Declaração sobre o ataque de 7 de Janeiro ao semanário Charlie Hebdo

Posted on 9 de Janeiro de 2015 por

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O Socialismo Revolucionário Comité por uma Internacional dos Trabalhadores em Portugal não pode deixar de condenar o bárbaro ataque à redação do semanário Charlie Hebdo, assim como não pode deixar de condenar os ataques xenófobos, racistas e igualmente bárbaros que têm sido repetidamente feitos a mesquitas em França e noutros países europeus, tanto antes como depois do ataque de dia 7 de Janeiro — também em Lisboa a Mesquita Central foi vandalizada, tendo sido pintado na sua porta o número “1143”, ano em que foi assinado o Tratado de Zamora, considerado o nascimento de Portugal.

Mas estas condenações não bastam. Entendemos ser necessário defender os interesses dos trabalhadores, dos pobres e de todos os que são oprimidos pelo capitalismo nesta época de profunda crise e de “austeridade”, porque podemos já ver claramente as mais variadas espécies de oportunistas procurando beneficiar dos trágicos acontecimentos.

O ataque de quarta-feira ocupou as manchetes de jornais e telejornais a nível global e foi imediatamente aproveitado pela extrema-direita — em França, Marine le Pen propôe um referendo pela reposição da pena de morte; em Inglaterra, Farage defende a criminalização de todos os imigrantes e, indo mais longe ainda, fala num tom alarmante de inimigos que se “infiltraram” na “civilização europeia” com o intuito de a destruir; na Grécia, o partido fascista “Aurora Dourada” é auxiliado pelo próprio Antonis Samaras, actual Primeiro Ministro, que intimidou os eleitores gregos ao declarar no parlamento que um voto no partido Syriza é um voto na abertura do país ao terrorismo. Assim, o encerramento das fronteiras europeias, a ilegalização da religião islâmica, a criação de leis em defesa das “culturas nacionais” e semelhantes medidas xenófobas são neste momento defendidas pelas extremas-direitas um pouco por toda a Europa.

Evidentemente, o Socialismo Revolucionário repudia cada uma destas posições. Entre o povo trabalhador existem várias crenças, não podemos permitir que elas sejam usadas para nos inculcar o medo, nos dividir e enganar, como está a acontecer agora!

No entanto, o mais perigoso talvez não sejam as propostas de minorias fanáticas da extrema-direita ou do integrismo católico que é tão forte em França, mas antes o oportunismo de todos os governos europeus e dos partidos do “centro” e da direita na hipócrita defesa da “liberdade de expressão” e dos “valores da Europa”.

É urgente levantar questões como estas: qual dos ilustres democratas que agora se exalta contra o ataque ao periódico Charlie Hebdo tem defendido a liberdade de expressão dos eleitores gregos contra a intimidação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia (UE), que ameaçam expulsar a Grécia da União no provável caso de o partido Syriza vencer as eleições? Onde estavam estes paladinos da “liberdade de expressão” quando, em Espanha, no mês de Dezembro de 2014, foi aprovada a “lei da mordaça” que permite ao Estado Espanhol reprimir protestos “não autorizados” e aplicar multas de 600 mil euros ou até penas de prisão a quem se manifesta contra a austeridade? Quando é que um único destes muito respeitáveis senhores pronunciou uma palavra contra a saraivada de ataques à liberdade de expressão que constituem a brutalidade policial, a exploração, os despejos e a miséria que se abatem sobre os trabalhadores de todos os credos nos bairros de Lisboa, de Madrid, de Londres, de Paris e tantas outras capitais europeias…? E mais ainda: quem defende a liberdade de expressão dos milhões de famílias muçulmanas inocentes que as máquinas de guerra dos Estados Unidos da América e da União Europeia chacinam em África e no Médio Oriente? Quem defende a liberdade de expressão dos palestinianos e palestinianas que o Estado de Israel massacra não às dezenas, nem mesmo às centenas, mas aos milhares?

A direita só se recorda da “liberdade de expressão” quando isso serve os interesses do capital, quando isso legitima um fortalecimento da repressão sobre todos nós, quando, em boa verdade, os discursos de “defesa” do direito à liberdade de expressão lhe permitem limitar com maior eficácia precisamente essa liberdade. Mas o direito à expressão livre de ideias e opiniões não é um direito que alguns cidadãos possam usurpar aos seus concidadãos com uma rajada de tiros, nem é um direito que os Estados capitalistas alguma vez tenham defendido de boa vontade. É, isso sim, um direito que tais Estados negam aos trabalhadores sempre que se apresenta uma oportunidade. E é um direito do qual só desfrutamos por força da nossa luta, como temos visto ao longo de toda a História e tão claramente compreendemos, aqui em Portugal, durante a revolução de 1974 que derrubou o fascismo e conquistou o direito à livre expressão de ideias e opiniões, assim como tantos outros direitos.

O ataque à redacção do periódico Charlie Hebdo não foi, por este motivo, um “ataque à liberdade de expressão” — esses ataques só podem ser feitos pelos Estados, que têm o poder para proibir e reprimir a divulgação de ideias. O ataque de dia 7 de Janeiro foi tão somente um ataque terrorista, de intolerância obscurantista, irmão gémeo dos ataques da extrema-direita e fascistas que se tem efectuado pela Europa. Ele é resultado directo do profundo desespero e do ódio gerados pelos ataques imperialistas aos países árabes e africanos, levados a cabo pelo Estado Francês, lado-a-lado com toda a UE e os EUA, assim como pelos ataques aos imigrantes e à juventude dos bairros pobres das grandes metrópoles europeias, onde o impacto das politicas de transferência de rendimentos do trabalho para o capital, a precariedade, o desemprego e a violência policial são as causas de mais desespero e ódio, os combustíveis do terrorismo.

Tragédias como esta continuarão a desencadear-se enquanto perdurarem as guerras, as invasões e as ocupações imperialistas, enquanto perdurar a “austeridade sem fim” sobre os trabalhadores, pobres e jovens na Europa, enquanto houver quem não tem nada a perder. São essas guerras e “austeridade” que abrem a porta aos fanatismos. É por isso que a proposta de uma união de todos os partidos, desde a esquerda à direita, na defesa da “liberdade de expressão” e dos “valores europeus” não passa de uma farsa. No combate ao terrorismo, a esquerda não pode juntar-se àqueles que semeiam o terrorismo pelo mundo com as suas políticas de “austeridade” e de guerra.

A única solução para o terrorismo é, por isso, a luta por um mundo livre dos interesses mesquinhos do capitalismo, das suas guerras, da sua exploração e opressão. É a luta organizada por um mundo mais justo e fraterno, um mundo de Solidariedade e Democracia Socialista que só pode ser criado com a união dos trabalhadores e jovens que hoje se vêem entregues ao desespero, vulneráveis às ideias mais reaccionárias e fanáticas.

9 de Janeiro de 2015
Socialismo Revolucionário
Comité por uma Internacional dos Trabalhadores em Portugal