A Greve Geral um aviso do que está por vir

No passado dia 24 de Novembro deu-se a primeira Greve Geral convocada pelas centrais sindicais, sindicatos independentes, com o apoio Plataforma 15 de Outubro (15-O) e muitos outros movimentos sociais, após o acordo com a Troika (FMI, BCE e Comissão Europeia).

Esta greve foi importante em vários sentidos. Antes de tudo por ter acontecido fruto da vontade inequívoca dos trabalhadores (demonstrado através dos sindicatos) como também de muitos outros activistas (através de outros movimentos sociais, com especial realce para a manifestação internacional de 15 de Outubro) de lutar contra as políticas da Troika levadas a cabo pelo governo do PSD/CDS com o aval do PS. As medidas draconianas que muitas vezes até vão para além do acordado com a Troika, já se fazem sentir este ano, demonstrando o carácter predatório do sistema capitalista nas mãos de banqueiros e especuladores, que insistem em políticas recessivas que significam apenas mais austeridade para quem é dependente do trabalho.

O aumento do IVA em serviços básicos como a luz e o gás, aumento das taxas moderadoras, o aumento generalizado do preço dos transportes, são alguns exemplos. Mas o pior ainda está para vir, o ano de 2012 será de uma violência tal para a economia das famílias e dos pequenos comerciantes/agricultores que as instituições tradicionais de caridade já avisaram que não têm, e não terão, condições de auxiliar face os crescentes pedidos de ajuda. O corte do subsídio de Natal e de férias é a medida mais odiada por parte da população. Mas haverão outras, como a imposição de meia hora por dia de trabalho não remunerado (17 dias por ano), ou seja, 17 dias de trabalho escravo.

A luta, tal como vemos na Grécia, irá intensificar-se, a perda de qualidade de vida sobre as famílias é cada vez mais tangível. O salário médio em Portugal não acompanha a inflação, o aumento de impostos e taxas por parte do Governo.  Mesmo as famílias e empresas que se socorriam de empréstimos bancários para pagar dívidas antigas encontram cada vez mais dificuldade para o fazer, uma vez que a banca restringe o acesso ao crédito. O sistema capitalista mostra a sua verdadeira face após a ilusão de crédito fácil e injecção de fundos europeus durante a década de 90 que estima-se ter estado na casa dos 8 milhões de euros/dia.

A greve geral foi inovadora em dois sentidos, por um lado, foi a primeira a ser convocada em conjunto com uma manifestação a ser realizada no mesmo dia. Dezenas de milhares de manifestantes das mais diversas orientações (trabalhadores, estudantes e outros activistas) compareceram ao chamado.

Importante também foi o facto da adesão à Greve Geral ter sido o maior de sempre em Portugal e que pela 1ª vez foram convocadas manifestações e concentrações conjuntas entre movimento sindical e social, provando que os exemplos de outros países como a Grécia, onde as greves gerais são sempre acompanhadas por largas manifestações, ou seja, provando que não há condições para não se realizarem protestos de massas nas ruas em dias de greve geral.

Nós do Socialismo Revolucionário(CIT em Portugal) consideramos esses pontos como cruciais na evolução da luta popular em Portugal. A proposta de manifestações e concentrações em dias de greve geral, defendida por nós no movimento sindical durante anos provou-se como correcta, demonstrando de forma clara o envolvimento de largos sectores da sociedade neste protesto bem como, que haverá uma escalada na luta, e que esta deverá ser feita nas ruas de forma activa e militante.

O papel do movimento dos “indignados” é crucial, no sentido que ao mesmo tempo que temos uma nova geração de pessoas que começam a envolver-se na luta, há também o componente de união, participar na greve e na manifestação mostra aos sindicatos que a população está com os trabalhadores e que a cooperação entre todos os sectores da classe trabalhadora é necessária se quisermos realmente ver uma alteração de fundo no sistema.

Por exemplo, a participação de não-trabalhadores da Carris nos piquetes de greve em Lisboa tem uma componente de união que obviamente terá efeitos no futuro próximo. Nos CTT foi vísivel uma evolução na luta dos trabalhadores, no ano passado o piquete era essencialmente composto activistas sindicais e por nós do CIT, e isso teve um efeito positivo na consciência este ano, onde muitos trabalhadores estiveram presentes a defender o seu piquete, havendo uma mobilização de base clara, em contraste com a Carris, que ainda precisa passar por este processo. No sector da limpeza municipal apenas 11 dos 118 camiões foram postosem circulação. A adesão dos bombeiros foi de 94% ainda na sequência da concentração realizada meses antes, e na qual estivemos presentes, denunciando os cortes e falta de condições de operacionalidade dos serviços.

O relatório de greve da CGTP é extenso e demonstra os efeitos no sector público e privado. O Governo por seu lado diz que a greve teve uma participação de 3,8%, facto esse, que a própria UGT, normalmente mais conservadora vem desmentir de forma clara, ao considerar esses dados como “irreais”.

