Síria – EUA e Reino Unido preparam ataque militar contra o regime de Assad – Não à intervenção imperialista!

Posted on 9 de Setembro de 2013 por

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Editorial do The Socialist (jornal do Socialist Party, CIT em Inglaterra e País de Gales)

Através das redes sociais, smartphones e canais tradicionais de informação, uma torrente de imagens sangrentas, filmagens e reportagens do sofrimento insuportável que está a ser infligido ao povo sírio, está a ser transmitida para todo o mundo.

Inicialmente em 2011, após as revoluções na Tunísia e Egipto, teve lugar um levantamento popular contra o estado policial de Assad. Mas, como explicamos numa outra edição do The Socialist, foram feitas intervenções e foi dado um enorme apoio financeiro e militar por parte das monarquias semi-feudais da Arábia Saudita e Qatar e das forças imperialistas, na esperança de aplacar esse movimento.

O levantamento contra a ditadura de Assad derivou para conflito sectário e despoletou uma perigosa batalha entre Sunitas e Shiitas, a nível regional. O número de mortos neste conflito, que dura há mais de um ano, estima-se que sejam mais de 100.000. Dois milhões de pessoas fugiram do país e cerca de 5 milhões estão desalojadas. Estes acontecimento são horror em cima de horror.

Para a vasta maioria das pessoas, a notícia de que armas químicas teriam sido usadas em Ghouta, na província de Damasco, parece representar a abertura de um novo ciclo de inferno para o sofrimento das massas. Os relatórios, que dão indicação de centenas de mortos e milhares de feridos, são tão devastadores como revoltantes.

Tendo em conta o que aconteceu, em conjugação com a ameaça de instabilidade regional presente, o desejo que se encontre uma solução para este horror é um reflexo humano. Mas esperar que os governos do Reino Unido ou dos EUA e os seus aliados alemães, franceses e turcos consigam solucionar a situação é, tendo em conta a história passada e recente, um engano completo.

Ataques aéreos

Durante os últimos meses, o presidente norte-americano Barack Obama avisou por cinco vezes que o uso de armas químicas na Síria seria a “linha vermelha”, após o qual haveria uma resposta internacional. Já estão fundeadas no mediterrâneo três (frotas???) navios de guerra norte-americanos com outro a caminho. Pilotos cipriotas reportaram também terem visto jactos de combate nos aérodromos britânicos.

O secretário dos Negócios Estrangeiros William Hague tem estado a preparar o terreno no Reino Unido, indicando que a inexistência de um mandato da ONU não será entrave: “É possível intervir devido à situação de grande catástrofe humanitária.” Ele sugeriu que a acção, provavelmente bombardeamentos aéreos, poderia ocorrer dentro de semanas ou dias. O Conselho de Segurnaça da ONU está dividido, com a Rússia e a China a oporem-se à intervenção, em defesa dos interesses das suas próprias classes capitalistas.

É também noticiado que Hague tem estado em conversações com os regimes ditatoriais e repressivos do Qatar e Arábia Saudita, que aprovam a derrota de Assad como sendo um golpe contra o Irão e o Hezbollah. O próprio Irão avisou que uma intervenção militar ocidental iria desestabilizar toda a região.

Patrick Cockburn, comentador do Médio Oriente, apontou ser difícil saber quem teve a responsabilidade pelos recentes ataques químicos. Os inspectores da ONU tiveram acesso ao local e um cessar-fogo foi acordado, mas em poucas horas, os inspectores estavam debaixo de fogo e tiveram de ser retirados. No entanto, tal facto só por si não prova quem foi o responsável e os inspectores ainda não decidiram se houve um ataque químico.

Antes dos inspectores da ONU fazerem o relatório, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse que os EUA responderiam ao “inequívoco” uso de armas químicas na Síria e que as forças do presidente Bashar al-Assad tinham cometido uma “obscenidade moral” contra o seu próprio povo.

‘Obscenidade moral’ pode ser também uma boa forma de descrever a destruição do Iraque, incluindo o alegado uso de granadas de fósforo branco e misséis de urânio empobrecido, a prisão aérea que nega aos palestinianos os seus direitos democráticos e nacionais, o silêncio em relação ao genocídio no Sri Lanka, para não mencionar o uso recorde de armas químicas e nucleares pelas potências imperialistas.

