Grécia: Até meio milhão de pessoas na Praça Syntagma

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Niall Mulholland (CIT) falou com Andros Payiatsos, de Xekinima (CIT na Grécia), que participou dos enormes protestos no final de semana em Atenas – 16 de fevereiro de 2012

Tradução da LSR, CIT no Brasil

Resposta maciça dos trabalhadores gregos contra os novos cortes e austeridade

No domingo passado, o parlamento grego aprovou os novos cortes e política de austeridade exigidos pela União Europeia (UE) e Fundo Monetário Internacional (FMI) em troca de um novo grande pacote de resgate, para evitar que a Grécia dê calote em suas dívidas. As medidas de austeridade brutais foram exigidas pela UE como uma condição prévia para a liberação dos recursos. Mas os cortes provocaram uma resposta maciça dos trabalhadores gregos, com uma greve de 24 horas na terça-feira 7 de fevereiro e uma nova greve geral de 48 horas na sexta-feira e sábado, 10 e 11 de fevereiro. Isso é sem precedentes na história do pós-guerra do país. Protestos enormes ocorreram em toda a Grécia.

Niall Mulholland (NM): Qual foi o tamanho das manifestações do final de semana passado contra os novos cortes de austeridade?
Andros Payiatsos (AP): A manifestação no domingo 12 de fevereiro, no centro de Atenas, foi enorme, apesar de todas as tentativas da mídia na Grécia e internacionalmente para minimizá-la. Foi chamada pelos sindicatos e apoiada por todos os principais partidos de esquerda. Até meio milhão de pessoas marcharam e participaram do comício na Praça Syntagma, em frente ao parlamento nacional. Salônica e outras cidades e ilhas, como Creta e Corfu, também viram grandes manifestações. Os meios de comunicação gregos subestimaram a escala dos protestos, mas as pessoas saíam sem parar das estações de metrô no centro de Atenas, tornando-se uma maré de manifestantes. Parecia que praticamente todo mundo compareceu para se opor aos últimos cortes draconianos, aos ditames da Troika (UE, FMI e o Banco Central Europeu) e ao governo grego que colocou em votação mais cortes drásticos. Até mesmo os trens de metrô dos subúrbios mais ricos do norte de Atenas estavam cheios.

NM: A greve geral de 48 horas na semana passada foi eficaz?
AP: Os protestos de domingo foram precedidos pelas duas greves gerais mencionadas, que conseguiram fechar todas as indústrias, serviços públicos e transporte. Toda a sociedade foi novamente paralisada por uma tremenda exibição de ação coletiva dos trabalhadores contra os cortes. As manifestações durante os dois últimos dias de greve foram relativamente pequenas. A maioria dos trabalhadores viu o domingo como o dia crucial para protestar, o dia em que o parlamento iria votar os cortes (e o transporte estaria funcionando). Então, no domingo os trabalhadores voltaram em peso às ruas.

NM: Os meios de comunicação internacionais se focaram principalmente nos tumultos e confrontos entre alguns manifestantes e a intervenção da polícia. Qual foi o verdadeiro caráter das manifestações de rua no domingo passado?
AP:
Havia alguns contingentes sindicais muito grandes que participaram do protesto de massas no dia 12 de fevereiro em Atenas. Um sindicato ligado ao KKE (Partido Comunista grego) tinha um contingente de várias dezenas de milhares. Eu estimaria cerca de 100 mil pessoas. Mas a grande maioria das pessoas chegou a protestar sem alinhar-se a qualquer bandeira. Muitos vieram com os seus amigos e familiares para mostrar que eles se opuseram aos cortes. O clima de manifestantes era de raiva. As pessoas gritavam “ladrões” e “mentirosos” e “traidores” ao edifício do parlamento, enquanto os parlamentares deliberavam sobre novos cortes que empobrecem mais ainda grandes setores da população.

Entretanto, confrontos entre a tropa de choque da polícia e motineiros (grupos anarquistas desempenharam um papel, mas também agentes provocadores) começaram por volta das 17:30. A polícia agiu com brutalidade, atacando indiscriminadamente todos os manifestantes e usando bombas de gás lacrimogêneo. Esta é a sua tática normal. Os anarquistas atraíram alguns jovens à sua volta, muitos dos quais estão compreensivelmente furiosos com a situação e as condições de que são vítimas. Infelizmente, alguns desses jovens foram atraídos para atos imprudentes e contra-produtivos, incluindo saques, por parte da situação desesperadora que eles enfrentam. Alguns relatórios dizem que até 93 edifícios foram destruídos ou danificados. Sem dúvida, agentes provocadores estavam entre os “anarquistas” como já vimos muitas vezes antes na Grécia. Até mesmo os paramédicos de ambulância e bombeiros foram atacados enquanto tentavam lidar com emergências e incêndios.

