A Ameaça Fascista na Grécia

Posted on 23 de Fevereiro de 2014 por

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Tradução de Socialism Today nº175 (revista da secção Inglaterra/País de Gales do CIT)

A crise económica profunda, a austeridade selvagem e a agitação social polarizaram a sociedade grega. Um dos resultados foi o crescimento da Aurora Dourada, responsável pelos ataques brutais prepetrados contra imigrantes e activistas de esquerda. Christina Ziakka, do Xekinima (CIT na Grécia), relata a resposta do regime político – e a necessidade da esquerda e movimento dos trabalhadores de apresentarem uma alternativa genuína.

Seis deputados do partido neofascista Aurora Dourada estão na prisão, acusados de liderar uma “organização criminal”. Entre eles encontra-se o seu líder, Nikolaos Michaloliakos. Outros três deputados foram libertados sob fiança. Com nove de um total de dezoito deputados (eleitos em Junho de 2012) afastados, poder-se-ia esperar um declínio do Aurora Dourada. No entanto, permanece-se como terceira força recolhendo entre 8-11% de apoio nas sondagens – até Setembro último, antes do assassinato do activista de esquerda e rapper Pavlos Fyssas, estava nos 13-15%.

Se o Estado capitalista e os tribunais não banirem o Aurora Dourada, muito provavelmente participará como um partido “legítimo” nas eleições municipais e europeias de Maio. Mais uma peça neste “teatro do absurdo” foi a declaração de Ilias Kasidiaris, o segundo na hierarquia, que vai apelar ao Tribunal Europeu para defender os seus direitos democráticos (Nick Griffin, do Partido Nacional Britânico, já afirmou que apoiará esta campanha).

Tudo isto acontece no país onde o movimento sindical já organizou 31 greves gerais nos últimos três anos contra a austeridade brutal do governo e da troika (UE, FMI e BCE). E onde se está a tornar cada vez mais possível, como mostram as sondagens recentes, um governo de esquerda com o Syriza (Coligação da Esquerda Radical) como poder dominante. Isto mostra que a sociedade grega entrou numa era que combina convulsões revolucionárias e grandes agitações sociais, com um recuo inevitável das forças da reacção e contra-revolução.

Em Setembro de 2013, não foi outra greve geral mas um homicídio político que atraiu a atenção de trabalhadores e jovens na Grécia e internacionalmente: o do rapper e activista de esquerda Pavlos Fyssas, às mãos dos fascistas do Aurora Dourada.

Posteriormente, em Novembro, ocorreu o assassinato de dois membros do Aurora Dourada por um novo grupo, Forças Populares da Luta Revolucionária. Quando assumiram a responsabilidade do acto, num comunicado de imprensa, descreveram a acção como um apoio ao movimento antifascista. Em vez disso, apenas fortaleceu as forças da reacção. Permitiu ao Aurora Dourada levantar o estigma de abusador e vestir a auréola da vítima, ganhando mediatização novamente.

Este desenvolvimento causou temporariamente alguma confusão na consciência das massas. Mas não apaga o facto de que o assassinato do Pavlos foi um ponto de viragem para desenvolvimentos gregos, com importantes lições para o movimento dos trabalhadores na Grécia e internacionalmente.

Luz verde para o Aurora Dourada

O assassinato não foi surpreendente. Homicídios de imigrantes foram relatados por várias vezes, mas o Aurora Dourada conseguiu sempre escapar à culpa. Antes das eleições de 2012, os ataques contra a esquerda não eram uma grande prioridade para os membros do Aurora Dourada. Isso mudou entre as duas eleições, quando Kasidiaris atacou, num programa de televisão em directo, duas deputadas de esquerda, Liana Kanelli (KKE – Partido Comunista Grego) e Rena Dourou (Syriza). Tal não afectou o crescimento eleitoral do Aurora Dourada, e o partido tomou isso como uma luz verde. Após as eleições, os ataques contra activistas de variadas forças de esquerda tornaram-se comuns.

Outra razão porque o Aurora Dourada se sentiu encorajado foi a inacção dos partidos de esquerda de massas, que nunca apelaram a uma mobilização nacional unitária contra os ataques fascistas – até à morte de Pavlos. O Aurora Dourada, embriagado pelo seu sucesso e com apoio financeiro estatal, procurou expandir a sua base popular. Separou a sua organização em duas partes: “política” e “militar”. A primeira ficou encarregue das actividades legais e públicas, a segunda das actividades clandestinas e criminosas. Em poucos meses, o Aurora Dourada abriu sedes em 70 cidades e começou a organizar distribuição de comida, doações de sangue e clínicas sociais “apenas para gregos”!

