“Terramoto político” nos EUA e internacionalmente – entrevista com Kshama Sawant

Posted on 14 de Dezembro de 2013 por

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Sarah Wrack, do The Socialist (semanário do Partido Socialista, secção do CIT na Inglaterra e País de Gales) – 19 de novembro de 2013. Com base na tradução do LSR – secção brasileira do CIT.

O dia 15 de novembro vai ficar lembrado como um marco histórico na reconstrução de um movimento socialista nos EUA, a mais poderosa nação capitalista do mundo.

Kshama Sawant, candidata da Alternativa Socialista, estava prestes a ganhar um mandato de vereadora na Câmara Municipal de Seattle depois que seu oponente admitiu sua derrota. Esta é a primeira vez, em muitas décadas, que um socialista revolucionário ganha uma eleição nos EUA derrotando os Democratas, um partido que se diz pró-trabalhadores. A contagem dos votos prossegue e a vantagem de Kshama continua a crescer. No dia dessa entrevista, 18 de novembro, Kshama tinha 93.168 votos. Ela falou com Sarah Wrack sobre sua campanha.

 

Por que você e a Alternativa Socialista decidiram participar desta eleição?

Concorremos nas eleições no ano passado, onde eu fui candidata à deputada no Estado de Washington, disputando contra o presidente da Assembleia, Frank Chopp – provavelmente o mais poderoso legislador do estado.

A razão pela qual nós começamos a considerar lançar uma campanha eleitoral foi nossa análise da situação política depois do movimento “Ocupe”. O movimento “Ocupe” foi muito activo e no final de 2011 e início de 2012 começou a ramificar-se, com por o exemplo o Ocupe Casas em Minnesota, mas em geral o movimento recuou.

O tema que mais chamava atenção naquele momento foi a reeleição de Barak Obama e que, para as pessoas que se consideram progressistas, a prioridade era conseguir reeleger Obama, porque seria impensável aceitar a vitória de Mitt Romney.

Claro que o Alternativa Socialista está de acordo que não deve ser dada essa oportunidade à direita, mas nós também apontamos que os democratas não são uma alternativa aos republicanos e que, no geral, tendo dois partidos dos grandes negócios, ou na verdade apenas duas alas do mesmo grande partido dos grandes negócios, não tem servido para a classe trabalhadora dos Estados Unidos.

Na verdade, o governo Obama, em si, é um bom exemplo de como os estado unidenses progressistas depositam a sua fé nos democratas ano após ano, isso sendo seguido por uma série de traições. Todas as promessas que foram feitas na área da saúde, o encerramento da prisão de Guantánamo, o fim da ocupação do Afeganistão e dos ataques com drones – todos estas promessas foram traídas. Na verdade, os ataques de drones cresceram e Obama presidiu o maior número de deportações de imigrantes sem documentos. E, como professora, posso dizer-te que os ataques à educação pública e aos sindicatos de professores tornaram-se mais fortes com o ministério de educação de Obama.

A questão para o Alternativa Socialista foi: como vamos continuar a envolver as pessoas numa discussão política, esclarecer a necessidade de romper com os dois partidos do grande capital e também romper com o próprio capitalismo? Parecia que uma estratégia eficaz para isso seria conduzir nossa própria campanha eleitoral e mostrar como poderia ser uma campanha popular verdadeiramente independente.

Conduzimos a campanha sem aceitar nenhum dinheiro de grandes empresas e totalmente independente dos Democratas, sem buscar apoio do establishment do Partido Democrata.

No ano passado tivemos 29% dos votos, que foi bastante notável – mais de 20 mil pessoas votaram em nós. Lutamos pelo nosso direito de constar como “Partido Socialista Alternativa” no boletim de voto e este ano também tivemos uma candidatura abertamente do Alternativa Socialista.

Como foi organizada a campanha?

As primeiras pessoas envolvidas na campanha foram membros do Alternativa Socialista e nosso foco principal, no início, era desenvolver a plataforma de campanha em si. Isso foi exaustivamente discutido e debatido nos núcleos do Alternativa Socialista. Destacamos três pontos. O primeiro foi por um salário mínimo de 15 dólares por hora, que tinha sido uma bandeira no ano passado também. Este ano, já que estávamos numa campanha municipal, a nossa reivindicação foi de um salário mínimo de 15 dólares em toda a cidade. O segundo foi por uma habitação acessível a todos e controle dos preços de arrendamento. E o terceiro era um imposto sobre os ricos para financiar um sistema de transporte público de massa e educação.

