Grécia: Neonazis acusados do assassinato a sangue frio de Pavlos Fyssas, rapper e activista de esquerda

Posted on 23 de Setembro de 2013 por

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Andros Payiatsos, Xekinima (CIT da Grécia) – 20 de setembro de 2013

A esquerda e a classe trabalhadora organizada precisam organizar uma poderosa frente antifascista

Na noite passada (18/09/13), o município de Keratsini, no grande Pireu, a segunda maior cidade da Grécia e o seu maior porto, foi inundado por dezenas de milhares de antifascistas de todo Pireu e Atenas. A cidade, próxima de Atenas, possui uma forte tradição operária e uma longa história de lutas. Os antifascistas expressaram a sua revolta contra assassinato a sangue frio de Pavlos Fyssas, um artista de rap e activista antifascista.

Pavlos Fyssas era conhecido pelas suas corajosas canções antifascistas e ideias de esquerda. Foi atacado por facínoras da Aurora Dourada na frente de muitas testemunhas e quatro polícias (armados), que não fizeram nada para impedir o assassinato.

Um apoiante da Aurora Dourada foi detido pela polícia ontem e supostamente confessou o assassinato. Foi preso de imediato. Embora fatalmente ferido, Pavlos foi capaz de apontar o seu atacante à polícia. Também havia muitas testemunhas oculares do ataque à faca, já que ele ocorreu numa praça central.

Depois de admitir ter matado Pavlos Fyssas, o suspeito disse que era um membro da Aurora Dourada e que visitava a sede dessa organização na área muito regularmente, “cinco a dez vezes por mês”.

A polícia efectuou uma busca na casa do suspeito depois do assassinato e encontrou literatura e outros materiais desse partido. Foi relatado na mídia que sua esposa disse à polícia que imediatamente antes da prisão do suspeito, este havia lhe telefonado e pediu-lhe que tirasse todo o material da Aurora Dourada de casa e a levasse para a casa de um de seus parentes – que é líder da Aurora Dourada na área.

A comunicação social grega informou extensivamente que o suspeito era pago pela Aurora Dourada para atacar “preventivamente” os imigrantes e provocar choques de rua com activistas de esquerda. Essa é uma prática comum da Aurora Dourada: pagam a pessoas para participar nos seus ataques quando necessário.

Pavlos Fyssas é o primeiro activista grego a ser assassinato por apoiantes da Aurora Dourada. Até agora, esta concentrava os seus ataques nos imigrantes, causando várias mortes. Mas desde o ano passado, começou a aumentar os ataques a activistas da esquerda antifascista. Em 17 de Setembro, a esquerda grega e o movimento antifascista teve sua primeira baixa.

Pavlos Fyssas era um rapper e músico, que escrevia e cantava contra o fascismo. Ele nasceu, cresceu e vivia em Keratsini, um bairro com tradição operária na cidade de Pireu. Assistia a um jogo de futebol numa cafeteria no centro da cidade quando foi reconhecido por alguns bandidos da Aurora Dourada. Provocaram-no por causa de suas músicas e começaram a enviar mensagens através dos seus telemóveis que, como os eventos provaram, eram para mobilizar a quadrilha assassina para esperar Pavlos quando ele saísse da cafeteria.

Pavlos e seus amigos, sentindo que o clima estava a ficar “perigoso”, decidiram deixar o café, apenas para descobrir que cerca de 30 a 40 bandidos esperavam por eles do lado fora. Ele foi esfaqueado no coração, no que médicos descreveram como um ataque “profissional”.

Dois dias antes, de novo na área operária de Pireu, a Aurora Dourada atacou um grupo de cerca de 30 membros do Partido Comunista que estavam a distribuir panfletos. Estima-se que cerca de 50 rufias atacaram os comunistas com marretas com pregos e 9 pessoas foram hospitalizadas. Entre os feridos está o líder do Sindicato dos Metalúrgicos, que vive na área.

Era uma questão de tempo antes que membros e apoiantes da Aurora Dourada fossem implicados no assassinato de um activista de esquerda. Era também uma questão de tempo antes que lançassem ataques deste tipo, tentando retomar a iniciativa, depois de terem tido alguns retrocessos no último período.