Visitou os locais de trabalho que empregavam imigrantes e chantageou os empregadores para os despedir e substituí-los por gregos – trazidos pelo Aurora Dourada – pelo mesmo baixo salário (15 a 18€ por dia). Fez campanha para que as creches expulsassem os filhos de imigrantes e para que os hospitais públicos recusassem o acesso a imigrantes não documentados. Tudo isto foi apresentado como uma ajuda aos muito sofridos gregos! Por baixo do fato e gravata permaneceram Nazis não arrependidos. Uma boa parte do seu programa copia o de Adolf Hitler no anos 1930.

O Aurora Dourada organizou patrulhas armadas para atacar imigrantes. Na maioria dos comícios públicos, Michaloliakos era cumprimentado com a saudação Nazi. Vários deputados seus ostentam tattoos com a suástica e outros símbolos Nazis. Negar o Holocausto, admirar o ditador gregos dos anos 30, Ioannis Metaxas, e a Junta Militar Grega (1967-74) e citar Hitler e Goebbels tornou-se lugar-comum nos seus discursos públicos. Investigações conduzidas por advogados e jornalistas traz constantemente à evidências novas provas, como uniformes das SS ou do Ku Klux Klan, armas em casa e fotos de Hitler.

O movimento começa a responder

Em vez de vir dos partidos de esquerda de massas, a resposta veio do movimento antifascista. O choque da eleição de 18 deputados do Aurora Dourada – e o seu crescimento meteórico de 0.3% (23000 votos) em 2009 para 6.9% (440000 votos) em 2012 – soou o alarme para largos sectores da sociedade. Surgiu um novo fenómeno: a construção de comités locais antifascistas.

Antes do assassinato de Pavlos, 60 comités já tinham emergido nacionalmente. Mais foram construídos desde então. Os partidos de esquerda de massas desempenharam um papel muito marginal neste processo, com o KKE a não se envolver por completo e o Syriza a participar em alguns. Na realidade, a maioria foram iniciados e construídos por forças como o Xekinima (a secção grega do CIT), algumas forças dentro do Syriza, pela Antarsya (frente de esquerda anticapitalista), organizações antirracistas, pessoas não organizadas, etc.

Estes comités, o movimento antifascista em geral e as comunidades locais começaram a organizar uma resistência dinâmica contra o Aurora Dourada. Em Kyparissia, Messinia [sudoeste da Grécia], pequenos comerciantes imigrantes auto-organizados expulsaram membros do Aurora Dourada de um festival local. Em Chania, Creta, o líder local do Aurora Dourada foi atirado ao mar, todo nu, por manifestantes antifascistas e foi depois expulso do partido devido à humilhação! Na ilha de Thassos, protestos locais cancelaram distribuições de comida “para gregos apenas”. No Verão passado, o movimento antifascista forçou as autoridades locais em Kalamata [sudoeste da Grécia] a banir o festival da juventude que o Aurora Dourada planeava organizar aí.

Dezenas de sindicatos, incluindo da administração local, médicos, bancários e marinheiros, declararam publicamente que o Aurora Dourada não é bem-vindo nos seus locais de trabalho. Nalguns casos, sindicalistas forçaram deputados do Aurora Dourada a cancelar as suas visitas oficiais. Ao mesmo tempo, panfletos e apelos especiais foram publicados, dando fortes argumentos ao movimento antifascista.

Tudo isto foi um rude golpe para o Aurora Dourada. Apesar de se manter elevado nas sondagens, não tem sido capaz de recrutar massivamente nem de criar secções nos locais de trabalho, em larga escala. Tem, no entanto, secções organizadas nos camionistas e taxistas, motoristas em Atenas, vendedores de hortícolas, polícia municipal de Atenas e no estaleiro Perama, Pireu.

O Aurora Dourada sentiu então que tinha de actuar contra o movimento antifascista para não dar sinais de fraqueza. Tal era inaceitável, pois o fascismo tem sempre o objectivo, como nos ensinou a história, de eliminar a esquerda e o movimento sindical.

