Em direção a um governo Syriza?

Posted on 12 de Janeiro de 2015 por

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Alexis Tsipras, opposition leader and head of radical leftist Syriza party, delivers a speech during a party congress in Athens

Entrevista a Andros Payiatsos, Xekinima – CIT na Grécia

No final do ano passado surgiu uma crise constitucional na Grécia devastada pela austeridade com o falhanço de eleger o Presidente. Isto despoletou eleições antecipadas a ser convocadas para 25 de Janeiro. Para o pânico da classe capitalista internacionalmente, o Syriza (o partido de esquerda) lidera as sondagens, em grande parte porque é visto como a melhor hipótese de ripostar contra a austeridade.

O socialistworld.net falou com Andros Payiatsos do Xekinima – CIT na Grécia

Porque têm lugar eleições?

A razão dada é devido à eleição presidencial. O Presidente na Grécia é eleito por uma maioria de 60% no Parlamento. Há uma cláusula na Constituição que se o Parlamento não puder eleger um presidente então têm de ter lugar eleições legislativas e então o presidente é eleito por 50% do parlamento. O governo não conseguiu obter a maioria de dois terços.

Para lá disto no entanto, a razão essencial é que as políticas do Governo chocaram contra um muro de betão. A sociedade está a rejeitar estas políticas e isso é traduzido no parlamento onde o Pasok (o partido tradicional da ex-social democracia) e a Nova Democracia (partido capitalista de direita) perderam uma parte importante dos seus deputados. Estes deputados são agora independentes e não votaram com o governo. Também, os partidos do governo não conseguiram dividir os partidos mais pequenos, a Esquerda Democrática e os Gregos Independentes, apesar das intensas tentativas de o fazer. Assim não conseguiram ganhar a maioria de 60% dos votos que precisavam para eleger um novo presidente e manterem-se no poder até 2016 quando o mandato do actual governo terminava.

Qual é o resultado provável da eleição?

Muito provavelmente é uma vitória do Syriza.

Há uma enorme campanha de medo por parte da classe capitalista, quer na Grécia quer internacionalmente, para prevenir isso. É a campanha usual que nós já esperávamos, alegando que se o Syriza é eleito então a Grécia estará fora do Euro e isso seria um pesadelo absoluto e todo o inferno ficaria há solta, etc. O Primeiro Ministro disse ontem que se o Syriza ganha então a Grécia tornar-se-á como a Coreia do Norte – isto é então uma campanha de medo atingindo níveis ridículos.

Mas não está a ter o mesmo efeito sobre a população que teve em 2012. As pessoas estão agora revoltadas o suficiente para votar Syriza apesar da campanha de medo. Há já sinais de que o regime está em pânico sobre o resultado destas eleições – em particular a Nova Democracia.

Mas nada é certo. Papandreou (o anterior Primeiro Ministro e ex-líder do Pasok) está a criar uma cisão no Pasok e a formar um novo partido. Que se apresenta como uma cisão de esquerda – acusando a liderança do Pasok de abandonar os princípios socialistas do partido. Isso apesar do facto de que Papandreou foi o primeiro-ministro que pôs a Troika na Grécia e a Grécia no memorando. Mas não é claro quanto apoio pode receber este novo partido.

O problema é que a vantagem do Syriza para a Nova Democracia é apenas de 3-4% nas sondagens. Embora o desenvolvimento mais provável seja uma vitória do Syriza, é uma questão de qual a dimensão dessa vitória e se consegue um governo maioritário ou um minoritário de dependerá dos votos da Esquerda Democrática (se eleita), dos Gregos Independentes ou do novo partido de Papandreou, que são de facto tudo forças do regime.

Como pensas que o Syriza vai atuar no governo?

De certa forma a liderança do Syriza preferiria ganhar sem maioria absoluta para poder culpar a dependência nos votos de outros por ter de prosseguir uma política menos radical.

