Mali: Intervenção do exército Francês apenas ampliará o caos

Por uma luta de massas dos trabalhadores e pobres para derrotar o imperialismo e os fundamentalistas reaccionários

Leila Messaoudi, Gauche Révolutionnaire (CIT em França) – tradução

A decisão repentina para uma intervenção militar francesa directa no Mali do Norte não apareceu do nada. Os preparativos para a ofensiva têm sido levados a cabo há já várias semanas. O Presidente francês, François Hollande, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, anunciaram que pretendiam intervir rapidamente, de uma forma ou outra, “para ajudar o presidente maliano a enfrentar a ofensiva dos Islamitas”, que tomaram o controlo de dois terços da região Norte do país. (…)

A 11 de Janeiro, França lançou a ‘operação Serval’, ocorrendo os primeiros combates e mortes. As chefias militares anunciaram já que a intervenção “durará o tempo que for necessário”, semanas ou mais. (…)

mali iiiO que se passa no Sahel e Mali?

A ofensiva vitoriosa de forças insurgentes no inverno de 2012 (baseada num precário acordo entre a organização separatista Tuaregue MNLA – Movimento Nacional de Libertação de Azawad – com combatentes Islamitas e Jihadistas da ‘Al Qaeda no Magrebe Islâmico’, AQMI, e do ‘Ansar Dine’, uma fracção dissidente do MNLA) depressa levou a uma ruptura no estado do Mali. Um golpe de estado, organizado por um oficial militar, Capitão Sanogo, depôs o presidente, oficialmente devido a incompetência na luta contra os insurgentes. Ainda que o golpe de 21 de Março não tenha recebido apoio directo da França, a introdução de um novo processo constitucional (e a demissão à força do governo e presidente) pelo órgão responsável pelo golpe de estado (CNRDRE), foi aceite pela Comunidade de Estados da África Ocidental (ECOWAS) e apoiado por França, duas semanas após o golpe.

No entanto, este golpe, em si mesmo, não foi suficiente para restaurar a ordem interna necessária para combater os insurgentes. Pelo contrário, encorajou-os a avançar ainda mais, apesar das suas divisões internas. Os imperialistas, em especial o estado francês, optou então por aumentar gradualmente o apoio ao Governo Provisório Maliano. Sanogo tornou-se o novo ‘homem forte’ do regime. Países vizinhos acabaram por apoiá-lo também e vão agora apoiar militarmente, temendo que a instabilidade vivida no Mali se espalhe rapidamente além-fronteiras.

O rescaldo da colonização e a crise do capitalismo: um país em decomposição

O facto de o Mali estar em tal estado de desorganização, não é por acaso. Sendo um país que emergiu da colonização francesa, o Mali apresenta vários aspectos artificiais (as suas fronteiras foram desenhadas arbitrariamente pelos colonizadores) e o seu estado central apenas o manteve unificado através da repressão de vários movimentos sociais e movimentos de minorias culturais.

Mas o que definitivamente arruinou o país foram as diferentes políticas ao serviço do imperialismo. Em troca de investimento estrangeiro, o FMI obrigou o Mali a adoptar, em 1997-98, políticas neoliberais. Em nome do ‘Plano de Ajustamento Estrutural’, o Mali foi obrigado a privatizar os serviços públicos, a orientar a sua produção agrícola para a exportação de algodão à custa de outras colheitas e, em 1994, a moeda maliana, o franco CFA, foi desvalorizado em 50%. Por trás dos números oficiais do crescimento económico, o declínio do país e da sua economia acontecia, com uma economia orientada para a exportação, à custa do desenvolvimento doméstico. Áreas remotas do rio Níger foram as que sofreram o declínio mais severo. Os preços do algodão colapsaram em 2005, levando à ruína dos produtores. Hoje em dia, o algodão é vendido com perdas para os camponeses.

Desintegração do estado e colapso económico: esta é a situação actual no Mali, apesar do país ter sido apresentado pelo imperialismo como uma democracia exemplar na região Oeste de África desde há duas décadas. A presente situação mostra a incapacidade do governo maliano de se manter sem suporte externo, assim como a falta de apoio por parte da população. Na realidade, este período foi acompanhado por um regime corrupto de Amadou Toumani Touré, que arquitectou o último golpe de estado e denunciado, durante anos, por corrupção e nepotismo.

Uma nova desvalorização do franco CFA, que está a ser equacionada pelo FMI, teria consequências altamente gravosas, orientando a economia ainda mais para as exportações e dificultando a importação de produtos vitais para a população.

