Hong Kong: Massivos protestos anti governo após tentativa de repressão policial

Posted on 8 de Outubro de 2014 por

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30/09/2014

Raiva após violência policial inflama espontaneamente a “revolução dos guarda-chuvas” e um crescente movimento grevista

Vincent Kolo, chinaworker.info

Este foi o fim-de-semana que mudou tudo em Hong Kong. Resistência de massas nas ruas, de dia e de noite, com concentrações de 100000 e até 180000, encabeçadas pela juventude e uma semana de greve dos estudantes, forçou o não eleito governo de Hong Kong e milhares de polícias de choque a bater em retirada.

A comunicação social global, compreendendo a natureza destes eventos, apelidou-os de “embate histórico”. Com o aumento contínuo dos protestos de massas e da sua autoconfiança, o movimento de Hong Kong representa, nas palavras da Associated Press, um “enorme empurrão” contra a agenda antidemocrática do regime de Pequim em Hong Kong e na China.

A brutal investida policial de domingo, 28 de Setembro, provocou choque e raiva por toda a sociedade, a uma escala nunca antes vista. Esta é a crise política mais séria em Hong Kong desde que voltou a integrar a China, em 1997. Existem alguns elementos de uma situação pré-revolucionária, com o governo numa crise profunda de perda de controlo e autoridade. As instituições estatais – especialmente a polícia – são agora maioritariamente vistas como suspeitas e desprezíveis. A ténue “autonomia” do território como região especial da China é rejeitada como sendo falsa pela maioria da população de Hong Kong.

No entanto, este movimento vive quase em absoluto sem organizações, programa ou liderança, replicando um padrão que se tem visto noutros protestos de massas semelhantes, em todo o Mundo. Existe um grande sentimento anti partido nas manifestações, e embora os partidos democráticos burgueses da oposição continuem a emitir comunicados identificando-se com o movimento, monopolizando a maioria das entrevistas mediáticas, estes partidos estão praticamente ausentes do interior dos protestos.

Embora este modelo “espontâneo” já se tenha provado eficaz na tarefa de iniciar os movimentos nas ruas, é necessário avançar: organizar comités de greve e ocupação democráticos, e trabalhar um programa claro de reivindicações para fazer avançar a luta e derrotar a agenda antidemocrática governamental.

Uma questão crucial é a necessidade de espalhar o movimento através da fronteira, apelando aos trabalhadores e juventude na China continental para se juntarem à luta contra a ditadura de um partido (Partido Comunista Chinês, PCC). É claro que, enquanto o PCC governar, não haverá eleições livres em Hong Kong – o principal foco deste movimento – e apenas a queda deste regime abrirá essa possibilidade. Esta tarefa exige forças maiores do que aquelas existentes nas massas de Hong Kong sozinhas. Em vez de apelar ao apoio do governo dos EUA ou dos ex-mestres coloniais britânicos, como algumas organizações pan democráticas estão a fazer (para o capitalismo britânico e norte-americano, os negócios financeiros com a China serão sempre mais importantes que questões de democracia e direitos humanos), o movimento de protesto deve procurar aliados nos trabalhadores de base e na juventude na China e por todo o Mundo.

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Revolução dos Guarda-Chuvas

O movimento já foi largamente apelidado de “Revolução dos Guarda-Chuvas” na comunicação social, devido aos guarda-chuvas invertidos utilizados pelos manifestantes como proteção contra o gás lacrimogéneo e especialmente contra o gás pimenta. No domingo, 28 de Setembro, a polícia lançou onda atrás de onda de gás lacrimogéneo – 87 vezes de acordo com fontes oficiais – numa tentativa de dispersar os protestos à volta da sede do governo na Admiralty [zona comercial em Hong Kong]. Desde 1967, ainda sob o regime britânico colonial, que não se utilizava gás lacrimogéneo contra manifestantes de Hong Kong (nos protestos contra a OMC em 2005 foi utilizado, mas sobretudo contra manifestantes internacionais).

