Grécia: greve geral de 48 horas vê maior protesto dos trabalhadores em décadas

Andreas Payiatsos, Xekinima (CWI Grécia), Atenas

Ocupações e greves que incluem todos os trabalhadores! Fora o governo de cortes do Pasok! Para um governo revolucionário dos trabalhadores e dos pobres!

A Grécia foi paralisada na quarta-feira e quinta-feira desta semana por uma greve geral de 48 horas convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos (GSEE) e Confederação dos Servidores Públicos (ADEDY). Até meio milhão de trabalhadores e jovens saíram às ruas de Atenas na quarta-feira e na quinta-feira, calcula-se cerca de 100 mil. A manifestação de quarta-feira foi a maior marcha sindical na Grécia, desde a queda da ditadura militar em 1974 e com a exceção de o levante popular de 1965, a maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial!

Trabalhadores entraram em greve com disposição e foram às ruas para se opor a nova rodada de cortes brutais, que propõe mais cortes salariais para os empregados do setor público, novos aumentos de impostos, ainda mais cortes nas aposentadorias, demissões em massa no setor público e uma suspenção dos acordos coletivos no setor privado. Dezenas de milhares de trabalhadores do setor público terão seus trabalhos atuais “suspensos”, ao longo dos próximos meses, com enormes reduções salariais, e perderão seus empregos, definitivamente, daqui um ano. Mais demissões no setor público seguirão em 2012 e 2013 – a “Troika” (FMI, União Europeia e o Banco Central Europeu) exige um corte total de 250 mil postos de trabalho no setor público, de um total de 650 mil (incluindo cerca de 200 mil no exército, a polícia, o judiciário e a igreja). Tudo isto para, supostamente, enfrentar a crise da dívida nacional. No entanto, está trazendo o resultado exatamente oposto: a profunda recessão, provocando uma queda do PIB de cerca de 15% em três anos, tem elevado, tanto os déficits orçamentais como a dívida nacional. O único ‘remédio’ que a Troika quer impor é ainda mais cortes, enquanto acusa os trabalhadores gregos, agora os mais pobres na zona euro, de “viver além de seus meios”!

Uma paralisação nacional completa

A greve geral contou com o apoio esmagador em todos os setores, público e privado. Foi uma paralisação nacional completa, envolvendo amplas camadas sociais. Mesmo aqueles segmentos da população normalmente considerado “conservadores”, como juízes, donos de quiosque de rua e pequenas lojas, taxistas e camioneiros, entraram em ação.

A greve magnífica veio após semanas de greves cada vez mais fortes, envolvendo diferentes categorias. A maioria dos prédios dos ministério do governo foram ocupados desde o início do mês, incluindo departamentos centrais, como finanças e justiça. O governo tem tentado quebrar uma greve e ocupação de aterros sanitários, por parte dos garis. Ela está em vigor há quase três semanas, levando a montanhas de lixo que se acumulam nas ruas de Atenas. As tentativas do governo de quebrar a greve, usando caminhões de lixo particulares, falhou completamente. O governo do Pasok agora ameaça os grevistas, que continuam a sua greve, de entrar com o exército! Motoristas de ônibus, médicos e outros profissionais de saúde, professores, marinheiros e muitos outros setores, fizeram várias paralisações ao longo das últimas semanas.

