As mulheres e a luta pelo socialismo

A opressão feminina está ligada ao surgimento da sociedade de classes, nas quais a família se tornou uma estrutura social básica. O capitalismo, a forma dominante da sociedade de hoje, dá base e reforça os problemas que as mulheres continuam a enfrentar. Então quais são as estratégias para uma luta contra essa opressão?

Susana Dias, Socialismo Revolucionário

Mulheres na Luta – Independência Económica

O aumento do desemprego e o corte de benefícios significam um crescimento da pobreza para as mulheres da classe trabalhadora e classe média, especialmente as mães solteiras. Muitas mulheres desempregadas são obrigadas a aceitar salários baixos e precariedade sem direitos de saúde, férias, pensão, auxílio na maternidade, entre outros. Os salários e condições de trabalho estão a ser atacados severamente nos sectores público e privado. Isto aumenta a dependência financeira das mulheres em relação aos homens, não permitindo a estas uma verdadeira escolha nos relacionamentos pessoais.

Serviços Públicos

Apesar dos grandes avanços na vida de algumas mulheres, elas continuam a ser as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos e de outros membros da família. Os ataques neoliberais às creches, abrigos de idosos e outros serviços sociais, significam uma responsabilidade acrescida para as mulheres da classe trabalhadora. Ou seja, mais um elemento que força as mulheres a deixarem os seus empregos. É ainda mais difícil para as mulheres desempregadas voltarem ao mercado de trabalho. Cortes e privatizações levarão a uma queda na qualidade de serviços e precarização dos salários e das condições das trabalhadoras que precisam deles.

Violência contra as mulheres

A violência contra as mulheres tem raíz na ideia comum, ainda prevalente em muitas sociedades, de que as mulheres são propriedade dos homens. É reforçada pela desigualdade económica que ainda permanece na relação entre homens e mulheres e também na ideia de propriedade privada, desigualdades de riqueza e poder em que o próprio capitalismo é baseado. Frequentemente a violência é usada pelo capitalismo para defender os seus interesses. A pobreza e o desemprego não causam violência doméstica, esta acontece em todos os grupos e classes sociais. Mas este factor pode ser um gatilho para a violência em casa e a crise económica torna isso mais provável. Apesar das leis em relação à violência doméstica terem melhorado radicalmente, estas não são resposta suficiente, principalmente quando uma mulher não tem independência económica. O grande corte nos serviços públicos prejudica muito o progresso que foi feito. Falta de creches, aumento das tarifas de transportes, fecho de casas abrigos para mulheres vítimas de violência e outros serviços dificulta que mulheres escapem da violência sofrida em casa. O empenho da justiça para apoiar e apurar os inúmeros casos de mulheres que foram vítimas de violação também estão sob ameaça além de ser precário e negligente.

Direitos de Reprodução

Na última década, dezanove países tornaram menos restrito ou legalizaram totalmente o aborto, mas milhões de mulheres ainda morrem em países onde o aborto é ilegal ou extremamente restrito. Em todo o mundo cerca de 20 milhões de abortos ilegais são realizados todos os anos, o que resulta na morte de 70 mil mulheres e mutilação de milhares. Em alguns países ataques ideológicos ao aborto continuam e precisam ser combatidos. Mas em muitos outros são os cortes na saúde e privatização de tantos outros serviços que ameaçam esse direito. Os cortes significam também menor acesso ao tratamento de infertilidade, além de reduções ou encerramento de clínicas que oferecem conselhos sobre métodos contraceptivos e saúde sexual, afetando principalmente mulheres jovens, pobres e negras.

Sexualidade e Sexismo

Milhões de mulheres no mundo inteiro sofrem terríveis restrições à sua sexualidade, incluindo práticas bárbaras como mutilação genital. Em muitos países capitalistas avançados, medidas sobre sexualidade e relações pessoais avançaram, sem dúvida. As mulheres sentem-se mais livres de muitas restrições morais, sociais e religiosas. Mas sob o capitalismo a sexualidade começa a ser distorcida em prol da busca pelo lucro e manutenção das desigualdades existentes. O sistema capitalista torna tudo mercadoria, inclusive o corpo da mulher – seja para venda directa, na indústria do sexo, ou indirectamente, usado para vender produtos. Isto promove imagens particulares da mulher, que são limitadas e estereotipadas. Essa objectificação das mulheres reforça atitudes conservadoras, incluindo a violência, e como consequência prejudica as mulheres na luta mais ampla por direitos económicos e sociais.

Educação

Um maior acesso à educação superior foi um dos factores que mais determinou a mudança de vida e de perspectiva das mulheres. Agora, pela primeira vez nos países capitalistas desenvolvidos, a próxima geração de jovens mulheres enfrentam um futuro mais sombrio que o das suas mães. A mercantilização do ensino superior, e os cortes de verbas destinadas à educação, dificultam que as mulheres jovens tenham acesso a educação de qualidade, na esperança de uma melhor qualidade de vida. Mesmo quando conseguem um diploma universitário, a situação difícil no mercado de trabalho leva-as a empregos temporários, com salários baixos e uma vida de insegurança e exploração. É importante o envolvimento em campanhas por temas específicos, como direitos de reprodução e sexuais, direito ao aborto, violência doméstica. Nessas campanhas o desafio para os socialistas é explicar como a desigualdade e opressão de género estão ligadas ao próprio sistema capitalista. A principal luta não é das mulheres contra os homens, ou das mulheres mudando individualmente, mas a das mulheres organizando-se e unindo-se aos homens trabalhadores. O fim da exploração e opressão é impossível sem a participação activa das trabalhadoras na luta pela transformação radical da sociedade. É, portanto, essencial que as mulheres se façam ouvir!

O socialismo como alternativa

Uma alternativa socialista é baseada no interesse social e não na propriedade privada e produção, no controle democrático de produtores e consumidores e não da elite burguesa. Onde o lucro não determina o que deve ser produzido, e onde desigualdade e relações hierárquicas de poder e riqueza são trocados por cooperação, igualdade e respeito mútuo, a nível nacional e internacional. Uma economia democraticamente planeada forneceria recursos para garantir uma renda justa e uma independência económica para todos. A prestação de serviços públicos de qualidade como creches, atenção à saúde, educação, habitação, transporte etc. daria à mulher uma escolha real sobre todos os aspectos da sua vida. Uma sociedade baseada na igualdade e cooperação lança as bases para o fim de todas as formas de sexismo e violência contra a mulher.

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