Chile: 40º aniversário do sangrento derrube do governo Allende

Na reconstrução do movimento socialista, lições do golpe que têm de ser apreendidas

Tony Saunois, Comité por uma Internacional dos Trablhadores (CIT)

O ataque terrorista às Torres Gémeas, em Nova Iorque, em 2001 não foi o primeiro “11 de Setembro”. No Chile, a 11 de Setembro de 1973, um sangrento golpe, liderado pelo General Augusto Pinochet e apoiado pelo governo dos EUA, derrubou o governo democraticamente eleito do Presidente Salvador Allende. No seu rescaldo, milhares de sindicalistas e socialistas foram massacrados e outros milhares foram presos, torturados e forçados ao exílio.

No quadragésimo aniversário do golpe, o Chile está em campanha para as eleições presidenciais, marcadas para 17 de Novembro de 2013. Depois de um gigantesco movimento estudantil, que continua a abalar o país, o primeiro passo possível que está a ser dado é a reconstrução de uma alternativa para a classe trabalhadora.

Os dois principais blocos políticos, a “Nova Maioria” e a “Aliança”, representam ambas a classe dominante existente. Não têm oferecido nenhuma alternativa à classe trabalhadora e aos pobres do Chile. Os partidos da “esquerda”, como o Partido Socialista e o Partido Comunista, abandonaram há muito as ideias radicais de esquerda a que aderiam durante a era de Allende. Tal como os seus correligionários a nível internacional, esses partidos abraçaram o capitalismo e os mercados e não oferecem nenhuma alternativa às massas trabalhadoras.

A anterior Presidente, Michelle Bachelet, do Partido Socialista e a coligação Nova Maioria concorrem novamente, já que nenhum candidato credível emergiu da anterior coligação governamental. Bachelet é a filha do general Bachelet, que apoiava Allende e morreu sob tortura depois do golpe.

A direitista Aliança apoia Evelyn Metthei, filha do antigo membro da Junta de Pinochet, o General Matthei.

Nenhuma das candidatas oferece nada mais que a continuação das políticas neoliberais. Contudo, também na disputa eleitoral está Marcel Claude, o candidato do Partido Humanista e da Aliança de Esquerda. Defendendo o movimento estudantil, reivindica educação gratuita e de qualidade para todos e a renacionalização da indústria do cobre, dos bancos e dos monopólios,  a campanha de Claude está a envolver grandes multidões e a ganhar um apoio entusiástico por parte de trabalhadores e jovens.

Esta campanha representa um importante passo na reconstrução do movimento dos trabalhadores e socialista. Para organizar a partir desta campanha e depois das eleições de Novembro, as lições do sangrento golpe de há 40 anos têm de ser aprendidas pelas novas gerações. As razões da derrota de há 40 anos são hoje relevantes para os trabalhadores e juventude do Chile e de todos os países.

Tony Saunois, 11 de Setembro de 2013

O outro ’11 de Setembro’ – o sangrento golpe de 1973 contra o governo da Unidade Popular e as lições para hoje.

O 11 de Setembro de 1973 não foi planeado desde os territórios tribais do Afeganistão ou Paquistão mas da sede central da CIA e da Casa Branca , em articulação com a elite dominante no Chile e as suas Forças Armadas. Este “11 de Setembro deve ser assinalado pelos socialistas revolucionários e trabalhadores em toda a parte, e as suas lições apreendidas.

Nunca foi feito nenhum pedido de desculpas presidencial, por parte dos EUA, incluíndo por Obama, pelo que foi desencadeado contra os trabalhadores, estudantes e pessoas comuns do Chile. As consequências do que se seguiu ainda marcam as vidas das massas do povo chileno. As consequências dos ataques às Torres Gémeas são sentidas pelos trabalhadores e pobres no Iraque, Afeganistão, Paquistão e por todo o mundo. O que se seguiu ao golpe no Chile teve consequências para o movimento internacional dos trabalhadores e todos os explorados pelo capitalismo.

Sob o controlo férreo da ditadura militar chilena, criou-se um laboratório de experiências económicas. As políticas neoliberais de privatização, mercados livres, desregulamentarização e privatização do sistema de pensões e reformas, foram todas elas experimentadas primeiramente no Chile depois do golpe. Depois, elas foram implementadas pela classe dominante internacional nos anos 80/90 e continuam no presente século. Os ‘Chicago Boys’, estudantes de economia seguidores de Milton Freidman, chegaram ao Chile após o golpe de Pinochet. O regime militar deu-lhes mão livre para testar as suas teorias. Essas foram as política mais tarde seguidas por Thatcher, Reagan e outros líderes capitalistas.