O clima nas ruas de Atenas e outras cidades nesta semana era explosivo. A maioria dos trabalhadores acha que depois de vários pacotes de austeridade severa e padrões de vida em declínio íngreme, não têm “nada a perder” saindo em greve total. A chamada “terapia de choque” não conseguiu colocar as finanças da Grécia em um caminho “sustentável”. Tem só produzido uma recessão sem precedentes a um custo humano e social enorme. O desemprego e as falências crescem, a receita fiscal cai e recessão se aprofunda. A taxa oficial de desemprego desse, já anunciada segundo o OAED (a agência de emprego oficial do governo) é de 16,5%. Mas todos sabem que o nível de desemprego real já está em torno de 25%. Até 60% de desempregados jovens trabalhadores se recusam a se registrar pois eles não veem motivo para fazer isso! Esta imagem não leva em consideração o nível de “subemprego” está num patamar semelhante ao do desemprego. Os índices da pobreza, da dependência química e as taxas de suicídio têm todos subido fortemente. Muitas pessoas sofrem de má saúde e doenças, porque eles não têm dinheiro para pagar as despesas médicas e por causa de cortes profundos nos serviços públicos de saúde – 50% dos leitos hospitalares enfrentam o machado da Troika! Crianças vão à escola queixando-se a professores que estão com fome. O sindicato dos professores relatou casos de crianças desmaiando nas salas de aula devido à desnutrição.

Ânimo explosivo e raivoso

Havia elementos de revolução na situação na Grécia nesta semana. O governo do Pasok foi completamente isolado das massas, incluindo as classes médias, e suspenso no ar. Os líderes sindicais poderiam facilmente ter chamado ações mais determinadas para acabar com o governo e parar todos os cortes e outros ataques. Mas ao invés os trabalhadores não receberam direção clara ou qualquer chamada para mais ação. Depois de algumas horas, as centenas de milhares de pessoas que se manifestaram nas ruas de Atenas, na quarta-feira, começaram a retornar a suas casas, principalmente após os confrontos entre grupos anarquistas ou agentes provocadores e a tropa de choque. A polícia aproveitou a chance dada a eles por cerca de 100 a 200 “anarquistas” para sufocar dezenas de milhares de trabalhadores com armas químicas lançado diretamente no principal contingente da manifestação dos trabalhadores.

No segundo dia da greve geral 48 horas, cerca de 100 mil tomaram as ruas e cercaram o parlamento. Membros do partido comunista grego (KKE) decidiram, pela primeira vez em anos, a se juntarem ao resto da esquerda e os sindicatos em uma manifestação conjunta. Eles decidiram organizar seu próprio contingente com responsáveis por segurança em frente ao parlamento, mas isso foi visto como uma provocação pelos grupos anarquistas e o resultado foi violentos confrontos entre anarquistas e os partidários do KKE. Cerca de 70 pessoas ficaram feridas e um operário da construção civil morreu de um ataque cardíaco, segundo os relatórios iniciais. Os violentos confrontos foram transmitidos pela televisão grega para mostrar as divisões na esquerda e tentar desacreditar a greve.

Apesar da greve geral e protestos enormes, os cortes draconianos foram aprovados pelo parlamento. Cerca de 15 mil policiais foram mobilizados para proteger os “ladrões e mentirosos” dentro do parlamento da fúria das massas gregas. Os cortes foram passados por 153 votos a 144, permitindo que governo do primeiro-ministro George Papandreou se mantenha no poder, pelo menos por enquanto. Havia rumores durante toda a semana que o governo cairia. Mas foi entendido pela classe dominante grega e as elites dominantes em toda a UE que um colapso do governo Pasok seria visto como uma vitória para o movimento de massas, incentivando mais resistência contra as medidas de austeridade na Grécia e em outros lugares.

O que vai acontecer a seguir? O projeto de lei de cortes draconianos foi aprovado, mas as greves, as ocupações e os protestos podem continuar. Muitos trabalhadores tem a esperança de que algumas das federações sindicais mais militantes vão continuar com ações de protesto. Mas nenhum dos líderes sindicais ou de partidos de esquerda dão uma clara direção. Trabalhadores querem lutar e têm mostrado que eles vão lutar até o fim, mas não estão otimistas. Todos os partidos de esquerda demandam a “remoção” do governo, mas em grande parte é retórica vazia porque não apresentam nenhuma exigência específica para desenvolver concretamente a luta de massas.

O que slogans e demandas?

