EUA: Luta dos trabalhadores do Fast-food espalha-se a sete cidades

Posted on 8 de Julho de 2013 por

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Luta contra os salários de pobreza

Este artigo,  de autoria de Pete Ikeler, membro do Socialist Alternative (CIT nos Estados Unidos) noticia e dá perspectivas para a luta contra os salários de miséria. Em Portugal, o padrão não é muito diferente, e as cadeias de fast-food ão também dos sectores com salários mais baixos e com uma super-exploração e opressão notórias, com o mais completo desrespeito pela legislação laboral. Até á dta poucas ou nenhumas iniciativas dos Sindicatos do sector têm rompido este estado de coisas. Ao publicar este artigo o Socialismo Revolucionário apela ao debate e à organização dos trabalhadores do sector, compromotendo-se a prestar todo o apoio à luta neste sector.
Socialismo Revolucionário

“$15 por hora e um Sindicato”. Nos últimos 6 meses, esta é a reivindicação que captou a atenção não apenas das centenas de trabalhadores com baixos salários que entraram em greve mas também de milhões de outros que assistem à sua corajosa luta.

Em Novembro do ano passado, 300 trabalhadores das cadeias de fast-food da cidade de New York entraram em greve por um dia e efectuaram uma assembleia de surpresa na Times Square. Semelhantes acções têm vindo a ter lugar em Chicago, Detroit, St. Louis, Milwaukee, Washington, D.C., e, mais recentemente, em Seattle. E isso tendo como pano de fundo um esforço mais sustentado de organização dos trabalhadores no maior empregador privado do país, a cadeia de distribuição Walmart. Algo está acontecendo claramente entre os trabalhadores de baixos salários nos EUA.

Trabalhar em fast-food, por um salário médio por hora de $9,18, não é apenas ingrato em termos monetários – para muitos, é também uma rotina diária de degradação e abuso dos gerentes. Numa loja da Jimmy John em St. Louis, os trabalhadores são obrigados a usar placas dizendo “Eu enganei-me a fazer 3 sanduíches hoje”, ou “Eu demorei mais de 13 segundos no drive thru” (The Nation, 2013/05/10). Um trabalhador grevista do McDonald no comício de Abril, em Nova York afirmou que, depois de ter falado ao seu gerente sobre uma falta de 200 dólares no seu salário, ele não teve o dinheiro de volta, mas ainda por cima foi suspenso por uma semana! Experiências como esta são mais a regra do que a excepção: Um relatório publicado em Maio constatou que, em 500 trabalhadores da cidade de New York inqueridos, uns gritantes 84% tinham sido alvos deste tipo de roubo dos salários no ano passado (The Nation, 2013/05/16).

Baixos Salários = Altos Lucros

fast-foodEnquanto isso, o sector do fast-food e outros sectores com baixos salários como a Walmart estão a recuperar nos lucros. Em 2012, o McDonald arrecadou $5,5 bilhões, a Yum! Brands $1,6 bilhões, e a Starbucks $1,4 bilhões em lucros; a Walmart superou todas com $17 bilhões! (Fortune 500 de 2013) O resto da gente – no fast-food, no comércio a retalho, ou noutros sectores – estamos presos ao declínio dos salários e menos proteção sindical, ou no desemprego total.

A participação na força de trabalho é agora 63 por cento – mais baixa do que em 1978 – os salários reais estão abaixo do seu nível de 1973, e apenas 11% dos trabalhadores norte-americanos são sindicalizados – a menor taxa desde a Grande Depressão (Gabinete de Estatísticas Laborais – Bureau of Labor Statistics).

Uma grande parte dessa história é a deslocalização e a automação de empregos na indústria, combinada com supressão de postos de trabalho e aumento da cadência de trabalho, mas uma parte igualmente grande de culpa recai sobre a enorme expansão das indústrias de serviços de baixos salários.

Só o comércio a retalho e no fast-food, – o que não significa abranger a totalidade dos precários e de baixos salários – empregam quase 19 milhões de trabalhadores, ou seja, 14% da força de trabalho (Bureau of Labor Statistics).

Este enorme grupo de trabalhadores já não é uma anomalia, uma “aberração” face aos empregos com salário “padrão“, tornou-se a base da classe trabalhadora do século XXI, e as suas condições no futuro ominoso serão as de todos nós, se não se organizar uma resistência combativa e determinada.

Felizmente, sinais de resistência deste mesmo sector de trabalhadores têm vindo a ser cada vez mais notórios nos últimos meses. Depois da paralisação e assembleia em Nova York em Novembro passado, estruturas estáveis de organização entre os trabalhadores, os sindicatos e os activistas comunitários conduziram à repetição de uma assembleia em Nova York e outra em Chicago, ambas em Abril. Depois, na primeira quinzena de Maio, acções similares desencadearam-se em St. Louis, Washington, D.C., Detroit, e Milwaukee. E a 30 de Maio, trabalhadores da Burger King, da Taco Bell, e outras empresas de fast-food pararam o trabalho e saíram em manifestação em Seattle.

Trabalhadores reivindicam salário de $15/hora

Todas essas acções levantaram as reivindicações de um salário mínimo de $15/hora e o direito à sindicalização. De acordo com Josh Eidelson, do The Nation, eles “partilham várias características comuns. Que são 1 dia de greve, apoiado por uma coligação de sindicatos e grupos comunitários, tendo como alvo as principais empresas do sector e mobilizando uma minoria dos trabalhadores, na esperança de construir um apoio mais amplo. Embora diferentes organizações locais estejam envolvidas nas acções nas diferentes cidades, o Service Employees International Union [SEIU – Sindicato Internacional dos Trabalhadores de Serviços] teve um papel significativo em todas elas” (5/15/2013).