Na noite de segunda, 29 de Setembro, multidões imensas totalizando 180000 pessoas reuniram-se em três locais em Hong Kong. Algumas barricadas foram construídas em ruas principais, e na noite de domingo um apelo à ‘greve geral’ foi emitido pela Confederação de Sindicatos de Hong Kong (HKCTU, na sigla original). Embora este seja um desenvolvimento interessante – é inédito o anúncio de um greve política, algo que a secção do CIT em Hong Kong, Socialist Action, tem vindo a defender – a participação dos trabalhadores na greve, nesta fase, é algo limitada.

Estudantes universitários, a que se juntam estudantes da escola que têm sofrido grandes pressões das autoridades escolares, estenderam a sua greve de uma semana, com desfiles e concentrações numa escala nunca antes vista. Tal é a velocidade dos eventos que o principal foco das manifestações agora é a exigência de demissão do Chefe Executivo CY Leung, uma figura já odiada a que a repressão deste fim-de-semana é apenas mais um dos seus crimes.

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Papel da juventude

Esta não é uma crise apenas para a elite de Hong Kong. Através de uma brutalidade crua, na tentativa de mostrar “mão firme” contra os protestos pró-democracia, o governo – sobre pressão de Pequim e determinado em mostrar a sua lealdade – despoletou aquele que é potencialmente o maior desafio à ditadura de um quarto de século do PC chinês.

“Isto é muito maior do que aquilo que as autoridades de Pequim e Hong Kong esperavam” comentou Larry Diamond da Universidade de Stanford no New York Times. “Eles não têm uma estratégia para pacificamente desbloquear a situação, pois isso implicaria negociações, e não creio que o presidente Xi Jinping o permita”, acrescentou.

Sem surpresas, a China apertou o controlo na internet, bloqueando procuras online por palavras como “gás lacrimogéneo” e “ocupar” e banindo o Instagram, que tem sido utilizado para partilhar imagens dos protestos pela China.

É bastante significativo que este movimento tenha começado, como muitos outros por esse mundo fora, com a juventude, e especificamente com uma greve escolar que começou no dia 22 de Setembro. Durante a maior parte dos últimos 2 anos, apoiantes e estudantes membros do Socialist Action, têm defendido sozinhos uma greve escolar na cidade inteira, que pudesse despoletar greves de trabalhadores, como uma arma importante na luta por democracia. Esta perspectiva confirmou-se quase ao mínimo detalhe pelos eventos da última semana.

Os enormes protestos e ocupação de ruas evoluíram da greve escolar de uma semana, na qual cerca de 13000 estudantes universitários participaram. A estes juntaram-se 1500 alunos do secundário, alguns tão novos como 12 ou 13 anos, na sexta, 26 de Setembro. Nessa noite, um grupo de estudantes manifestantes conseguiu romper o cordão à volta da ‘Praça Cívica’ e encetou uma ocupação aí. Esta é uma usual zona de protesto público junto da sede do governo e que tem estado interdita desde Julho, em antecipação aos protestos ‘occupy’. À volta de 80 estudantes e outros manifestantes foram presos na sexta e sábado, com a polícia a utilizar gás pimenta e força. Um líder do movimento estudantil de 17 anos, Joshua Wong, esteve detido durante 40 horas, após as quais foi libertado sem queixa apresentada. Inicialmente, no entanto, a polícia acusava Wong com três queixas, entre elas “agressão a agente policial”. As detenções de activistas estudantis e a violência excessiva da polícia acenderam o rastilho para a mobilizações de massa do fim-de-semana.