Por outro lado, esses acontecimentos devem ser analisados numa perspectiva crítica, o tempo decorrido entre o início da manifestação da CGTP e dos indignados foi excessivo, o que levou a um afastamento entre as duas manifestações, quando o desejável seria a união das duas em um só bloco. Apesar da manifestação das centrais sindicais ter desmobilizado pouco depois da chegada do movimento social a S. Bento, muitos trabalhadores permaneceram no local, é esse o tipo de articulação e pontes que devem ser incentivadas para a escalada das lutas e a criação de uma alternativa genuína dos trabalhadores.

Nos piquetes de Greve em que nós do Socialismo Revolucionário estivemos presentes (Serviço de limpeza municipal, Carris, CTT e RTP) podemos observar que alguns tiveram melhores resultados que outros. De qualquer forma a presença de trabalhadores e simpatizantes nos piquetes de Greve ficou aquém do desejável e necessário. Para tal cremos ser imperativo um maior envolvimento de base dos sindicatos na elaboração da greve, bem como uma cooperação crescente com grupos e indivíduos que não façam parte das empresas de forma a atrair utentes, desempregados, precários, estudantes, reformados que queiram contribuir na luta. Acima de tudo faltam propostas e práticas socialistas que dinamizem o efeito da greve, e que ao mesmo tempo confiram um sentido de continuidade à mesma.

Na concentração em frente à Assembleia da República (AR), nós do SR, fomos o único movimento de esquerda a ter uma banca com divulgação de material, esta foi também uma inovação face à greve do ano passado, mas também foi importante na divulgação dos textos do CIT e estabelecimento de contactos.

Enquanto isso, nos meios de comunicação o destaque foi dado aos desacatos nas ruas entre alguns manifestantes (claramente minoritátios) e a polícia, a actuação da polícia de choque e também à paisana parece ser vista como normal pela hierarquia da PSP, uma vez que estes foram de longe os principais meios de repressão utilizados, tanto nos piquetes como na manifestação em si. A queda da cerca que protege as escadarias da AR foi ao mesmo tempo um sinal da vontade dos manifestantes em tomar para si as escadarias da AR para realização da Assembleia Popular, mas ao mesmo tempo demonstrou a desorganização existente entre os muitos e pequenos grupos presentes, a presença de agentes policiais não identificados que provocaram o início dos desacatos só aumentou a confusão.

O downgrade da banca nacional para a classificação de “lixo” e a divulgação do pagamento de juros no valor de 34.400 mil milhões (num total emprestado de 78 mil milhões) vem clarificar, para quem ainda tiver dúvidas, de que a economica no molde capitalista não tem nada para oferecer de novo, do que já foi oferecido à Grécia, à Irlanda e até mesmo à Islândia (que em Portugal é tido como um exemplo a seguir por uma parte da esquerda organizada e por alguns indignados).

A espiral de pobreza irá se acentuar. No processo de agudização das condições de vida e da luta de classes, cada vez mais activistas procurarão alternativas. As declarações de sectores patronais (Associação Industrial do Minho) e de dirigentes de partidos capitalistas (PSD e PP, especialmente este último) tentando criminalizar a resistência em nome dos “superiores interesses da nação”, podem – a não se afirmar uma alternativa independente dos trabalhadores – desenvolver uma corrente nacionalista potencialmente perigosa, que entre em confronto aberto com o movimento sindical e social.

É também por isso que a defesa aberta da Democracia Socialista – apropriação pública dos bancos e sectores financeiros e dos sectores chave da economia, o planeamento, gestão e controlo democrático da economia por parte dos trabalhadores e consumidores e das suas organizações – é essencial! O Socialismo Revolucionário tem como objectivos a curto prazo, reforçar a sua presença no movimento sindical, contribuindo para um sindicalismo combativo, de base e democrático, e participar e dinamizar acções da juventude, nomeadamente no âmbito das Associações de Estudantes das Universidades e Secundárias.

A divulgação do Socialismo e dos seus preceitos base são essenciais, uma vez que assistimos por uma parte dos novos activistas, a uma tendência em encontrar uma solução que “não seja nem de esquerda nem de direita”, mas que na prática cai no que já foi e é construído pelos marxistas desde o século XIX. Também assumimos a tarefa de dinamizar e apoiar acções de solidariedade internacional, que realcem as lutas comuns que os trabalhadores e jovens na Europa e no Mundo travam, e promovam a consciência de que uma alternativa ao sistema actual só é possível e sustentável à escala global.

Em suma, difundir as ideias e métodos do CIT em Portugal, bem como dinamizar e estabelecer ligações entre os diversos movimentos sociais existentes são tarefas que se impõem, e que entendemos ser cruciais nesta etapa da luta de classes em Portugal e no Mundo.

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