Em contraste, Xekinima (CWI na Grécia) tem chamado e feito campanha pela continuação das ocupações e greves por tempo indeterminado para remover o governo de ataques e cortes do Pasok, e por um governo revolucionário dos trabalhadores e os pobres. Estes foram os principais slogans em três faixas com destaque Xekinima carregadas nas grandes manifestações desta semana, na manchete de primeira página do jornal do partido e nos 20 mil panfletos distribuídos no decorrer desta semana pelos partidários do Xekinima.

Xekinima é, infelizmente, a única força proeminente na esquerda na Grécia que apresenta propostas claras para o resto da esquerda e ao movimento dos trabalhadores, em geral, sobre como desenvolver as lutas, para derrubar o governo e para impedir cortes .

Na verdade, e para nossa surpresa, outros na esquerda se opuseram publicamente à linha do Xekinima para desenvolver um plano claro de ação para a luta. Por exemplo, antes da greve geral desta semana, em uma importante reunião de coordenação de sindicalistas realizada em 16 de outubro, representando cerca de 200 sindicato locais, sindicalistas de grupos da extrema esquerda, mas também Syriza (um partido amplo esquerda), se opuseram às propostas concretas do Xekinima para ampliar os protestos. Os sindicalistas do Xekinima defenderam que a coordenação deveria desenvolver as diferentes ocupações e greves, organizando uma série de greves de 48 horas, ou mais se possível nas diferentes categorias cada semana, para construir uma greve geral total e ocupações por tempo indeterminado, com o objetivo de derrubar o governo. Também defendemos a organização plenamente democrática do movimento dos trabalhadores, baseada em comitês eleitos pela base para dirigir as lutas.

Xekinima vincula essas lutas a demandas políticas, incluindo o não pagamento da dívida pública e nacionalização dos bancos sob controle e gestão democráticos dos trabalhadores, para planejar a economia em benefício da maioria, em vez de enormes lucros para um punhado de banqueiros e multinacionais.

Os representantes dos vários grupos e partidos de esquerda na acima referida coordenação reunião argumentaram que, dado o clima anti-cortes da classe trabalhadora, “não há necessidade de adotar essas propostas [da Xekinima]”. Em outras palavras, eles se recusaram a discutir um programa de ação que poderia desenvolver a luta de massas, deixando a iniciativa nas mãos da burocracia sindical ligada ao Pasok. Esta recusa incluiu a ultraesquerda, que nunca se cansa de falar sobre a “revolução”. Mas quando se trata de ação específica, eles têm uma abordagem e métodos sectários e não têm noção de demandas, tática ou estratégia.

Quais perspectivas para a luta?

Sentindo uma enorme pressão de baixo para cima, a liderança dos sindicatos da Pasok foram obrigados a organizar greves gerais, mas eles veem isso como uma forma de “assustar” o governo a fazer algumas concessões, e não para derrubá-lo. As cúpulas sindicais não tem a intenção de utilizar plenamente o enorme poder da classe trabalhadora, apresentada de forma tão clara esta semana, para barrar todos os cortes e derrubar o governo.

As perspectivas para o desenvolvimento da situação na Grécia e para o movimento dos trabalhadores precisam ser muito condicionais dada a situação fluida. Novas ondas de indignação dos trabalhadores em cima dos cortes pode levar a mais ocupações no locais de trabalho, greves locais e de diferentes categorias e ações por parte dos estudantes e jovens, sobretudo os secundaristas. Esse ânimo vulcânico pode forçar os dirigentes sindicais a chamar novas greves gerais que podem escalar.

Mas é também o caso que, na ausência de uma liderança resoluta dos sindicatos e da esquerda, há um perigo real de que as greves e ocupações podem começar a retroceder, os novos cortes vão começar a ter efeito e muitos trabalhadores poderiam tornar-se desmoralizados por um período.

A necessidade de coordenar democraticamente as lutas a partir da base, e para construir uma força alternativa de esquerda de massas e internacionalista – determinada a levar a luta até ao fim, lutando contra a agressão dos capitalistas, e vinculá-la à necessidade de uma sociedade socialista – é mais exigente do que nunca.

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