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Ameaça de radicalização

No seu ponto mais alto, 120000 pessoas juntaram-se, na tarde de domingo, para protestar contra a repressão policial contra os estudantes. Mesmo após os primeiros ataques com gás lacrimogéneo na noite de domingo, cerca de 50000 permaneceram nas ruas, enfrentando a polícia de choque. Circularam rumores, posteriormente desmentidos, que a polícia se estava a preparar para utilizar balas de borracha e trazer carros blindados equipados com ‘canhões de som’ incapacitantes. Numa situação tão caótica, é complicado saber se estes rumores eram verdade ou não, possivelmente foram circulados deliberadamente, mas então o governo e a polícia hesitaram e recuaram. Estes rumores foram levados a sério pelos líderes do ‘Occupy Central’ (OC) [movimento de protesto pró-democracia], os quais deve ser dito não tiveram qualquer papel na greve estudantil ou nas mobilizações do fim-de-semana. O mais acertado será dizer que eles ‘caíram de paraquedas’ nas manifestações, tentando reclamar uma figura de liderança assim que o próprio movimento já estava desenvolvido.

Na noite de domingo, o líder do OC, Chan Kin-man, disse aos manifestantes na zona do Admiralty para recuarem. “É uma questão de vida ou morte”, disse ele. Mesmo os líderes das associações de estudantes chamaram os manifestantes a abandonar a área, algo que foi abertamente criticado por Leung Kwok-hung da Liga dos Sociais-Democratas, que disse aos manifestantes para se manterem no terreno.

Embora muitos manifestantes tenham, de facto, abandonado o local principal dos protestos, novas ocupações começaram a surgir noutras partes da cidade com cerca de 3000 pessoas a juntarem-se em Mong Kok, encerrando a Nathan Road, a principal artéria da cidade. “Occupy Mong Kok” permanece (à altura da escrita), com cerca de 30000 a juntarem-se na segunda à noite. Outros acamparam em Causeway Bay, outro bairro comercial e de negócios. Portanto, os ataques da polícia revelaram-se ineficazes em dispersar o movimento de ocupação. Em vez disso, os protestos metastizaram – em resposta às táticas policiais – em múltiplas ocupações, que representam um desafio muito maior para destruir.

Esta capacidade de aguentar aquilo que Willy Lam, um comentador liberal, descreveu como “uma grande demonstração de força” pela polícia, representa uma grande vitória para os protestos. A polícia de Hong Kong tem-se vindo a preparar – com detalhe meticuloso – durante os últimos 2 anos, desde que o OC foi inicialmente anunciado. A sua tarefa tem sido facilitada pelos contantes atrasos e protelamentos dos líderes do Occupy Central. Esta preparação transformou a polícia numa força paramilitar, encenando numerosos exercícios de preparação dos quadros policiais para serem utilizados como arma política contra a luta por democracia. Apesar disto, e da falta de coesão e organização dentro dos protestos, a investida policial falhou perante a teimosia e resistência heróica.

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O fim das ilusões

Sublinhando a profundidade da crise actual, esta é a segunda vez num mês que ilusões poderosas, alimentadas pela elite governante nas últimas décadas, pelos britânicos e depois pelos chineses, foram estilhaçadas. A primeira ocasião foi a 31 de Agosto, com a decisão não democrática do ‘falso parlamento’ chinês, o NPC, que matou as esperanças em eleições livres para próximo Chefe Executivo [da região de Hong Kong]. Desta vez, foram as ilusões na Polícia de Hong Kong – ‘a melhor da Ásia’ – que deu um golpe mortal no espaço de uma noite. Mesmo Fung Wai-wah, presidente do muito moderado Sindicato Profissional dos Professores, declarou, “a polícia fez-se ela própria inimiga do povo”.

Significativamente, um dos principais slogans cantados contra a polícia pelos manifestantes desde os ataques de domingo à noite foi “Polícia, façam greve!” Este é um apelo aos agentes para desobedecerem a ordens e levanta problemas de moral para os comandantes, que estão obrigados a repensar a sua estratégia.

A destruição das ilusões de décadas na imparcialidade do Estado, e no sagrado ‘estado de direito’  de Hong Kong, é um resultado do endurecimento da política e posição repressiva do PCC que, por sua vez, é um reflexo da crise agudizante dentro da ditadura. O PCC parece uma máquina com apenas uma ‘mudança’: repressão. Com o regime empenhado em remover em vez de instalar pequenas reformas políticas ao gosto dos liberais burgueses, as perspectivas políticas para a China encaminham-se progressivamente para uma explosão social ou uma série de explosões. Noutras palavras, em direcção a insurreições revolucionárias, um prenúncio do que actualmente se vive em Hong Kong.

