Crise, Bloco e escolhas

Recomeçar de Novo as vezes que forem necessárias

Francisco Raposo

A profunda crise económica capitalista está a desencadear um processo de profunda crise politica, social e cultural. É dos livros, todos sabemos. E também é dos livros que os partidos são testados nas alturas da crise: as suas ideias, o seu programa, o seu método de acção, todos esses condimentos são avaliados e aceites ou rejeitados pela “massa” que procura respostas e acção para enfrentar uma realidade adversa.

Tenho defendido a necessidade da Esquerda, a parlamentar e a extra parlamentar, a organizada e a que procura caminhos inorgânicos de acção, os velho e os novos activistas, os poderosos movimentos  sociais e as pequenas organizações, iniciem um debate para a formulação de uma plataforma comum para dar-mos resposta aos sucessivos e devastadores ataques com que os trabalhadores, a juventude e as massas pobres em Portugal são confrontados diariamente.

Na verdade, esse, creio eu, é o sentimento crescente entre os activistas: a necessidade de acção comum que inverta o caminho para o desastre que nos forçam a percorrer. Mas, e mais uma vez, sabemos isso da história, as organizações andam atrás dos activistas.

A Esquerda parlamentar apresenta como alternativa aos sucessivos pacotes de austeridade e à política imposta pela troika uma posição, com variações menores: a renegociação da dívida. As variações andam à volta da ideia da auditoria, da dívida devida e indevida. Mas basicamente, a ideia é a mesma: temos uma divida, há que pagá-la.

Ora é patente que individualmente, os activistas entendem – e quanto mais se aprofunda a crise, mais claro se torna essa constatação -, que é profundamente injusto pagarmos a dívida, que é impossível pagarmos a divida.

Quando à proposta “mobilizadora” da Esquerda pela renegociação, ela é que cada vez mais sectores da classes dominante, – incluindo sectores defensores da intervenção da troika – reconhecem por múltiplas vias, desde logo com as alterações ao chamado “memorando de acordo” de Maio de 2011 – de Dezembro de 2011 e da “avaliação” dos últimos dias.

A questão está – e creio que isso é determinante para se perceber o estado “letárgico” de parte da Esquerda parlamentar – em saber se é o papel da Esquerda salvar o capitalismo ou criar as condições para superarmos a crise superando o seu fautor: o anacrónico sistema capitalista baseado no primado do lucro privado. É que, nas declarações de princípios, as componentes principais da Esquerda Parlamentar, advogam o Socialismo como alternativa ao capitalismo.

Mas agem, como que a dar razão aos representantes do Capital, na procura de resolução dentro do quadro de um sistema que eles próprios reconhecem como inoperante, sem soluções e destrutivo.

Quando ao PCP poderá entender-se que receie ser acusado de ser defensor do regime ditatorial que parodiou o Socialismo – uma vez que 30 anos passados do colapso da antiga União Soviética, ainda não tem resposta cabal para as graves distorções dos regimes do chamado “socialismo real” nem propostas concretas para superar esses eventuais erros e prefere entrincheirar-se na Revolução de Abril que, apesar de tudo, foi uma meia-revolução. Assim, perspectiva uma vaga “democracia avançada” e remete o Socialismo para um quadro ideal e longínquo, pouco diferente aliás dos partidos que Lenine e outros revolucionários tão fortemente criticaram nos anos tumultuosos das primeiras décadas do `Século XX. Contudo, é inegavelmente reconhecida a abnegação e combatividade dos seus militantes e a sue presença activa nas empresas e nas ruas, dando uma cunho de classe á resistência e luta.

Já o Bloco, que se iniciou sob o lema “Começar de Novo”, prometendo “correr por fora” e re-democratizar a politica, tornou-se rapidamente uma organização “bem comportada”, institucional, exima no jogo dentro do sistema.

Um sinal disso é o lançamento do livro “A Dividadura – Portugal na crise do euro”, da autoria do coordenado do Bloco, Francisco Louçã, do Secretariado Unificado da Quarta Internacional e de Joana Mortágua, da UDP. Ora, num contexto de uma acentuada luta de classes com atravessa Portugal e o Mundo, quem é que os dirigentes da “esquerda socialista”  – como se auto-denomina o Bloco nos seus documentos,  – escolhem para apresentar o seu trabalho: o conhecido e reaccionário comentador Marcelo Rebelo de Sousa. É a escolha da “academia”, do “opinon maker” da razoabilidade do debate com a classe dominante e a intelectualidade

Entende-se que nos venham dizer que é a velha táctica de alargar os aliados, ou que se trata de de dividir o campo adversário, ou ainda, que é uma obra académica e que os autores não temem o confronto de ideias. Não faltará o juízo: lá está este tipo a ser sectário, “dinossauro” ou a viver em 75. Ou, cruamente a perguntar: mas afinal que é que representas?

Mas pergunto eu, para que é que tantos deram o voto ao BE? Onde está o BE fora do Parlamento, – e já não falo nos funcionários que tem espalhado pelos “movimentos sociais”, falo dos núcleos de activistas nas empresas, nos bairros?

Na verdade, o espírito do “Começar de Novo” morreu por aquelas bandas. Que creio que o BE será importante na construção de uma nova alternativa? Claro que sim, tal como o PC ou muitos e muitos militantes socialistas. Mas que, por si, o BE possa ser actor de mudança numa perspectiva socialista? Não creio, e as escolhas que os seus dirigentes fazem, são sinal disso.

Necessitamos de rejeitar a austeridade capitalista, a intensificação da exploração, o desemprego de massas, o empobrecimento vertiginoso da população, a destruição dos serviços públicos.

Necessitamos de construir resistência firme e decida, organizada e de massas não só contra este governo e troika mas contra o sistema que só nos pode dar mais austeridade, miséria e guerras.

Necessitamos de um amplo debate, e a vontade séria de juntar todos na luta e não apenas como declarações retóricas.

Necessitamos de recomeçar de novo, as vezes que forem precisas para criar uma alternativa independente dos trabalhadores e jovens ao sistema.

Necessitamos de uma corrente politica dos trabalhadores e juventude que coloque ao capitalismo a alternativa da Democracia Socialista,

E nesta batalho contamos, certamente, com muitos bloquistas, tal como comunistas, socialistas e outros activistas políticos e sociais

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