Apesar de tudo isso, dezenas de milhares de manifestantes permaneceram na praça.

NM: O que o novo pacote de cortes significa para os trabalhadores e os pobres?
AP:
Este pacote de austeridade é um assalto aos mais pobres da sociedade. O salário mínimo será reduzido em 22%, para apenas 480 euros (R$ 1.080) líquidos por mês. Para menores de 25 anos de idade, é um corte de 32%, o que significa viver com 430 euros (R$ 970) por mês. Mas os mais afetados são os jovens aprendizes (quase todos os trabalhadores jovens são agora considerados “aprendizes”). Eles vão ver o seu salário mensal reduzido a meros 350 euros (R$ 780).

Além disso, as medidas incluem demitir 15 mil trabalhadores do setor público imediatamente, com o objetivo a longo prazo de cortar 150 mil postos de trabalho público. As leis trabalhistas serão “liberalizadas” para tornar mais fácil para os patrões despedir trabalhadores.

Tudo isso vem depois de anos de ataques, que deixaram um em cada três gregos na pobreza, com aumento dos sem-teto, crime, alcoolismo, dependência de drogas e famílias desestruturadas. A Grécia está em seu quinto ano de recessão/depressão. A distribuição de refeições em Atenas agora atende a muitos milhares, incluindo profissionais formados, bem como imigrantes. 30 mil desabrigados estão agora vivendo nas ruas de Atenas, um fenômeno de proporções insignificantes até recentemente. A Igreja Ortodoxa diz que está alimentando 250 mil pessoas por dia.

NM: O governo de coalizão grego consegue realizar os cortes?
AP:
O governo da chamada “grande coalizão”, dirigida por um tecnocrata não eleito, imposto pela UE, é realmente muito fraco. Até uma semana atrás, os três partidos da coalizão, o PASOK (socialdemocrata), a Nova Democracia (ND, conservador) e o LAOS (ultradireita), tinham uma grande maioria de 266 dos 300 deputados. Mas o projeto de austeridade foi votado por apenas 199 deputados. Isso ocorre porque muitos deputados sentiram a pressão da oposição em massa e decidiram não votar pelos cortes ou abster-se, geralmente para tentar salvar suas carreiras políticas.

Esses deputados dissidentes foram expulsos pelos seus partidos, formando o maior grupo no parlamento, o que causou um terremoto político. PASOK (durante alguns meses) e a Nova Democracia, em uma só penada, perderam 29 deputados cada. PASOK agora caiu de 160 para 131 deputados, num parlamento de 300 mandatos. ND caiu de 91 para 62. O demagógico, extrema-direitista LAOS perdeu 3-4% nas pesquisas em uma semana e se sentiu compelido a sair do governo antes da votação. No entanto, dois de seus ex-ministros romperam com eles e votaram a favor dos cortes.

PASOK e Nova Democracia agora compõem o governo com apenas 193 deputados entre eles. O partido anteriormente dominante, PASOK, desabou para apenas 8,7% de apoio nas pesquisas. ND diminuiu em 10% em pouco mais de uma semana, para 21%. A “grande coalizão” dos partidos da classe dominante representa apenas 30,1% na sociedade, de acordo com as pesquisas mais recentes. Ao mesmo tempo, mais de 75% dos seus eleitores são contra as políticas dos dois principais partidos.

Na realidade, portanto, este governo está por um fio. A única razão por que ainda permanece no cargo é porque nem os sindicatos, nem os partidos de esquerda têm um plano para derrubá-lo. Assim, se as medidas forem implementadas, será apenas porque a esquerda e os sindicatos têm permitido isso – por sua recusa de organizar uma luta decente de resistência.

NM: A esquerda pode ganhar as eleições?
AP:
O governo afirmou esta semana que uma eleição será realizada em abril. PASOK e Nova Democracia estão fadados a sofrer perdas de votos enormes.

Ao mesmo tempo, a esquerda está crescendo nas pesquisas. O KKE e SYRIZA têm agora uma oportunidade enorme e em conjunto têm mais de 30% nas pesquisas. Mas para realmente aproveitar a situação devem adotar políticas socialistas combativas e liderar a luta de massas para derrubar este governo e para desafiar as exigências dos mercados financeiros. Eles precisam convocar seus partidários a chamar assembleias em todos os locais de trabalho para organizar ocupações de massa e preparar para uma greve geral por tempo indeterminado para derrubar o governo.