O golpe de 11 de Setembro de 1973 deu-se na sequência da eleição de Salvador Allende para a presidência chilena a 4 Setembro de 1970, como chefe da coligação Unidad Popular (UP). Esta coligação era liderada pelo Partido Socialista do Chile (PSCh) e o Partido Comunista Chileno (PCCh), conjuntamente com outros partidos de esquerda e alguns partidos capitalistas liberais e radicais. Esta vitória eleitoral abalou a elite dominante. Abriu um processo revolucionário que inspirou a classe trabalhadora a nível internacional. Os desenvolvimentos revolucionários no Chile durante este período foram provavelmente – com a excepção de Cuba – os mais avançados da maioria da América Latina desse tempo. Mais, os trabalhadores, especialmente a classe operária, tiveram um papel central nessa luta. Estes acontecimentos aterrorizaram as classes dominantes por toda a América Latina, dos EUA e da Europa. Depois da eleição de Allende, o embaixador dos EUA enviou um telegrama para Washington: “O Chile votou calmamente para ter um estado Marxista-Leninista, o primeiro país do mundo a fazer esta escolha livremente e com conhecimento.”

Os partidos socialista e comunista

O PSCh nessa altura era uma coisa completamente diferente do que existe hoje. Fundado nos princípios dos anos 30, nasceu em oposição ao Partido Comunista estalinizado, e era um grande partido. Estava muito à esquerda do PCCh. Incluía nos seus Estatutos a adesão a Marx e Lenine e defendia o estabelecimento de uma Federação Socialista da América Latina. Allende, apesar de em muitos dos seus discursos dar o seu apoio ao Marxismo, não era o candidato da esquerda do PSCh mas foi o candidato de ‘compromisso’ do partido para as eleições presidenciais.

A vitória da Unidad Popular surgiu depois de uma séria de levantamentos sociais que abalaram o Chile nos anos 60. A classe média estava dividida com uma das suas secções cada vez mais radicalizada. Isso afectou o partido capitalista do centro-direita Democracia Cristiana (DC). Um dos seus sectores acabou por cindir e constituir a Esquerda Cristã (IU) e o MAPU, os quais acabaram na Unidad Popular e mesmo na sua “ala esquerda”. Mesmo Tomic, o candidato da DC contra Allende, reflectia este processo ao referir-se à “relevância do Marxismo”.

A UP implementa reformas

Chile1-UP1Poucas semanas depois de formar governo, a UP introduziu importantes reformas. As refeições grátis nas escolas foram introduzidas de imediato, os salários aumentados e começou a ser implementada uma Reforma Agrária. Sob o impacto da revolução, as poderosas minas do cobre, em grande parte propriedade de multinacionais americanas, acabaram por ser nacionalizadas, bem como importantes sectores da actividade bancária. Foi anunciada a intenção de nacionalizar perto de 100 companhias. Na altura do golpe, em 1973, 40% da economia estava sob controlo do Estado.

Desde o início, a direita e os militares chilenos, conjuntamente com o imperialismo norte-americano, começaram a conspirar para derrubar o governo da UP. Inicialmente, esperavam que uma politica de destabilização e sabotagem económica fosse suficiente para minar o governo e desencadear a sua queda. As ordens do Presidente Nixon, dos EUA eram “fazer a economia gritar!”. Foi estabelecido um embargo económico contra o Chile. Essas forças da reacção financiaram ataques armados terroristas dos fascistas do ‘Patria y Liberdad’, e um lock-out patronal liderado por proprietários de camiões de carga. Allende ganhou as eleições com 36.3% do voto popular. Os partidos capitalistas no Congresso, permitiram-lhe que assumisse a Presidência, com uma votação minoritária, porque ele, fatalmente, aceitou um pacto constitucional que significava que não poderia tocar ou interferir nas Forças Armadas. Ora isto revelou-se desastroso nos acontecimentos que se seguiram.

