Síria: revolução popular ou guerra civil sectária?

Posted on 19 de Outubro de 2013 por

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Siria

Gonçalo Romeiro

Apesar do recuo temporário da intervenção imperialista directa na Síria, o perigo permanece. Importa perceber qual exactamente o processo em curso, e qual deve ser a atitude da esquerda, socialista e revolucionária, em relação a este conflito que já causa mais de 100 mil mortos e 2 milhões de refugiados.

Primavera Árabe e a luta contra Bashar al-Assad

Em Março de 2011, influenciadas pelas lutas revolucionárias na Tunísia e no Egipto, as massas sírias entraram na luta para derrubar uma ditadura que já leva meio século de existência. A revolta popular estava igualmente ligada, como nos outros casos, a questões económicas e sociais, como o aumento do desemprego que se situava nos 20%, sendo muito mais elevado entre os jovens (metade da população tem menos de 25 anos), e a estagnação e queda dos salários no sector público, que dava emprego seguro a mais de 50% da população.

A onda de revolta levou mais tempo a chegar à Síria, pois o regime de al-Assad, tirando lições dos processos na Tunísia e Egipto, foi rápido na reacção, e logo no início do ano começou a prender massivamente vários activistas, e a reprimir brutalmente mesmo os pequenos protestos das famílias que exigiam a sua libertação. No entanto, esta estratégia mais não pôde fazer que adiar algumas semanas a entrada das massas em cena.

Protestos e confrontos com as forças repressivas do regime têm lugar em Damasco e espalham-se a outras cidades como Deraa, que se torna, nestas semanas iniciais, o centro da revolta. Durante estes primeiros protestos, devido à estratégia ultra repressiva e violenta de Assad, alguns militares começam a passar-se para o lado dos manifestantes e elementos da polícia recusam-se a atirar.

Contudo não se desenvolvem protestos de massas nas duas principais cidades: Damasco e Aleppo, havendo traços semelhantes com o processo na Líbia, em que o movimento começa em cidades mais pequenas. O regime parece ter ainda alguma base de apoio, mesmo que baseado no medo da minoria Alauíta (etnia de Assad) do que poderá resultar da queda do regime.

Desde o dia 26 de Março, vários grupos de oposição apelam a uma greve geral, que seria decisiva, visto que o ponto de viragem para a Tunísia e o Egipto deu-se quando o movimento organizado dos trabalhadores entrou em cena com acções grevistas de massas. Mas as lideranças sindicais viram as costas ao movimento, e não só não reagem aos protestos e não organizam os trabalhadores para entrarem na luta, como afirmam que “forças estrangeiras estão por detrás dos protestos”, apelando a que os trabalhadores fiquem em casa e “confiem na sabedoria da liderança”.

O perigo de confrontos sectários e as tácticas de “dividir para reinar” de al-Assad.

Desde o início do processo que Assad ataca os manifestantes como sendo “sectários, criminosos e islamistas”, quando as bases do conflito e as suas exigências iniciais eram claramente políticas, económicas e sociais. Eram por melhores condições de vida, por direitos democráticos, pelo derrube da Ditadura e de Assad. No entanto, a Síria é uma sociedade composta por diferentes grupos étnicos e religiosos: 80% são árabes, ao lado de minorias importantes de curdos, assírios, arménios e outros. Cerca de dois terços da população é sunita e 16% de outras correntes muçulmanas (onde se inclui a minoria Alauíta de Assad) e 10% são cristãos. A maioria da população (56%) é urbana, mas uma parte significativa ainda vive no campo, onde este tipo de divisões pode ter um papel decisivo.

Tácticas de “dividir para reinar” não são algo de novo para Assad, que no passado já tinha colocado vários grupos uns contras os outros e agora estava a fazê-lo de novo, jogando com o medo de um regime islamista/jihadista. Os manifestantes em Deraa foram especialmente atacados como fundamentalistas sunitas para os isolar do resto da população.

Os protestos continuam. A repressão aumenta. O conflito armado intensifica-se.

Durante oito meses, o povo sírio continua a protestar, de forma maioritariamente pacífica, tentando desesperadamente derrubar a ditadura de Bashar al-Assad. A resposta do regime é uma brutalidade cada vez maior. Em finais de 2011, a contagem de baixas civis já atinge as 3500 pessoas (ONU) e outras fontes afirmam que só em Homs, a 3ª maior cidade, já ultrapassam as 5000.