A reivindicação de $15/hora é, na verdade, um enorme passo em frente. Numa altura em que o salário mínimo nacional – mesmo quando é respeitado, e frequentemente, não o é – é de uns miseráveis $7.25 por hora, a ideia de atingir uma taxa horária que é mais do dobro – o que poderia proporcionar uma existência suportável – claramente tem vindo a inspirar muitos a participar dessas ações, mas muitos mais são necessários para se conquistar ganhos concretos

A táctica, até agora, tem consistido num dia de greve envolvendo uma minoria da força de trabalho em cada loja, com o objectivo central de ganhar publicidade mais do que paralisar o fluxo de lucro para os franchises e empresas. Este método é concebido para o buraco negro que o NLRB[i] organizou – um processo que, mesmo que tenha sucesso em lojas individuais, pode ser facilmente ultrapassado pelas grandes corporações como a McDonald’s, a Burger King, ou a Yum! Brands cancelando simplesmente os contratos de franchise e encerrando lojas sindicalizadas, como a Walmart fez no passado.

É necessária uma estratégia de luta

Apesar de úteis nesta fase, as greves de um dia e acções publicitárias não são suficientes para ganhar o reconhecimento do direito sindical, horários estáveis ou ganhos salariais significativos. A principal tarefa que temos para fazer a luta é alargar e aprofundar o envolvimento dos trabalhadores. Não é apenas necessário que muitos mais trabalhadores dos fast-food e outros sectores de salários baixos se juntem activamente às lutas, mas também que se dinamize desde já e dê poder a comités independentes dos trabalhadores para planear, dar estratégia e organizar as futuras acções.

Uma vez que esses comités estejam firmemente estabelecidos, a etapa seguinte deve envolver a alavancagem económica, uma forma de parar o fluxo de lucros para os franchises e empresas. A melhor forma de o fazer é através de acções grevistas maioritárias e de longo termo, envolvendo largos números de lojas, possivelmente à escala das cidades ou mesmo à escala nacional – possivelmente envolvendo os trabalhadores dos transportes, que são chave na cadeia de abastecimentos e, seguramente, envolvendo os consumidores, que devem ser abordados e ganhos para o lado dos trabalhadores e persuadidos a não comprar em lojas em greve. Apenas paralisações de trabalho bem apoiadas a um nível grande o suficiente para terem impacto nos lucros das empresas serão, afinal de contas, suficientes para arrastar as gigantescas cadeias de fast-food para a mesa das negociações.

Levar a cabo a luta com este plano não será fácil, especialmente dada a estrutura e história da principal organização por detrás desta tentativa, o SEIU. O SEIU só pode ser aplaudido na sua incursão pioneira na organização dos trabalhadores dos fast-food. Infelizmente, no entanto, o registo do Sindicato em alcançar ganhos sólidos para os membros e desenvolver a democracia nas bases sindicais é uma falta grave, como se pode ver na actual luta que envolve o sector de saúde do SIEU da Califórnia, contra uma das suas sindicais mais combativas e democráticas. (Notas do Trabalho, Março 2013).

Os dirigentes do SEIU também têm ligações próximas com os Democratas pró capitalistas e um registo histórico de conduzir campanhas activistas, como o Occupy Wall Street, para o apoio eleitoral a este partido falido. Na assembleia dos trabalhadores do fast-food em Seattle, os dirigentes do SEIU convidaram políticos Democratas a intervir mas negaram o direito a intervir à candidata do Socialist Alternative Kshama Sawant: a única candidata que defende abertamente o salários mínimo de $15! Por essas razões, os milhares de trabalhadores do fast-food que estão a dar corajosamente passos pelo direito à sindicalização devem estar alertados deste lado negro do SEIU e da sua comprovada disponibilidade para vender rapidamente os direitos dos seus associados a troco de lideranças a curto prazo.

É, portanto, ainda mais importante para os trabalhadores formar os seus próprios comités dentro e entre os locais de trabalho para difundir a luta, a sua estratégia e futuras acções. O potencial deste movimento é enorme. A vitória na organização até mesmo nalgumas lojas chave nas grandes cidades iria servir de inspiração para milhões de trabalhadores hiper-explorados neste país; grandes vitórias a nível nacional ou através de empresas inteiras podem ter um impacto descomunal sobre a estrutura salarial geral entre as indústrias, ajudando a reverter décadas de declínio dos padrões de vida dos trabalhadores a que se têm assistido desde os anos 1970.

Finalmente, este tipo de vitória iria alterar o equilíbrio do poder de classe sob o capitalismo dos EUA: um sistema que coloca o lucro antes de necessidades humanas básicas. Se este sistema não se pode dar ao luxo de pagar $15 por hora e reconhecer direitos básicos de trabalho, então talvez seja hora de dizer: “Não nos podemos dar ao luxo deste sistema!”


  • [i] O NLRB (National Labor Relations Board) – Agência governamental (federal e também estadual) que faz as leis laborais aqui nos EUA. É construído por um grupo de juízes indicados pelo Congresso. A maioria dos dirigentes sindicais suportam a NLBR embora a maioria das vezes esta agência prejudique os sindicatos e os trabalhadores.