A classe dominante esperava poder minar a base de apoio de Allende e juntar à sua própria base de apoio os que hesitassem. De princípio, tentaram-no fazer “constitucionalmente”. Usaram o Congresso e o Senado para bloquear e paralisar o governo. Eventualmente, esperavam provocar o impeachment de Allende, para o qual necessitavam de uma maioria de dois terços, mas foram incapazes de a alcançar. A natureza antidemocrática do sistema parlamentar significava que a UP não tinha a maioria nem no Congresso nem no Senado. Contudo, essa táctica tornou-se irrelevante já que o apoio à UP não apenas se consolidou mas aumentou. Cada tentativa de sabotar o governo radicalizava a classe operária e demais trabalhadores, empurrando o processo revolucionário para a frente e aumentando o apoio eleitoral ao governo.

Durante as eleições locais de 1971, os candidatos da UP obtiveram 51% dos votos. Mesmo nas eleições para o Congresso, em Março de 1973, os partidos pró-capitalistas esperavam ganhar 66% dos votos e dois terços dos assentos congressionais, o que seria suficiente para impugnar Allende. Falharam e a UP ganhou 44% dos votos – mais do que quando Allende foi eleito!

O papel da classe operária

Ao contrário do que se passa na Venezuela de hoje, a classe operária via-se conscientemente como a força dirigente da Revolução no Chile. Apesar de Allende ter uma enorme popularidade, o culto da personalidade e os métodos administrativos do topo para a base, presentes hoje na Venezuela, não eram predominantes sob a Unidad Popular. No Chile, a classe operária e demais trabalhadores tinham construído poderosas organizações políticas e sociais com longa história e tradições. Havia um intenso debate entre diferentes organizações e partidos, e também dentro deles, sobre o programa e estratégia. Os dirigentes eram desafiados e, em algumas ocasiões, sofriam oposição dos trabalhadores. Onde as velhas organizações se mostravam inadequadas, os trabalhadores construíam novas que correspondessem melhor às suas reivindicações e necessidades nos seus locais de trabalho e comunidades locais para dirigir e defender a Revolução.

O carácter do processo revolucionário sob a UP teve um efeito gigantesco a nível internacional. Era bem maior do que a simpatia demonstrada por camadas da juventude em relação a Chavez na Venezuela. A eleição de um Presidente e um governo “Marxistas” no Chile, e o papel de direcção da classe operária, entusiasmou a classe globalmente. E também abriu um debate de como conquistar o Socialismo e o papel do Estado. Na Grã-Bretanha, reuniões de sindicalistas e de militantes do Partido Trabalhista debatiam a experiência chilena e as suas lições para o movimento internacional dos trabalhadores. Apoiantes do jornal Militant (o antecessor do Socialist Party) apresentaram moções ao Congresso do Partido Trabalhista, retirando lições do Chile e, entre outras coisas, reivindicando direitos sindicais para as Forças Armadas chilenas.

Cada tentativa contra-revolucionária no Chile provocou uma ainda maior radicalização e mobilização de massas pela classe operária e seus aliados. A “greve” patronal de 1972 levou a um forte crescimento nos distritos operários e à formação dos ‘cordones industriales’. Eram comités eleitos nos locais de trabalho, que se começaram a ligar numa dada área ou mesmo cidade, delegados eram eleitos e sujeitos a destituição. Na cidade operária de Concepcion, no sul do Chile, formaram uma Assembleia Popular. O Controlo Operário foi estabelecido em muitos locais de trabalho por todo o país. O açambarcamento alimentar e a especulação causados pelo embargo e sabotagem dos patrões levou à criação das JAP – ‘Juntas de Abastecimento Popular’ – cuja distribuição organizada de alimentos evitava a especulação. Os cordones assumiram cada vez mais um papel político no avanço e defesa da Revolução.

Isto devia-se à frustração dos trabalhadores face ao sistema eleitoral parlamentar antidemocrático, o que significava que faltava à UP uma maioria no Congresso e no Senado, apesar de formar governo. Um dos mais radicais cordones era o do bairro operário de Cerillos. Adoptou um programa de governo que, entre outras coisas, declarava “apoio ao governo do Presidente Allende, até agora, como intérprete das lutas e reivindicações dos trabalhadores, expropriação de todos os monopolistas, firmas com mais de 14 milhões de escudos de capital ou que sejam de importância estratégica para a economia, controlo operário de todas as indústrias, quintas, minas através de concelhos de delegados, delgados que possam ser destituídos pelas bases, um salário mínimo e máximo, controlo dos camponeses e agricultores da agricultura e do crédito e uma Assembleia Popular para substituir  o parlamento burguês.”.