É nesta altura que a revolta inicialmente pacífica, se transforma progressivamente em luta armada. Em Novembro militares de média e baixa patente desertam em números cada vez maiores e organizam-se no Exército Livre da Síria. Cada vez mais armas entram no país através das suas muitas fronteiras, particularmente pelas do Iraque e Líbano. Os desertores, mesmo que ainda pequenos em números, aumentam de uma forma constante e chegam a ser ajudados pelas bases do exército do regime. (Guardian 19/11/2011).

Apesar da repressão brutal levada a cado pelo exército e polícia de Assad, os protestos continuam, mostrando a enorme coragem do movimento anti-governo, principalmente nos subúrbios de Homs. No entanto, essa mesma repressão constante e a falta de uma liderança clara do movimento de oposição, que se baseie no movimento dos trabalhadores e numa saída socialista e classista para o conflito, criam cada vez mais elementos de divisão sob uma base étnica e religiosa da população.

O crescente envolvimento das potências regionais e internacionais no conflito.

A Liga Árabe, temendo o desenvolvimento regional das revoltas iniciadas com a Primavera Árabe, condena o regime sírio, expulsando-o da Liga e impondo-lhe sanções. As preocupações destas ditaduras, monarquias semi-feudais, não são claramente humanitárias, tendo em conta o seu registo passado, incluindo a repressão do movimento de massas no Bahrain. O que temem é a revolta da sua própria população, que olha com simpatia para este movimento. Além de terem os seus próprios interesses geo-políticos regionais, considerando o regime de Assad, próximo do Irão, incomodo.

Os EUA e a UE começam também a impor sanções económicas ao regime, em particular no sector petrolífero, que têm um impacto significativo visto que em 2010 os EUA eram o principal parceiro económico da Síria, representando 22,5% das trocas. O Turismo, outro sector chave, é pesadamente afectado, o desemprego e a pobreza aumentam, em alguns casos, salários não estão a ser pagos. Este tipo de tácticas de embargo económico, têm também o cariz de poder aumentar o sectarismo, e de isolar a parte da população síria que ainda apoia o regime ou está indecisa, têm o potencial de aumentar sentimentos anti-ocidentais que, há falta de uma alternativa da classe trabalhadora, são capitalizados por forças extremistas islâmicas.

Nesta altura as potências ocidentais rejeitavam qualquer tipo de intervenção militar, visto que a situação síria ser bastante mais complexa que a da Líbia. No entanto, já intervêm no conflito de forma mais ou menos indirecta. Tal como na Líbia, entram em contacto com os auto-intitulados líderes do movimento de oposição. “Temos estado em contacto regular com uma serie de figuras na Oposição Síria há vários meses. Estamos neste momento a intensificar estes contactos” diz uma porta-voz do gabinete estrangeiro britânico. William Hague, secretário dos assuntos externos, organiza um encontro com líderes do Concelho Nacional Sírio (movimento de oposição pró-ocidental e capitalista) em Londres a 21 de Novembro.

A luta armada desenvolve-se em Guerra Civil.

No início de 2012, uma resolução não vinculativa é passada na assembleia da ONU, que apoia o apelo da Liga Árabe para que Assad renuncie. A resolução baseia-se numa outra vetada pela Rússia e China no Conselho de Segurança, mostrando a pressão crescente das forças ocidentais sobre o regime de Damasco. Assad responde que irá “derrotar qualquer tentativa exterior de criar o caos na Síria”.

O que se verifica é o recurso cada vez maior ao exército, incluindo armamento pesado, contra diversos grupos de oposição armados, que integram um número crescente de ex-soldados do exército sírio. O regime bombardeia cidades e vilas, matando muitos manifestantes todos os dias, prendendo activistas e impondo sanções a cidades inteiras, que são reportadas de estar sem acesso a gás, energia, comunicações e em alguns casos comida. Há relatos de que as forças estatais alvejaram hospitais e escolas.

A resistência armada cresce e desenvolve-se em linhas sectárias. Imagens de brutalidade, quer por parte das forças estatais quer por parte de grupos “rebeldes” são lançadas nos media e internet todos os dias. Certas zonas de confronto já se dividem sob linhas sectárias e confessionais como Homs. Os Comités de Coordenação Local apelam a manifestações todas as sextas, e para que estas sejam pacíficas, avisando para a crescente violência do movimento de oposição em certas zonas do país.

Durante 2012 forças regionais e internacionais intervêm cada vez mais na Síria, e reforçam o carácter sectário e religioso do conflito. Arábia Saudita, Qatar e Turquia apoiam material e financeiramente movimentos de oposição armados de carácter pró-ocidental e islamista, com o apoio tácito dos EUA. Ao mesmo tempo um comandante sénior da Guarda Revolucionária Iraniana afirma que há forças iranianas no terreno em apoio a Assad.

