Grécia: Novas eleições após falhanco da coligação pró-austeridade.

Grécia

Por um Governo de Esquerda! Por medidas anti-austeridade, pró-trabalhadores e socialistas!

Nikos Anastasiades, Xekinima (CIT na Grécia) e Nial Mulholland, CIT 

Na sequência do terramoto das eleições do dia 6 de Maio na Grécia, na qual vimos a queda dos partidos pró-austeridade e uma imensa rejeição da Troika (FMI, BCE e UE), os três principais partidos não conseguiram formar uma coligação governamental. As tentativas do Presidente grego de formar um governo de “união nacional”, ou então a formação de um “governo de tecnocratas” também falharam. Novas eleições que serão cruciais terão lugar no dia 17 de Junho.

Os apoiantes do Xekinima apoiam vivamente a decisão do partido de esquerda Syriza em recusar unir-se a qualquer governo com partidos pró-austeridade, tais como o Pasok, o tradicional partido social-democrata, e o Nova Democracia de direita.

Syriza

O Syriza (Coligação de Esquerda Radical) saltou de 4.6% para 16.78% (52 assentos), e tornou-se o segundo maior partido destas eleições, grandemente baseado nas suas políticas anti-austeridade e o apelo a um governo de esquerda unido.

Durante a última semana, os principais partidos políticos tentaram desesperadamente encontrar uma solução para evitar novas eleições. A classe dominante grega está desorientada. As suas ferramentas tradicionais de apoio, a Nova Democracia e o Pasok, viram os seus votos caírem drasticamente.

Este foi o resultado de anos de aplicação de medidas de austeridade, que resultaram na pobreza e mendicidade em massa, um recuo nas condições de vida e o aumento dos suicídios. No fim do ano de 2012, a previsão do PIB (produção total) será de uma contração de 20% (desde 2008) e o desemprego um aumento de 25%.

Os líderes da Nova Democracia e do Pasok, bem como a maioria da media, hipocritamente responsabilizam o Syriza por obrigar o país a realizar novas eleições. Mas o líder do Syriza, Alexis Tsipras, correctamente refutou os seus argumentos, alegando que o establishment político desejava ter o Syriza como seu “parceiro no crime” na realização de novos cortes.


A aversão dos principais líderes partidários à realização de novas eleições tem como base principal o facto de o Syriza ser apontado como o novo maior partido de acordo com as sondagens, alcançando entre 20.5% a 28%. Syriza é o único partido em crescimento nas sondagens, enquanto os outros recuam. Prevê-se que o Nova Democracia obterá 18.1% e o Pasok 12.2%, o seu resultado mais baixo em aproximadamente 40 anos. Isto reflete a grande popularidade da oposição pública do Syriza a mais medidas de austeridade.

Ameaça da extrema-direita

O neo-fascista Aurora Dourada alcançou um grande sucesso nas últimas eleições, e entrou pela primeira vez no parlamento. Contudo, muitos dos que votaram na Aurora Dourada tendo em vista “punir os políticos” vêem agora a verdadeira postura de estrema-direita e anti-trabalhadores do partido. A Aurora Dourada tem caído nas sondagens, apenas acima dos 3% em alguns casos, nos quais o partido não obteria nenhum representante em novas eleições.

De qualquer modo, a classe trabalhadora não deve ser complacente sobre a ameaça da extrema-direita. Desde que ganharam assentos parlamentares, os apoiantes da Aurora Dourada têm atacado ferozmente os imigrantes.

O Xekinima apela à criação de comités locais anti-fascistas que incluam grupos de auto-defesa organizados de maneira democrática, e a sua extensão para comunidades locais, escolas, universidades e locais de trabalho. Caso a esquerda falhe em apresentar uma alternativa socialista viável, a extrema-direita poderá conseguir alcançar novos sucessos, e a classe dominante grega, que no passado recorreu ao regime militar, irá novamente socorrer-se de novas medidas autoritárias contra os movimentos de trabalhadores.

Saída da Zona-Euro?

Os líderes partidários ameaçam que a Grécia será obrigada a sair da zona-euro, em caso de novas eleições nas quais o Syriza chegue ao poder com medidas anti-austeridade. A liderança do Syriza defende que esta tem a vontade de pôr um fim nos cortes e melhorar as condições de vida da população, e que a Grécia deve permanecer na zona-euro.

Enquanto a grande maioria dos gregos se opõe frontalmente ao programa de austeridade, ela quer ao mesmo tempo permanecer na zona-euro. Há um medo inegável sobre as consequências de um eventual abandono da moeda comum.

Existem avisos incessantes da media e por parte dos políticos pró-austeridade sobre as consequências desta saída: uma queda dramática nas condições de vida, a falência do sector financeiro e hiperinflação. Sem surpresa, uma sondagem recente indicou que 78% dos entrevistados desejavam um governo que fizesse todo o possível para manter o Euro. Ao mesmo tempo, permanecer acorrentado às promessas do Euro acarreta uma austeridade sem fim, e um crescente número de pessoas defendem a saída.

