Grécia – Aprofunda-se a crise do Euro

Revolução e contra-revolução

Este artigo foi escrito para a revista Socialism Today , do Socialist Party, (secção da Inglaterra e Gales do CIT) por Tony Sanois, Secretário Geral do CIT e Andros Payiatos, Secretário-Geral do Xekinima (secção grega doCIT)

“Uma guerra entre pessoas e o capitalismo” – afirma o líder do Syriza, Alexis Tsipras

As eleições gregas realizadas a 6 de Maio resultaram num terramoto político. Poderosas reacções pós-choque ainda estão a atingir a economia global, a UE, e a própria Grécia. Parece ser claro que essas eleições foram as precursoras de transtornos políticos e sociais ainda mais fortes na Grécia e em toda a UE.

As organizações dos trabalhadores e jovens na Grã-Bretanha e em toda a UE precisam de estender a sua solidariedade aos trabalhadores gregos. O movimento dos trabalhadores em toda a UE precisa de se opor às exigências que a “Troika” e outros estão a fazer aos trabalhadores gregos para aceitar mais austeridade. Essa solidariedade é uma parte da luta dos trabalhadores em todos os países contra os ataques feitos contra eles pelas suas próprias classes dominantes e governos.

As eleições quebraram as velhas alianças políticas estabelecidas, mas não deixaram nenhuma coligação de partidos de esquerda ou de direita capaz de formar uma maioria parlamentar. O governo ficou paralisado e foram convocadas novas eleições para 17 de Junho.

Essa paralisia no parlamento é um reflexo de uma sociedade grega convulsionada e em tumulto. Existempoderosas características tanto de revolução como de contra-revolução. Como o Financial Times, alertou: “Podem ocorrer saques e tumultos. Poderá ser concebível um golpe militar ou guerra civil” (18/5/12).

A Syriza (Coligação da Esquerda Radical), cuja votação saltou de 4,6% para 16,78%, emergiu como o segundo grupo mais votado nas eleições. Este desenvolvimento extremamente positivo, que deu esperança a muitos trabalhadores e socialistas internacionalmente de que algo semelhante possa ocorrer nos seus próprios países, aterrorizou a classe dominante na Grécia, bem como Merkel, Cameron, Rajoy e os outros líderes políticos do capitalismo. As eleições lançaram um potencial desafio à “Troika” e ao programa de austeridade ditadas por ela.

A questão crucial agora é: pode este avanço da esquerda ser impulsionado ainda mais e canalizado para uma maior vitória na segunda eleição? Será que a classe trabalhadora grega e as suas organizações abraçar uma claro programa socialista revolucionário? Sem isso não será possível resolver a crise na Grécia ou começar a resolver as devastadoras consequências sociais dos pacotes de austeridade até agora introduzidas.

Como as eleições de 6 de Maio também demonstraram, se a esquerda não consegue responder a este desafio político com o programa, palavras de ordem, intensidade e métodos de luta e de organização correctos, então a extrema direita, certamente, pode estar disposta a preencher o vazio. O crescimento da fascista Golden Down (Aurora Dourada), que emergiu da eleição com 6,97% dos votos e 21 deputados, é uma séria advertência para a classe trabalhadora grega e europeia. Isto ilustra a ameaça que irá emergir como o aprofundar da crise nas próximas semanas e meses, se a esquerda deixar de apresentar uma real alternativa ao capitalismo.

O colapso dos partidos políticos estabelecidos, especialmente da Nova Democracia (ND) e do Partido Socialista (PASOK), foi a mais clara manifestação da esmagadora rejeição dos partidos que aprovaram os programas de austeridade, seguindo servilmente as exigências da “Troika“. Em ambos os governos da ND e do PASOK, e da coligação actual por eles liderada, a Grécia tem estado sob ocupação efectiva dos banqueiros internacionais, do BCE, do FMI e da UE. As classes capitalistas europeias adoptaram uma versão moderna do domínio colonial, com a nomeação de comissários da UE como supervisoresem cada Ministério governo.

Os partidos fantoche da UE foram “vomitados” pelo povo grego. Nas últimas três décadas a ND e o PASOK receberam entre 75% e 85% dos votos nas eleições. A votação combinada de ambos os partidos desta vez foi de uns meros 32,02% – 18,85% para a ND e 13,18% para o PASOK.