O ataque contra 30 membros do KKE em Perama, no início de Setembro [de 2013] foi planeado para enviar a mensagem de que o Aurora Dourada controlava as ruas e que consegue desafiar até o partido de esquerda grego mais bem organizado. Esperava-se que o ataque espalhasse o medo e pânico entre os activistas antifascistas e na sociedade, em geral. A determinação aumentou quando a resposta do KKE se limitou a uma pequena manifestação local. Após isto, a morte de um activista de esquerda era apenas uma questão de tempo.

O assassinato de Pavlos confirmou o argumento do movimento antifascista de que o Aurora Dourada é um bando de assassinos. Em segundo lugar, enviou uma mensagem à classe dominante que o Aurora Dourada estava completamente fora do seu controlo e que era necessário agir. Pela primeira vez em três décadas, o Aurora Dourada sofreu repressão estatal. No entanto, o ataque do governo e classe dominante tem limites muito específicos.

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Os capitalistas e o Aurora Dourada

Em anos recentes, a classe dominante capitalista cultivou o Aurora Dourada, tanto abertamente como às escondidas. A lei antirracista nunca foi implementada contra ele. As suas acções não foram reprimidas durante os anos 1990 e 2000. Foi permitido o recrutamento dentro do aparelho de Estado – o Aurora Dourada mantém ligações poderosas dentro do exército e polícia.

Sectores da burguesia proprietária de navios, incluindo o fugitivo Anastasios Pallis (proprietário de navios e editor do semanário populista de grande tiragem, Proto Thema), apoiaram o Aurora Dourada ainda mais directamente, através de financiamento. Por esta razão se vêem tantas declarações amigáveis ao sector portuário por parte dos seus parlamentares e a sua oposição contínua a taxar o lucro do capital dos portos.

Ao mesmo tempo, outras partes da burguesia e comentadores brincaram com a ideia de uma possível coligação governamental com o Aurora Dourada, de tal forma a contrariar o crescimento da esquerda e o Syriza no governo. Este caso não é único no panorama político europeu. Capitalistas italianos e austríacos formaram coligações com os partidos de Gianfranco Fini e Jörg Haider, conduzindo a extrema-direita italiana e austríaca ao longo do “caminho certo” da política burguesa honrada. A extrema-direita conseguiu então ser incorporada nos “salões” capitalistas. Mais recentemente, na Hungria e Holanda, partidos de extrema-direita ofereceram apoio aos seus governos.

A ideia do Aurora Dourada como parceiro de coligação apareceu em muitas declarações de membros do governo ou jornalistas famosos, pouco antes do assassinato de Pavlos, o que mostra que essa possibilidade estava a ser pensada seriamente. Por exemplo, Takis Baltakos, conselheiro (conservador) do primeiro-ministro Antonis Samaras, da Nova Democracia, disse: “…indesejável mas não impossível, a possibilidade da Nova Democracia ser obrigada a governar em cooperação com o Aurora Dourada”. Babis Papadimitriou, um jornalista, escreveu sobre “a possibilidade mais séria do Aurora Dourada participar numa coligação conservadora, como tem acontecido em muitos outros países na Europa”.

A classe dominante está num impasse, com algumas secções a concluírem que este não é o momento para brincar com o fogo. O Aurora Dourada não é como o Fini ou Haider e nem o período é o mesmo. O que diferencia o Aurora Dourada de outras organizações de extrema-direita e neofascistas no resto da UE – que refreiam o seu programa e acção, após crescerem e serem eleitas – é que o Aurora Dourada popularizou-se durante a mais longa crise capitalista da história.

Além disso, está sediado na Grécia, um país que será o epicentro da luta entre revolução e contra-revolução no futuro próximo. A violência, audácia e arrogância fazem parte da preparação do Aurora Dourada para “salvar o sistema” no momento crítico. Em momentos de grandes mobilizações e greves, quando for decidido quem obterá o poder, o Aurora Dourada procurará furiosamente esmagar a esquerda e o movimento dos trabalhadores.

No fundo, a atitude da classe dominante em relação ao fascismo continuará a ser contraditória. Por um lado, os capitalistas precisam do Aurora Dourada. Por outro lado, têm medo dele. Esta contradição deriva da experiência histórica. Na Itália e Alemanha, a classe dominante apoiou os fascistas e Nazis no combate ao movimento sindical e à esquerda, numa altura em que a revolução russa de 1917 ainda estava presente na mente do povo. O resultado foi catastrófico: a segunda guerra mundial. O fim da guerra causou mais golpes ao capitalismo global, como a expansão da esfera de influência da União Soviética na Europa central e Balcãs, um importante impulso ao movimento sindical no Ocidente, e as lutas anticoloniais na Ásia, América Latina, África e Médio Oriente.