Não obstante o objectivo dos líderes do Syriza em permanecer na zona-euro, mesmo que sigam as suas políticas em um novo governo, limitados como estão à uma renegociação “radical” dos termos do resgate, eles enfrentarão uma firme oposição por parte dos capitalistas gregos e europeus, que muito provavelmente traduzir-se-ia na expulsão do Euro.

A Troika indicou que está preparada para reconsiderar alguns aspectos do resgate, mas não os termos principais, o que quer dizer, uma nova vaga de ataques às condições de vida do povo grego.

Ainda assim, o Syriza não está a preparar os seus próprios apoiantes e a classe trabalhadora no geral, para as consequências de uma confrontação directa com a Troika, os mercados e a elite grega ou tendo em consideração a provável campanha de terror desencadeada pelos líderes políticos e pela media que será desencadeada contra o Syriza durante a campanha das novas eleições.

Alguns dos líderes do Syriza argumentam que ao formar um novo governo, o bluff da Troika irá recuar e estes serão obrigados a realizar enormes concessões. Eles indicam que os líderes europeus temem um possível não-pagamento por parte da Grécia e a sua saída do Euro. Isto provocaria uma nova crise financeira e uma profunda recessão na UE, na qual, países como Espanha, Portugal e Irlanda poderiam também ser obrigados a sair do Euro.

Apesar disto ser verdade, os acontecimentos têm os seus próprios timings. Alguns líderes europeus e os mercados temem que a Grécia já esteja num trajeto incontornável de saída do Euro, e os mercados financeiros já se preparam para esta eventualidade.

Angela Merkel e o presidente da UE, Durão Barroso afirmam abertamente que se Atenas não seguir as regras do resgate, a Grécia terá que sair. Isto pode ser parcialmente uma ameaça para a formação de um governo de coligação que continue com os cortes, bem como uma tentativa de demonstrar o que pode acontecer com qualquer país da zona-euro que ouse fazer frente à Troika.

Governo de Esquerda

Nesta situação, o que deve fazer a esquerda grega? O Xekinima apoia o apelo do Syriza a uma frente de esquerda unida. O Syriza deve abrir-se e desenvolver a suas estruturas, enquanto uma aliança ampla da esquerda, deste modo, novas franjas de trabalhadores e jovens podem vir a juntar-se e determinar a política do partido democraticamente. O Xekinima apoia uma acção unida dos partidos de esquerda presentes nas próximas eleições e ao voto da classe trabalhadora no Syriza.

O Syriza deve fazer um apelo ao ressurgimento da acção colectiva nos locais de trabalho, universidade e bairros, e por uma organização combativa, unida e democrática. Isto deve ser feito de uma forma concreta, através do recurso às Assembleias a nível local, regional e nacional, de forma a debater e encontrar um programa, ao mesmo tempo que garantirá que tal governo seguirá as políticas anti-austeridade e pró-trabalhadores.

O Partido Comunista (KKE) e o Antarsya (Cooperação de Esquerda Anti-Capitalista) tomaram ambos atitudes sectárias aquando das últimas eleições e rejeitaram a proposta do Syriza por uma “esquerda unida”, o resultado traduz-se na estagnação dos seus votos. Para a surpresa de muitos milhões de trabalhadores, a liderança do KKE continua a recusar a formação de uma união com o Syriza.

Muitos dos membros do KKE falam da necessidade de se “fazer uma unidade com o Syriza”. O Xekinima apela ao Syriza a realizar um chamado directo aos membros de base e eleitores do KKE e de outras forças da esquerda para se juntarem a um bloco eleitoral baseado numa plataforma anti-austeridade e pela luta por um governo de esquerda com um programa socialista.

O Xekinima irá advocar um governo de esquerda, e lutar para que este realize políticas anti-austeridade e pró-trabalhadores e que adopte um programa socialista para transformar a sociedade.

Um programa de acção unida entre o Syriza e o KKE em torno da oposição a todas as medidas de austeridade, pela anulação da dívida, controlo público dos principais bancos e indústrias e por uma mudança socialista, iria obter um apoio generalizado por parte da classe operária, jovens e classe média.

Políticas pró-trabalhadores trariam inevitavelmente a fúria do patronato grego e europeu. Estes, provavelmente expulsariam a Grécia da zona-euro.

Expulso do Euro, um governo dos trabalhadores teria que levar adiante um programa de emergência, incluindo o controlo estatal sobre importações e exportações e controlo do capital, de forma a evitar a “fuga do capital” por parte dos grandes proprietários e multinacionais. Comités democráticos deverão estar encarregados de fornecer alimentação, medicamentos, combustível e outros bens de primeira necessidade para a população.

Um governo dos trabalhadores na Grécia iria unir-se aos movimentos existentes em outros países em crise na zona-euro, tais como, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda, de forma a romper o diktat da Troika, do patronato europeu e do capitalismo.

Estes países poderiam formar uma confederação com base no socialismo e iniciar um planeamento democrático e coordenação internacional das suas economias, como parte da luta por uma confederação europeia socialista, numa base livre e igualitária. Este projecto obteria rapidamente um enorme apoio da classe trabalhadora na Europa.

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