Depois da ascensão da Aurora Dourada nas eleições de maio e Junho de 2012, multiplicaram-se os Comités AntiFascistas, e, em muitas ocasiões, os seus bandidos foram expulsos de locais e as manifestações foram canceladas graças a actos antifascistas. Numa ocasião, imigrantes puseram-nos em fuga. Noutra, em Chania, Grécia, o líder dos nazis locais foi atirado ao mar por antifascistas.

Aurora Dourada tenta retomar a iniciativa

O recente ataque ao Partido Comunista (KKE) pode ser explicado apenas como uma tentativa da Aurora Dourada de retomar a iniciativa. Se eles puderem atacar 30 activistas do PC e enviar nove deles para o hospital, quando o PC é geralmente reconhecido como a força mais organizada da esquerda, com muitos militantes determinados e abnegados, então os fascistas seriam os “donos das ruas”.

O que é trágico é que o Partido Comunista não possua uma verdadeira campanha antifascista, e assim o ataque contra ele não foi respondido por qualquer iniciativa antifascista séria do PC. Assim, o efeito desse ataque sobre o movimento foi o que os fascistas pretendiam: medo e desmoralização.

A verdade é que a Aurora Dourada só pôde ter essa mostra de força porque os partidos de esquerda de massas estão a “dormir” sobre a questão do fascismo. O KKE e o SYRIZA (coligação da esquerda radical) subestimam o perigo do fascismo, como se a experiência dos anos 1930 nunca tivesse existido. O SYRIZA tomou alguns passos rumo a uma melhor compreensão dessa questão e desenvolveu algumas campanhas antifascistas. Mas isso está longe de ser suficiente e é principalmente sobre os activistas locais que recai a decisão sobre acções antifascistas, e não como resultado de directrizes claras da direcção da SYRIZA.

Não há unidade na esquerda sobre a questão do fascismo, não apenas o Partido Comunista, mas até o ANTARSYA (aliança da esquerda anticapitalista) recusam-se a trabalhar em conjunto com outras forças, especialmente com o SYRIZA, sobre a questão do fascismo. Não entendem que uma frente e campanhas antifascistas precisam de se desenvolver por toda a esquerda e classe trabalhadora organizada. Nem são tomadas importantes medidas práticas, como a criação de comités de defesa – os fascistas estão treinando o uso de armas sob o disfarce de “empresas privadas”. E não pode haver nenhuma resposta à ameaça do fascismo a menos que a esquerda decida lutar não apenas contra as políticas da Troika e do governo grego, mas também contra o próprio sistema capitalista, que está na raiz do ressurgimento da ameaça fascista. Sobre isso, mais uma vez, os partidos de esquerda estão a quilómetros de distância do que é necessário.

AntiNaziZone-GR2Construir a Frente Anti-fascista

Apesar da fraqueza dos partidos da esquerda “oficial” nessa questão, milhares de antifascistas estão a organizar movimentos e comités de luta, cidade após cidade, e desenvolvendo poderosas campanhas. Depois do assassinato de Pavlos, a sua luta será mais determinada. Há boas razões para acreditar que a morte de Pavlos irá despertar muitos que podem não ter percebido quão mortalmente séria a situação geral da Grécia se está tornando.

Esse é o melhor tributo à precoce perda de Pavlos: lutar contra o que ele combateu – a ascensão do perigo fascista – e lutar pelo que ele lutou – uma vida melhor sob uma alternativa ao capitalismo – uma sociedade socialista.

Pavlos perdeu a sua vida lutando de pé; não se curvou aos fascistas, nem por um segundo. Segundo testemunhas oculares, as últimas palavras de Pavlos a seus inimigos foram “Querem lutar como homem, venham um por vez”. Mas os fascistas não foram um de cada vez. Eles não possuem essa coragem, covardes como são.

Pavlos Fyssas continuará um lutador do nosso movimento. Ele estará em nossas bandeiras e palavras de ordem. Iremos garantir que ele não morreu em vão!