Desde então a escalada do conflito é óbvia, com mais de 100.000 mortos e 2 milhões de refugiados. A entrada em cena do Hezbollah em apoio a Assad, a força crescente de milícias pró-Al-Qaeda e a violência sectária que usam no campo dos rebeldes. De ambos os lados assiste-se a ataques violentos contra a população civil.

A situação na Síria tem muitos paralelos com a da Líbia onde, através da intervenção do imperialismo ocidental, um movimento popular se transformou num conflito sectário, onde um governo não eleito e imposto pelo Ocidente, o Conselho de Transição Nacional, tenta controlar através da sua própria milícia um país arruinado pela guerra, onde centenas de outras milícias controlam os seus próprios feudos e lutam entre si, aumentando a miséria e o sofrimento das massas trabalhadoras e pobres.

A pressão de uma intervenção directa do imperialismo ocidental é também crescente, não se verificando principalmente devido à enorme oposição doméstica que existe a mais uma guerra no Médio Oriente, depois do falhanço no Iraque e Afeganistão. Mas o acordo com a Rússia é frágil, e a intervenção continua a ser uma possibilidade num futuro próximo. Intervenção esta que, como mostram os exemplos anteriores, só trará mais morte e sofrimento aos trabalhadores e pobres na Síria, e que será incapaz de resolver qualquer dos problemas na base do mesmo, pelo contrário, vai intensifica-los.

O movimento de Oposição sírio.

A oposição síria é composta por uma miríade de diferentes grupos. No entanto podem dividir-se em dois blocos principais. O primeiro é a Coligação Nacional para as Forças Revolucionárias e de Oposição Síria (CNFROS), uma coligação não eleita formada em Doha, Qatar, cujos principais elementos: são o Exército Livre Sírio (ELS); o Concelho Nacional Sírio (CNS), na qual se integra a Irmandade Muçulmana, e os Comités de Coordenação Local. O segundo é composto pela Frente Al-Nusra parte da Al-Qaeda e outras forças islamistas armadas.

O primeiro bloco é liderado pelo CNS, formado em 2011 em Istambul, uma força capitalista apoiada pelo Ocidente e pelos opositores regionais de Assad. O ELS é composto principalmente por desertores das forças armadas sírias mas que alinha também outras brigadas. A importância dos Comités Locais é difícil de medir, sendo uma rede de grupos locais que se opunham inicialmente à luta armada é à intervenção imperialista, foram incapazes de a impedir e hoje estão inseridos num bloco de oposição pró-ocidental, que apoia a intervenção imperialista.

O segundo bloco desempenha um papel crescente no conflito, são quem comete as maiores atrocidades contra o povo sírio, opõe a Assad mas ataca qualquer um numa base étnica e religiosa e não apenas as forças de Assad, criando atrás das linhas rebeldes uma outra guerra civil. São as forças mais reacionárias do conflito, que desejam um regime jihadista na Síria.

A esquerda e a Síria. Assad, “Rebeldes”, ou classe trabalhadora?

Muito se tem debatido à Esquerda sobre qual o carácter do conflito e que atitude tomar em relação à situação na Síria.

A esquerda tradicionalmente ligada aos partidos comunistas, incluindo o PCP, apoiam a versão de Assad, ou seja, que todo o conflito foi desde o início um ataque imperialista contra o regime por este ser um aliado do Irão, e ser um regime “anti-imperialista”. Este apoio tem uma raíz histórica, vindo desde a formação do actual regime, liderado pelo pai de Bashar al-Assad, que se enquadrou nas revoluções nacionais árabes, e que, nos anos de 1960/70 desempenharam um papel progressista no Médio Oriente, que era completamente subjugado pelo imperialismo britânico, francês e norte-americano. O Partido Comunista Sírio integra a coligação governamental.

No entanto, apesar do papel positivo que estas revoluções tiveram, como por exemplo, trazendo liberdades religiosas, hoje em dia os regimes que se mantêm desde então deixaram há muito de ser forças progressistas. Economicamente aderiram às teorias neoliberais, alinhando-se assim com o imperialismo; recordemos que o principal parceiro comercial da Síria em 2011 eram os EUA, e que já em 1990, na 1ª guerra do Iraque, o regime Sírio colocou-se do lado imperialista. Politicamente são ditaduras brutais, que negam qualquer direito democrático ao povo, que reprimem qualquer oposição e impedem a criação de organizações independentes dos trabalhadores.

Foi a natureza destes regimes que despoletou a Primavera Árabe e a Síria não foi excepção. O regime de Assad não oferece qualquer solução e perspectiva de uma vida melhor para os trabalhadores e os pobres na Síria.

