Lançamento do Partido Socialista e dos Trabalhadores agita as águas no seio da classe trabalhadora sul-africana

O lançamento do Partido Socialista e dos Trabalhadores (Workers And Socialist Party – WASP) foi o resultado directo da luta dos mineiros sul-africanos durante o ano passado.

Repórteres do Movimento Socialista Democrático (DSM) (CIT na África do Sul) 30/03/2013

O massacre de Marikana, no qual a polícia com armas automáticas abriu fogo e matou 34 mineiros em greve, foi um ponto de viragem na África do Sul pós-apartheid. Fazendo eco desse evento, uma das manchetes sobre a festa de lançamento dizia “nascido na raiva pós-Marikana, o Partido Socialista e dos Trabalhadores entra na política sul-africana”.

A característica mais significante das greves mineiras de 2012 foi a organização de comités de greve independentes liderados pelas bases e operando fora dos sindicatos e mecanismos de concertação existentes. Por todo o país – na cintura de platina, nos campos de ouro e noutros sítios – poço após poço os mineiros foram criando a sua própria organização, com novas lideranças mais militantes. A NUM (União Nacional de Mineiros), que colaborou com os patrões das minas, foi imediatamente expulsa. Por iniciativa do DSM estes comités locais organizaram-se primeiro no coração da exploração mineira, em Rustenburg, acabando por expandir-se a um comité de greve mineiro a nível nacional.

O governo do ANC (Congresso Nacional Africano) e seus parceiros da Aliança Tripartido – O Partido Comunista Sul-Africano (SACP) e a Cosatu (Central de Sindicatos Sul-Africanos), dos quais a NUM, que é um dos seus maiores afiliados – recusaram-se a apoiar os mineiros e, mais do que isso, demonizaram e criminalizaram os mineiros que diziam representar. Estas mesmas organizações levaram a cabo uma campanha de descredibilização dos comités de greve independentes, facto que esteve, sem qualquer dúvida, na génese do massacre de Marikana. Os mineiros ganharam consciência de que estavam numa posição em que eram obrigados a resistir sozinhos, sem ter qualquer voz política – o que foi decisivo para a emergência do WASP. Por outras palavras, o WASP surgiu pela necessidade de representação e representatividade políticas que não existiam no momento.

A indústria mineira é o motor da economia sul-africana e os mineiros são a espinha dorsal da classe trabalhadora, mas não é apenas neste sector que a luta de classes se desenrola intensamente. Os agricultores de Western Cape já se organizaram em várias ondas de protesto desde o final de 2012 para exigir salários mais elevados. Seguiram o modelo utilizado pelos mineiros e criaram comités de greve independentes conseguindo, também eles, concessões do governo e de grandes latifundiários. Os protestos contra a rede de distribuição ocorrem diariamente, comunidade atrás de comunidade, exigindo estradas, saneamento, electricidade, e água. Em Sasolburg, a comunidade explodiu num movimento de massas contra a tentativa de cortar ainda mais o financiamento. No sector público, por pressão de um défice orçamental crescente, também espreitam grandes lutas pelo salário e contra o outsourcing.

Esta é a África do Sul que o ANC, que chegou ao governo através da luta de massas dos trabalhadores em 1994, governa. As suas bases de apoio já estavam fracas antes do massacre de Marikana: o ANC mostra-se incapaz de satisfazer as aspirações das massas. Agora, no rescaldo de Marikana e minado pela corrupção, o ANC perdeu vastos sectores da sua ‘base tradicional’ entre a classe trabalhadora e pobres. A Cosatu sofre divisões internas e está a desintegrar-se progressivamente, uma vez que os trabalhadores não estão a aceitar que o apoio da direcção à Aliança Tripartido os impeça de avançar nas suas lutas. Novos sindicatos independentes estão a ser criados e o descontentamento das bases da Cosatu e delegados sindicais está ao rubro.