Ataque brutal no nível de vida

A classe trabalhadora e a classe média gregas sofreram um ataque brutal aos padrões de vida e de trabalho durante anos. Como resultado da crise económica e dos pacotes de austeridade, o PIB da Grécia terá caído 20% do seu nível de 2008 no final de 2012. Esta é uma das maiores quedas de sempre do PIB sofridos por qualquer país capitalista desde a depressão dos anos 1930.

E isto não são estatísticas frias. As vidas de milhões de pessoas da classe operária e demais trabalhadores, bem como da classe média foram profundamente abaladas. As consequências sociais têm sido devastadoras. Os trabalhadores do sector público viram os seus salários cortados em 40%. Um café custa o mesmo em Londres eem Atenas. Noentanto, na Grécia, muitos trabalhadores recebem apenas €400 por mês – uma ninharia. São, literalmente, salários de fome para muitos. A igreja estima que agora alimenta diariamente 250.000 pessoas em “sopa de pobres”. Agora os doentes tem de pagar antecipadamente os tratamentos, e o número de leitos hospitalares está a ser cortado para 50%. Um hospital recusou-se a entregar um recém-nascido até que a mãe pagasse a conta. Milhares de escolas foram encerradas. Muitas dezenas de milhares de pessoas fugiram das cidades e voltaram para o campo onde podem viver com as famílias e, pelo menos, ter acesso a alimentos.

A classe média está a ser destruída, com muitos a tornarem-se sem abrigo, deixados na fila ao lado dos mais oprimidos trabalhadores imigrantes em campos de refugiados de alimentos e desabrigados. Estes campos aparecem como uma versão sul da Europa das favelas do Brasil. A taxa de desemprego subiu para mais de 21% – e um de uns revoltantes 51% entre a juventude.

A extrema-direita e os fascista da GD tentaram agitar o nacionalismo e o racismo, fazendo alvo dos imigrantes ilegais, cujo número se estima em centenas de milhares. Este é um grande desafio para os trabalhadores e as organizações de esquerda. Medidas de emergência para abrigar e alimentar estas pessoas através da introdução de um programa especial de obras públicas devem ser exigidas pela esquerda. Um programa não à custa dos trabalhadores gregos, mas financiada pela UE.

Trabalhadores resistem

A classe trabalhadora grega tem tenazmente lutado contra esses ataques e contra cada um dos governos que os promulgou-os. A substituição do PASOK pela ND, no Outono de 2009, apenas aprofundou ainda mais os ditames da “Troika”, que aplicou os ataques mais violentos contra os trabalhadores gregos desde o fim da guerra civil em 1949, e ignorando as suas próprias promessas em contrário. O apoio ao PASOK, entrou em colapso com a rejeição das suas políticas pelos trabalhadores. Os líderes sindicais foram obrigados desde o início de2010 a convocar dezasseis greves gerais e três delas por quarenta e oito horas pela pressão dos trabalhadores. Ainda assim, os ataques continuaram a chover sobre a população grega. O fracasso dos dirigentes sindicais para dinamizar e endurecer a luta levou à exaustão entre os trabalhadores com uma greve geral a seguir a outra que parecerem levar a lado nenhum. Agora, nas eleições, deram vazão à sua raiva contra os partidos pró-austeridade.

Dezenas de milhares, por desespero, emigraram. Muitos mais estão em lista de espera. Alguns têm procurado uma maneira de sair da crise imigrando para a Austrália, a Inglaterra e o Canadá. A imprensa grega estima que só na Austrália existem actualmente 30.000 imigrantes gregos ilegais. Alguns, incrivelmente, foram mesmo para a Nigéria e para o Cazaquistão, tão desesperada tornou-se a vida na Grécia.

Outros, movidos pelo desespero e humilhação da situação em que se encontram, tomaram uma saída mais trágica. A imprensa internacional relatou o suicídio do farmacêutico aposentado de 77 anos, Dimitris Christoulas, que se matou em frente ao parlamento grego por causa de dívida. A arma foi efectivamente engatilhada e disparada pela “Troika” e as suas políticas.