O Estado avança contra o Aurora Dourada

São várias as razões da ofensiva estatal contra o Aurora Dourada. Por um lado, a classe dominante sente que o monstro criado pelas suas políticas está a preparar-se para engolir os seus mentores políticos, na forma dos partidos tradicionais. A isto soma-se a pressão que as classes dominantes europeias estão a pôr na burguesia grega, amedrontadas pelo crescimento súbito deste gang Nazi.

Por outro lado, um factor crucial é que o assassinato de Pavlos abalou a sociedade grega. A resposta do movimento foi magnífica: 35 grandes manifestações por toda a Grécia no dia a seguir ao assassinato, cerca de 100 manifestações nos 15 dias subsequentes, o maior movimento antifascista em três décadas. Também ocorreram mobilizações em algumas cidades europeias.

Se a coligação governamental da Nova Democracia e Pasok (ex-social democratas) não tivesse dado resposta ao assassinato, milhões de gregos considerá-la-iam cúmplice. Ao atacar o Aurora Dourada, o governo apresentou-se como uma força para a estabilidade e legitimidade. A sua intenção foi também dissipar as dúvidas de alguns sobre a capacidade do governo grego em presidir à UE.

No entanto, a verdade é que a classe dominante não pretende eliminar o fascismo por completo. Esta precisa dos esquadrões fascistas e do aparelho para-estatal, para os utilizar em alturas em que a repressão estatal oficial não é capaz de ultrapassar os limites legais da democracia burguesa parlamentar. O ideal para a classe dominante seria o controlo total dos esquadrões fascistas.

Mas mesmo que os capitalistas e o seu Estado quisessem realmente eliminar o fascismo, isso seria impossível. Eles são incapazes de eliminar as causas que conduzem ao fascismo. O fascismo resulta do desespero a que milhões de pessoas são levadas por causa do sistema, especialmente em alturas de crise aguda, como hoje em dia ou nos anos 1930. É também o resultado do colapso do sistema político tradicional na Grécia, incluindo uma profunda desconfiança nos media e em quase todas as instituições burguesas.

Ao mesmo tempo, aqueles que na Nova Democracia e Pasok, hoje atacam o Aurora Dourada, são tão odiados que a população acaba por considerar os membros do Aurora Dourada presos como “heróis” ou como a única opção antissistema. Isto explica por que razão o Aurora Dourada permanece em terceiro lugar nas sondagens.

Uma grande parte da liderança do Aurora Dourada está na prisão, o financiamento estatal está congelado, incluindo o salário dos deputados, e as prisões e investigações continuam, especialmente às finanças do partido. Não é de excluir a possibilidade do Aurora Dourada ser proibido  No entanto, os quadros restantes podem surgir como um novo partido com um nome diferente, bandeira e membros. Também não pode ser posta de parte a possibilidade de uma nova liderança no Aurora Dourada, por forma a elevar o seu perfil novamente. Outro cenário possível será a separação entre a linha mais moderada e mais extremista.

Seja qual for o resultado, é certo que o perigo do fascismo não desapareceu. Não importa quantos ajustamentos ou mudanças sejam necessárias, os fascistas esperarão por condições mais favoráveis. Eles terão a sua oportunidade outra vez.

Quão longe consegue ir a reacção?

Até agora, o fascismo na Grécia não mostrou quão perigoso pode ser. Se a esquerda, com o Syriza como força dominante, fosse eleita para o governo, a luta de classes poderia desenvolver-se. Isto poderia levar a poderosos movimentos sociais nas ruas, exigindo o fim do memorando de austeridade da troika e o reinstituir os direitos roubados e a qualidade de vida. Se um governo desses perdesse controlo da situação, era muito provável que a classe dominante se voltasse para os fascistas para ajudarem a pôr o movimento sindical “no seu devido lugar”. Nessas condições, os esquadrões fascistas seriam bastante úteis à classe dominante. Esta financiá-los-ia, utilizava-os para atacar as lutas, assassinar activistas de esquerda e sindicais e para minar o governo de esquerda.