É neste cenário, conjugado com o aumento generalizado do apoio ao socialismo por parte das massas, que o WASP surge. O evento do seu lançamento mostrou que o WASP emergiu organicamente, a partir das conclusões que os trabalhadores retiraram das traições do ANC, e da experiência recente de luta.

Um dos oradores, membro da comissão de trabalhadores das minas de Carletonville, a sul de Joanesburgo, disse: “Esta é a altura de construir e prepararmo-nos para a luta… Durante a greve vimos que a NUM, a Cosatu, o ANC, e o SACP – nenhum deles nos defendeu. Em vez disso, atacaram-nos. O DSM sozinho veio ter connosco quando estávamos na montanha e lutaram ao nosso lado.”

Os mineiros acolhem o WASP como o “nosso” partido. Foi nestes termos que vários delegados de diferentes minas mostraram o seu apoio no lançamento. Os oradores incluíram delegados dos trabalhadores da Klerksdorp Uranium, Kumba Iron Ore, Bokoni Platinum, Gold Fields KDC, Harmony Gold, das minas de carvão Mpumalanga, e da Anglo Gold Ashanti. Como o evento foi transmitido via TV, um líder mineiro telefonou a informar que dezenas de trabalhadores que não puderam assistir ao lançamento estavam à porta do seu escritório a perguntar: “Como é que nos juntamos ao nosso partido?”

O presidente e membros executivos da nova União Nacional dos Transportes e Trabalhadores Aliados (NATAWU) participou e falou na mesa. NATAWU é uma cisão de esquerda da união dos transportes SATAWU afiliada à Cosatu e já está a superá-la em membros devido à sua vontade de liderar a luta de uma forma decisiva numa série de greves no sector dos transportes nas últimas semanas.

As expectativas deste lançamento foram largamente ultrapassadas: Pretoria/Tshwane é nas imediações das terras mineiras e a maioria das 600 pessoas da audiência eram trabalhadores do município de Tshwane. Foram estes mesmos trabalhadores que, juntamente com o DSM, travaram a luta contra despedimentos e venceram. Centenas de pessoas viajaram vários quilómetros para assistir ao lançamento do seu partido. O WASP já se está a formar como um partido de luta e vitórias.

Estudantes e jovens também viajaram de longe para este evento. Como frisou Elmond Magedi, activista do DSM e promotor do Movimento de Juventude Socialista que está em formação, os jovens estão a ser os mais atingidos por um sistema em crise – desemprego em massa, sistema educativo disfuncional, violação, e violência –, pelo que têm um papel chave a desempenhar na construção do WASP para lutar por um futuro socialista.

E não é só na África do Sul que o WASP está a agitar as águas. Um professor da Namíbia – membro da comissão de trabalhadores dos professores – viajou durante dias para assistir ao lançamento, apesar da morte do seu filho dias antes. Desde o seu lançamento o WASP tem sido contactado por, entre outros, um grupo de jornaleiros e trabalhadores da saúde pedindo para se juntar e ajudar a construir o WASP.

As grandes empresas e a classe capitalista na África do Sul reconhecem não só o descontentamento no seio da classe trabalhadora, como também o vácuo existente. Estão desesperadamente a tentar renovar a credibilidade do sistema, apresentando “novas” caras para o ANC, para o neoliberal Aliança Democrática e para o recentemente formado Agang, dirigido por uma das mais ricas capitalistas de África, Mamphela Ramphele. O WASP impossibilitará qualquer tentativa de agregar as massas à volta destes projectos. Apesar do silêncio ensurdecedor da classe dominante, notamos a sua preocupação através das tentativas de descredibilizar o WASP pelos analistas burgueses.

A resposta da classe trabalhadora começou bem com o evento de lançamento. Um trabalhador da mina Sishen Kumba Iron Ore, no Northern Cape, resumiu a disposição do público na sua intervenção – “Somos tão sortudos por estar aqui hoje para lançar a nossa organização que devemos construir para se tornar uma força que luta por nós. Agora temos de voltar às nossas minas e construí-la.”

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s