A nossa campanha disse que é necessário fazer uma Seattle acessível para todos, destacando que Seattle é uma cidade muito rica mas é profundamente desigual e inacessível para a grande maioria das pessoas – especialmente o crescente número de trabalhadores com salários baixos.

Ficou claro, desde o início, que estes pontos ganhavam a atenção da classe trabalhadora em Seattle, o que nos ajudou a ampliar a nossa base de voluntários, já que as pessoas estavam realmente animadas com a ideia de uma campanha eleitoral tão diferente dos políticos de sempre ligados aos interesses das grandes empresas.

Uma coisa que realmente animou as pessoas foi que prometemos que se eu fosse eleita, eu só receberia o salário médio de um trabalhador. Os vereadores da cidade de Seattle recebem 120 mil dólares por ano, o que é um salário muito alto e só perde para a Câmara Municipal de Los Angeles. A maioria das pessoas não sabem disso e quando dissemos que só receberíamos o salário médio de um trabalhador e dar o restante para construir movimentos por justiça social, isso realmente chamou a atenção.

Assim, através da política da campanha fomos capazes de atrair uma grande base de voluntários. Tínhamos várias pessoas do Alternativa Socialista a trabalhar a tempo inteiro para organizar os voluntários. Tivemos um comité de campanha, organizamos reuniões de equipe todos os dias para discutir as tarefas. As reuniões das equipes foram organizadas em cooperação com a liderança local do Alternativa Socialista.

E assim fomos capazes realmente de prestar atenção a tudo o que estava a acontecer na cidade e tirar proveito de qualquer oportunidade para falar sobre a campanha, para divulgar a campanha, para obter oportunidades e ganhar a atenção da mídia – o que era realmente necessário para nós, pois estávamos a correr contra um vereador democrata poderoso que estava no cargo há 16 anos. Fomos determinados e precisos em mostrar que, face a todos os problemas, não só com o seu mandato de 16 anos, mas também com o governo da cidade em geral, estão longe da realidade e das necessidades dos trabalhadores.

Através de todo esse esforço, fomos capazes de construir uma base de mais de 350 voluntários que foi uma fonte de energia para a campanha.

Outra coisa que realmente ajudou a campanha foi que no último fim de semana antes do dia da eleição organizamos 100 comícios. Tivemos pessoas com placas nos cruzamentos de ruas movimentadas acenando, fizemos várias faixas que colocamos em passarelas em cima de vias rápidas rodoviárias onde há uma grande quantidade de pessoas que passam a caminho do trabalho todos os dias, tivemos grandes faixas defendendo “Salário Mínimo de 15 dólares por hora, Vote em Sawant”.

Isso realmente ajudou-nos a levar as pessoas a votar. Para a maioria da cidade, a política está tão fora da realidade da classe trabalhadora que as pessoas não prestam atenção a à política, “é chata”. Eles veem os vereadores da cidade como maioritariamente brancos, ricos, pessoas da classe alta que realmente não sabem e não se importam com o que está a acontecer com as pessoas comuns. Portanto, para nós,  a luta não era apenas para influenciar as pessoas que normalmente votam, mas também para convencer as pessoas que não costumam votar a votar nesta proposta.

E estamos envolvidos em um diálogo com as pessoas. Somos marxistas, não acreditamos que a arena eleitoral é a mais favorável para a construção de movimentos sociais. No entanto, podemos mostrar um exemplo de como isso pode ser feito, mas que requer que as pessoas se envolvam. Acho que foi o maior desafio e que conseguimos fazer isso muito bem.

Mas não podemos falar sobre a nossa campanha de forma isolada. Também temos que mencionar que, ao mesmo tempo, os trabalhadores de fast-food estavam a avançar na luta por um salário mínimo de 15 dólares por hora. Especialmente em Seattle, eles têm sido bastante confiantes e combativos e temos sido solidários com eles. Houve também a iniciativa de um plebiscito sobre o salário mínimo em SeaTac, que é uma cidade vizinha de Seattle, onde o aeroporto internacional está localizado. Foi especificamente para dar 15 dólares por hora para os trabalhadores do aeroporto. Então, tudo isso criou um grande impulso para a campanha.

Como as pessoas reagiram ao facto de que tu és abertamente uma socialista revolucionária [i]?

