O Populismo e seus Perigos

Uma posição marxista

Jonas Van Vossole, Socialismo Revolucionário

A crise do capitalismo, que provoca um descontamento da população, tal como reforça a luta e consciência de classe, também pode criar uma base para retóricas e movimentos populistas. Bem que parte da esquerda utiliza o populismo de maneira oportunista, o populismo pode tomar formas realmente reacionárias; por isso a sua compreensão é vital para a politização da atual luta de classes.

O populismo é uma retórica e um movimento político que tenta ganhar o apoio popular pela reprodução de um discurso que defende a “vontade do povo” contra uma elite. Esta retórica pode-se encontrar na esquerda mas também é facilmente recuperada com um programa de direita. Com a situação de crise económica e política que enfrentamos no nosso país e no resto da Europa, o crescente descontentamento de largas partes da população com as desigualdades e injustiças sociais abre uma crescente base social de apoio para este discurso. Este Populismo porém traz vários problemas.

O seu principal problema é que cria uma distinção vaga entre “o povo” e “a elite”. Esta descrição não está porém baseada numa análise profunda do sistema capitalista atual. A elite geralmente é equalizada com a elite política dominante, ou

mesmo com o sistema político no seu todo. Este tipo de descrição ignora o facto que o fundamento da nossa sociedade é capitalista, e que o poder da classe dominante e sua posição hierárquica na sociedade se baseia na acumulação de capital. A elite política e o estado capitalista, neste sentido só são instrumentos que podem servir os interesses desta classe dominante.

Populismo do PNR, discurso populista pode facilmente ser utilizado pela extrema-direita

O facto que a retórica populista não está ligada a uma análise classista e anticapitalista da sociedade, permite que muitas das suas críticas ao sistema político e suas propostas, podem ser defendidas por movimentos desde a esquerda à extrema-direita. Qualquer retórica populista que foca os problemas do nosso país na corrupção do nosso sistema político e nos privilégios e regalias dos representantes políticos, retira o foco da estruturalidade desses problemas dentro de um sistema capitalista, e traz o perigo de individualizar e despolitizar as questões.

Propostas como “reduzir o número de deputados”, “cortar as compensações para transportes de deputados” ou “prisão para quem roubou o País”, sofrem todas em maior ou menor grau destes problemas. Cada uma destas propostas pode ser ou é reacionário; a redução dos deputados, proposta pelo governo, de facto vai reduzir a representação política da classe trabalhadora, o que tornará mais difícil a eleição de candidatos que defendem os nossos interesses, e traz principalmente vantagens para os partidos grandes. O corte de algumas compensações pode tornar mais difícil a organização das lutas locais por um bom representante, por exemplo, limitando o contacto entre a luta local e a representação em Lisboa. A “prisão para os ladrões do país” também pode ser utilizada para criminalização de quem pela direita é considerado como ladrões do País, como desempregados e imigrantes…

O descontentamento com os privilégios da classe política pode, por exemplo, ser transformado na exigência que os representantes políticos não poderiam ganhar mais que o salário médio de um trabalhador. Assim estes representantes vão sentir os próprios efeitos das suas políticas e consegue-se articular os interesses dos trabalhadores e dos seus representantes políticos.

A tarefa dos socialistas não é de seguir os sentimentos do povo para ganhar popularidade, despolitizando o seu próprio discurso. A tarefa da esquerda e de socialistas é de politizar estas vontades, transformando a “vontade do povo” na defesa do interesse da classe explorada pelo capitalismo. É preciso transformar a “classe em si” numa “classe por si”, uma “classe trabalhadora em si” numa “classe trabalhadora por si” que seja consciente dos seus verdadeiros interesses. O papel da esquerda política é de guiar e liderar a transformação destas vontades em vez de a seguir, conectando-as com uma perspetiva anti-capitalista e socialista.

Anúncios

Um pensamento sobre “O Populismo e seus Perigos

  1. Bom texto, estou totalmente de acordo a respeito do populismo.

    Mas em relação ao exemplo “prisão para quem roubou o País”, concordo que possa servir de retorica populista em algum caso, mas quem eu já vi que defende estas palavras de ordem faz-o, com uma ” análise classista e anticapitalista da sociedade”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s