A taxa de suicídio na Grécia aumentou aumentou 22%e é agora a maior da Europa. Um jornalista radical que voltou recentemente da Grécia testemunhou um Mercedes atirado ao mar por um pequeno empresário que se matou. Sob as leis gregas, as dívidas não podem ser transferidas para a família.

Estas são condições que lembram as descritas no épico romance de John Steinbeck sobre a depressão dos EUA – As Vinhas da Ira.

Há amargura, ódio e raiva contra a elite grega ricos e seus políticos, que não podem andar em segurança pelas ruas ou entrar em restaurantes públicos. Os ricos estão a transferir o seu dinheiro para a Suíça e outros países europeus, enquanto a massa da população sofre as consequências da crise.

Nas eleições 6 de Maio, o povo grego puniu todos aqueles políticos e partidos que têm implementado as políticas de austeridade.

Syriza opõe-se a coligação com o PASOK e a ND

A liderança da Syriza, particularmente a sua figura de topo, Alexis Tsipras, tomou uma posição corajosa e correcta de se recusar a participar de uma coligação quer com o PASOK ou com a ND, e assim a dar o seu apoio aos termos do resgate e a sua aceitação da continuação da austeridade. Ele ofereceu-se para formar um bloco de esquerda com o Partido Comunista Grego, o KKE, e tentou incluir uma cisão do próprio Syriza – a Esquerda Democrática -, a fim de lutar por um governo de esquerda.

Embora de uma forma limitada, propôs que tal frente de esquerda se baseia-se num programa de congelamento de quaisquer medidas adicionais de austeridade, o cancelamento da lei que abole a negociação colectiva e corta o salário mínimo para 490 euros por mês, e lançar uma investigação pública da dívida grega, durante a qual haveria uma moratória sobre o pagamento da dívida. Este programa, embora inadequado para lidar com a profundidade da crise na Grécia, teria servido como ponto de partida para o desenvolvimento da luta contra a austeridade e como base para um programa necessário para romper com o capitalismo.

Escandalosamente, a liderança do KKE recusou-se mesmo a encontrar-se com Tsipras, no que foi uma continuação da sua anterior abordagem sectária para com o Syriza, o resto da esquerda e do movimento sindical. O Syriza tinha proposto, correctamente, uma frente esquerda juntamente com o KKE e a ANTARSYA – (Coligação de Esquerda Anti-capitalista) uma aliança anti-capitalista esquerda para as eleições. Este pedido foi recusado. A ideia de uma frente de esquerda entre a Syriza e o KKE era algo que foi iniciada, e sempre se bateu a secção grega do CIT, Xekinima, no período 2008-2010. Embora violentamente atacada inicialmente, essa ideia desenvolveu-se gradualmente, ganhou apoio e acabou por ser abraçada por Tsipras e a liderança Syriza.

Se tal lista eleitoral conjunta tivesse sido formada, teria emergido como a maior força e obtido o bónus de 50 lugares no parlamento que o sistema eleitoral grego dá ao maior partido. Mesmo que isso não foi suficiente para formar uma maioria parlamentar, teria colocado as forças combinadas da esquerda numa posição de comando para entrar nas segundas eleições e oferecer a perspectiva realista de um governo de esquerda.

Embora o KKE se tenha recusado até mesmo a considerar aderir a um governo de coligação à esquerda, historicamente eles estiveram preparados para participar numa coligação capitalista. O KKE entrou numa coligação com a ND em 1989. A Secretária-Geral do KKE, Aleka Papariga, argumentou que eles tenham aprendido com essa experiência e usou isso para justificar a não união de forças com a Syriza. No entanto, uma frente unida esquerda, na base da luta contra a austeridade, é completamente diferente de aderir a um governo pró-capitalista com a ND.

