Nenhuma ilusão no PS de António Costa

Posted on 17 de Dezembro de 2014 por

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Porto: “Promover a Coesão, Descentralizar o Estado, Desenvolver as Regiões: Que desafios em Portugal e na Europa?”

Editorial do Ofensiva Socialista nº 21 

Ao longo destes últimos anos na oposição, tornou-se cada vez mais claro, que a liderança de António José Seguro era incapaz de tirar o PS do pântano em que foi deixado por José Sócrates. Uma liderança fraca e uma clara ausência de alternativa – já que o PS apoiava no essencial a política do governo, inscrita no Memorando de Entendimento – resultaram que, desde 2011, o PS nunca tenha conseguido capitalizar o descontentamento do povo trabalhador contra o governo, alcançando apenas vitórias marginais eleitoralmente. Para a classe dominante esta era uma preocupação muito real.

O candidato da classe dominante.

Para a burguesia, nacional e internacional, era preocupante que o seu outro partido, o PS, não conseguiria, nas próximas eleições legislativas, formar um governo forte o suficiente para prosseguir a sua política de empobrecimento dos trabalhadores, de privatizações e ataque à Constituição.

Neste contexto teria, por um lado, de se encontrar um novo líder para o PS e, por outro, de continuar a pressão para um Bloco Central. E esse líder seria Costa, o tristemente intitulado “Gandhi de Lisboa”, uma figura carismática, mas igualmente segura do ponto de vista dos interesses dos patrões, como demonstra o apoio unânime que reuniu entre os banqueiros.

Que alternativa?

Mas em que difere Costa de Seguro, ou mesmo, de Passos Coelho? Enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa tem defendido, exemplarmente, os interesses dos mais ricos e poderosos. Com a nova Lei das Rendas e a especulação imobiliária, a coberto de algumas obras de limpeza de fachada, Costa expulsa os moradores pobres dos bairros de Lisboa, no seu local erguem-se hostels e condomínios reservados para a elite que quer voltar ao centro da cidade. Ataca também os serviços públicos e os trabalhadores da Câmara, e prepara o terreno para a privatização dos serviços municipais, com nefastas consequências para os lisboetas pobres, que terão de pagar mais por um serviço pior.

Os antecedentes não são bons, mas que propõe Costa para o país? “Fazer com o país o que fiz com Lisboa” nas palavras do próprio. Falou em acabar com a austeridade, repor salários e pensões, mas não disse como. Mas isso também Passos dizia em 2011, antes de ser eleito. O facto é que António Costa apoia o Pacto Orçamental Europeu: o Memorando da Troika transformado em Lei europeia. Essas são as verdadeiras cores de Costa. Ele fará realmente com o país o que fez com Lisboa: governar para os ricos.

Costa e o Bloco Central.

Como dissemos, para a burguesia é essencial um novo governo forte, algo que o PS, mesmo com Costa, pode não alcançar sozinho, mesmo com maioria absoluta . Crescem as vozes, de todos os campos da direita, que apelam ao Bloco Central, a um acordo de regime, que permita “refundar” o sistema político, numa clara alusão à Constituição, que vezes de mais se tem metido no caminho da austeridade selvagem. Costa também fala num plano de longo prazo, a sua “agenda para a década” enquadrada no Pacto Orçamental e no TTIP, enquadrada portanto pelo neoliberalismo mais nefasto.

Ilusões à esquerda.

Infelizmente, assistimos a uma crescente ilusão à esquerda de que António Costa poderá governar para o povo trabalhador, acabar com a austeridade e salvar o Estado Social. Novas formações como o Livre, e outros dissidentes de direita do Bloco de Esquerda e do PCP, apressam-se a falar em “convergência à esquerda” declarando o seu apoio a Costa e disponibilizando-se para governar com ele. Mas como poderá Costa governar “à esquerda” com o apoio da banca? Como poderá acabar com a austeridade e cumprir o Pacto Orçamental? Poderá ele salvar a banca privada e os trabalhadores ao mesmo tempo? Não.

Durante anos parte da esquerda “realista” sempre caiu, sob a pressão da elite, num apoio ao “mal menor”, desistindo assim de uma real alternativa para quem só pode viver do trabalho. Que resultados teve esta política “responsável”? Nunca conseguiu fazer com que o PS governasse à esquerda, o que fez foi alimentar ilusões e descredibilizar uma real alternativa de esquerda anti-capitalista. Durante anos foram a muleta para que o PS pudesse governar mais estavelmente em prol da classe dominante. Ela agradece a ajuda.

Que unidade de esquerda precisamos? Construir uma alternativa de quem trabalha.

Para nós é bastante claro, António Costa e o PS são a outra face da moeda da representação política capitalista. Quem se considera socialista não pode, portanto, continuar a apoiar esta falsa alternativa.

É também necessário que a esquerda parlamentar e extra-parlamentar tenha uma posição clara face ao PS e ao que quer dizer com “governo de esquerda”. Não podemos continuar a alimentar ilusões perigosas. Saudamos por isso o facto de várias moções à IX Convenção do BE defenderem uma posição mais clara neste campo, assim como menores ilusões no Euro e na UE.

Pensamos ser uma tarefa urgente da esquerda a construção de uma Frente Unida dos partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais, armada com um programa socialista, e por isto saudamos também a última reunião entre BE e PCP, e esperamos que a convergência mostrada então se traduza numa proposta concreta, não só eleitoral, como de luta diária, no parlamento e, principalmente, fora dele.

Pensamos, portanto, que essa Frente não pode surgir de um acordo de cúpulas mas que seja a consequência lógica, a representação política, da unidade na acção contra este governo.

Apelamos à constituição de assembleias e comités de empresa e local de trabalho, que em ligação com os sindicatos, partidos, activistas independentes e comunidades, elabore um plano de luta para derrubar este governo, sem ilusões no PS, baseado numa clara alternativa à crise capitalista e à ditadura dos mercados.