Por esta razão, é prioritário para a esquerda e movimento sindical conduzirem a luta antifascista de forma independente. Temos de convencer os trabalhadores e movimentos sociais em não depositar as suas esperanças da luta ao fascismo nas mãos do estado burguês e seu aparelho. Não podemos confiar neles!

Para aqueles que indagam sobre a possibilidade de um estado fascista na Grécia no futuro próximo, o que podemos dizer é que não é muito provável. A História mostra que os fascistas foram capazes de tomar o poder e construir um estado fascistas, apenas nos países onde a classe dominante os ajudou com todos os meios – como Itália e Alemanha. Sem o apoio do capital eles não conseguem sobreviver, sem a ajuda do aparelho estatal eles não conseguem atingir os seus objectivos. Após a experiência do fascismo no período entre as duas guerras mundiais, as classes dominantes estão cautelosas em relação a ele. Os capitalistas percebem que não podem deixar as forças fascistas sair do seu controlo, porque estas se tornam realmente perigosas, incluindo para os seus próprios interesses.

É óbvio que este sentimento não pode ser interpretado como um “juramento de fé” da classe dominante na democracia parlamentar. Se os capitalistas sentirem o seu poder ameaçado, procurarão uma maneira de abolir a democracia parlamentar para o preservar. A possibilidade de os militares intervirem na Grécia, nos próximos anos, não pode ser excluída, especialmente em situações específicas. Por exemplo, se a crise catastrófica e desespero em massa são combinadas com uma saída da zona euro e o um governo de esquerda falha em dar uma saída alternativa à crise – enquanto o movimento dos trabalhadores não providencia uma alternativa revolucionária – então a possibilidade da classe dominante procurar a “salvação” no exército é real.

Claro que a presente situação não chega. As condições para que tais desenvolvimentos ocorram teriam de existir, nas forças armadas e na sociedade, para evitar uma cisão no exército, por um lado, e uma explosão social massiva, por outro. Por outras palavras, embora a possibilidade de movimentações militares nos tempos correntes exista, não é uma questão simples. O movimento de massas e a esquerda ainda vão a tempo de o prevenir.

A responsabilidade da esquerda e do movimento

Afinal de contas, apenas o movimento dos trabalhadores, os movimentos sociais e a esquerda podem destruir o fascismo. A questão é, como? Como é que a esquerda impede o crescimento do Aurora Dourada quando, no passado, foi incapaz de prevenir o seu crescimento de 0.3% para 7%, num período muito curto de tempo? Como é que o Aurora Dourada conseguiu manter a sua posição, mesmo após o assassinato de Pavlos Fyssas e a detenção dos seus quadros dirigentes?

A resposta é que a esquerda e o movimento dos trabalhadores tem de fazer o que não tem feito até agora, evitando uma repetição da história – antes da ascensão de Hitler, em 1933, quando as lideranças dos partidos de esquerda de massas na Alemanha, o Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD), subestimar a raiva. Acima de tudo, a esquerda tem de trabalhar junta, criar uma frente unida para combater o perigo fascista. Esta frente tem de incluir sindicatos, organizações de imigrantes, refugiados, pessoas com necessidades especiais, activistas LGBT, etc., todos os que estiverem sob a ameaça dos esquadrões fascistas.

E liderar tal movimento de tal maneira que os comités antifascistas possam:

– expandir, não apenas em cada cidade, mas se possível em cada bairro das grandes cidades;

– desenvolver campanhas alargadas, porta a porta, em cada escola, praça e bairro, a informar o que é realmente o fascismo;

– mobilizar contra qualquer evento ou acção fascista;

– desenvolver redes que possam actuar rapidamente em resposta a ataques fascistas e formar grupos de auto-defesa, para que possam enfrentar as facas e tacos dos fascistas;

– criar redes de solidariedade para apoiar todos os que tenham sido “deitados ao lixo” pela crise do sistema, para que eles não sejam ganhos pelos fascistas;

– intervir nos problemas das comunidades locais para construir movimentos exigindo acção da parte dos municípios, assim como do governo central;

– ligar-se e coordenar-se, primeiro a nível da cidade, depois nacionalmente, numa massiva frente antifascista;

– A segunda tarefa central da esquerda é ligar a luta contra o fascismo com a luta pela alternativa socialista. No fim de contas, essa é a única opção que temos.