Polícias contra Polícias: luta de classe dentro da estrutura repressiva do Estado

Posted on 26 de Novembro de 2013 por

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policesao bento

Por acidente, fui ontem à manifestação da Polícia em São Bento. Insisto, por acidente, antes que seja acusado por outros de apoiar os direitos corporativistas da polícia. Uma experiência notável e clarificadora acerca das forças policiais e a democracia.

Dez mil agentes de segurança, incluíndo PSP e GNR, organizaram a maior manifestação na sua história contra os novos cortes nos salários previstos pelo OE 2014. No final da marcha, juntaram-se em frente aos degraus de São Bento; uma visão algo estranha, já que estou habituado a vê-los do outro lado da barricada. No local surgiu uma estranha atmosfera; houve a habitual ira contra o governo de Passos Coelho, os slogans usuais, como “Passos, escuta. És um filho da puta!” inspirado pelos estivadores.

No início da escadaria, houve algumas escaramuças entre os polícias e alguns manifestantes arrebentaram alguns petardos. A tensão cresceu e a multidão começou a entoar “invasão, invasão” e, passados uns minutos, as barreiras foram derrubadas. Depois pararam, tal como em protestos anteriores. Apesar de o caminho estar aberto e os polícias de serviço não serem suficientes para os conter, os manifestantes hesitaram; parecia difícil passar a linha simbólica da desobediência civil. Mesmo após alguns agentes terem ocupado os relvados laterais à escadaria e chamado os colegas, muitos outros hesitaram. Pareceu levar horas até que os restantes se juntassem e então começou o ataque a São Bento.

Durante estes momentos foi possível ouvir algumas conversas interessantes. Alguns manifestantes comentavam quão estranho era sentirem-se do lado oposto da barricada. Se, por um lado, conseguiam imaginar a situação dos seus colegas de serviço que estavam agora contra eles, também sentiam-se impotentes ao enfrentarem a estrutura de poder com os seus colegas “robocop” na primeira linha. Tal também esteve presente na mobilização para esta manifestação. O sindicato ASPP-PSP distribuiu um panfleto em que se vê um agente nas escadas do parlamento – olhando a multidão de manifestantes – com o texto “Até quando vais estar calado?”. Apelava não apenas à mobilização contra o OE 2014, mas tanbém à “dignidade profissional” e à “segurança dos cidadãos”. A luta de classes e o conflito social dividiu claramente a força policial entre as suas vidas em serviço e fora dele.

Embora tenham existido pequenos confrontos, era claro que os agentes de serviço actuaram de forma diferente, uma vez que se identificavam como estes manifestantes. Isto talvez explique, em parte, o porquê de os “robocops” não terem organizado um ataque em massa, como ocorreu na greve geral do ano passado. Outra razão é que eles sabiam que este tipo de manifestantes não fugiria, e que se um deles fosse atacado, a multidão inteira teria invadido o parlamento. E isto sem considerar que muitos dos manifestantes provavelmente iam armados.

Neste embate, duas visões distintas de “democracia” e “Portugal” emergiram em lados opostos da barricada. Os manifestantes exigiram a queda do governo e cantaram o hino nacional; chamaram ao governo e membros do parlamento traidores à pátria. Acusaram-nos de atacar o seu próprio povo, de corrupção e de implementarem políticas contrárias aos interesses da população; viram-se como representantes legítimos do povo e da nação. Os agentes de serviço, por outro lado, estavam a cumprir ordens do Estado, defendendo the o local de representação popular e a soberania nacional contra a invasão das forças policiais, uma medida golpista. Embora estas divisões sejam cada vez mais claras em protestos recentes, a manifestação da polícia clarificou bastante, uma vez que era o mesmo sector dos dois lados da barricada. A única diferença entre eles foi a sua condição temporária de executores da violência estatal legítima ou não.

O protesto terminou após um impasse no topo da escadaria. A polícia de serviço barricou a entrada no parlamento com quatro linha de guardas. Os manifestantes permaneceram aí e não avançaram. Já tinham demonstrado que “se quisessem, tinham entrado”, como aviso ao governo. Algo os impediu de entrar. Após algumas fotografias da conquista, foram para casa.

Esta manifestação foi importante em vários planos. Primeiro porque existiu uma identificação da polícia com a posição dos manifestantes anti-austeridade. Segundo, porque mostra que o governo está a perder a legitimidade aos olhos das suas forças de segurança – isto é particularmente importante, pois todo o aparelho repressivo é construído com base nelas. E terceiro, porque cria um precedente “perigoso” contra a “norma” de não ultrapassar o perímetro de segurança e “tomar as escadas”. Alguns perigos permanecem: embora seja positivo que os agentes em protesto se identifiquem com os restantes manifestantes, eles mostraram uma atitude corporativista ao entoarem a palavra de ordem “A polícia unida jamais será vencida”. Embora similar à palavra de ordem típica do povo, mostra-nos no entanto o seu estatuto especial no aparelho repressivo do estado e a possibilidade de serem corrompidos. Concessões governamentais, que aparentemente aconteceram aquando da sessão parlamentar há duas semanas atrás, podem facilmente levar à sua cooptação pelo governo, tornando a situação presente mais próxima de um estado policial.