Isto seria uma desculpa. A liderança do Syriza tem virado claramente à direita desde as eleições de 2012. No resto da Europa, o Syriza é apresentado como um partido muito radical, mesmo da extrema-esquerda. Mas na Grécia há uma grande suspeição e falta de entusiasmo das massas porque vêm que a liderança do Syriza está a fazer todos os possíveis para chegar a um entendimento com as forças do mercado – a Troika, a EU e as instituições nacionais.

Não é de excluir que o Syriza poderia mover-se mais para a direita para de manter dentro da Zona Euro, uma vez no poder. Mas as coisas não serão a preto e branco no próximo período na Grécia porque veremos a intervenção de movimentos de massas. Os problemas da sociedade são tão grandes que milhões de pessoas estão numa situação absolutamente desesperada. Terão de lutar, e lutarão, empurrando um governo Syriza para a esquerda. Então, apesar do facto da liderança do Syriza se estar a mover para a direita e a olhar para um compromisso com as forças dos mercados internacionais, é possível que eles serão puxados para a esquerda sob a pressão do movimento de massas.

Como é que o Xekinima pensa que a campanha de medo sobre o Euro etc devia ser respondida?

Pensamos que é impossível ter um programa pró-classe trabalhadora – abandonar o memorando, sair da presente crise da economia usando o sector público como o motor para que a economia cresça e em geral dizer não às políticas neoliberais da UE – e ao mesmo tempo ficar dentro da zona euro como ela é hoje.

Há apenas duas possibilidades. A primeira é que haja um apelo internacionalista de massas, pelas forças radicalizadas da classe trabalhadora e pelo governo de esquerda na Grécia, para os trabalhadores da Europa e para que as forças da esquerda em desenvolvimento pela Europa lutem por grandes mudanças numa direção socialista no continente. Se isto não acontecer (por ser impedido pela liderança do Syriza) ou não tiver tempo para se desenvolver, então o país encontrar-se-á fora da zona Euro.

Um retorno à moeda nacional não seria necessariamente um desastre – se for acompanhado por políticas socialistas na Grécia por um governo de esquerda. Sob um governo de esquerda, com uma moeda nacional e aplicação de políticas socialistas, com base em nacionalizações, o planeamento da economia e controlo e gestão pelos trabalhadores, a economia podia crescer rapidamente. Nessas condições, o apelo internacionalista teria de continuar, com o objetivo de trazer uma grande mudança socialista em toda a Europa. Acreditamos que esta abordagem deve ser apresentada abertamente à classe trabalhadora grega como forma de a preparar para as batalhas que se avizinham à nossa frente.
Infelizmente a liderança do Syriza não está a fazer nenhuma das duas, e isso cria um otimismo artificial – “não se preocupem, não vai acontecer nada, nós garantimos que o país vai ficar na zona do euro”. Isto é um grande erro.

Como deve a luta ser organizada sob um governo Syriza?

Tem de haver uma tentativa consciente de coordenar as lutas porque nenhuma luta isolada pode sair vitoriosa no contexto presente. Estas lutas devem tentar ligar-se às bases do Syriza para que estas empurrem o partido para a esquerda. É necessário tentar criar estruturas democráticas dentro da sociedade e dentro dos movimentos para que as bases tenham uma palavra decisiva.

Para se livrarem da Troika e do governo atual, estas lutas deviam estar nas mãos de toda a esquerda, duma esquerda unida. Infelizmente a esquerda está dividida. Parte da culpa disso é da liderança do Syriza, que não tenta genuinamente construir uma frente unida. Mas a sociedade e a classe trabalhadora mover-se-ão para votar no Syriza. Xekinima é parte deste movimento. Enquanto parte da “Iniciativa dos 1,000” estamos a apelar a um voto no Syriza, estamos em negociações com o Syriza para termos um número de candidatos em alguns dos principais distritos eleitorais em Atenas, Salónica e Vólos.

O último fator é que as lutas devem apontar para um programa socialista – nacionalizar os bancos, os altos comandos da economia, planear a economia. Tudo isto tem de ser feito sob o controlo e gestão democrática dos trabalhadores, caso contrário teremos a corrupção que temos visto no sector estatal no passado. É nesta base que a luta pode ser vitoriosa e ser uma fonte de inspiração para a classe trabalhadora no resto da Europa.