As presidenciais em França, questões sobre a Front de Gauche

Mauro Kato, Socialismo Revolucionário

A recente sondagem do início de Abril[1] indica uma intenção de votos na casa dos 15% para o candidato Jean-Luc Mélenchon, ou seja, o terceiro candidato com mais intenções de voto após Hollande (PS) e Sarkozy (UMP). O objectivo deste artigo é de analisar as causas de tamanho sucesso, tendo em conta o rótulo de “revolucionário” e “extrema-esquerda” que a media mainstream lhe confere. Quanto aos partidos de direita claramente de direita; Parti Socialiste e a Union pour un Mouvement Populaire, não serão objecto de análise, uma vez que a intenção aqui é traçar um paralelo entre o movimento partidário em França e Portugal, de forma a construir um debate crítico sobre a situação em ambos os países.

Extrema-esquerda ou apenas esquerda?

A Front de Gauche (FG) é uma coligação de vários partidos de esquerda, na qual as principais forças são o Parti Communiste Français (PCF) e o Parti de Gauche (PG). Ao contrário do Partido Comunista Português (PCP), podemos ver que hoje, o PCF possui uma orientação muito diferente do seu homólogo português. Ao invés de realizar uma análise histórica do partido, ficaremos pelas propostas e decisões mais recentes tomadas pela FG.

Faremos uma breve comparação entre os programas da FG e dos partidos de esquerda menores também em campanha, o Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) e a Lutte Ouvrière(LO)[2].
No que diz respeito à dívida pública, que agora está em voga na Europa, a FG não se opõe ao seu pagamento, está claro em seu programa[3]. A estratégia da FG é de aumentar a taxação destas grandes empresas de forma a pagar a dívida pública, abre-se a porta para “colocação sob controlo social dos bancos privados que não respeitem a nova regulamentação em matéria de luta contra a especulação”. Se este “controlo social” é ou não uma forma de nacionalização é uma questão que fica no ar, também falta saber se este controlo seria decidido de forma política ou jurisdicional, isto é, quem decidiria se determinado banco está ou não a cumprir a regulamentação? A posição do NPA é a que defendemos aqui em Portugal, isto é, a anulação da dívida, uma vez que ao nosso ver não só é impraticável a realização de uma auditoria, como é um contrassenso à perspectiva socialista procurar algo de “legítimo” em dívidas que foram formadas no seio da exploração da classe trabalhadora e numa democracia parcial na qual vivemos actualmente. Enquanto que a LO possui uma solução diferente, o financiamento da dívida apenas pelos rendimentos de capital.

No que toca à nacionalização dos sectores chave da economia a LO é o único partido que apela abertamente à nacionalização.

Ao que parece, a FG é a força com propostas mais reformistas. De qualquer modo seria irresponsável julgar qualquer um destes partidos apenas pelo programa político, seria necessário um maior conhecimento sobre a actuação no dia-a-dia destas forças políticas.

O preocupante aqui não são necessariamente as medidas (uma vez que se elas fossem efectivamente implementadas, haveria um grande avanço para a classe trabalhadora que vive em França). O problema principal prende-se com o motivo pelo qual tanto o NPA como a LO recusaram juntar-se à FG, tendo em conta a semelhança em boa parte dos seus programas.

A questão do Partido Socialista

Como pode-se ver[4], vários motivos levaram ao não alinhamento do NPA e da LO ao FG, para nós, o mais grave é sem dúvida a possibilidade de acordo com o PS[5], partido este que claramente serve os interesses da classe dominante.

No passado recente o alinhamento em listas comuns com o PS (fr) parece ser a estratégia actual do PCF, táctica esta que não é apenas contraproducente, mas prejudicial à classe trabalhadora, uma vez que dá a ilusão de que o PS (fr) não é um partido de direita, e que por outro lado, é possível “ganhar” um pouco ao ceder-se um pouco. Ora bem, como podemos ver muito recentemente em Portugal, esta estratégia é perigosa, pois normalmente não é a direita que “esquerdiza-se” mas antes pelo contrário, é a esquerda que se move para a direita.

