Grécia: Eles escrevem memorandos – Nós escrevemos a História!

O texto que se segue foi publicado pelos nossos camaradas gregos na preparação da Greve Geral de 48 horas de 29 e 30 de Junho. A crise capitalista aprofunda-se diariamente, bem como a luta de massas que resiste heroicamente à brutalidade de um sistema sem piedade.
Porque existem muitos pontos comuns e porque muitos debates e ideias que atravessam a esquerda portuguesa hoje, são sentidos pela Esquerda Grega, trazemos aos leitores em Portugal o contributo dos nosso camaradas gregos.

Os sindicatos gregos convocaram a primeira greve geral de 48 horas  desde 1992, para os dias 29 e 30 de Junho. O movimento dos “Indignados” e os activistas do movimento dos trabalhadores exigiram este passo, contra o voto no parlamento grego do segundo memorando – um novo pacote de austeridade imposto pela troika (UE, FMI e Banco Central Europeu). Esta votação está prevista para ter lugar a 30 de Junho.

A batalha está agora num novo pico, com a tentativa do governo em ignorar as ocupações das praças, a greve em curso dos trabalhadores da electricidade contra o memorando e os projectos de mais privatizações, a greve geral a 15 de Junho e agora o novo desafio de uma greve geral de 48 horas no final de Junho.

Abaixo publicamos as propostas e reivindicações que o Xekinima, o CIT na Grécia, defende no movimento dos Indignados, que ainda está a ocupar as principais praças em diferentes cidades, e no movimento dos trabalhadores.

Socialistworld.net

500.000 manifestantes na Praça Syntagma, no domingo, 5 de Junho. Mais de 200.000 em Syntagma na greve geral de 15 de Junho. E um governo de crise que está pendurado por um fio, o que é demonstrado pelo facto de que o primeiro-ministro – cheio de pânico – se ter demitido e readmitido no mesmo dia, 15 de Junho.

Um novo movimento faz tremer a sociedade grega, enquanto a Europa assiste. O movimento dos Indignados cria novas esperanças e possibilidades e, ao mesmo tempo, constitui a resposta mais clara à burocracia do movimento sindical e às lideranças dos partidos de massa da esquerda, que nunca se puseram na linha da frente para desenvolver um verdadeiro movimento de massas. Este é o primeiro movimento de massas que é tão clara e categoricamente contra a burocracia dos sindicatos e inadequação dos partidos de massa da esquerda.

O movimento dos Indignados pode fazer parar o novo memorando e derrubar o governo. Isso pode tornar-se realidade. Mas o que também poderá acontecer é que dentro de algumas semanas esse movimento possa já ter deixado de existir. Não teve o movimento do “Eu Não Pago” [com o não-pagamento em autocarros, comboios e portagens nas auto-estradas] algumas das mesmas extraordinárias característica? Mas desapareceu dentro de três meses. É por isso que os próximos passos do movimento são para todos nós, os Indignados, de crucial importância.

Toda a gente às Praças! Aumentar as greves para forçá-los a sair do Governo!

O primeiro passo é claro, que toda a gente vá para as praças a fim de construir um movimento de massas de baixo para cima para tornar as praças em organismos vivos de resistência. O meio milhão de pessoas que se manifestaram a 5 de Junho tem de se tornar-se num milhão. Isso significa que devem definir as datas para uma escalada do movimento. Temos de definir as datas para as greves gerais e vincular o movimento das praças com a acção grevista por parte dos trabalhadores e também com os bairros. O apelo à greve geral de 48 horas pela GSEE e pela ADEDY [Confederações sindicais dos sectores público e privado, respectivamente] pela primeira vez em quase 20 anos é um desenvolvimento importante e, na realidade, um sucesso dos Indignados, já que foi a pressão das praças que levou a este anúncio.

