Pela nacionalização da Banca

Jonas Raposeiro, Socialismo Revolucionário

A confiança no sistema capitalista e no sector financeiro em particular ficou gravemente afectada pela crise, pelo crescimento das desigualdades sociais, das políticas de austeridade e da repressão social e política na sequência do desmoronamento desse sector. Esta desconfiança foi reforçada por vários escândalos no sistema bancário, por exemplo as práticas da Barclays e outros bancos na manipulação do LIBOR ou os escândalos do BPN em Portugal. Estes escândalos não são nem coincidência nem são excessos, mas a consequência inerente dum sistema económico e financeiro que está baseado na procura do lucro. O próprio sistema financeiro liberalizado, livre para fazer especulações, é fruto da viragem neoliberal do capitalismo a partir dos anos 70, numa tentativa de salvar os lucros privados.

Este tipo de modelo financeiro foi um dos tipos de esteróides que permitiram ao capitalismo sair da sua crise dos anos 70-80, criando uma conjuntura económica inesperada para os modelos existentes. Como esteróides, este tipo de injeções financeiras não costuma ter efeitos duradores e torna o organismo instável, razão pela qual grande parte deste crescimento viria a ser confirmado como bolha. Este modelo também aumentou enormemente as desigualdades sistémicas, e é o tipo de política que retira das suas casas os pobres que não conseguem pagar os juros, enquanto transfere os lucros para paraísos fiscais e offshore. É o modelo financeiro no qual um alto quadro bancário ganha 380 vezes o salário médio dos Estados Unidos, e onde o volume de negócios chega a equivaler 2/3 de todos os bens e serviços produzidos nos Estados Unidos.

É um sistema bancário que não investe na economia real em crise, porque não gera lucros suficientes, mas que reserva a maior parte dos meios para especulação a curto prazo. Segundo a Fairfin, o Deutsche Bank e o BNP-Paribas, dois dos maiores bancos Europeus, investem respetivamente 19% e 34% dos seus meios na economia real. Mais de 50% dos meios do Deutsche Bank são “investidos” em especulação a curto prazo. Esta especulação gera os lucros e os bónus. No caso de perdas, é o público e o Estado que paga a conta. É o que Nouriel Roubini chamou o “socialismo dos ricos”: privatizar os lucros, socializar os custos.

Cartoon Alemao que explica: o resgate de Portugal foi o resgate dos bancos

Cartoon Alemão que explica: o resgate de Portugal foi o resgate dos bancos

José Castro Caldas mostra como isto acontece no contexto da crise da dívida portuguesa. Até ao começo da crise de 2008, houve um substancial crescimento de crédito estrangeiro para o Estado Português. Em 2008, bancos privados detinham mais de 75% da dívida nacional. Com a intervenção do FMI e dos mecanismos de ajuda financeira europeus, esta percentagem vai baixar até aos 20% em 2014. Isto quer dizer que nos momentos em que a dívida portuguesa se mostrou como altamente arriscada e com valor reduzido, ela foi socializada pelos contribuintes Europeus, e foram as famílias e trabalhadores portugueses que pagaram os seus prejuízos em forma de austeridade. Castro Caldas afirma: “Isto foi o resgate dos bancos Europeus que emprestaram acima das suas possibilidades”.

Muitos políticos tradicionais e “especialistas”, principalmente os Neokeynesianos, defendem uma regulação mais restritiva para prevenir que tal crise financeira aconteça no futuro. Tal não resultará por várias razões. Primeiro por causa da influência do sector financeiro sobre o Estado e os políticos capitalistas; Wall Street financia as campanhas tanto de democratas como republicanos nos EUA e na Europa os ex-colaboradores da Goldman Sachs ocupam posições cruciais em quase todos os países, os exemplos portugueses são António Borges e Carlos Moedas… como poderemos esperar que um governo capitalista controle devidamente um sector financeiro no interesse geral? O facto que o sector financeiro americano investiu eficazmente 100 milhões de dólares no lobby contra a legislação Dodd-Frank, que visava regular este sector, serve claramente como exemplo.

Também a ideia de bancos alternativos, de tipo cooperativo, por exemplo, não significa uma solução a longo prazo, já que estes também seriam afetados por uma crise geral provocada pelos outros, por exemplo pelo desaparecimento de linhas de crédito interno, da perda do poder de compra dos credores, etc…

É por isso que nós defendemos que o sector financeiro deveria ser apropriado colectivamente no seu total, e deveria ser público. Esta apropriação colectiva deverá ocorrer junto com uma remodelação geral da estrutura económica. Ela evitará novos desastres financeiros e especulação, o que evitará serem os trabalhadores e suas famílias a pagar a conta novamente. Como dissemos, esta apropriação colectiva não pode estar sob controlo dum estado capitalista, por isso defendemos a nacionalização sob controlo democrático, que implica por exemplo um conselho executivo composto por trabalhadores da empresa eleitos e representantes da comunidade em geral. Nesta base, o sector financeiro poderia servir para sustentar e priorizar medidas sociais e económicas na economia. Junto com o controlo público sobre os sectores e empresas chave da nossa economia, podia servir como base de uma economia democraticamente planificada, onde a propriedade não é gerida na perspectiva do lucro dos 1%, mas nas necessidades dos 99%. Em duas palavras, uma Democracia Socialista.

Referências:
http://www.auditoriacidada.info/article/os-donos-da-d%C3%ADvida#.ULxb6f82HPA.facebook
http://www.fairfin.be/deutsche-bank-en-bnp-paribas-meer-casino-dan-bank
http://www.socialisme.be/lsp/archief/2012/12/02/banken.html

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s