Do outro lado temos a esquerda, como é o caso da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI) da qual o MAS faz parte, que caracteriza a situação como uma revolução popular, a mais avançada neste momento a nível mundial! Pensamos que esta é uma análise estática e automatizada dos acontecimentos, ignorando o verdadeiro carácter do conflito e das forças que nele participam.

Toda a questão tem como fundo a caracterização do que realmente está a acontecer na Síria, trata-se de uma revolução popular que evoluiu em conflito armado? Ou por outro lado, o que realmente sucede é que um movimento popular contra a ditadura degenerou, através da intervenção directa e indirecta do imperialismo ocidental e seus aliados regionais, num conflito sectário, que se arrisca a alastrar pela região?

Se inicialmente houve um levantamento popular, no final de 2011 ele já se transformava num conflito armado com tendências sectárias e que tinha à cabeça as ditaduras semi-feudais do golfo pérsico e o imperialismo ocidental que, ao longo de 2012 e 2013, foi ganhando proporções cada vez mais monstruosas. A LIT-QI apesar de caracterizar as forças de oposição no seu Bolhetim Internacional adopta uma posição de “apoio incondicional aos rebeldes”, mas de que rebeldes estão a falar? Da oposição capitalista baseada em Istambul e no Qatar ou das milícias islâmicas?

Além disso apesar de ser contra a “intervenção imperialista” apela a que os governos de todo o mundo enviem armas para os “rebeldes sírios”, mas isso é o que eles já estão a fazer! Mas fazem-no às forças que melhor defendem os seus interesses, e da forma que melhor lhes convém. E não é isso já a intervenção imperialista (mesmo que indirecta)?! Não é isto alimentar ilusões no papel que as forças imperialistas podem desempenhar? Não deviam antes fazer um apelo internacional de classe em que chamam os trabalhadores a organizar acções contra os governos que intervêm já no conflito?

Ao apoiar incondicionalmente os “rebeldes sírios” a LIT-QI assume assim uma posição paradoxalmente inversa às posições “castro-chavistas” [termo usado por eles] mas que cai numa versão de Frente Popular, em que os trabalhadores e a análise de classe são deixados de lado, para se apoiar uma oposição capitalista e islamista, que nada de bom tem a oferecer aos trabalhadores e aos pobres da Síria, pelo contrário, que também os ataca. Ao não defender uma alternativa de oposição independente dos trabalhadores e pobres, cai assim nessa teoria “castro-chavista”.

Fazendo um paralelo com a guerra civil espanhola, em que apesar do campo republicano ter uma direcção burguesa, a posição dos revolucionários era a de apoiar esse “campo militar” contra Franco, visto que o governo da Frente Popular era claramente mais progressista que o fascismo. Pensamos que este paralelo é um erro, na Espanha havia de facto uma revolução (ou seja: a entrada em cena de milhões de trabalhadores mobilizados) em curso e um campo claramente progressista face ao outro. Qual foi a atitude das massas trabalhadoras na síria face ao escalar da guerra civil? Serão os rebeldes claramente progressistas face a Assad? Não existe um envolvimento das massas trabalhadoras no conflito, que vivem aterrorizadas “atrás das linhas” ou tornaram-se refugiados dentro e fora do país, e sofre as atrocidades de um conflito cada vez mais sectário, cometidas quer pelas forças de Assad, quer pelos “rebeldes”.

Se nos perguntarem qual o lado que escolhemos, a resposta é simples: estamos do lado da classe trabalhadora e das massas pobres! O papel dos marxistas é o de apoiar a criação de organizações independentes da classe trabalhadora e dos pobres, da sua auto-organização e defesa, lutar contra uma ditadura brutal como a de Assad, mas sem alimentar ilusões apoiando um campo militar burguês e imperialista ou jihadista que nada tem a oferecer à classe trabalhadora, senão mais morte e miséria.

O que defendemos:

  • Não à intervenção imperialista! Retirada de todas as tropas estrangeiras da Síria e da região!
    Contra toda a opressão, o povo deve decidir democraticamente o seu próprio destino!
  • Pela construção de comités de defesa unitários, para defender os trabalhadores e os pobres contra ataques sectários de ambos os lados.
  • Por uma Assembleia Constituinte Revolucionário na Síria!
  • A implementação de direitos democráticos e de nacionalidade para as massas, com o reconhecimento do direito do povo Curdo à auto-determinação, incluindo, se assim o desejarem, o direito ao seu próprio Estado.
  • Sindicatos independentes e a construção de um partido de trabalhadores de massas, com um programa de terra para os camponeses e fábricas para os trabalhadores, implementado através de um plano económico socialista e democrático.
  • Por uma confederação democrática e socialista do Médio Oriente e Norte de África.