organismo que é responsável pelas privatizações das obras públicas e das belezas e recursos naturais do país. E congelar e revogar todas as privatizações que ocorreram nos últimos anos. Pôr fim aos projectos controversos que estão em construção agora — tal como em Halkidiki.

Isto causaria uma reacção do sistema capitalista, nacional e internacionalmente. E essa reacção só poderia ser contrariada com sucesso através da implementação de medidas anti-capitalistas ousadas, da nacionalização dos bancos e dos sectores chave economia para planear a economia com base na necessidade, não o lucro.

Tudo isto deve ser feito com base no controlo e gestão democráticos dos trabalhadores. E deve ser vinculado às lutas dos trabalhadores em toda a Europa. Temos a certeza de que, se o Syriza avançasse com um programa desse tipo, isso teria um enorme efeito a nível internacional, em particular para a classe trabalhadora do sul da Europa. Isto poderia lançar as bases para uma alternativa socialista internacional ao domínio da Troika e da UE capitalista.

Na campanha eleitoral o Syriza refere-se aos aspectos internacionais de suas políticas e ao PODEMOS (o novo partido de esquerda em Espanha), e outros movimentos “progressistas” internacionalmente. Não obstante o programa do Syriza ser tão leve e comprometido, continua a ter um grande impacto a nível europeu e internacional. Isso mostra o que poderia ser alcançado se tivesse um programa socialista mais radical — o potencial está lá. De momento, as políticas do Syriza são neo-keynesianas — pelo fim da austeridade dentro do sistema capitalista.

Nas condições da crise capitalista, tal programa não é realmente viável. Somente um programa que rompa com o sistema capitalista pode oferecer um caminho a seguir. Isto só pode ser alcançado através da intervenção em massa da classe operária e das massas populares, que poderia, em certas condições, empurrar o Syriza muito mais para a esquerda do que a liderança prevê ou imagina. É por isto que o Xekinima irá lutar no período após a eleição do Syriza para o governo.

Posted in: Análise, Grécia