A classe operária estava muito mais à esquerda do que o governo e os seus dirigentes, ambos arrastados a darem passos cada vez mais radicais pela classe operária e juventude radicalizadas. Formaram-se Esquadrões de Defesa Operária em resposta a ataques armados que estavam a ser desencadeados pelos fascistas do Patria y Liberdadjá que a polícia e as forças armadas nada faziam. Estes desenvolvimentos aterrorizaram a classe dominante e o imperialismo.

A Revolução espalhou-se para os campos, onde assalariados agrícolas e camponeses ocuparam terras e levaram a cabo um programa de Reforma Agrária. Mais de 10 milhões de acres de terra foram redistribuídos.

Planos para um golpe militar

A classe dominante, em conjugação com o imperialismo estado-unidense, começou rapidamente a desenvolver planos para um golpe militar já que diminuíam as perspectivas de se verem livres do governo de Allende através do parlamento e o processo revolucionário continuava e avançava. Contudo, em cada etapa, os dirigentes do PCCh  e sectores do PSCh  agiam como travões para suster o processo revolucionário, argumentando que a burguesia “democrática” não podia ser alienada do processo e defendendo a “constitucionalidade” das Forças Armadas. A esquerda do PSCh, incluíndo pessoas como o secretário-geral do partido Carlos Altamirano, defendia a criação do Poder Popular e um fortalecimento da Revolução. Contudo, apesar de usarem uma retórica muito à esquerda e marxista, a esquerda do Partido Socialista não foi capaz de propor reivindicações e iniciativas concretas para fazer avançar a revolução e derrubar o capitalismo, ao mesmo tempo que se estavam a desenhar os planos para o golpe militar reaccionário.

Estes desenvolvimentos levaram a uma polarização dentro da coligação da Unidad Popular e cisões dentro dos partidos integrantes entre a esquerda e a direita.

Contudo as forças da reacção estavam a preparar planos muito precisos e detalhados. Henry Kissinger, Secretário de Estado dos EUA na administração Nixon, telegrafou para o chefe da CIA em Santiago: “É uma política firme e continuada que Allende deve ser derrubado por um golpe”. As preparações estavam feitas. A reacção apostava no tempo, esperando por um momento apropriado para atacar. Era sabido por todo o Chile que um golpe não estava apenas a ser discutido como estava a ser planeado. Na altura, dizia –se por piada que Allende gastava 23 horas em cada 24 a preocupar-se com as Forças Armadas. Em Junho, secções dos militares, de um regimento de blindados, agiu prematuramente e organizou uma rebelião contra o governo – o chamado ‘Tancazo‘. Era cedo demais e foi neutralizado pelas Forças Armadas, sob as ordens de Allende. O General Pratts, um apoiante de Allende, que conduziu a resposta à tentativa de insurreição, foi posteriormente assassinado, depois do golpe triunfante de Setembro de 1973.

O ‘Tancazo‘, em Junho, actuou como um chicote da contra-revolução e provocou a classe operária a tomar ainda mais medidas revolucionárias. Teve o mesmo efeito do putsch falhado de Spínola, alguns anos mais tarde, em Março de 1975 durante a Revolução Portuguesa.

No Chile, o golpe falhado de Junho foi seguido pelo anúncio de um plano de vastas nacionalizações e pela cada vez maior reivindicação, por parte da classe operária e demais trabalhadores por armas para combater as ameaças da reacção.

Apesar do ‘Tancazo’, nem Allende nem outros dirigentes tomaram medidas para golpear os militares ou para mobilizar e armar os trabalhadores. Não foram dados direitos sindicais aos soldados e marinheiros das Forças Armadas, não se fez nenhuma tentativa de organizar ou construir apoio entre os soldados e marinheiros ao processo revolucionário, apesar de haver muito apoio entre eles. Havia condições para uma cisão nas forças armadas mas era necessária uma acção determinada.