Isto é mostrado muito graficamente pelo aumento da repressão estatal região ocidental de Xinjuang, de maioria muçulmana, com centenas mortos este ano em confrontos com o aparelho estatal, e uma recente decisão de banir as barbas dos autocarros, nalguns pontos da região! Na última semana, um tribunal fantoche impôs uma pena perpétua a um muçulmano Uighur, o professor Ilham Tolhi, acusado de ‘separatismo’. No entanto, Tothi é visto como um crítico moderado do regime chinês, defendendo reforma em vez de revolução.

Igualmente, em Hong Kong o regime pôs de parte qualquer negociação com os moderados líderes burgueses dos pan democratas, que estão mais que preparados para engolir a maioria das regras não democráticas de Pequim em retorno de algumas pequenas concessões.

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(Apoiantes do Socialist Action (CIT) fundaram a Campanha pela Greve Escolar na Cidade, que organiza greves entre os estudantes do secundário.)

“Um país, dois sistemas” sob pressão

Este paradigma inflexível está rapidamente a erodir a pouca tolerância ainda existente para com o regime, por exemplo em Hong Kong, onde muitos pensaram que a cidade poderia coexistir como um enclave relativamente democrático dentro da China autoritária. Os apoiantes do CIT em China e Hong Kong há muito que explicaram que tal não é possível; ou a luta por democracia se estende à China – com a chama inicial a vir, possivelmente, dos protestos de Hong Kong – resultando na queda da ditadura, ou a ditadura tentará progressivamente encerrar o espaço democrático de Hong Kong. Esta é a dinâmica que hoje vivemos.

Uma sondagem recente no South China Morning Post publicada antes do movimento de massas actual, mostrou que 53% da população em Hong Kong não tem confiança na fórmula “um país, dois sistemas” (permitindo um grau de autonomia a Hong Kong) comparados com 37% contra. Este resultado contrasta com os 76% que acreditavam nesta fórmula, em 2007. Como já demos conta noutros artigos, o sentimento ‘separatista’ e de apoio à independência da China aumentará inevitavelmente, como resposta às políticas ditatoriais presentes.

Mas Pequim, especialmente com Xi Jinping, teme a perda de controlo – na China e não só em Hong Kong – caso permita sequer que uma janela se abra em direcção a ‘eleições livres’ no chamado modelo ocidental. Não pretende apenas suspender o processo democrático na cidade, mas quer revertê-lo, impondo maior controlo político sobre a cidade.

A decisão do NPC em Agosto é apenas um elemento de um plano que pretende enjaular a luta pró-democracia em Hong Kong. Além de militarizar a polícia e aumentar o controlo nos media locais, este plano inclui reduzir os poderes da legislatura fantoche de Hong Kong, nomeadamente no que respeita ao Orçamento, para o próximo Chefe Executivo ‘eleito pelo povo’ segundo o modelo eleitoral de farsa. É este projecto de aproximar Hong Kong do autoritarismo que embateu contra a oposição de massas dos últimos dias.

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Apoio massivo

O plano do governo para quebrar e desacreditar o OC, e desse modo libertar-se da onda de protestos contra as propostas eleitorais não democráticas de Pequim, desfez-se em pedaços. Apesar da propaganda massiva contra a ocupação, e anúncios sobre “caos” e “violência”, é evidente qual o lado que ganhou a batalha pela opinião pública.

O South China Morning Post relatou que trabalhadores de escritório apoiaram os ocupas na Causeway Bay. Este jornal citou um contabilista que afirmou que o governo tinha “subestimado o poder do povo”. Existem vários relatos de transeuntes trazerem comida e água em apoio.