Existe uma oposição doméstica tremenda ao envolvimento do Reino Unido e EUA apesar do desejo que termine a chacina. As memórias das preparações para a invasão do Iraque e as ‘acusações duvidosas’ que Saddam teria armas de destruição massiva são evocadas pela actual pressa em atacar. Isto é complementado pelo falhanço do governo britânico em publicar os resultados do inquérito Chilcot [inquérito à participação britânica na guerra do Iraque]. phosphorous and depleted uranium tipped missiles, the open air prison that denies the

O programa eleitoral de Obama prometia acabar com o envolvimento dos EUA no Iraque e os anos belicistas de Bush. Em vez disso, ele tem sido um presidente de guerra, multiplicando a utilização de drones assassinos no Afeganistão e Paquistão, substituindo largamente as tropas no terreno, e a manutenção da prisão de Guantanamo. 60% dos norte-americanos opõem-se ao envolvimento dos EUA na Síria.

Mas tanto os governos britânico como norte-americano têm o interesse em aparecer como heróis para as massas sírias e defensores da democracia, pois estão atolados numa profunda crise do capitalismo, sem solução, e enfrentando uma crescente raiva contra eles.

A guerra do Iraque

Nos dias que antecederam a invasão do Iraque, os Liberais Democratas poliram as suas finas credenciais anti-guerra opondo a qualquer acção sem mandato da ONU. O Socialist Party chamou à atenção para que não nos podíamos basear na ONU como um árbito a favor dos interesses do povo iraquiano, comprometida e dominada que está pelos representantes dos principais imperialismos e governos belicistas do mundo.

Contudo, o anterior dirigente Liberal Democrata, Paddy Ashdown defende agora que, no caso da Síria, uma acção unilateral é preferível à inação.

Shadow Foreign Secretary Douglas Alexander exigiu que o parlamento fosse chamado [a votação já teve lugar, tendo o ataque à Síria bloqueado pela casa dos representantes]. Cameron provavelmente o fará, uma vez que encontra oposição de um pequeno número dos seus próprios deputados, tal são as implicações e riscos para o futuro da região.

Os trabalhistas não indicaram a intenção de voto. Um genuíno partido da classe trabalhadora oporia-se massivamente a qualquer forma de acção militar na Síria. Mas o Partido Trabalhista tem um histórico belicista perverso, enviando tropas para o Iraque por uma guerra pelo petróleo, para defender os interesses do grande capital e por objectivos estratégicos.

Na oposição, os trabalhistas tem um registo quase impecavel de se ajoelharem face às podres políticas de austeridade dos Conservadores e Liberais. É gritante, mais uma vez, a necessidade de construir uma nova força política para represente os sentimentos anti-guerra e anti-austeridade da maioria.

Não pode haver esperança em nenhuma acção deste governo ou dos seus aliados internacionais para trazerem paz às populações da Síria e do restante Médio Oriente. Na realidade, os bombardeamentos apenas trarão mais sofrimento. E por isso devemos opor-nos a eles.

A ‘Mudança de regime’ não é um objectivo, porque o regime de Assad é relativamente forte, devido à oposição agressiva da Rússia e devido à questão de quem o iria substituir. Dado o crescimento significativo da Al-Qaeda na Síria, existe a forte possibilidade de um aumento do terrorismo, não só na região mas também no Reino Unido.

Não existe nenhuma real solução capitalista para o conflito, ameaçando, na instável arena da região, transformar-se num conflito étnico mais alargado e que poderá durar anos. O que é claro do Iraque, Líbia e todas as intervenções militares imperialistas, é que os interesses da classe trabalhadora e pobres da região não são nunca a motivação.

Não existem atalhos para establecer e construir uma força da classe trablhadora independente que consiga unir os pobres e oprimidos nos seus interesses comuns contra as forças do imperialismo e dos seus aliados semi-feudais e capitalistas na região.

Defendemos:

  • Não à intervenção imperialista! Retirada de todas as forças estrangeiras da Síria e de toda a região!
  • Contra toda a opressão, o povo deve decidir democraticamente o seu próprio destino.
  • Pela constituição de comités de defesa de unidade anti-sectária que defendam os trabalhadores, os pobres e excluídos contra os ataques sectários de todas as partes.
  • Preparação de um movimento que lute por um governo de representantes dos trabalhadores e pobres.
  • Por uma Assembleia Constituinte Revolucionária na Síria
  • Implementação dos direitos nacionais e democráticos, com o reconhecimento ao povo curdo do seu direito à auto-determinação, incluído, se for esse o seu desejo, o direito a ter o seu próprio Estado.
  • Sindicatos independentes e constituição de partidos dos trabalhadores de massas, com um programa de terra para os camponeses e as fábricas para os operários, implementado através de um programa para uma economia socialista democraticamente planificada.
  • Uma Confederão Democrática e Socialista do Médio Oriente e Norte de África.