Ianukovitch deposto – Regime de direita e pró-ocidental consolida o poder

(Da esquerda para a direita:  Oleh Tyahnybok, líder do Svoboda, Arseniy Yatsenyuk, Partido da Pátria e Vitali Klitschko, Udar)

Artigo de Niall Mulholland, CIT de 25/02/2014
Os últimos desenvolvimentos na Ucrânia levaram à queda do presidente Viktor Ianukovitch e à sua fuga de Kiev. Descontentamento em massa contra um regime brutal e corrupto e contra a pobreza extrema explodiram numa revolta em Kiev e várias regiões da Ucrânia, em Novembro passado.Mas a falta de alternativa da classe trabalhadora permitiu às forças reaccionárias, com apoio imperialista ocidental, dominar o movimento de protesto. Enquanto o novo regime pró-ocidental se consolida, acentuam-se perigosas divisões étnicas entre a população de 46 milhões de pessoas.

Após confrontos sangrentos entre manifestantes e polícia no centro de Kiev, que levaram à morte de 80 pessoas e causaram centenas de feridos, entre 18 e 21 de Fevereiro, líderes da Alemanha, França e Polónia negociaram um acordo com o regime em queda de Ianukovitch. O acordo, mediado pela UE, previa a formação de um governo de “unidade nacional”, com eleições presidenciais e legislativas em Novembro e reinstauração da Constituição de 2004, que retiraria alguns poderes chave ao presidente.

Mas o acordo rapidamente colapsou quando a oposição de direita, que inclui ultra-nacionalistas e elementos fascistas, passou à ofensiva e ganhou vantagem. O parlamento destituiu Ianukovitch e nomeou as figuras do Partido da Pátria, Arsen Avakov e Oleksandr Turchynov, como Ministro do Interior e Presidente da Rada (parlamento). Turchynov, um aliado próximo da ex-primeira ministra Yulia Tymosehnko, que o parlamento libertou da prisão a 22 de Fevereiro, é também o Presidente em funções. Turchynov está a tentar formar um governo de coligação esta semana e anunciou que eleições presidenciais serão realizadas a 25 de Maio. Foram emitidos mandatos de captura contra Ianukovitch e outros ex-ministros.

Até deputados do Partido das Regiões, de Ianukovitch, votaram a favor destas medidas, tentando distanciar-se do regime deposto. O líder parlamentar do Partido das Regiões condenou o presidente deposto por ter dado “ordens criminosas”. Os poderosos oligarcas, que até agora eram aliados próximos de Ianukovitch, e que viam a aliança deste com a Rússia como seu interesse, passaram  oportunisticamente a apoiar o novo regime.

A furiosa reacção do Kremlin

O Kremlin reagiu furiosamente a estes eventos e denunciou o que considera um “golpe” apoiado pelo ocidente e liderado por “extremistas armados e pógromos” ( de pogrom, massacres de judeus comuns na área no tempo do império russo – NdT). A queda de Ianukovitch representa um sério revés para o regime de Putin, que considera a Ucrânia estrategicamente vital.

O Kremlin tem feito grandes esforços para agrupar os seus vizinhos numa aliança política e económica. Em Novembro último, Moscovo aceitou emprestar um pacote de $15 mil milhões a Kiev após a rejeição de Ianukovitch do “acordo de associação” com a UE. Isto intensificou a luta internacional entre potências imperialistas pela influência na Ucrânia, que também é um território de importância geo-estratégica para os EUA e a Nato.

O acordo rejeitado inflamou os protestos da oposição na Praça Maidan, centro de Kiev, que no início eram principalmente compostos por pessoas de classe média e estudantes. Muitos têm a ilusão de que uma aproximação à UE trará prosperidade e direitos democráticos, apesar de este acordo de Novembro estar ligado a um pacote de austeridade do FMI, que Ianukovitch temeu, e bem, que desencadeasse protestos de massas.

Foi a brutalidade da polícia de choque que levou ao aumento do número de manifestantes nas ruas em Kiev, Lviv e um pouco por toda a região oeste do país, onde se fala ucraniano. A agitação contra o cancelamento deste acordo depressa se tornou em raiva massiva contra a pobreza, estagnação económica e o regime autoritário, incompetente e corrupto de Ianukovitch.

Enquanto os trabalhadores empobrecem cada vez mais, Ianukovitch e a “família” de companheiros que lhe são próximos tem enriquecido. Chegaram a haver até protestos anti-regime nas zonas industrializadas, de origem russa do este ucraniano, que são a base política de Ianukovitch.

O regime corrupto mostrou rapidamente ter pouco apoio popular. Isto foi sublinhado quando os manifestantes invadiram a residência de Ianukovitch e expuseram o seu estilo de vida opulento (embora os media ocidentais escolheram não mostrar o mesmo para os oligarcas e políticos pró-ocidentais).

Mas na ausência de organizações fortes dos trabalhadores foi impossível de canalizar esta oposição em massa a Ianukovitch por um movimento de massas unido de toda a classe a trabalhadora da Ucrânia, que erradicaria todas as divisões étnicas, religiosas e de idioma. Embora muitos trabalhadores em nome individual tenham ido para as ruas, a revolta – na raíz, contra o regime corrupto de Ianukovitch e a liderança dos oligarcas – não foi liderada pela classe trabalhadora, actuando como uma classe por si. A maioria opunha-se ao regime e oligarcas mas foi largamente passiva. A classe trabalhadora não deixou a sua marca nos acontecimento de forma independente e organizada.

Forças reaccionárias

Em vez disso, as forças reaccionárias foram capazes de preencher o vazio, desde o início, com apoio ocidental, e cinicamente manipular as massas. Os políticos da oposição de direita e pró-capitalistas, como Vitali Klitschko, ex-campeão de boxe, e Arseniy Yatseniuk, ligado ao Partido da Pátria, tomaram a liderança.