No entanto, isso não é suficiente. Tem de haver uma nova escalada. A liderança dos sindicatos não vai tomar as medidas necessárias. Temos de as impor a partir de baixo. O movimento dos Indignados pode desempenhar um papel catalisador neste sentido através de suas decisões. O Xekinima propõe que as assembleias das praças discutam, decidam e apelem para:

  • Que se use a Greve Geral de 48 horas, convocada pelo GSEE e ADEDY (Confederações sindicais do sector público e privado), para uma total mobilização do movimento.
  • Que os sindicados das DEKO (serviços públicos / empresas de capitais públicos ou semi-públicos) avancem para uma Greve Geral de 5 dias na semana antes do novo memorando ser levado ao parlamento.
  • Uma enorme manifestação no dia da votação do memorando em Atenas e uma acção similar em Tessalónica, com o objectivo de trazer à Praça Syntagma um milhão de pessoas.
  • Se o governo insistir em votar o novo memorando, então não há outra alternativa a não ser prolongar a Greve Geral pelo tempo necessário e permanecer na Praça Syntagma até à queda do governo. O governo pode sobreviver a uma contínua ocupação das praças, mas não a uma contínua Greve Geral.

Ligar ao movimento sindical e grevista

Há pessoas que pensam que as praças não precisam ou não querem o movimento sindical e laboral, porque os sindicalistas irão “dominar” o movimento. As suas preocupações são compreensíveis, mas não são correctas. Se o movimento dos Indignados não se estender ao movimento dos trabalhadores e não se relacionar com as mobilizações grevistas, existirá um risco enorme do movimento desaparecer.

Por conseguinte, nós queremos e precisamos que todos os movimentos se aproximem/direccionem para as praças e ocupações. Aqueles que estão envolvidos nas lutas – grevistas, jovens, lutas ambientais e sociais – têm de ir para as praças, fazer acampamentos lá e manter as ocupações vivas e vibrantes. Nós queremos os grevistas do DEI [Companhia eléctrica], correios, OTE [Companhia dos telefones], conselho dos trabalhadores temporários etc., todos lá. Nós queremos que as greves dos diferentes sectores evoluíam para Greves Gerais, não apenas simbólicas [uma a cada 2 ou 3 meses], mas substanciais, repetidas e crescentes.

A democracia em movimento. Mas como?

Os burocratas sindicais e o aparelho partidário uma e outra vez venderam as lutas de uma forma flagrante. Devem ser tomadas medidas que garantam a democracia do movimento.

Muitos dos Indignados exigem que os partidos não apareçam nas praças. Embora isto seja compreensível, não oferece nenhuma solução, porque vários partidos já estão lá e realmente muitos deles estão a esconder-se atrás do “anónimo” ou “apartidário”. É exactamente por isso que eles são duplamente perigosos.

Devemos salientar que o perigo da burocracia, não vem somente dos partidos, mas também de cliques de pessoas que de repente vêem a possibilidade de se colocarem no centro das atenções através do movimento, fazendo blogs e gastando muito tempo nas praças para se estabelecerem e ganhar publicidade. Não é uma coincidência que foi descoberto em Tessalónica que alguns dos “apartidários” queriam impor como o único orador de uma manifestação no dia 5 de Junho, o político nacionalista de extrema-direita Dimitris Antoniou!

A Democracia só pode ser protegida através de uma série de medidas:

  • Primeiro, é claro, todas as decisões devem passar pelo assembleias gerais.
  • Os partidos e organizações que intervêm neste movimento (e com razão) deveria fazê-lo abertamente. Acabar com a hipocrisia dos membros de partidos que fingem ser “apartidários”.
  • Cada força política deve ter apenas uma contribuição única na assembleia, de modo que toda a gente saiba quem é quem e o que eles dizem. O resto do tempo deve ser dado aos não-filiados.
  • O comité de coordenação da assembleia, aqueles por detrás dos microfones, deve ser rotativo. A cada três dias a equipe deve ser alterada.
  • Não confiar em nenhum indivíduo ou nenhum aparelho partidário – apenas nos procedimentos democráticos do movimento. Isto deve ser uma regra inquebrável, não só para as assembleias dos Indignados, mas para todos os movimentos em qualquer lugar e a qualquer momento.

A democracia das praças e a democracia do movimento

A democracia da assembleia na Praça Syntagma, ou da Torre Branca [em Tessalónica] não deve ser confundida com a democracia do movimento. Porque afinal de contas, mesmo se tivermos 3.000 ou 5.000 pessoas na assembleia, como eles podem representar meio milhão de pessoas que vimos no domingo, 5 de Junho? E como é possível todos eles para dizer o que pensam ou propor uma questão a ser votada, dado o tempo limitado e número de intervenientes em cada assembleia? É impossível.