A frente da classe trabalhadora esquerda liderada por partidos operários poderia ter servido para unir em acção as fragmentadas forças esquerda na Grécia. Ele poderia ter levado à construção de um poderoso movimento, organizado fora do parlamento, como uma base para desafiar o capitalismo. Infelizmente, outras forças de esquerda como a ANTARSYA também adoptou uma atitude semelhante durante a primeira eleição. No entanto, eles agora enfrentam uma enorme pressão das bases e há secções de suas fileiras exigindo uma frente unida de algum tipo com a Syriza para as eleições de 17 de Junho. A questão ainda está a ser debatida nas suas fileiras, com a maioria na liderança querendo-se apresentar contra Syriza. Se essa linha acabar por ser adoptada pela ANTARSYA, irão pagar um preço muito alto com uma queda grave no seu apoio (a ANTARSYA ganhou 2% nas eleições locais de 2010, que caiu para 1,2 por cento nas eleições de 6 de Maio).

O sectarismo da direcção do KKE provocou oposição dentro de suas próprias fileiras também. Alguns membros do partido dizem que nas eleições votarão KKE, mas pedem aos outros para votarem na Syriza. A continuação desta política é certo que irá provocar ainda mais oposição nas fileiras do KKE e há a possibilidade de uma cisão dentro do KKE.

Apesar da inadequação do programa Syriza, a sua posição clara contra a austeridade e recusa a entrar em coligação com quaisquer dos partidos pró-austeridade significa que está a fortalecer a sua posição.  É provável que seja ainda mais fortalecida nas eleições de Junho. As sondagens de opinião recentes têm colocado o seu nível de apoio entre 20% e 26%, o que significaria que poderá ser o maior partido.

Tsipras ameaçou não pagar toda a dívida nacional, cortar gastos com a defesa, e acabar com desperdício, corrupção e evasão fiscal dos ricos. Também apoiou o controle público do sistema bancário, o que por sua vez implica a nacionalização. Falou, também, favoravelmente do “New Deal” de Roosevelt. Apresenta um programa de reforma radical, mas não rompe com o capitalismo. No entanto, é um ponto de partida para um programa de emergência de obras públicas ligadas à necessidade da nacionalização dos bancos e sectores-chave da economia e a introdução de um plano socialista democrático.

O rápido crescimento eleitoral de Syriza traz lições importantes para as forças de esquerda noutros países, incluindo a Coligação de Socialistas e Sindicalistas (Trade Union and Socialist Coligation – TUSC) na Grã-Bretanha. Essas organizações podem experimentar um rápido crescimento eleitoral a partir de uma pequena base, quando as condições objectivas estão maduras para isso. Eles precisam criar um perfil claro de lutadores pelos interesses dos trabalhadores para capitalizar a situação em que outros partidos políticos são julgados e rejeitados. O sucesso eleitoral alcançado pela Aliança Esquerda Unida (United Left Alliance -ULA), na Irlanda, especialmente do Socialist Party (Partido Socialista – secção irlandesa do CIT), ilustra isso.

A recusa da Syriza em participar numa coligação pró-cortes com o PASOK e a ND, mesmo na base da promessa desses partidos em renegociar o protocolo com a “Troika”, é um contraste marcante com outras forças e partidos de esquerda nesta fase. Na Itália, o Partido da Refundação Comunista (PRC) entrou tais coligações a nível local e, consequentemente, viu o seu apoio ser destruído. A Izquierda Unida (Esquerda Unida – IU) em Espanha, cujo apoio cresceu na última eleição, também já se juntou, erradamente, a uma coligação com o PSOE da Andaluzia. A continuação desta política poderá minar o crescimento e desenvolvimento da IU.

Os partidos pró-cortes, liderados pela ND e pelo PASOK, juntamente com a “Troika“, estão desesperadamente a tentar transformar a segunda eleição num referendo sobre a adesão à zona euro e à UE, em vez de um julgamento das suas próprias políticas de austeridade. Juntamente com o aparelho da UE, estão numa campanha clara argumentando que a opor-se ao pacote de austeridade vai significar que a Grécia será expulsa do Euro e, provavelmente da UE.

A UE e o euro

Esta é uma questão central na crise grega, e é crucial para a esquerda ter uma política e um programa claros para enfrentar esta questão.

Infelizmente, apesar de tomar uma posição corajosa contra a austeridade e contra a coligação com a ND e o PASOK, Tsipras e a liderança Syriza não estão argumentando a favor de uma alternativa clara. Em parte, isso reflecte a pressão da maioria dos gregos – 79% de acordo com uma pesquisa recente – que, ao rejeitar austeridade, querem permanecer no euro.