O exemplo mais claro é do Bloco de Esquerda, ao apoiar a candidatura do candidato Manuel Alegre, o partido conseguiu perder metade dos votos nas últimas legislativas. Talvez seja por isso que Luís Fazenda apoie a FG[6]. Interessante é o último parágrafo do seu artigo no qual diz: “O programa do Front de Gauche está articulado com programa, recentemente aprovado em congresso (Erfurt) do Die Linke da Alemanha. São bons prenúncios para a corrente de esquerda europeia”.

Ao contrário do que pensa o Sr. Fazenda, o alinhamento da FG ao Die Linke demonstra apenas a incapacidade dos partidos (novos e antigos) de esquerda em se radicalizarem, e fornecer uma alternativa credível às massas populares. Citando os camaradas da Gauche Revolutionnaire (secção do CIT em França que fez parte igualmente do NPA): “A liderança do NPA não foi capaz de retirar as lições sobre o motivo do falhanço dos novos partidos pelo mundo afora (Bloco de Esquerda em Portugal, PSOL no Brasil, Syriza na Grécia, o Escocês SSP, etc.)”.

Luta de Classes por palavras bonitas

Porque será que quatro anos volvidos após a crise de 2008 e com os programas de austeridade a serem impostos duramente em todo o mundo, em especial na Europa, os partidos de esquerda parecem não crescer? A resposta é obviamente complexa e variável de país para país, contudo acreditamos que existe um denominador comum entre as diferentes situações.

A mais importante é a falta de um discurso que seja abertamente socialista, é necessário que os militantes de esquerda tenham a capacidade de transmitir a ideia base de que a democracia só existe no socialismo, uma vez que sem democracia económica não há democracia política. As tentativas de radicalizar aos poucos a população só tem como consequência a perda de credibilidade e descrença nos movimentos partidários que sentimos mais do que nunca com os movimentos dos Indignados e Occupy.

Tomemos como exemplo o recentemente formado Movimento Alternativa Socialista (MAS) e o já histórico MRPP. O MAS defende a suspensão do pagamento da dívida, de forma que seja realizada uma auditoria da dívida pública, tomam como exemplo a Argentina ou a Islândia[7][8]. Garcia Pereira, líder do PCTP-MRPP defende o mesmo[9]. Como já foi há muito tempo criticado pelo eurodeputado do CIT, Paul Murphy[10], e mais recentemente pelo artigo da Comuna[11]. O modelo Islândes está longe de ser socialista, uma vez que a pequena ilha de 300 mil habitantes também vive a austeridade, o actual governo verde nem sequer recusa o pagamento do caso Icesave, a questão está em tribunal, onde os governos britânico e holandês pressionam para a compensação pelo crash.

Como podemos ver, o apelo a este tipo de medidas reformistas é ineficaz, uma vez que não contribuem para a luta pelo socialismo e ao mesmo tempo fornecem falsas esperanças à classe trabalhadora, que irá acreditar que a auditoria da dívida ou a prisão de alguns gestores é o principal problema no sistema, quando não o é de todo. Consequência lógica após perceberem que nada mudou é a descredibilização da esquerda…

O segundo elemento que é crucial é a falta de união dentro da própria esquerda, obviamente, que não defendemos um centralismo partidário, mas antes que se desenvolva a capacidade de união e coordenação entre as diferentes correntes de esquerda. A falta de credibilidade da Esquerda passa por aí, aos olhos da população, a incapacidade de união demonstra a incapacidade de governação de um país aos olhos da população, o que não deixa de ser verdade.

Nas últimas eleições devido a alguma pressão das bases partidárias o PCP e o BE realizaram uma reunião[12], no entanto, como temos visto não houve uma evolução entre ambos os partidos no sentido de se estabelecer realmente uma “Frente de Esquerda” em Portugal. Caberá aos militantes de ambos os partidos esta tarefa, uma vez que infelizmente as suas lideranças parecem estar um passo atrás das suas bases no que diz respeito à radicalização da luta e na construção de alternativa de sociedade que tenha por base princípios abertamente socialistas[13], exemplo disto é a solução de renegociação da dívida pública defendida pela liderança de ambos os partidos[14] [15].

Keynes não é a solução

O “debate” entre Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã demonstrou a capacidade de ambos durante quase uma hora de defenderem políticas keynesianas, ao seguir a lógica de fortalecimento do consumo interno, apoio às PME’s, etc.