A resposta a este dilema é:

  • Estender o movimento a todos os locais de trabalho, bairros operários e de jovens (universidades e escolas), como sugerido acima. Convocar assembleias de massa em todos esses lugares e áreas e eleger comissões de representantes, que sejam revogáveis ​​a qualquer momento.
  • A Assembleia de Syntagma, uma ou duas vezes por semana deve ser uma assembleia de representantes do movimento de todos os cantos do Attika [toda a região de Atenas e Pireu]. O mesmo se deve aplicar à Torre Branca, em Thesaloniki e assim por diante. Estas Assembleias devem ser responsáveis ​​pelas decisões finais central.
  • Estes representantes devem estar em constante interacção com as assembleias que os elegeram, prestar-lhes contas e, a qualquer momento, cada Assembleia pode substituir os seus representantes.

Só desta forma o movimento de massas pode controlar a forma como a luta se irá desenvolver. Qualquer outra coisa – não importa o nome que pode tiver – é uma democracia apenas em palavras, nem “directa” nem “real” [que é uma das exigências centrais do movimento dos Indignados].

Existe uma alternativa política?

As pessoas que participam do movimento dos Indignados sentem agora o poder/força do movimento de massas e percebem que eles podem derrubar o governo. A pergunta que surge então é: o que se vai seguir? Porque, obviamente, derrubar Pasok [Partido ‘Socialista’, social-democrata, NdT]apenas para trazer de volta a Nova Democracia [partido conservado,  NdT] ou um governo de coligação ou de um governo de “tecnocratas e personalidades” não é uma solução.

A primeira resposta a esta pergunta é que é importante que o governo Pasok caia, mesmo que não seja claro quem se lhe vai seguir, porque o próximo governo vai viver sob a constante ameaça do movimento e do perigo de ser derrubado.

Devemos lembrar a Argentina, onde durante o inverno 2001/02, cinco presidentes caíram num período de algumas semanas. No final, esse movimento pressionou o governo argentino para suspender o pagamento da dívida soberana. Isto, por si só, representou uma grande vitória! Mas não poderia conseguir o derrube do poder dos capitalistas ou alcançar uma sociedade livre da pobreza. Portanto, precisamos de algo mais.

O problema permanece se deixarmos o nosso destino nas mãos de poucas centenas de indivíduos corruptos no parlamento, inteiramente fora de nosso controle, eleito por quatro anos, com base em mentiras e falsas promessas, mas sem que tenhamos os meios para substituí-los, que contam com muito dinheiro vindo dos capitalistas para se elegerem e depois representarem precisamente esses capitalistas e não as pessoas que votam por eles, e que nos roubam a riqueza que produzimos. Que resposta a dar a isto?

  • Queremos uma espécie de “parlamento”, em que os eleitos sejam responsabilizados e ​​e revogáveis ​​a qualquer momento.
  • Queremos representantes, que sejam pagos tanto quanto os trabalhadores – e não recebam 10.000€ por mês – representantes sem qualquer privilégio ou conexões com interesses comerciais “. Aqueles que violam essas regras devem ser punidos com severas penas de prisão – todas as leis que permitem “multas” de sentenças e a “prescrição” depois de algum tempo de tais delitos, deve ser abolida!
  • Essas condições só podem ser impostas se os representantes forem eleitos através de assembleias de massa nos locais de trabalho, bairros, universidades etc. e se esses representantes forem responsáveis ​​perante as assembleias que os elegerem e revogáveis ​​a qualquer momento nessas mesmas assembleias.
  • Como um “parlamento” dos trabalhadores e das massas populares poderia avançar para o estabelecimento de um verdadeiro “poder popular”, ou seja, um governo “dos trabalhadores para os trabalhadores” ao serviço da sociedade e das classes trabalhadoras.
  • Esta é uma perspectiva difícil? Sim, muito difícil. Mas por quê? Porque, agora, o movimento é limitado apenas às praças centrais e não está em expansão na largura e profundidade da sociedade, de forma organizada. E porque o movimento não estabelece conscientemente metas para si mesmo. Mas se o movimento foi capaz de desenvolver da maneira que descrevemos, então a eleição dos representantes e aqueles que “governam” na forma como descrevemos, irá desenvolver-se da maneira mais natural: Eles seriam os indivíduos que representam a posição e movimentos de base na sociedade e não os interesses das grandes empresas e que estaria sob controle constante a partir de baixo.
  • Assim e só assim terá as palavras “real” ou a democracia “directa” adquirem um verdadeiro sentido.