Contudo os dirigentes da UP estavam presos à ideia, especialmente enfatizada pelo PCCh, que existia uma “ala progressista” num sector da classe dominante. Allende proclamou a sua determinação de evitar uma guerra civil. Eles tinham uma politica de respeitar a “constitucionalidade das Forças Armadas” e um programa gradual de reformas passo-a- asso que iriam , eventualmente, poder estabelecer o Socialismo. Na prática, esta “teoria das etapas” permitiu à classe dominante tempo para preparar as suas forças para atacar, quando o momento fosse mais oportuno. E resultou não no evitar da guerra civil mas no afogar do movimento revolucionário em sangue.

Pacto Constitucional

Desde o início, Allende criou a base da sua própria derrota quando aceitou não tocar nas Forças Armadas no fatal “Pacto Constitucional”. A máquina do Estado foi deixada nas mãos dos generais e da reacção, sem nenhum desafio. Allende adoptou uma política de apaziguamento – tendo mesmo nomeado 3 generais – incluíndo Pinochet, para o Governo, noma tentativa condenada de acalmar os militares e a classe dominante. Allende teve o apoio de 4 dos 22 generais mas a sua política tornou-o impotente, já que os seus apoiantes eram sucessivamente destituídos e acabaram por ser executados. Os republicanos em Espanha, nos anos 30, pelo menos jogaram a “dança das cadeiras”, enviando Franco para várias áreas do país, tentando prevenir e evitar a organização da revolta militar fascista. Mas Allende nomeou Pinochet Ministro do Governo e mesmo Chefe do Estado-Maior, depois da resignação forçada pelos conspiradores pró-golpe, do General Pratts.

Mais ainda, quando soldados e marinheiros tentaram sair em apoio da Revolução, em oposição ao golpe, a política da “constitucionalidade” levou Allende, escandalosamente, a apoiar a hierarquia reaccionária golpista. Em Agosto de 1973, no porto naval de Valpariso, 100 marinheiros foram presos por “abandono do dever militar”. Na verdade eles tinham descoberto os planos do golpe e declararam que se iriam opôr a isso. No que se pode referir como a sua hora mais negra, Allende apoiou a hierarquia na Marinha de Guerra quando esta prendeu e torturou este grupo de marinheiros!

Mais de um milhão de pessoas manifestaram-se em frente ao Palácio Presidencial, com Allende na varanda, dois dias antes do golpe de Pinochet. Esses operários, jovens trabalhadores, estudantes, sabendo do golpe iminente, exigiam armas para defender a Revolução. Exigiam também a dissolução do Parlamento.

Os dirigentes da esquerda do PSCh e outros prometeram que as armas estavam armazenadas e seriam distribuídas se necessário. Na realidade, nada foi feito para armar os trabalhadores contra a sangrenta contra-revolução.

O golpe

Chile1-Golpe2Dois dias depois, os conspiradores atacaram, quando se realizavam manobras navais conjuntas entre as Armadas chilena e norte-americana junto à costa chilena. No dia do golpe, a Central Única dos Trabalhadores, CUT, apelou aos trabalhadores para irem para as fábricas e aguardarem instruções. Esta política errada foi justificada pela referência errada a Lenine que dizia que as fábricas eram as fortalezas da revolução. Isto foi o contraste do que fizeram os heróicos operários de Barcelona, em 1936, os quais, quando souberam da revolta fascista, imediatamente passaram à ofensiva e assaltaram os quartéis, derrotando os fascistas.

No Chile, em Setembro de 1973, uma manifestação de massas em armas e um apelo claro aos soldadores e marinheiros para se juntarem à revolução era a única alternativa nesta fase tardia, para salvar a revolução e derrotar o golpe.

Em vez disso, com o desencadear do golpe, os trabalhadores foram deixados isolados nas fábricas, esperando até que foram apanhados por destacamentos militares armadas.

Uma vez no poder, os militares desencadearam uma sangrenta era de repressão e massacres.

victor_jaraMais selectiva na sua execução que o golpe na Argentina e noutros países da América Latina, foi operação cínica e brutal que teve como alvos os trabalhadores e jovens mais politicamente conscientes e activos. Embora tenha havido mais mortes na “guerra suja” na Argentina, o ataque directo aos dirigentes políticos e líderes operários locais decapitou o movimento dos trabalhadores. Entre os assassinados durante os primeiros dias do golpe estava o cantor popular e revolucionário chileno Victor Jara, que foi detido com milhares no tristemente célebre Estádio de Santiago.