Embora o governo tenha conseguido que os cortes fossem aprovados no parlamento, ele se mantém no poder por um fio e é extremamente instável. A enorme raiva na sociedade e a oposição aos cortes não diminuiu. Os sindicatos têm mostrado um vislumbre de seu poder, mas não mobilizaram para livrar-se decisivamente do governo. Os partidos de esquerda retoricamente defendem a queda do governo e novas eleições, mas não tomam iniciativas concretas nessa direção. O KKE e a corrente de esquerda Synaspismos (maior corrente do SYRIZA) reivindicam abstratamente “greves, ocupações, revolta” etc., mas não dão quaisquer propostas concretas para organizar greves e ocupações para desenvolver a luta.

Os principais partidos de esquerda, KKE e SYRIZA, não somente se recusam a apresentar um programa socialista, que é essencial nesta situação. Eles também se recusam a colaborar nas próximas eleições. Se eles fizessem uma aliança, essa surgiria como a maior força política na Grécia. O sistema eleitoral atual dá ao maior partido nas eleições 40 mandatos adicionais, que possibilitaria que eles formassem até mesmo um governo majoritário.

NM: O que Xekinima defende?

AP: O tumulto econômico e político é fadado a continuar. Os sindicatos estão discutindo uma nova greve geral para os próximos dias. Mas isso não deve ser apenas como válvula de escape, mas um esforço sério para expulsar o governo. Apelamos para a organização de uma greve geral por tempo indeterminado, para ocupações e protestos em massa, para derrubar o governo. É um governo de ladrões, que perdeu a confiança do povo. É necessário convocar assembleias democraticamente eleitas em todo o país, em nível municipal, regional e nacional para lançar as bases para um governo dos trabalhadores e os explorados por este sistema, com um programa para acabar com o capitalismo. É necessário cancelar a dívida pública e acabar com todos os cortes. Também defendemos a nacionalização dos bancos e grandes empresas sob gestão democrática dos trabalhadores e a implementação de um plano democrático de emergência para reconstruir a economia.

Militantes do Xekinima que estão ajudando a liderar uma ocupação do Ministério da Saúde enviaram um apelo a todos os sindicatos de esquerda pedindo apoio, especialmente dos sindicatos do setor da saúde. Nós também estamos usando isso como uma base para chamar para a expansão de ocupações de outros ministérios, câmeras municipais etc.

Defendemos uma onda de novas ocupações de praças em Atenas, Salônica e outras cidades, por exemplo, para criar um foco para que a resistência possa continuar, e para construir uma onda nova de greve e de ocupações de locais de trabalho, faculdades, escolas e comunidades. Propusemos a todos os grupos de esquerda uma iniciativa para se reunir e tentar tomar uma iniciativa em torno dessa demanda. Nós ainda estamos aguardando a resposta de outras forças de esquerda.

NM: Qual é a resposta socialista à crise?
AP:
Os meios de comunicação gregos agora discutem abertamente a vida fora da zona do euro. Eles especulam que a Alemanha agora pode querer a “causa perdida” da Grécia fora do euro. Alguns políticos da direita alemã acreditam que as ações do BCE ao longo dos últimos meses foram suficientes para garantir que não haverá efeitos de contágio da Grécia para outros países membros endividados da zona euro ou para o sistema bancário europeu frágil. Isto é uma aposta arriscada!

Não surpreendentemente, nas pesquisas, 54% dos gregos são agora “contra a UE” e 35% são “contra o euro”. Apesar de seus temores do “desconhecido”, muitos gregos se perguntam se a situação poderia ser pior fora da zona do euro.

O líder do Synaspismos apareceu na TV no domingo e pediu uma linha de negociação mais “dura” por parte da Grécia! Mas enquanto se aceitar as limitações impostas pela economia de mercado, as potências da UE só vão dar aos trabalhadores gregos a “escolha” de cortes drásticos.

O aumento do apoio ao KKE e Syriza mostra que a esquerda está em uma posição de potencialmente formar um governo de maioria. A base dos partidos de esquerda e os sindicatos precisam organizar por de baixo políticas socialistas e democráticas, estruturas de campanha, para lutar por um governo de e para trabalhadores, que iria cancelar a dívida, tornar as grandes empresas e riquezas em propriedade pública democrática, sob controle e gestão democráticos dos trabalhadores, criar empregos com um salário decente para todos, investir maciçamente no bem-estar, educação, moradia junto a produção de bens básicos, que quase parou. Um governo dos trabalhadores iria articular-se com a classe trabalhadora dos outros países atingidos pela crise das dívidas públicas na UE e com o movimento dos trabalhadores por toda a Europa, dizendo não à UE capitalista, e lançando uma luta conjunta por uma confederação socialista do continente.

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