Na queda de Khadafi – O imperialismo mostra as suas garras mas a luta continua!

Ainda o antigo ditador se esconde e já a França garante um terço do petróleo do povo líbio. O apoio dado por alguns sectores da Esquerda à intervenção da NATO, significou também o sabotar da genuína revolução líbia, inicialmente liderada por comités democráticos de massas, mas que foram afastados do processo por forças burguesas, tribais e pró capitalistas.

Na nossa Esquerda alguns reflectiram os pensamentos de Chris Fernandez, abaixo espelhados. Outros, sob o pretexto da “luta anti-imperialista” apoiaram Khadaffi. O Socialismo Revolucionário dizia a 25 de Março:

“A verdadeira intenção desta nova guerra é reprimir o espontâneo processo revolucionário e ao mesmo fortalecer a presença militar na região de forma a garantir a estabilidade política e a consequente exploração neo-colonialista dos seus recursos naturais. Dito isto, acreditamos que os verdadeiros comunistas e socialistas devem ser totalmente contra esta intervenção, que não oferece qualquer verdadeira solução para os problemas económicos e políticos do povo líbio. Pelo contrário, a intervenção estrangeira poderá fortalecer o regime de Kadafi que utilizará a retórica da invasão para simular uma luta contra o imperialismo.”

Tal como na altura defendemos, acreditamos que cabe aos trabalhadores e jovens da Líbia colocar-se a tarefa de organizarem-se independentemente e continuarem a luta pela sua própria emancipação.

Abaixo publicamos a Carta de um activista britânico defendendo a “zona de exclusão aérea” e a resposta do secretário geral da secção inglesa e galesa do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores sobre este importante debate de ideias entre os activistas de esquerda.

Colectivo Socialismo Revolucionário

Líbia – Debate sobre a intervenção da NATO na Líbia

Troca de correspondência sobre a forma de apoiar as forças genuínas da insurreição na Líbia

Carta de Chris Fernandez, de Darby e resposta de Peter Taaffe, secretário-geral do Socialist Party (Partido Socialista – CIT na Inglaterra e País de Gales)

Carta, referindo-se a “A zona de “exclusão aérea” e a Esquerda”, publicada pela primeira vez no Socialism Today

Caro Peter,

Tenho sido um admirador dos artigos e livros de Peter Taaffe. São escritos de tal maneira que tornam eventos complexos compreensíveis para mim. No entanto, tendo acabado de ler o artigo mais recente no Socialismo Hoje sobre a Líbia (Líbia: A zona de exclusão aérea e a Esquerda, No.148, Maio de 2011), tenho de discordar. Concordo com muito do artigo. No entanto, concordo em muito com os rebeldes em Misrata que, numa recente entrevista televisiva, apelam a mais ataques aéreos contra os blindados de Kadhafi.

Quem fazia o apelo eram pessoas comuns, da classe trabalhadora, dos homens e mulheres que compõem os rebeldes em Misrata. Estes bravos homens e mulheres estão a lutar encurralados entre o mar e as tropas Kadhafi, que têm mais recursos. Ninguém parece estar a armar e treinar os rebeldes. Eles não querem as tropas estrangeiras no seu território, mas querem ataques aéreos e rapidamente, já que a cidade está a ser bombardeada por tanques de Kadhafi.

É claro que, do ponto de vista do Ocidente, pode ficar contente com a queda de Misrata e o recuo dos rebeldes. O país seria, então, dividido ao meio, com o leste mantendo o petróleo – o que as potências ocidentais gostariam, apesar de o não dizer em público. Khadaffi vingar-se-ia sangrentamente de Misrata, mal a cidade caísse:

Por isso, apoio o apelo dos rebeldes de Misrata a ataques aéreos. Ao dizer isso, significa que eu apoio à intervenção imperialista? Não, eu não penso assim. Não é a mesma coisa na minha opinião. Se eu estivesse em Misrata, eu estaria a apelar para que os aviões destruíssem os tanques.