Existe uma alternativa de política económica?

O nosso nível de vida esta a cair aos pedaços. O direito ao trabalho está a desaparecer. As p e reformas tiveram um golpe brutal, a educação e a saúde estão a cair a pique, os direitos – que tivemos durante um inteiro século – estão a ser esmagados! Eles levaram “tudo” e eles irão regressar para levar ainda mais. Porquê? Para pagar a dívida soberana – como eles dizem? Mas, quem criou a dívida e por que temos que pagar por isso?

(…)

Exigimos:

  • Aqueles que causaram a crise devem pagar por isso. Isto significa: recusarmo-nos a pagar a dívida que eles criaram para aumentar seus lucros, que agora está atingindo € 350 mil milhões, 150% do PIB.
  • Há € 200 mil milhões em contas bancárias gregas, que é a nossa própria poupança, e os ricos e os grandes capitalistas gregos já colocaram o seu dinheiro no estrangeiro – € 60 mil milhões apenas no ano passado. Os banqueiros usam o nosso dinheiro nas contas bancárias contra nós, a fim de fazer grandes lucros, e a justificação para isso é “as necessidades e as exigências dos mercados”. Nós recusamo-nos a aceitar a sua lógica, exigimos que os bancos sejam nacionalizados – que eles sejam colocados sob a propriedade da sociedade.
  • Devemos exigir saber para onde foram os lucros de todos os últimos anos. A partir de meados dos anos 1990 até 2007, a economia grega cresceu 4-5% por ano. E a Grécia era o “Eldorado” de lucros, com os lucros a atingir 20-30% por ano. Onde está todo esse dinheiro? Por que os lucros são deles, e as perdas são nossas?
  • Não à privatização da DEI [companhia eléctrica] e os outros DEKO [serviços públicos]. Parar o roubo da riqueza pública. Parar a venda a desbarato das empresas públicas. Pelo contrário, colocar essas empresas sob o controle e a gestão dos trabalhadores e da sociedade de forma a abolir a corrupção dos topos nos serviço públicos e nos sindicatos.

Com base em tudo isto, com os € 350 mil milhões que pouparemos se nos recusamos a pagar a dívida e com o € 200 mil milhões que existem nos bancos, poderíamos criar milagres na economia. Poderíamos transformar a situação completamente, criar empregos, ter saúde, educação, pensões e habitação pública decentes. Nós não precisamos e não queremos este bancos nem os especuladores dos mercados de acções. Aqueles que dizem que “isto não pode acontecer” (ou que seria antiquado e obsoleto) estão a fazer o que tem sido ensinado muito bem pelo sistema: eles mentem.

Finalmente…

Exigimos uma sociedade de justiça, liberdade, igualdade e democracia real. Exigimos uma sociedade que não seja escrava de lucros de uma minoria insignificante, mas que planeie a economia para as nossas necessidades. E sim, devemos restabelecer o verdadeiro significado de muitas palavras, que têm sido usurpadas pela elite dominante, como as assembleias de Indignados já estão propondo.

Democracia significa que nós decidimos e controlamos todas as decisões e não os mentirosos e ladrões no parlamento.

Justiça significa que as leis servem a sociedade não a oprimem.

Liberdade significa ser capaz de ter uma opinião e expressá-la livremente e não que a opinião pública é formada por cinco famílias que controlam a economia e os canais de TV.

E o Socialismo significa todas as coisas descritas acima para a economia, política e sociedade – e não o que os chamados “socialistas”, o Sr. Papandreou [o Primeiro-Ministro] e a sua turma de ladrões e mentirosos ao seu redor, estão procurando.

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