Para a maioria das pessoas o que se destacou foi o facto de que lutamos por um salário mínimo de 15 dólares por hora.

E o que realmente atraiu as pessoas foi nossa audácia e isso é o oposto do Conselho Municipal que costuma dar. Havia um monte de pessoas que gostavam da nossa campanha e tinham experiência na política burguesa, que nos dizia: “vocês têm que baixar o tom, não criticar tanto o governo”. Muitas vezes me perguntaram: “Por que é que você sempre começa qualquer discurso dizendo: “Eu sou um membro do Alternativa Socialista?

Eles queriam dissociar-me do Alternativa Socialista porque a política eleitoral normal dos EUA é centrada em torno de indivíduos e personalidades não em organizações coletivas, o esforço colectivo. Mas nós rejeitamos isso completamente. Em vez disso, fomos ousados e firmes ao apresentar a nossa política e deixando claro que se alguém gostava da campanha, se alguém gostava da nossa postura como lutadores, então isso tem tudo a ver com o facto de que nós somos socialistas revolucionários.

Muita gente não se importava tanto com o rótulo, preocupavam-se com as reivindicações centrais, bandeiras e a campanha. Mas há uma camada de pessoas para quem elas faziam sentido. Havia pessoas que diziam, “bem, se isso é uma campanha socialista e eu concordo com tudo, então talvez eu seja um socialista, talvez eu precise falar com o Alternativa Socialista. Tivemos as pessoas a aderir ao Alternativa Socialista ou que estão a pensar em entrar porque concordaram com o que dissemos e a sua confiança cresceu pela forma corajosa como conduzimos a campanha.

Quais são os teus planos agora?

Antes de tudo, hoje [17 de novembro], vamos fazer um grande comício para, com todos que trabalharam na campanha e que estão animados com a nossa vitória, celebrá-la, mas também esboçar o caminho a seguir – o que é que deve acontecer a partir de agora?

Queremos falar não só sobre a nossa campanha e o que vamos fazer na Câmara Municipal, mas também sobre o significado disso.

Qual é o significado de uma socialista realmente ser eleita vereadora de uma grande cidade dos Estados Unidos? Tudo isso tem consequências reais (em muitos aspectos é um terremoto político) para a esquerda em geral, especialmente nos EUA, mas também internacionalmente, pois deve fazer a esquerda refletir: bem, se isso é possível, então o que mais seria possível?

A razão pela qual estamos recebendo atenção da mídia nacional e internacional não é porque ganhamos um mandato na Câmara Municipal – normalmente ninguém se importaria com a eleição de um vereador. O que impressiona é que uma candidata abertamente socialista revolucionária foi eleita, que a campanha não tinha dinheiro do grande capital e não contava com o apoio do aparelho do Partido Democrata para ganhar. A esquerda precisa tirar as lições e ver que há uma abertura para a construção de movimentos, para construir uma alternativa anticapitalista viável, dos trabalhadores, aos dois partidos do grande capital.

Na Câmara Municipal, a nossa primeira prioridade é lutar pelo salário mínimo de 15 dólares por hora. Vamos elaborar uma proposta de lei para apresentar à Câmara. Mas também não tenho ilusões de que vai ser fácil. As grandes empresas vão resistir com unhas e dentes porque Seattle é uma cidade importante e se conseguirmos os 15 dólares aqui, isso vai ter um efeito dominó para outras cidades. Por isso precisamos continuar a construir um apoio de massas para essa campanha.

Vamos trabalhar para construir um grande comício – nossa meta é trazer 10 mil pessoas, mas vamos ver como vai ser – pelo menos trazer milhares de pessoas para um comício no início do próximo ano, em apoio dos 15 dólares por hora.

Eu vi um monte de comentários dizendo que há algo de especial sobre Seattle. Claro que há sempre coisas que são diferentes de uma situação para outra, mas eu acho que é importante para a esquerda em todos os lugares perceber que, dada a crise do capitalismo, especialmente na Europa, dada a medida em que a política de austeridade tem sido implementada, não há dúvida nenhuma de que existem oportunidades. E se isso pode acontecer no coração da fera imperialista, não há razão pela qual não pode ser feito em outro lugar. Mas não é automático e é por isso que precisamos construir conscientemente nossas forças.


[i] Optamos por traduzir neste sentido para diferenciar dos nossos “socialistas” (Nota do SR)