Líderes capitalistas tentam desesperadamente acalmar a turbulência

Nenhuma das medidas tomadas, na tentativa de controlar um sistema anárquico e cego, está a conseguir deter a espiral descendente

Clare Doyle, Secretariado Internacional do CIT

À medida que o seu sistema continua a deslizar para a sua pior crise desde os anos 1930, os esforços frenéticos dos líderes mundiais capitalistas para reverter o processo são uma farsa, são contraditórios e são ineficaz. “Está alguém no controle? Isto é um comboio desgovernado” perguntou um apresentador num programa de notícias britânica na noite de segunda-feira – o dia de Wall Street caiu 6% e por todo o lado os mercados caíram a pique.

Em questão de semanas, mais de 5 milhares de biliões de dólares foram destruídos no mercado de valores de capital mundial – metade desse total na semana passada. A solvência da economia mais poderosa do mundo está a ser questionada. Os líderes da zona do euro tropeçam de uma cimeira para outra sem serem capazes de resolver a crise.

Na última sexta-feira, 5 de Agosto, a agência de classificação de crédito Standard & Poor, degradava os títulos do governo dos EUA de AAA para AA+. Isto, segundo eles, foi devido ao desastroso debate entre democratas e republicanos sobre o tecto da dívida para os EUA – que hoje está em 14 milhares de biliões de dólares – o maior do mundo. Então a S&P descobriu que as contas estavam erradas (por uns meros US$ 2 biliões!). Mas, estando extremamente pessimista sobre as perspectivas de crescimento, afirmaram que os credores teriam dúvidas sobre a compra de títulos do governo dos EUA.

Mas, aparentemente, aqueles que têm mais investiu em Bilhetes de Tesouro dos EUA – ou seja, o Governo chinês, com dois terços de suas reservas cambiais de $ 3.187 biliões em dólares – não têm nenhuma intenção de vender! A China pode ser diversificar mais na Europa e outros lugares, mas, como a maioria dos outros credores do governo dos EUA, não está a por-se de fora e o custo do dinheiro para os EUA não aumentou drasticamente.

No entanto, o jornal oficial chinês, o ‘Diário do Povo”, aproveitou a oportunidade para sugerir que o governo dos EUA não deve “ficar cego para os grandes riscos que um dólar fraco podem representar para frágil recuperação económica do mundo, levantando os preços em dólar das commodities (mercadorias transácionaveis em bolsas, como minérios, produtos agrícolas, etc,- NdT)…É tempo de os EUA apertarem o cinto e resolver os seus problemas estruturais, a fim de retomar a sua reputação e recuperar a confiança do mundo “.

A maior preocupação em relação à economia dos EUA está agora se está enfrentando um “double dip” (diz-se quando a economia entra em recessão, emerge por um curto período em que há algum crescimento, mas rapidamente volta a cair em recessão. Assim sendo, estaríamos agora a chegar a segunda recessão ma sequência da crise de 2008 – NdT) Há receios que as medidas de austeridade necessárias para combater os altos níveis de dívida nos EUA e nalguns países da zona euro, possam realmente sufocar a sua já débil recuperação economica. Há expectativas renovadas de que a Reserva Federal venha a anunciar uma nova rodada de flexibilização quantitativa, ou QE3, em resposta às previsões dos EUA terem uma chance de 50% de entrar recessão antes do final do ano.

Os temores sobre o futuro da economia mundial têm-se reflectido no preço do ouro e do petróleo. O ouro, que é sempre um favorito em tempos de incerteza, saltou para um novo recorde nominal de 1720 dólares a onça no final da segunda-feira passada. O preço do petróleo diminuiu consideravelmente, face às preocupações que um fraco crescimento global poderia levar a uma queda na procura.

