A ofensiva neoliberal continua. “Recuperação” para quem?

Posted on 17 de Março de 2014 por

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Quem

Editorial do Ofensiva Socialista nº18 – Janeiro/Fevereiro 2014

Apesar de toda a conversa de “recuperação” por parte do governo e das instituições que compõem a Troika, sobre o abrandamento da queda do consumo e do desemprego, sobre o milagre económico, a realidade do povo trabalhador (com ou sem emprego), dos estudantes e dos reformados, é outra. A “recuperação” é real apenas para os 870 novos milionários em Portugal, ou como foi manchete mundial nos últimos dias, para os 1% da população mundial que controlam 50% da riqueza no mundo. Quanto à saída da crise, e a despedida da Troika, não passam de propaganda política de um governo assassino em fim de mandato, pois mesmo segundo Durão Barroso “não podemos dizer que saímos da crise”. Os juros da dívida continuam instáveis, a dívida não pára de crescer, assim como o desemprego e a pobreza. A Troika, seja com 2º Resgate, Programa Cautelar ou outra coisa qualquer (deixemos que a classe dominante lhe chame o que quiser), continuará a ditar os destinos e a política em Portugal, Irlanda, Espanha ou Grécia durante décadas. Como noticiou o Público, em Dezembro passado, estaremos sob “vigilância” nos próximos 22 anos!

Depois temos o saque ininterrupto às empresas do Estado, uma das mais importantes conquistas de Abril. Os CTT venderam 70% do seu Capital, sendo o principal comprador a Goldman Sachs (um dos principais obreiros da crise capitalista), os Estaleiros de Viana do Castelo serão entregues à Martifer, num negócio em que cada português irá pagar entre 2,18€ e 46,28€ (!) para que este sector-chave seja entregue ao lucro privado e centenas de operários sejam despedidos. E claro, os trabalhadores precários, com o mais recente caso de despedimentos de enfermeiros da linha Saúde 24, porque ousaram resistir. Portanto, quando nos falam em “recuperação”, temos de perguntar: para quem?!

O isolamento das lutas e a incapacidade das actuais lideranças de organizar a luta que é preciso.

Este não é, ao contrário do que muitas vezes se tenta passar nos media capitalistas, um processo pacífico. Os operários e a população de Viana do Castelo resistem, os trabalhadores dos CTT têm estado num processo de luta intenso, e até nas condições de extrema vulnerabilidade, os enfermeiros da Linha Saúde 24 têm dado um exemplo de heroísmo. Como eles, muitos outros, milhares, centenas de milhares, lutam todos os dias contra esta política de retrocesso histórico que o capitalismo mundial impõe por todo o mundo.

No entanto, as lutas heróicas que têm feito estão isoladas, a pouco e pouco (mas a uma velocidade assustadora) vão sendo derrotadas e o governo continua ao ataque. Pensamos que esta situação é da principal responsabilidade das lideranças sindicais e da Esquerda Parlamentar.

Continuar a deixar os milhares de lutas que se fazem país a fora neste isolamento, organizando apenas protesto esporádicos e simbólicos, quando se diz que é imperativo derrubar o governo, é contraditório. Se as actuais lideranças sindicais se recusam a organizar a luta que é preciso para alcançar os objectivos que diz querer alcançar, então elas não servem, e todos aqueles que lutam todos os dias devem-se colocar esta questão, e lutar por uma liderança que realmente lute para vencer.

Quanto aos dois maiores partidos da Esquerda, PCP e BE, continuam a centrar a sua actividade em volta do Parlamento, subjugando toda a sua acção a isso. Dizemos que não é com propostas de lei sistematicamente chumbadas e com comissões parlamentares que vão salvar os Estaleiros de Viana. O parlamento deve ser, para a esquerda que se diz revolucionária, uma plataforma para as lutas que se travam fora dele, deve servir para fortalecê-las. Perguntamos porque se continua a deixar os operários de Viana isolados? Numa luta que claramente tem um apoio popular massivo, e não só em Viana do Castelo, porque não se avança para a ocupação dos Estaleiros, baseado numa campanha de solidariedade e nível nacional e até internacional? Onde, aí sim, os deputados da Esquerda desempenhariam um papel importante de construção de tal campanha. A alternativa? Os trabalhadores portugueses pagarão à Martifer para despedir centenas de operários!

Organizar o contra-ataque. Unificar as lutas. Derrubar o Governo e a Troika.

Temos então de organizar o contra-ataque, pois a Troika e a sua política estão para ficar, temos de unificar todas estas lutas isoladas num movimento amplo e contínuo, que se fortaleça a cada passo que dá. Neste sentido o papel dos activistas sindicais, partidários e sociais é central.

Temos de criar formas daqueles que pensam que é preciso fazer mais se ligarem e devemos aprender com a enorme experiência de todo o Movimento Trabalhista. De Inglaterra chega-nos um exemplo, onde se criou e constrói uma Rede Nacional de Delegados Sindicais, que tentam ligar as lutas e pressionar as lideranças nacionais, ainda ligadas ao Partido Trabalhista neoliberal (da mesma bancada do PS), a darem os passos necessários, ou a sair da frente.

É isso que o Socialismo Revolucionário se propõe fazer. Neste momento, achamos que é essencial unificar as lutas à volta de um Plano de Luta que seja capaz de derrubar o governo, expulsar a Troika e lutar por um governo de quem trabalha. Um plano que cresça a cada acção e que se construa através de assembleias em cada local de trabalho, comunidade, escola, etc. Abertas a todos, trabalhadores, desempregados, estudantes e reformados. Ao contrário do que diz o líder da UGT Carlos Silva que “Não é com greves todos os dias que se resolvem os problemas”, achamos que não é com uma venda sistemática dos interesses dos trabalhadores na “Concertação Social” que se derrotará esta política, este governo e este sistema. Que num quadro em que o governo tem maioria no parlamento, com um Presidente que o apoia e com um PS tão responsável pela actual situação como o próprio governo, e que apenas age pensando em votos, só uma luta que torna a governação impossível para estes “senhores” conseguirá vencer. E apesar de a Greve não ser a única arma ao nosso dispor, ela é essencial. Um tal Plano de Luta deve incluir greves e greves gerais mais prolongadas, que parem o país! Esse plano só é possível se os trabalhadores voltarem a construir ferramentas históricas da sua luta, como os fundos de greve e a greve política e solidária. A alternativa será a continuação desta política nas próximas décadas, e isso é algo que nos recusamos a aceitar.