A Necessidade de um Partido Revolucionário

Posted on 22 de Março de 2014 por

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OS18 - Partido

Construção e tarefas da organização política da classe trabalhadora

Nos tempos sombrios de crise estrutural do sistema capitalista, milhões de trabalhadores procuram alternativas políticas e sociais que sejam capazes de dar resposta aos seus problemas concretos – desemprego, pagamento da renda ou empréstimo ao banco, abandono dos estudos ou a uma escolha forçosa entre alimentação e medicação.

Uma das principais tarefas dos militantes e activistas marxistas é a de organizar e construir, com essas camadas da população, alternativas políticas ao sistema de exploração assalariada. Nesse sentido, hoje, como sempre, um partido revolucionário assume uma importância fulcral como ferramenta organizativa da classe trabalhadora.

Organização para quê?

Bastante influenciada pelos movimentos Occupy e Indignados que surgiram em resposta ao crash bancário e à crise do subprime, popularizou-se a ideia da transformação da sociedade através de movimentos inorgânicos e espontâneos. Ao mesmo tempo, alimentou-se o preconceito contra os partidos, sindicatos e todo o tipo de estruturas com “líderes” ou representantes, sendo que uma parte desse sentimento se deveu, precisamente, à incapacidade de uma resposta mobilizadora por parte dos partidos tradicionais de trabalhadores e, também, à prática de corrupção generalizada dos políticos pró-capitalistas.

Portugal não fugiu a esse sentimento global, o que levou ao aparecimento de variados movimentos inorgânicos, tipicamente anti-sistema, e cuja única forma de decisão e discussão é através de assembleias. As limitações deste tipo de movimentos têm sido demonstradas nos últimos 2 anos: as mobilizações estão demasiado dependentes do momento político, há o envolvimento de um número reduzido de activistas na construção das acções directas – maioritariamente acções “mediáticas” – com reduzida eficácia na politização das massas. A própria natureza destes movimentos leva, regra geral, por um lado, à incapacidade de apresentar uma alternativa política por parte do movimento e, por outro, à incapacidade de articular um plano de luta consequente.

Como ultrapassar estas limitações?

Um partido revolucionário é fundamental para responder à necessidade de uma alternativa política ao sistema capitalista. Este deve basear-se na democracia de base, reunir periodicamente os seus militantes para discussão da situação política actual e teoria marxista e deve, também, organizar os seus militantes para participarem activamente nas lutas dos trabalhadores, junto dos sindicatos e dos movimentos sociais.

O funcionamento através de células locais possibilita a discussão e aprendizagem de forma consistente, preparando os militantes para analisar e intervir sobre a realidade, pois, como dizia Marx, não basta compreender o mundo, é preciso transformá-lo.

A democracia dentro do partido só se constrói com debate, pelo que é importantíssima a responsabilização de cada célula na tentativa de envolver os seus militantes ao máximo nas discussões. Assim, existirá maior preparação e unidade nas campanhas e acções directas que forem desenvolvidas.

Um ponto fulcral de qualquer organização revolucionária, que por vezes é esquecido, é a revogabilidade, a qualquer momento, de militantes que sejam representantes dos seus camaradas. Os funcionários de um partido (bem como representantes públicos eleitos), a existirem, não podem auferir um salário superior ao de um trabalhador médio e não podem ter nenhum privilégio. Desta forma, garante-se uma maior responsabilização do representante e uma maior ligação à realidade da classe trabalhadora.

O CIT – Comité por uma Internacional dos Trabalhadores – aplica o método acima descrito em todo o mundo, tentando estar à altura das situações objectivas que vão sendo criadas pela crise capitalista e intervindo nelas, como aconteceu recentemente em Seattle, EUA, e na África do Sul.

Seattle: uma vitória da organização

Recentemente, o Socialist Alternative (CIT nos EUA) elegeu Kshama Sawant para representante na Câmara de Seattle. Como consequência imediata da eleição desta socialista revolucionária, já foi aplicado o salário mínimo de $15/hora no Município de Seattle.

Esta vitória histórica para a esquerda nos EUA é reflexo directo da capacidade de organização e preparação política que esta pequena secção possui e foi capaz de pôr em prática. A campanha eleitoral foi construída na rua, porta a porta, respondendo aos problemas mais prementes da população. O Socialist Alternative foi capaz de popularizar e organizar uma campanha para a duplicação do salário mínimo naquela cidade norte-americana (www.15now.org), o que chamou à atenção para esta pequena secção e permitiu ganhar a confiança da classe trabalhadora local para a eleição. Recusando o apoio financeiro de qualquer grande corporação e baseando-se no voluntariado dos seus militantes e de activistas locais, esta campanha mostra indiscutivelmente a vantagem e a necessidade de se estar organizado num partido ou movimento revolucionário com ideias claras e bem estruturadas.

WASP: o Partido forjado na Luta

No seguimento da onda grevista dos mineiros na África do Sul, em 2012, que foi recebida com extrema violência pelo regime e que resultou no massacre de Marikana, surgiu o Workers And Socialist Party (Partido Socialista e dos Trabalhadores) – WASP.

Os nossos camaradas do Democratic Socialist Movement (CIT na África do Sul) tiveram um papel determinante na organização dos piquetes de greve em toda a região mineira de Rustenburg. As contradições gritantes do regime do ANC – African National Congress –, e dos sindicatos traidores a ele ligados, abriram a possibilidade à criação de um novo partido de massas dos trabalhadores, independente dos grandes magnatas sul-africanos e dos líderes sindicais carreiristas.

É por esse mesmo motivo que não é um eufemismo afirmar que o WASP foi forjado na luta, nos poços das minas, em resposta à falta de voz da classe operária sul-africana, ainda refém de um apartheid económico que relega a larga maioria dos negros a condições de perfeita miséria e fome.

Uma pequena secção, de não mais de 30 militantes, activos, determinados e bem organizados politicamente, esteve à altura das condições objectivas que esta onda grevista apresentou. Além disso, soube dar uma perspectiva mais alargada à justa luta dos mineiros, que rapidamente perceberam que a melhoria da qualidade de vida só virá quando existir uma organização de massas que os represente: um partido revolucionário.

O lançamento do WASP mostrou bem a necessidade que os trabalhadores e pobres sul-africanos tinham em ver as suas reivindicações ouvidas. No primeiro lançamento, onde se esperavam 500 pessoas, 5000 compareceram. Recentemente, o maior sindicato metalúrgico do país, desfiliando-se do ANC, defende a necessidade de um novo partido revolucionário dos trabalhadores.

A classe trabalhadora da África do Sul vive um período histórico, durante o qual a capacidade combinada de análise política e de acção prática que um partido revolucionário possui fará toda a diferença na defesa dos seus interesses.

Em suma, o apelo que o CIT deixa parafraseia-se na necessidade de organização: seja ela no bairro, na escola, no local de trabalho ou nas colectividades. Apela também à necessidade de um partido revolucionário de massas que seja capaz de ligar as diferentes lutas, combatendo ao lado do proletariado pela sua emancipação e pela tomada do Poder.