Os Chicago Boys na cidade

O golpe foi acompanhado pela chegada ao Chile dos ‘Chicago Boys‘ – uma equipe de economistas de direita – que desencadearam um conjunto de políticas –neoliberais que tiveram um efeito devastador sobre a classe trabalhadora chilena. O regime militar durou até 1990.

Infelizmente, os dirigentes do Partido Socialista e do Partido Comunista não aprenderam as lições desta sangrenta derrota. Com o colapso dos antigos regimes estalinistas e das suas economias planificadas abandonaram a defesa das ideias socialistas e formaram ainda alianças com os sectores que eles consideram “progressistas” da classe dominante chilena. Durante 20 anos, depois do domínio militar e da “transição”, o PSCh fez aliança com a Democracia Cristã fazemdo parte do governo de coligação, Concertacion. No governo, o PSCh continuou com as políticas de privatizações e neoliberalismo. O Partido Comunista tentou agir como o conselheiro de “esquerda” da coligação Concertacion, ficando atrelado à mesma, tentando desesperadamente assegurar assentos parlamentares como recompensa. Nas últimas eleições, o Partido Comunista finalmente teve sucesso e elegeu 3 deputados.

O “modelo Chileno”

A economia chilena foi definida como um modelo para toda a América Latina, e mesmo globalmente. A economia cresceu, a uma média anual de 5,5% por ano, e foi usada para justificar as políticas neoliberais extremas iniciadas sob o regime militar e continuadas desde aí. Esse crescimento baseou-se no alto valor e no aumento do preço do cobre, que conta como 15% do PIB, e a exportação de madeira, vinho e produtos agrícolas. Contudo, apesar do crescimento, o Chile tornou-se umas das sociedades mais desiguais da América Latina – uma das três mais desiguais do continente. Isto resultou na situação cada vez mais explosiva no campo social, que se reflecte nas tremendas lutas de milhares de estudantes nos últimos meses. Ao mesmo tempo, a vitória sucessiva da coligação Concertacion nos últimos vinte anos, que apenas agiu na defesa dos interesses dos ricos resultou numa crescente alienação em relação a todas as instituições políticas legadas da ditadura. Todos os principais partidos têm defendido as mesmas políticas ou políticas similares. O sistema eleitoral, estabelecido por Pinochet, está desenhado para manter os dois principais blocos políticos, num sistema parlamentar quase permanentemente em impasse. O chamado sistema “bi-nominal” – concebido por Jarulselski, na Polónia- torna impossível a qualquer partido ganhar representação fora dos dois principais blocos – a Concertacion de “centro-esquerda” ou a extrema-direita.

A alienação dos partidos políticos que defendem o sistema político e económico, reflecte-se no baixo nível de registo eleitoral entre a juventude. Cerca de 75% dos jovens nem se registam eleitoralmente. A falta de qualquer alternativa e o descontentamento com a Concertacion, resultaram na vitória da coligação de direita encabeçada por Sabastian Pinera. Tal como a maior parte da casta política no Chile, ele vem de uma dinastia familiar. O seu irmão mais velho foi ministro de Pinochet e o seu pai foi o embaixador chileno na ONU entre 1964 e 1970.

A eleição de Pinera foi como uma chicotada da contra-revolução e desencadeou a frustração e alienação que se tem vindo a acumular nos últimos 20 anos. Uma nova geração explodiu em lutas, marcando o fim da auto-designada “estabilidade” propagandeada pela classe dominante chilena desde o fim da ditadura militar.

Juventude em revolta

Chile1HojeDurante meses, estudantes universitários e do ensino secundário ocuparam as universidades e escolas, realizaram manifestações gigantescas de centenas de milhares, concentrações de “beijos” e outras formas de protesto, reivindicando um sistema educacional de qualidade e gratuíto. Eles enfrentaram uma brutal repressão de Estado, não vista desde os tempos da ditadura, resultando na morte de um jovem de 16 anos. Este movimento da juventude teve um gigantesco apoio entre a população- de acordo com uma sondagem, 85% da população apoiou os estudantes.