A grande concentração na noite de segunda e os cânticos massivos de “Abaixo CY Leung” mostram onde o movimento está actualmente. Os primeiros indícios da classe trabalhadora, que até agora ainda não entrou no movimento pró-democracia como uma força organizada e independente, deve ser o desenvolvimento mais significativo para os socialistas. Embora a resposta ao apelo à greve tenha sido misto, refletindo a fraqueza numérica dos sindicatos em Hong Kong ao longo de um período histórico longo, alguns sectores param o trabalho em resposta à repressão policial. Entre estes incluem 200 trabalhadores da fábrica da Coca Cola de Sha Tin, trabalhadores de abastecimento de água, motoristas de autocarros, bancários e professores.

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Occupy Central ultrapassado

Nesta luta, o movimento já com 2 anos ‘Occupy Central’ não passa de uma nota de rodapé, um plano que nunca foi posto em prática e que, desde então, foi varrido para o lado pela ‘revolução dos guarda-chuvas’ improvisada pela base. Como apontámos no passado em crítica aos líderes do OC, a sua visão foi sempre de um protesto simbólico e pequeno, de apenas 10000 participantes, havendo declarações contra a participação de jovens na ocupação. Cada aspeto do seu plano ressoava a medo de ‘ações radicais’ e de espontaneidade. A realidade encarregou-se de virar isto tudo do avesso.

Enquanto alguns sectores dos media capitalistas – e é fácil entender o porquê – continuam a apresentar os líderes do OC como iniciadores do movimento de massas actual, isto não é o que se passou na realidade. O movimento actual desenvolveu-se completamente à parte dos líderes do OC que apenas ficaram na berma, não desempenhando qualquer papel na greve estudantil ou na primeira vaga de protestos contra a repressão policial Esta situação apenas se alterou na manhã de domingo, 28 de Setembro, quando o movimento de massas estava a todo o gás e os líderes do OC tiveram de ‘correr atrás do prejuízo’. Como o Socialist Action explicou no início do Occupy Central em 2013, embora apoiando o apelo a uma ocupação de massas, o OC era também uma tentativa dos líderes pan democratas ‘moderados’ de reconstruir a sua autoridade dentro da luta pró-democracia, em particular entre a juventude e muitos activistas, e posicionarem-se assim à cabeça da luta pela reforma eleitoral. Embora a ideia de ocupação correspondesse com o sentimento popular de lutas mais radicalizadas para atingir a democracia, o objectivo dos pan democratas era utilizar o OC como marca para bloquear iniciativas mais radicais construídas pela base. Os ‘moderados’ que são politicamente próximos dos líderes do OC e que, ainda no último mês, procuravam um compromisso com Pequim, sofreram perdas eleitorais significativas para candidatos pró-democracia mais radicais, nos anos recentes, como resultado das suas traições e compromissos podres com a ditadura, em particular durante a última ronda de reformas eleitorais em 2010.

“Os líderes do OC hesitaram e atrasaram demasiadas vezes”, diz Sally Tang Mei-ching do Socialist Action, “Quando Benny Tai Yiu-ting [líder do OC] surgiu nos protestos de estudantes, após dois dias de enfrentamento com a polícia, anunciando o início do Occupy Central, muitas pessoas vaiaram-no e deixaram o local”.

Em praticamente todas as questões – oportunidade, estratégia, composição, para não falar no programa ‘moderado’ muito limitado, os líderes do OC têm estado desfasados da realidade e do sentimento das massas. Mesmo a sua escolha inicial de local foi ultrapassada pelo movimento actual. Este movimento é mais um ‘Occupy Decentral’ [Ocupar a periferia] – conscientemente adotando uma tática de dispersão para contornar a atuação da polícia. O movimento actual emergiu desde a base, a partir dos manifestantes que sofreram a brutalidade policial, do que de líderes autoproclamados.

O Socialist Action enfatizou o que era necessário mas, infelizmente continua a faltar, é uma liderança eleita democraticamente para os protestos de massas, um comité de ação para decidir estratégia e táticas, aberto a todos os grupos, partidos e sindicatos, mas sem que nenhum grupo os tente monopolizar.