È uma consequência do medo compreensível do que iria acontecer a Grécia se fosse expulsa do Euro, incluindo o potencial isolamento da relativamente pequena economia da Grécia. As massas gregas estão aterrorizadas com a Grécia que está a ser atirada para as condições sociais dos anos 1950 e 60 ou a alta inflação dos anos 1970 e 1980. ASyriza e a Esquerda têm necessidade de responder a esses temores e explicar qual é a alternativa.

Também é claro que Tsipras está a apostar que a UE não expulsará Grécia da zona Euro por causa das consequências que isso teria para o resto da UE. Mas isso não é de todo certo.

O KKE, por outro lado, opõe-se ao Euro e à UE e ataca a Syriza por causa da sua atitude em relação à UE e ao Euro. Politicamente, esta é uma das justificações que eles usam para não aderir a uma frente de esquerda com a Syriza. Embora o KKE, formalmente usa uma retórica muito radical sobre a “revolta popular” ou um “levantamento“, adopta na prática uma abordagem propagandística abstracta, o que está totalmente desadequada face à polarização de classes e à disponibilidade para a luta que existe actualmente na Grécia. Eles também justificam a sua não adesão a uma frente de esquerda governamental, questionando “qual seria, então, o carácter da oposição?” A oposição à UE e ao Euro, numa base nacionalista significa que estão presos a um quadro capitalista. O que é necessário é uma abordagem internacionalista socialista que una a luta dos trabalhadores gregos com a classe trabalhadora em outros países da UE.

É verdade que uma parte das classes dominantes europeias estão apavoradas com as consequências de expulsar a Grécia da zona Euro. O Centro de Pesquisas Económicas e de Negócios (Centre for Economic and Business Research) estima que um colapso “desordenado” do euro provocados pela saída da Grécia poderia custar até 1 trilhão de dólares. Um colapso “ordenado” custaria 2% do PIB da UE – 300 bilhões de dólares. Sem dúvida, tal desenvolvimento teria consequências enormes para o conjunto da UE e poderia resultar na dissolução da zona Euro com, possivelmente, a Espanha e outros países rompendo com ela.

No entanto, o galopante medo da classe dominante alemã e doutros é que se forem feitas concessões substanciais à Grécia, de seguida, a Espanha, a Itália, Portugal, e a Irlanda e clamariam por ainda mais concessões .Isso não podem arriscar. Assim, o mesmo Centro de Pesquisas Económicas e de Negócios conclui: “O fim do euro, na sua forma actual, é uma certeza“.

Tsipras e a Syriza acreditam, erradamente, que é possível permanecer na zona Euro e, ao mesmo tempo, não introduzir políticas de austeridade contra a classe trabalhadora. No entanto, o próprio Euro é um espartilho económico que permite às grandes potências capitalistas e às grandes empresas impor o seu programa de austeridade em toda a zona Euro.

A Syriza diz, correctamente, que se recusa a introduzir austeridade. Mas como iriam então enfrentar a ameaça de expulsão do Euro que paira sobre a Grécia? Este é o inevitável curso dos eventos que se estão a desenrolar. Não é crível responder simplesmente dizendo que Grécia permanecerá no Euro e se oporá à austeridade. Se eles o fizerem, e um governo com base na esquerda forem expulso do Euro, a Syriza não estaria preparada para responsabilizar a direita por isso.

Embora a maioria dos gregos tema ser expulsos do Euro, nesta fase, isso não significa que o Euro possa ser aceite a qualquer preço indefinidamente.

A Syriza precisa responder a este ataque de forma clara, explicando que se a Grécia rejeitar austeridade será expulsa da zona Euro. Mesmo sem um governo que se oponha à austeridade a Grécia poderá ser expulsa do Euro.

Diante de tal situação, um governo de esquerda deve imediatamente introduzir controles de capital e de crédito para evitar uma fuga de capitais do país, nacionalizar todos os bancos, instituições financeiras e grandes empresas. Deve cancelar todos os pagamentos da dívida aos bancos e instituições financeiras. As contas devem ser inspeccionadas, bem como todos os acordos feitos com os bancos e mercados internacionais. Os bens dos ricos devem ser apreendidos e dadas garantias de segurança aos pequenos depositantes e investidores. Deve-se introduzir um programa de reconstrução de emergência, elaborado democraticamente, como parte de um plano socialista, que incluiria medidas de apoio às pequenas empresas.