Durante este movimento, os mineiros do cobre convocaram um dia de greve em apoio à luta estudantil. Significativamente, esta greve foi convocada para 11 de Julho – o mesmo dia em que Allende nacionalizou a indústria do cobre. Os estivadores e outros sectores de trabalhadores declaram o seu apoio. Os estudantes também assumiram as reivindicações dos mineiros e apelaram à nacionalização deste sector económico. Há semelhanças com a França de 1968, quando os estudantes em revolta se juntaram à classe operária e demais trabalhadores. Contudo, há também importantes obstáculos e dificuldades a serem ultrapassados no Chile, alguns resultantes do legado da ditadura, outros reflectindo as dificuldades com que a classe trabalhadora se defronta hoje e os efeitos da falência das lideranças sindicais, tal como da aplicação das políticas neoliberais.

Os estudantes orientaram-se para a classe operária e organizaram comícios e manifestações em apoio aos operários mineiros do cobre. Contudo, a direcção sindical dissuadiu os operários e demais trabalhadores a participarem nessas acções. Reflectindo esta gigantesca pressão, a CUT foi forçada a convocar uma greve geral de 2 dias, a 24 e 25 de Agosto. Porém, esta oportunidade foi desperdiçada pela direcção da CUT. Durante vinte anos, a liderança da CUT agiu como um apêndice da Concertacion. A juventude tem a percepção da CUT como apenas outra instituição do sistema. Convocar simplesmente uma greve, desde o topo, não é suficiente. Sem uma campanha de agitação nos locais de trabalho e nos bairros para preparar os trabalhadores e aumentar a sua confiança e sem um programa claro para defender os trabalhadores perseguidos, muitos trabalhadores sentem-se intimidados para entrar em acção.

As consequências das políticas neoliberais significam que a preparação de uma greve é ainda mais importante. No sector privado, muitos trabalhadores não têm contrato e trabalham ao dia ou à hora, receando perder o seu trabalho. Mesmo no sector público, cerca de 50% dos trabalhadores não tem contracto. Isto faz o trabalho de construção sindical ainda mais difícil. Os professores, por exemplo, são conhecidos como “professores-taxistas”, ensinam umas horas numa escola e depois correm para outra escola por mais umas horas, sem contrato.  Como resultado destas fraquezas, e lideranças sindicais sem vontade de ir à luta, a greve teve um impacto limitado apesar de ter uma imensa simpatia por parte da massa da população.

A construção de Comités de Luta nos locais de trabalho e de assembleias nos bairros e comunidades é uma tarefa crucial como parte da reconstrução do movimento dos trabalhadores, que agora se coloca com urgência, no Chile, como noutros países.

O papel dos partidos políticos, incluíndo do Partido Comunista, é uma outra característica deste movimento. A alienação dos jovens face ao sistema e instituições foi reflectida pela pronunciada reacção contra a ideia de partidos políticos. O Partido Comunista, que age como um apêndice da Concertacion, e que tem a sua própria universidade privada, é visto à mesma luz! O papel do Partido Comunista reforça o sentimento anti partidos, o que também está presente nos recentes movimentos juvenis que irromperam na Grécia e Espanha.

Isto não significa que o movimento seja “apolítico”. A juventude no Chile exige a nacionalização da indústria do cobre, educação gratuíta e de qualidade, opondo-se à ideia da Educação como uma “mercadoria”. Contudo, reagem contra a ideia de um partido político porque não têm experiência de um partido que seja diferente e que vejam como representante dos seus interesses.

Embora isso seja uma complicação para o movimento, representa uma primeira reacção da nova geração que acabou de entrar nas lutas pela primeira vez. É uma reacção temporária aos partidos políticos e ao sistema existentes.

Esta colocada objectivamente, nas presentes lutas e na crise que se está a desenvolver, a necessidade de uma força organizada, um novo partido político que possa canalizar a determinação de uma nova geração que luta por uma mudança e que está a aprender as lições das lutas anteriores. Através da experiência das lutas futuras, significantes sectores dos que entram nas lutas pela primeira vez podem começar a concluir que necessitam de construir uma nova força e um partido que represente os seus interesses. Os Marxistas necessitam de auxiliar esse processo, e a partir das experiências das lutas passadas explicar porque reivindicações um genuíno partido dos trabalhadores e da juventude se irá bater e como será diferente dos actuais partidos que defendem o sistema.

Novas batalhas aproximam-se no Chile. Recordar o primeiro 11 de Setembro, e tirar as lições desta sangrenta derrota, pode ajudar a nova geração a preparar-se para a luta de classes que há que travar e também preparar o caminho para o derrube do sistema capitalista e lutar por uma genuína alternativa socialista e democrática.

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