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Uma nova Tiananmen?

Os eventos deste fim-de-semana trouxeram à memória de muitos as lutas pró-democracia na China em 1989, e a repressão brutal que se seguiu. Em artigos anteriores, olhámos para a questão de quão longe o regime chinês estaria preparado para ir para bloquear as exigências por eleições livres em Hong Kong. Existe uma luta explosiva e aguda pelo poder dentro da ditadura de partido único (PCC). Xi Jinping não pode surgir fraco ou mostrar-se incapaz com a crise em Hong Kong. Tal poderia despoletar um contra-ataque à posição de Xi dos ‘interesses escondidos’ e oficiais que foram purgados nos últimos dois anos.

Ao mesmo tempo, a concentração de cada vez mais poder nas mãos de Xi, um afastamento da ditadura ‘em grupo’ dos últimos 30 anos, colocará inevitavelmente a culpa nele próprio – sem ninguém onde se esconder – quando situações como a actual de Hong Kong ocorrerem. Hong Kong constitui actualmente um grande dilema para Xi e para as suas tentativas de consolidar o poder dentro do próprio regime. Como Edward Wong e Chris Buckley apontam no New York Times: “…mesmo pequenas concessões [aos manifestantes] podem enviar sinais através da fronteira de que o protesto de massas traz resultados – uma mostra de fraqueza que o Sr. Xi, um líder que se apresenta sempre com uma autoconfiança imperturbável, está determinado em evitar. E pequenas concessões não provavelmente não conterão uma boa parte dos manifestantes que têm enchido as ruas.”

Na sua decisão de Agosto, o PCC desafiou as massas, pondo de parte até as exigências mínimas dos ‘moderados’ pan democratas e planeando conter ou mesmo quebrar o desafio que vinha da tímida liderança do OC. No entanto, como vimos, e como os socialistas avisaram da crescente possibilidade, em parte devida à intransigência de Pequim, o movimento actual surgiu apesar dos líderes ‘moderados’.

A primeira tentativa de repressão em massa – à semelhança das primeiras granadas de gás lacrimogéneo – fez ricochete e atingiu o governo. Esta situação forçou CY Leung e as autoridades locais a ficar na defensiva por agora. Na segunda, como relata o Financial Times, o governo anunciou a remoção da polícia de choque das ruas (embora isto seja apenas parcialmente verdade).

Na segunda de manhã cedo, os ‘polícias bons’ do departamento de relações públicas da polícia foram enviados para negociar com os manifestantes, pedindo ‘gentilmente’ se as ruas poderiam ser abertas ao trânsito, como se nada tivesse acontecido na noite anterior! Nas ocupações de Mong Kok e Causeway Bay não existe presença policial neste momento, enquanto no complexo governamental na Admiralty, os manifestantes continuam a enfrentar linhas de polícia.

Mesmo o grandioso fogo-de-artifício no porto de Hong Kong para celebrar o 65º aniversário da fundação da República Popular da China, a 1 de Outubro, foi cancelado devido ao medo dos protestos. Isto é apenas um prenúncio de como a crise política actual em Hong Kong poderá fazer ricochete em Xi Jinping e perfurar a imagem triunfante que ele tenta promover.

O chinês Global Times, um ‘megafone’ do governo, publicou um editorial em inglês que dizia, “os activistas radicais estão condenados”. No site do jornal em chinês, um artigo que afirmava que a Polícia Armada do Povo, a força antiterrorista e antimotim chinesa, poderia ser utilizada em apoio à polícia de Hong Kong para quebrar os protestos. “Apoio das forças armadas poderá rapidamente restaurar a normalidade” em Hong Kong. Que tal discurso esteja a ser desencorajado no tempo presente, indica que mesmo Pequim – onde existe um desfasamento das realidades no terreno, não apenas mas especialmente em Hong Kong – existe agora o reconhecimento que uma crise política explosiva foi criada e precisa de ser lidada com cuidado.