Necessidade de internacionalismo socialista

Ao mesmo tempo, a Syriza e um governo democrático dos trabalhadores e todos os explorados pelo capitalismo deve apelar à classe trabalhadora na Europa – especialmente aqueles que enfrentam uma situação semelhante em Espanha, Irlanda, Portugal e Itália – para se juntar a eles em solidariedade e começar construção de uma nova alternativa para a UE capitalista e ao Euro. A gigantesca crise que está a irromper na Espanha e em outros lugares significará que o povo trabalhador poderão reunir-se a um tal apelo. E isso poderia ser o primeiro passo para a formação de uma confederação socialista democrática voluntária envolvendo estes países como um passo rumo a uma confederação socialista da Europa.

Esse processo deve ser iniciado agora, estabelecendo desde já ligações directas entre a esquerda e as organizações de trabalhadores nesses países.

Infelizmente, a falta de ousadia na responda à ameaça de ser expulsos do euro só vai servir para desarmar parcialmente o movimento de luta contra a austeridade. E isso pode impedir a Syriza de emergir como o maior partido. A classe dominante grega e a “Troika” estão em campanha para tornar esta eleição numa votação sobre a filiação no Euro, e não sobre a austeridade. Estão a tentar aterrorizar as pessoas para não votarem na Syriza e a tentar reunir fragmentos de eleitores de direita – inclusive de partidos de direita que não conseguiram entrar no parlamento – à volta da  Nova Democracia. No entanto, após anos de medidas de austeridade e ataques brutais não é certo essa estratégia tenha sucesso.

Apesar da fraqueza da posição da Syriza sobre a União Europeia e Euro, no momento que este artigo é escrito, parece ser certo que a Syriza irá ver aumentado o seu apoio e tem uma séria possibilidade de se tornar o maior partido, seguida de perto pela ND. Sondagens recentes têm colocado ambos os partidos com uma votação entre 20 e 23% dos votos.

Nova fase da luta

Se a Syriza emergir na liderança ou à cabeça de um governo isso não significa o fim da crise, mas que irá começar uma nova fase para a qual as organizações de trabalhadores precisam urgentemente de se preparar para, se quiserem fazer avançar a luta.

A Syriza, em si, precisa de ser reforçada pelos trabalhadores, jovens, pobres, e todos aqueles que se opunham à austeridade a ingressar e organizarem nas suas fileiras. A Syriza, como uma coligação, está agora a tentar alargar-se, começando a a incluir os movimentos sociais e organizações.

Tsipras justamente apelou para que a esquerda se una numa frente unida. Essa frente única necessita de ter uma expressão concreta, organizada através da convocação de uma assembleia nacional de delegados de base dos partidos de esquerda, sindicatos, locais de trabalho, universidades, bairros e organizações comunitárias.

Assembleias locais de delegados eleitos a partir dessas mesmas áreas devem ser urgentemente formada sob a iniciativa da Syriza para se preparar para as lutas que aí vêm e para garantir que um futuro governo esquerda leva a cabo políticas nos interesses da classe trabalhadora.

A classe dominante está a começar a sentir-se ameaçada pelo desafio emergente da Syriza e da esquerda. Existe a ameaça de um colapso na sociedade, se a esquerda não aproveitar o momento. Os fundos financeiros do governo podem até acabar antes da eleição em 17 de Junho.

Lições do Chile

Embora numa era diferente, há alguns paralelos entre a situação na Grécia de hoje e a situação que se desenvolveu no Chile entre 1970 e 1973.Há também muitos paralelos com a evolução em curso na América Latina hoje em países como a Venezuela, a Bolívia e a Argentina.

O líder fascista da GD, Nikolaos Michalokiakos, ameaçou aqueles que “traíram a pátria”, dizendo: “Chegou [o] tempo a temer. Estamos a chegar “. Eles podem não se tornar uma força de massas por seu próprio direito, mas como a Patria y Liberdad podem se tornar (e já são) uma organização brutal que pode agir como um auxiliar para atacar as minorias e a classe trabalhadora.