Chris Fernandez

Derby

Peter Taaffe responde

Os comentários de Chris são muito bem-vindos. É importante que os nossos leitores nos informem regularmente sobre as suas opiniões acerca do conteúdo dos nossos artigos. Congratulamo-nos com comentários favoráveis, mas também nos pontos onde existem diferenças. A nossa intenção é informar o movimento dos trabalhadores, através de nossa análise, e esperamos elevar o nível de compreensão política dos nossos leitores. Isto pode ser favorecido, se tivermos um verdadeiro diálogo com os trabalhadores sobre questões tão sérias como a Líbia.

Chris não está sozinho em querer ver tomadas medidas em defesa dos rebeldes na Líbia. E, inicialmente, fomos completamente a favor de tentar ajudar a revolta enquanto foi uma verdadeira revolução, com os trabalhadores dominando por meio de comités eleitos, não apenas o controlo e distribuição dos alimentos, mas das armas e dos meios de resistir ao ataque assassino das tropas de Kadhafi.

A melhor maneira de fazer isso é através da acção independente do movimento internacional dos trabalhadores, começando pelos países da região que foram tocados pelas chamas da revolução. Infelizmente, tal apelo não foi feito pelos rebeldes. Em vez disso, eles apelaram às potências imperialistas para ajudá-los através de ataques aéreos. Isto tornou-se mais pronunciado quando as forças pequeno-burguesas e burguesas conseguiram empurrar os trabalhadores para o lado.

Se as armas fossem fornecidas para ajudar uma genuína rebelião de massas, mesmo que fossem fornecidos pelas potências imperialistas – na condição de que não houvessem condições impostas – não nos teríamos oposto a isso. Foi Leon Trotsky que salientou: “Em 90% dos casos os trabalhadores realmente colocam um sinal de menos, onde a burguesia coloca um sinal de mais. Em dez desses casos, no entanto, os trabalhadores são forçados a assinalar o mesmo sinal que a burguesia, mas com o seu próprio selo, na qual é expressa a sua desconfiança face à burguesia “. Mas mesmo num caso como este, acrescentou que o Marxismo “deve, sempre e em todos os casos, orientar-se de uma forma independente … chegar às decisões que melhor correspondam aos interesses da classe operária e demais trabalhadores”. (“Aprenda a Pensar – uma sugestão amigável para Certos Ultra-esquerdistas”, Maio 1938)

No entanto, o imperialismo não tem nenhuma intenção de fazer isso, em parte porque não é certo que os líderes burgueses e pequeno-burgueses que actualmente dominam as fileiras dos rebeldes sejam capazes de controlar a situação – beneficiando o imperialismo – após a remoção de Khadaffi. Por outras palavras, o imperialismo não tem a certeza de poder controlar a revolução. Esta é a preocupação fundamental por toda a região – daí o silêncio e a inacção em relação a massacres no Bahrein e à repressão na Síria, e do incentivo das forças sectárias no Egipto, etc

Em desespero, os rebeldes sitiados em Misrata e Benghazi procuraram ajuda de fora. Há suporte, portanto, nestas cidades e internacionalmente para os ataques aéreos . Mas não podemos alinhar nessa posição, precisamente porque não ajudará os interesses das massas da Líbia, da Revolução Árabe e do Norte de África, ou da classe trabalhadora internacional.

O governo interino é agora dominado por forças burguesas, com posições-chave na posse de ex-ministros de Khadaffi, é por isso que o Financial Times relatou: “Uma coligação de países, na sua maioria ocidentais e árabes,apoiando os rebeldes da Líbia concordou em criar um fundo especial não-militar com promessas de várias centenas de milhões de dólares, enquanto pede paciência depois de sete semanas de bombardeamentos da NATO não terem conseguido derrubar o regime de Muammar Khaddafi “. (6 de Maio) Não haveria nenhuma questão a esta sua acção se a rebelião no leste fosse dominada por comités democrática de massas.