Mesmo s 5000 operacionais das forças armadas estacionadas em Hong Kong poderiam não ser suficientes para restaurar a ordem, ou seja, desferir o golpe decisivo contra os protestos, especialmente com o carácter cada vez mais descentralizado do movimento. Introduzir tropas chinesas inflamaria ainda mais a situação. Para o regime chinês e o establishment capitalista de Hong Kong, estes operacionais são mais úteis como uma ameaça do que como uma intenção séria de serem utilizados.

Tal não significa que estas tropas não serão nunca utilizadas, incluindo reforços do outro lado da fronteira, na eventualidade de uma crise e cisões dentro do aparelho repressivo. No curto prazo, isso é muito improvável. A tática do governo nos próximos dias, como aconteceu durante o ‘movimento girassol’ no início deste ano em Taiwan, será utilizar mercenários e ‘grupos de voluntários’ pró-PCC como provocadores que desencadearão conflitos que poderão ser utilizados para desacreditar o movimento e dar um pretexto à polícia de o reprimir.

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“Abaixo com o CY!”

Embora a situação apresente variações muito rápidas e acentuadas e possíveis mudanças, parece que o regime irá refrear-se de lançar nova onda repressiva, e provavelmente oferecer concessões, talvez sacrificar um oficial impopular (como já fez no passado), por forma a comprar tempo e a crise passar.

Não pode ser excluída a possibilidade de CY ser obrigado a renunciar para restaurar a ‘normalidade’ em Hong Kong, embora a sua saída devido ao protesto de massas traga um custo bastante acentuado para o regime chinês e de Hong Kong. Fará aumentar a confiança do movimento pró-democracia e consolidar a ideia da resistência audaciosa de massas traz resultados. A exigência de demissão de CY é agora o foco e exigência central do movimento. Mesmo os líderes do OC exigiram a demissão do Chefe Executivo, refletindo a pressão da base. Na segunda à noite, CY afirmou em comunicado que ele não irá “comprometer” – mas à medida que a crise se arrasta e com a pressão a acumular-se, cisões acontecerão do lado do governo.

O Socialist Action tem estado activo durante todo o movimento e tem desempenhado um papel importante em organizar as greves nos estudantes do secundário através da Campanha por uma Greve Estudantil na Cidade. O Socialist Action tem vindo a explicar que uma democracia genuína só conseguirá ser alcançada juntando os protestos de massas em Hong Kong com as previsíveis insurreições revolucionárias na China, onde a gigantesca classe operária é a força mais importante para mudar a sociedade e derrotar a ditadura. A luta por democracia real não pode ser ganha dentro dos limites do capitalismo que, em todo o lado incluindo nas ‘democracias ocidentais’ tão apoiadas pelos líderes pan democratas, significa o controlo da política por bilionários e grandes corporações que não foram eleitos. Capitalismo significa ditadura, seja por regimes autoritários seja por mercados financeiros. A nossa alternativa é uma sociedade socialista e uma economia gerida e planeada democraticamente que consiga eliminar os níveis crescentes de pobreza, a miséria da habitação, o desemprego e a precariedade.

Dentro do actual movimento, o Socialist Action defende a criação de um partido das massas trabalhadores em Hong Kong e também na China, que ligue exigências democráticas revolucionárias com a necessidade por uma clara alternativa socialista.

  • Solidariedade com a ‘revolução dos guarda-chuvas’ de Hong Kong de desobediência civil em massa, greves e ocupações!
  • Alargar o movimento grevista! Pela construção de sindicatos e comités de greve democráticos de trabalhadores e estudantes.
  • Por imediata e completa democracia em Hong Kong e na China! Abaixo a ditadura de partido único do PCC!
  • Derrube de CY Leung e o seu governo não eleito!
  • Não à repressão – não a um novo Tiananmen!

O site do Socialist Action, CIT na China, Hong Kong e Taiwan http://chinaworker.info/