Aliaram-se aos ultra-nacionalistas, extrema-direita e neo-fascistas. Durante os últimos três meses, o partido anti-semítico Svoboda e o Sector Direita desempenharam um papel chave em orquestrar a luta de rua e ocupação de edifícios governamentais. O novo ministro do interior afirmou que as “forças de auto-defesa” do Maidan serão incorporadas nas novas estruturas do regime. Líderes do Svoboda esperam ter pastas no novo regime. A decisão provocatória do parlamento de reduzir o estatuto da língua russa levou a mais apelos à secessão nas regiões do este e sul da Ucrânia, que falam russo. Milhares protestaram em Sebastopol, na Crimeia, uma base naval crucial para a Frota do Mar Negro russa, agitando bandeiras russas. Votou-se a constituição de uma “administração paralela” e “esquadrões de auto-defesa”.

Durante o fim-de-semana, Susan Rice, a consultora de segurança nacional dos EUA, avisou Putin que seria um “erro grave” a Rússia intervir militarmente. O líder do comando militar da Nato na Europa conversou com o General das Forças Armadas russo a 24 de Fevereiro, para tentar acalmar as tensões existentes.

Moscovo tem encorajado os líderes regionais do leste ucraniano a oporem-se à liderança de Kiev e terem maior “autonomia”. Resta ver até onde este processo irá mas se existirem suficientes regiões a separarem-se, o regime de Putin pode muito bem ter uma intervenção armada.

A competição entre oligarcas e a intromissão agressiva dos imperialismos russo e ocidental empurraram  perigosamente a Ucrânia para um processo de desintegração, se não mesmo partição sangrenta ou “cantonização”.

A Ucrânia enfrenta a bancarrota

A influência económica de Putin sobre Kiev mantém-se poderosa. Mais de metade das exportações ucranianas vão para a Rússia e é o gás russo que fornece a Ucrânia. O regime de Moscovo pode muito bem causar grandes dificuldades aos ucranianos ao revogar um corte de 30% nos preços do gás.

Nem Bruxelas, com apoio dos EUA, nem Moscovo e os seus oligarcas, actuam a favor dos interesses dos trabalhadores na Ucrânia. Seja Ianukovitch ou o regime pró-ocidental no poder em Kiev, actuam para defender os interesses dos super-ricos, incluindo aplicar medidas de austeridade aos ucranianos.

Com a Rússia pronta para congelar o resgaste de $15 mil milhões à Ucrânia, os líderes ocidentais negoceiam um “acordo de resgate” financeiro para salvar o país da bancarrota. O novo regime de Kiev diz que precisa de $35 mil milhões ao longo de um período de dois anos para impedir a economia “de cair no abismo”. O crescimento económico em 2013 foi nulo e a moeda, o hryvnia, perdeu mais de 8% do seu valor em três meses.

O Financial Times noticiou que a UE e EUA deixaram claro que “nenhum resgate seria acordado sem que o novo governo estivesse disposto a implementar reformas económicas”. Jack Lew, secretário do tesouro norte-americano, enfatizou a necessidade de “implementar reformas que pudessem ser apoiadas por um programa do FMI” (sinónimo de austeridade e privatização).

Um ponto interessante das últimas semanas foi que, apesar da divisão étnica, todos os trabalhadores expressaram uma forte oposição à elite política e seus oligarcas. Os trabalhadores por todo o país querem o fim dos regimes-mafia e da oligarquia e almejam a uma sociedade diferente, onde possam ter direitos democráticos e condições de vida decentes.

A líder da oposição, Julia Tymoshenko, foi “recebida respeitosamente mas longe de euforias” de acordo com um repórter do Guardian, com esta se dirigiu à multidão na Praça Maidan, após a sua libertação da prisão-hospital Kharkiv. Muitos ucranianos lembram-se bem que Tymoshenko, a heroína da “Revolução Laranja” de 2004, tornou-se primeira-ministra de um regime corrupto que efectuou cortes às suas já baixas condições de vida.

O novo regime enfrentará a classe trabalhadora

Os novos líderes capitalistas pró-ocidentais esperam uma lua-de-mel mas, mais cedo ou mais tarde, entrarão em colisão com os interesses da classe trabalhadora ucraniana. A crise dos últimos meses mostra a necessidade urgente dos trabalhadores construírem as suas próprias organizações, incluindo sindicatos genuinamente independentes. Este processo tem se revelado difícil e demorado. Não é surpreendente, dadas as décadas de liderança estalinista, que nunca apoiaram a auto-organização genuína da classe trabalhadora, seguido do colapso da ex-URSS e a “terapia de choque” de restauração do capitalismo. Nestas circunstâncias, a consciência política das massas está inevitavelmente desorientada e confusa.

No entanto, os trabalhadores já retiraram importantes lições destes eventos. Passaram pela terrivelmente desapontante “Revolução Laranja” e a liderança de Ianukovitch. Agora, Turchynov, Klitschko e Yatseniuk e todos os políticos pró-ocidentais serão expostos.

Progressivamente, mais sectores da classe trabalhadora perceberão que o único caminho é construir um partido independente de massas, multi-étnico e dos trabalhadores que rejeite o nacionalismo reaccionário, a oligarquia e a interferência imperialista. Um partido socialista com o apoio das massas que forje a unidade de todos os trabalhadores na Ucrânia, defenda um governo dos trabalhadores que tome conta da enorme riqueza dos oligarcas e nacionalize os grandes bancos e corporações, como parte de uma economia democraticamente planeada e gerida para o benefício da vasta maioria. Tal luta encontraria uma resposta pronta de trabalhadores na região, na Europa e na Rússia.

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