Coimbra: A crise dos estudantes também é a crise da sua liderança

Posted on 9 de Dezembro de 2013 por

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AAC

Durante as duas últimas semanas, os estudantes de Coimbra votaram para a nova direcção geral da Associação Académica. Num período em que a universidade está cada vez mais elitizada e mercantilizada, onde a austeridade e a crise do capitalismo barraram milhares de estudantes de ingressar no ensino superior, e onde os recém-formados só têm perspectivas de desemprego ou emigração, estas eleições decidiram sobre a nova liderança da maior associação académica do País. A associação no passado foi conhecida – e ainda hoje é lembrada – pelo seu papel de luta nos movimentos contra o fascismo, contra as propinas e pelos direitos da educação democrática.

Hoje no entanto, pouco disso se manifesta. Parece incrível como esta vaga de ataques sucessivos aos direitos de ensino é confrontada com tanta passividade. A associação – noutros tempos, na frente das lutas – veio a ser uma instituição despolitizada, a Direcção limita-se a gerir a Associação, as suas festas e actividades. Na luta pelos direitos de educação e dos estudantes, a DG limita-se a organizar acções simbólicas, sem mobilização dos estudantes, sem programa de luta e sem perspectivas. A AAC transformou-se durante as últimas décadas num trampolim para carreiristas burocratas – muitos com origem nas juventudes dos partidos do arco do poder – que pela sua passagem na AAC procuram, muitas vezes com êxito, um lugar no topo dos partidos do poder, em empresas ou dentro do estado. É claro que, com estes tipos de liderança, é difícil organizar a luta pelos direitos dos estudantes. Lutar seriamente contra o poder instalado, contra os cortes e contra a mercantilização não é certamente o tipo de competências requeridas para um CV.

Por isso mesmo, é preciso politizar a AAC; é preciso demonstrar que – particularmente em épocas de crise como vivemos – é impossível ter uma direcção “independente”. É necessário desmascarar a estória que quem veste a capa só tem o “preto e branco” como cores para defender. Isto mostrou-se perfeitamente com a liderança de Ricardo Morgado nos últimos dois anos. O presidente da AAC utilizava grandes palavras que elucidavam os estudantes que prestavam pouca atenção; mas a prática que acompanhava estas palavras restringia-se a actos “simbólicos”. O protesto contra os ataques horrorosos à academia – mesmo quando os próprios reitores cortaram, ainda que por pouco tempo, os laços com o ministério da educação – fez-se respectivamente pela entrega de um congelador ao reitor, o enfeitar da porta férrea com panos negros e “politização” da festa das latas com cartoons sobre a Merkel. Não parece haver nenhuma indicação que o resultado destas últimas eleições iria fazer alguma diferença, antes pelo contrário.

Nas eleições participaram 4 listas. Participaram 2 listas do arco do poder, lideradas pelo Samuel Vilela (Mais Academia), e pelo Bruno Matias (Tu tens Academia). A lista de Samuel Vilela, militante da JSD, com perfil tecnocrático de direita, tinha saído vitorioso das eleições na primeira volta. Na segunda volta, seu principal opositor, a Lista T de Bruno Matias, militante da JS, ganhou as eleições. Bem que o perfil da Lista T, por causa da composição partidária, talvez tenha mais possibilidades de organizar alguma resistência contra a austeridade deste governo, mas não há grandes espectativas que a política da DG será muito diferente que a do Ricardo Morgado; grandes palavras e pouca prática.

A esquerda participou dividida nas eleições; a JCP (Exalta a AAC) e a plataforma Universidade contra a Austeridade, uma plataforma aberta, liderada pelo MAS, que apoiámos (Reset AAC). O resultado eleitoral na primeira volta foi bastante deprimente. Onde o ano passado estas duas listas conseguiram 18,2 % dos votos. Este ano a esquerda viu cair o seu resultado para um terço; juntas conseguiram só 6,4% dos votos. Ao contrário do ano passado no entanto, a lista da plataforma Universidade contra a austeridade (Lista R) teve mais votos que a lista da JCP (Lista E). Este resultado tem várias explicações. Primeiro, pela diferença de meios para mobilizar os estudantes; as “listas dos caciques” tiveram a possibilidade de utilizar meios financeiros muito superiores e a sua posição dentro das estruturas da AAC e as práticas da praxe para mobilizar eleitores por motivos que pouco tinham a ver com programas políticos. Segundo, pelo facto que desta vez tinha duas listas do poder a concorrer num contexto bastante competitivo entre elas, que levou a uma segunda volta; e provavelmente também incentivou estudantes a votar “pelo mau menor” contra a Lista A do Samuel Vilela.

Mas um dos principais problemas é a falta de colaboração das listas de esquerda e a sua dificuldade em apresentar uma alternativa credível a disputar o poder nas eleições. Unidade e colaboração dos movimentos de esquerda é absolutamente fundamental para conseguir mobilizar os estudantes; neste sentido a posição da JCP de recusar qualquer colaboração – com a desculpa da linha pura, embora compreendemos que existem erros nalgumas posições defendidas pela plataforma – foi absolutamente contraproducente. Esperemos que o seu péssimo resultado – fruto do facto do vice-presidente da lista T ser do PCP e a inexperiência da sua própria candidata – abra portas para a articulação de lutas comuns.

O SR desde o início defendeu que esta campanha deveria ser propagandística e não se poderia ter ilusões eleitorais, principalmente visto as relações de forças. O objetivo tinha de ser de abrir debates, e não era o número de votos. Foi neste sentido até que o SR defendeu a possibilidade de apoiar a lista E, focando numa campanha politizadora com próprio material da plataforma em certas prioridades, com quais queremos mobilizar os estudantes nos próximos meses, em primeiro lugar nos cortes no ensino, consciencializando as pessoas que este sistema económico capitalista não tem futuro para os estudantes. Poderia ter sido melhor estratégia da plataforma universidade contra a austeridade, numa tentativa de uma actuação consistente contra o sectarismo nas esquerdas e numa maneira de melhor gerir as forças de campanha.

Posted in: Juventude, Portugal