Interesses franceses no Sahel

Os países do Sahel são territórios historicamente dominados pela ex-potência colonial francesa, que criou estes estados apenas para servir os seus interesses. Senegal, Mauritânia, Mali, Argélia, Burkina Faso e Chade estão entre os países da região do Sahel, região que se estende entre o Sahara e as savanas africanas. (…)

Esta região é, em muitos aspectos, estratégica para a França. Naturalmente que esta intervenção [militar] tem como primeiro objectivo manter a influência na região, mas também proteger os interesses franceses aí. A companhia francesa Areva tem, por exemplo, uma mina de extracção de urânio no Mali. Trabalhadores franceses da Areva estão actualmente sequestrados na região. Desde 16 de Janeiro, foram feitos novos reféns por um grupo Jihadista no sul da Argélia, como “retaliação contra a intervenção francesa no Mali”. Muitos deles foram alegadamente mortos, no seguimento de um assalto pelo exército argelino. Este último exemplo mostra como esta guerra não trará segurança para os expatriados franceses e ocidentais ou para os trabalhadores vivendo nessas áreas, o que acontecerá é precisamente o oposto.

O desenvolvimento de grupos e milícias Islamitas na região ameaça directamente os interesses estratégicos do capitalismo francês, em particular porque o Sahel é uma das poucas áreas em que o terreno não foi ainda exaustivamente explorado: apresenta perspectivas de lucro. O Mali é o terceiro maior exportador africano de ouro (atrás do Gana e África do Sul) e há quem o veja como futuro primeiro, entrando no top 10 mundial. (…)

A política francesa para o Mali

(…) Quando o Mali se tornou independente integrou, pela força, alguns povos de diferentes etnias e nacionalidades que continuam a ser oprimidos, em particular aqueles não originários do vale do rio Níger, entre eles os Tuaregues.

A França tinha apostas nos Tuaregues para travar o crescimento dos Islamitas do AQMI. Mas uma rebelião secessionista do MNLA contra o estado do Mali em Janeiro de 2012, levou a um acordo táctico temporário entre alguns líderes Tuaregues e o AQMI, alterando assim o equilíbrio de forças. Tal é particularmente evidente no norte do Mali, onde um MNLA secularista e fraco foi posto de parte e perseguido pelas facções Islamitas.

O povo Tuaregue tem sido marginalizado e oprimido durante décadas, muitas vezes tratados como cidadãos de segunda e enfrentando condições de sobrevivência catastróficas. O Gauche Revolutionnaire e o CIT defendem direitos iguais para os Tuaregues, incluindo o seu direito crucial à autodeterminação. Somos contra a discriminação de qualquer minoria e contra políticas de “dividir para conquistar”, que são aplicadas há muito pelo imperialismo e pela classe dominante da região.

No entanto, ao aliarem-se com forças ultra-reaccionárias e apoiantes de uma ditadura Islamita, como pode o MNLA continuar a pretender defender os direitos democráticos e legítimos dos Tuaregues?

No que diz respeito ao Ansar Dine e AQMI estes não são grupos homogéneos e as suas acções, especialmente em Timbuktu (massacres, requisição de casas, etc), mostra que eles não podem ser encarados como os libertadores. Na realidade, estão apenas a preencher um vácuo. (…)

Exigimos:

•A retirada das tropas francesas e do ECOWAS – contra o imperialismo. Não são bombas e aviões que o povo maliano precisa, mas cooperação económica e desenvolvimento que não seja feito de acordo com os interesses das multinacionais francesas.

•A riqueza do Mali pertence aos malianos! Pela nacionalização da terra e dos sectores chave da economia e o financiamento de um desenvolvimento económico real, baseado nas necessidades, e controlado democraticamente, pelo povo do Mali.

•Fim ao estado de emergência, pela reinstauração de todas as liberdades democráticas no Mali.

•Autodeterminação para os povos do Sahel e do Sahara, assim como dos povos dentro de cada país, na base de direitos iguais

A única solução seria o povo maliano organizar-se no seus bairros e locais de trabalho, formular as suas exigências e criar comités de defesa multi-étnicos, com o intuito de se oporem a qualquer ditadura (quer seja a apoiada pela França, quer seja a que os Islamitas pretendem impor).

As revoluções tunisina e egípcia mostraram o caminho – que apenas através da luta das massas trabalhadoras e dos pobres se pode alcançar a mudança.

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