Além disso, os ataques aéreos são um instrumento grosseiro que não pararam as tropas Khaaddafi e tem infligido terríveis danos “colaterais” sobre os próprios rebeldes. Há o factor adicional que tais métodos poderiam realmente reforçar o apoio a Khaddaffi que ainda existe, obviamente, no oeste do país. Apenas um apelo de classe detém a possibilidade de ser completamente bem sucedida na divisão das fileiras de Khaddaffi e na mobilização da oposição em Trípoli. é preciso relembrar que os trabalhadores em Benghazi já derrotaram, com o seu levantamento, as forças de Khadaffi. Um guerra aérea indiscriminada tem tão pouca chance de sucesso na Líbia como no Afeganistão, onde se provou ser totalmente contra-produtiva, com uso cobarde dos drones norte-americanos que resultou no massacre de inocentes, assim como ‘culpados’ combatentes talibãs.

Eu não acho que seja correto dizer que “o Ocidente” ficará feliz com a queda de Misrata. Ele agora quer ver o derrube de Khadaffi, mesmo que tivesse acordos com ele anteriormente. O Ocidente até gostaria de intervir de forma decisiva para garantir a vitória dos rebeldes – se tivesse as forças de terra e não fosse limitado por receios de uma missão deficiente. Como não podia fazer isso em primeira instância, daí os ataques aéreos. Existem alguns na Esquerda, que argumentaram que o imperialismo desejava permanecer ao nível da “zona de exclusão aérea” militar. Nós escrevemos que o imperialismo queria “apoio perfeitamente separado para a acção deste carácter a partir das perspectivas mais amplas dos poderes que estão a tomar tal acção”. Eles argumentaram que “a ONU, com a Grã-Bretanha e França como seus instrumentos, fixou objectivos muito limitados na Líbia”.

Depois do nosso artigo, Obama, Cameron, Hage e Sarkozy todos indicavam que estavam a trabalhar para o derrube de Khadaffi. Hage anunciou o envio de “assessores” britânicos – na realidade, o SAS – para o leste da Líbia. Esta foi a maneira que a intervenção dos EUA começou na guerra do Vietnanme. A Líbia não será uma repetição da guerra do Vietname, mas os ataques aéreos são apenas o começo da invasão imperialista, cujo objectivo é sabotar a revolução vinda de baixo, de uma forma semelhante aos que ocorreram no Médio Oriente e Norte de África.

É claro que o Chris e muitos outros que compartilham de seus pontos de vista não pretendem “apoiar a intervenção imperialista”. Mas de boas intenções está o inferno cheio! Ataques aéreos estrangeiros por potências imperialistas são intervenções militares. Os rebeldes são apenas umas pequenas mudanças nos cálculos do imperialismo. Eles estão muito mais interessados ​​em reservas de petróleo da Líbia e, mais importante, em suster e sabotar uma revolução mais ampla na região. É por esta razão que nos opomos à zona de exclusão aérea desde o início.

Mas há um problema vital adicional: a consciência das massas líbias. Apelar à “ajuda” externa – e além disso, o inimigo de classe – reforça os apelos de Khadaffi para defender o país do imperialismo. Tal apelo reduz a consciência da classe trabalhadora, enfraquecendo a sua capacidade de luta de forma independente. Na Palestina, nos territórios ocupados, pelo menos, as massas estavam maioritáriamente passivas, à espera de libertação através do “anjo vingador ” da Organização de Libertação da Palestina (OLP) e sua luta militar lançada de fora do país. Somente quando a OLP foi derrotada e expulsa do Líbano criaram-se as condições para as massas palestinianas agirem de forma independente nos territórios ocupados através das Intifadas.

As maravilhosas revoluções no Egipto e na Tunísia esmagaram a ideia de que as massas do Médio Oriente e do Norte de África poderiam ser libertadas somente através de uma intervenção externa – o argumento do imperialismo usado em relação ao Iraque. Subrepticiamente, o imperialismo está a tentar ressuscitar essa doutrina em relação à Líbia, infelizmente com a ajuda das organizações ultra-esquerdistas que, invariavelmente, adoptam uma posição oportunista, particularmente em questões cruciais, como a guerra.

Seria errado, portanto, para nós dar qualquer tipo de suporte à intervenção imperialista na forma de zonas de exclusão aérea – pelas razões expostas acima e no artigo original.

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