Como o CIT tem explicado em muitas ocasiões, a muito fraca recuperação, devida a enormes injecções de dinheiro público, não tem sido acompanhada por um crescimento considerável do Produto Interno Bruto. Além de algumas notáveis excepções, esta injecção de capitais não traz empregos para dezenas de milhões de desempregados, nem estanca o que parece ser uma guerra contra os pobres – cortes maciços nos gastos públicos. Novos cortes e quedas nas perspectivas para os jovens estão por trás das explosões de raiva a que se assistiu esta semana nas ruas da Grã-Bretanha. São urgentemente necessárias greves e Greves Gerais seriamente preparadas e organizadas numa série de países para conter já os ataques aos direitos à reforma e os brutais cortes nas despesas públicas.

O CIT advertiu que, sem os líderes sindicais a dar uma clara liderança na luta contra os cortes – em toda a Europa e noutros países – confrontos com a polícia e ataques à propriedade poderiam entrar em erupção nas áreas urbanas mais carenciadas. Na Grã-Bretanha agora, estão a ser feitas analogias com os “tumultos” na altura de Thatcher, nos anos 80, e os levantamentos dos excluídos na “periferia urbana” de Paris há dois anos. Saques e incêndios criminosos tendem a prejudicar as próprias comunidades em que vivem os mais oprimidos. Mas é inteiramente compreensível que a raiva reprimida de jovens contra o sistema e contra a polícia corrupta e muitas vezes racistas deva sair às ruas. Ataques contra os reais saqueadores – os banqueiros e as grandes empresas – são mais directos ao ponto da questão.

Um programa de empregos e casas para todos, acompanhados por uma luta pela estatização sob controle democrático dos trabalhadores e gestão dos bancos e dos grandes monopólios, pode canalizar toda a raiva e a frustração da juventude e dos trabalhadores contra o sistema.

Medidas de crise

Há duas semanas atrás, houve uma reunião especial de Ministros das Finanças da Zona Euro para acordar uma nova ajuda à Grécia. Poucas horas depois, ficou claro isso não resolveria os problemas subjacentes desse país ou preveniria o incumprimento do pagamento da dívida nacional grega. (Ver artigo: Eurozone: Last-minute rescue package (em inglês) )

Antes até do acordo de 21 de Julho poder entrado em vigor, ele tem de ser ratificado por todos os governos da Zona Euro, principalmente através de seus parlamentos, que não estarão abertos durante o mês de Agosto. Willem Buiter do Citigroup comentou que, “ter 17 parlamentos da Zona Euro a apoiar grandes mudanças é como uma centopeia começar uma corrida de barreiras”!

Apenas duas semanas após isto – no Domingo passado – sob a pressão dos dirigentes da Zona Euro, especialmente de Merkel e Sarkozy, o Banco Central Europeu foi forçado a anunciar novas medidas para tentar evitar que o mercado de acções entre em parafuso após as notícias de Sexta-Feira da América! A política anterior de não comprar títulos italianos e espanhóis no mercado aberto foi revertida. Isto reduziu, pelo menos temporariamente, as taxas sobre os empréstimos destes países. Outras discussões ocorreram sobre a expansão de poderes para intervir, usando o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, de €440 mil milhões, mas são dificultadas pela necessidade de unanimidade em toda a zona. Apenas estes dois governos ( Itália e Espanha) precisam encontrar um extra de €840 milhares de milhões de Euros, nos próximos 18 meses – mais do que o total das “ajudas” encontradas para a Grécia, Irlanda e Portugal.

A medida do BCE irá aliviar a situação em relação às dívidas da Itália e Espanha. Mas as amarras que lhes ficam ligadas irão fazê-los caminhar directamente para um confronto com as suas populações.

Tobias Blattner, ex-economista do Banco Central Europeu, disse na Segunda Feira, que a intervenção do BCE tinha feito pouco para ajudar a suster a crise de confiança nos mercados de acções. “Isso reflecte o fundamental, que o crescimento está numa situação muito má em ambos os lados do Atlântico e é por isso que as intervenções do BCE não irão mudar nada”.

O Primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, na semana passada tentou dar a impressão de que não havia grande problema na Itália. Mas o seu país tem uma das maiores dívidas em percentagem do PIB (cerca de 120%) e uma economia que não conseguiu crescer mais do que uma fracção de 1% nas duas últimas décadas. Ele já concordou, com o seu governo, antecipar o prazo para que os cortes orçamentais que visam equilibrar as contas do Estado – da data original, a partir de 2014 (bem depois da próxima eleição geral) para 2013 (ainda depois das próximas eleições é óbvio!). O próprio Berlusconi disse que não se recandidataria, mas precisa desesperadamente dum governo no poder que não permita a continuação de três importantes processos judiciais contra si próprio.

O Primeiro Ministro espanhol, Zapatero, também declarou que não se apresentará às próximas eleições, sentindo a insatisfação generalizada face à sua incapacidade de trazer de volta a economia da Espanha para um crescimento saudável. Mas, no entanto, concordou em aumentar as medidas de austeridade, como condição para novos empréstimos. O nível massivo de desemprego dos jovens e uma sensação de completa negligência por parte dos políticos está por trás do movimento de massas dos “indignados” – jovens desiludidos com partidos políticos e à procura soluções radicais e até mesmo revolucionárias.

David Jones, analista da IG Index, acredita que os investidores não estão convencidos a investir o seu dinheiro em nada, apesar das várias tentativas por líderes e autoridades internacionais para tranquilizar os mercados. “Não mudou o sentimento que os políticos, tanto na Europa como nos EUA, estão sempre alguns passos atrás de onde está realmente a crise”, disse ele. “Os mercados ainda pensam que há muita conversa dos políticos, mas não muita acção”. É nisto que ele vê como um dos principais motivos políticos “por que os mercados têm sido tão fracos durante a semana passada”.

Richard Hunter, um corretor de Hargreaves Lansdown, disse: “Os mercados estão à procura de um plano concreto da Europa e dos EUA em termos de como eles vão lidar com seus déficits.” Mas por causa da propriedade privada e do papel dos estados na defesa dos interesses nacionais dos seus próprios capitalistas, um plano claro é algo que o capitalismo, por sua própria natureza, nunca pode proporcionar.

A anarquia capitalista, o desenvolvimento socialista

Ao tentar controlar um sistema anárquico e cego, nenhuma das medidas que tomam parece deter a espiral descendente para a pior crise desde os anos 1930. As medidas tomadas para tentar resgatar seu sistema vão significar ainda mais cortes e austeridade, ainda mais sofrimento e angústia para a grande maioria da população do mundo. Tal como, de acordo com uma revista médica Lancet, como resultado directo do colapso económico na Grécia e Irlanda, as taxas de suicídio subiram nos últimos dois anos 17 e 13% respectivamente (sem surpresa, recentemente também foi referido o aumento da taxa de suicídio em Portugal – NdT).

As crises acumuladas – económica e política – das últimas semanas, têm servido apenas para sublinhar a maneira caótica e o desperdício nos quais o capitalismo funciona … ou não funciona. Apenas 58,1% dos americanos em idade de trabalho têm agora um trabalho real. Dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo – jovens e idosos – estão desocupados, quando poderiam estar a produzir bens e a prestar serviços.

Com base na propriedade pública e planeamento democrático, todos os recursos materiais e humanos da sociedade poderiam ser utilizados para o benefício da grande maioria, em vez de uma cada vez mais pequena minoria de ricos.

O estrangulamento dos bancos e dos políticos capitalista sobre as vidas de milhões, de fato, biliões, tem que ser quebrado. Movimentos de massa, incluindo greves gerais irão mostrar o poder que a classe trabalhadora pode exercer na sociedade. Ligados à energia e revolta dos jovens, novos grandes partidos operários e dos demais trabalhadores, podem ​​ser rapidamente construídos. A confiança na ideia de uma alternativa socialista ao capitalismo pode e deve ser renovada sem demora.

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