A nosso ver, a alternativa socialista é qualitativamente diferente de qualquer solução de “New Deal” que Jerónimo de Sousa veio buscar no debate. Na lógica nacionalista o New Deal funcionou mas não podemos esquecer que existe ainda todo o 3º mundo a ser explorado neste processo de Estado activo defendido pelos candidatos.

Obviamente, que qualquer partido sério deve possuir medidas de curto e longo prazo para os problemas que enfrentamos, contudo escutar as intervenções dos líderes das maiores forças políticas de esquerda sem mencionar os preceitos base do marxismo, isto é: um raciocínio dialéctico, o apelo à consciência de classe, conceitos importantíssimos como o “exército industrial de reserva”. Não se trata de uma questão de estratégia, mas antes de uma questão de necessidade, vejam as intervenções do candidato do PSOL (br) Plínio de Arruda, que dentro de uma campanha difícil, conseguiu realizar uma verdadeira contra-campanha e mostrar uma alternativa qualitativa face aos demais candidatos[16][17], não subscrevemos por inteiro as posições deste e do seu partido, contudo, mostrámo-lo como exemplo da possibilidade de existir uma outra abordagem num contexto eleitoral.

A importância de uma Esquerda unida

A ideia da “Frente Popular” enquanto plataforma política conseguiu suceder em França e Espanha em 1936, e no Chile em 1938. Apesar da pluralidade nem sempre positiva existente dentro destas “Frentes”, acreditamos que actualmente é necessário tal recurso, uma vez que o cenário político é dominado pelo bipartidarismo, e com a ameaça crescente da extrema-direita na Europa e nos EUA (na pele do Tea Party).

Contudo, diferente do que ocorreu no passado, acreditamos que as Frentes de Esquerda a serem desenvolvidas, devem antes ter como base um programa abertamente socialista. Construir uma alternativa contando com a força dos atuais partidos de esquerda que o são apenas formalmente ou foram apenas no passado (como o PT no Brasil, Labour, PSOE em Espanha, etc.) será contraproducente.

Enquanto que na década de 30, o móbil para a união da Esquerda foi o anti-fascismo, hoje, é necessário um objetivo mais amplo, a união deve ter como fim a transformação do sistema capitalista numa sociedade socialista, e de forma alguma apenas construir uma barreira anti-fascista.

É por isso que apesar da análise critica à liderança da FdG, vemos com bons olhos a possibilidade de ao menos existir esta experiência em França, uma vez que este é o melhor método de fortalecer a esquerda em dois sentidos. Ao mesmo tempo que oferece uma alternativa com possibilidades reais de sucesso e governo, a existência de uma união forçosamente irá traduzir-se numa maior interação entre as diferentes tendências dentro da Esquerda, resultando num ganho em termos de democracia para todos, na medida em que se combate o sectarismo.


2 pensamentos sobre “As presidenciais em França, questões sobre a Front de Gauche

  1. Olá Adriano,
    Obrigado pelo comentário. Sim efectivamente é uma Frente Única entre os partidos de esquerda, os sindicatos e os movimentos sociais que defendemos. Isto exclui necessariamente o PS, pois há muito que o consideramos um partido burguês. A frente única que defendemos é uma que se baseie num programa genuinamente socialista e que traga o socialismo abertamente como alternativa, pois acreditamos que não existe saída para a crise actual no quadro do capitalismo.
    Em França a Front de Gauche, apesar de criticável, acreditamos que foi um passo importante em vários pontos. Ela própria é fruto da radicalização das bases da sociedade, e consegue assim dar um perfil à esquerda que não havia em França há muitos anos, também constitui uma clara alternativa à extrema-direita que nos últimos anos tem vindo a crescer na Europa.

  2. Entre a Frente Popular e a CDU do PC, ou a colagem do BE ao PS, venha o diabo e escolha.
    A politica da “frente popular”, popularizada pelo Estalinismo nos anos 30 depois de ter, durante décadas promovido o sectarismo entre a militância comunista e as bases operárias da social-democracia, conduziram à perca da independência de classe dos trabalhadores e sua sujeição aos interesses da burguesia democrática.
    Daquilo que tenho lido nos vossos textos apresentam a proposta de Frente Única que é ligeiramente diferente da ideia de Frente Popular. Ou estarei enganado?

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