A GD está a mandar os seus capangas “camisa negras” atacar imigrantes que sofrem espancamentos e ameaças diárias deles. Segundo a imprensa em Gazi, Atenas, deixaram panfletos bares gays alertando que seriam os próximos alvos e atacam os gays que saem dos bares.

Isto coloca a necessidade urgente de formação de assembleias locais anti-fascistas que deverão criar grupos para defender todos os que estão ameaçados pelos ataques fascistas.

Se nas eleições de 17 de Junho, a Syriza juntamente com outras forças de esquerda deve emergir e ganhar uma maioria parlamentar, um governo de esquerda liderado pela Syriza e Tsipas Alex poderia rapidamente ser pressionada a virar à esquerda sob a pressão do movimento de massas e a profundidade da crise. Este é também o medo da classe dominante. Essa evolução na Grécia também pode dar o exemplo e incentivo noutros países, como Espanha e Portugal.

Um governo dessa natureza poderia, num dado momento, até mesmo incluir algumas características do governo Allende no Chile, 1970-73 mas também algumas características dos governos Chavez, da Venezuela, Morales, na Bolívia e Kirchner, na Argentina. Isso pode incluir a adopção de medidas que atacam os interesses capitalistas, incluindo nacionalizações generalizadas. Embora nesta fase a Syriza e Tsipras não estejam a falar de Socialismo como alternativa, isso pode mudar. Numa entrevista publicada no jornal britânico diário The Guardian, ele argumentou que é “a guerra entre os povos e o capitalismo” (19/5/12). Isto representa um passo significativo, mas ilustra como ele e a liderança da Syriza poderiam ser pressionados pela situação a virar ainda mais à esquerda. Quando eleito pela primeira vez , Chávez na Venezuela não fez referências ao Socialismo. Tal cenário na Grécia não é, de todo, certo, mas tal não pode ser excluído em um determinado estágio. Particularmente sob o impacto do aprofundamento da crise e da luta de classes, reivindicações como as nacionalizações, controle e gestão dos trabalhadores podem ser adoptados por amplas camadas da classe trabalhadora. Isso pode empurrar “à esquerda” os governos a adoptarem tais medidas, pelo menos parcialmente. Esta foi a experiência do primeiro período do governo do PASOK em 1981.

Caso os partidos pró-austeridade sejam capazes de forjar uma coligação, com base da ND tornar-se  o maior partido e ganhar o bónus de 50 lugares parlamentares, então não teriam qualquer credibilidade, autoridade, ou estabilidade. Todos os partidos com um nível tão baixo de apoio, formando um tal governo, efectivamente constituíram um golpe contra a maioria do povo grego pela minoria pró-austeridade. Eles teriam de enfrentar a raiva intensa e amargas lutas pela classe trabalhadora grega. Um tal governo teria de enfrentar a enorme raiva da sociedade e uma feroz luta dos trabalhadores gregos para se livrar dela, especialmente vendo eles a possibilidade poderosa de um governo de esquerda em torno da Syriza, que seria, nessas condições, a principal força de oposição, aprofundando a sua presença e raízes na sociedade.

Nesta situação, a Syriza deve preparar a luta contra o governo e o sistema capitalista. A Xekinima ,  secção grega da CIT, gostaria de propor que, nestas condições, o lema central deveria ser a luta pelo derrube dessas instituições através de greves, ocupações e protestos em massa.

O rápido crescimento da Syriza é um desenvolvimento extremamente positivo. No entanto, a profundidade da crise social e política em curso na Grécia vai colocá-la à prova, conjuntamente com todas as forças políticas. Se ela não desenvolver um programa totalmente claro e arrojado, um conjunto de métodos e uma abordagem de luta que se apresente como um caminho para as massas, então ela poderá cair tão rapidamente como surgiu. É ambém uma necessidade urgente ajudar as forças dentro e à volta da  Syriza a tirar as conclusões politicas necessárias , bem como as tarefas necessárias para fazer avançar a luta, e fortalecer os apoiantes marxistas da Syriza e do Xekinima.


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