Escola de Verão do CIT 2011

Mais de 370 representantes de mais de 30 países ao redor do mundo participaram na Escola de Verão do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) nos dias 24-29 de Julho em Leuven, Bélgica. As discussões foram marcadas pelo desenvolvimento dramático das lutas dos trabalhadores e jovens nesse ano e a retomada da crise capitalista internacional. Além da Europa (Leste e Oeste), houve também participantes da Tunísia, Nigéria, Malásia, Índia, HongKong, Cazaquistão, Israel-Palestina, Líbano, Austrália, Bolívia, Venezuela, Brasil, EUA e Quebec (Canadá).

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Cinco temas foram debatidos em plenário: “as lutas e crise na Europa”, “revolução e “contra-revolução no mundo árabe”, “um relato especial sobre Grécia”, “a crise capitalista internacional e as relações entre os poderes imperialistas” e a “construção do CIT”. Também houve uma comemoração especial pelos 75 anos da Revolução Espanhola, marcada pelo levante revolucionário contra o golpe fascista de Julho 1936.

Além disso houve 18 grupos de discussão divididos em quatro blocos que aprofundou a discussão sobre diferentes regiões e levantou temas como mulheres, LGBTT, juventude, sindical, meio ambiente, racismo, etc.

Um marco das discussões foi o facto de que não se tratava de discussões académicas, mas sim de um debate entre militantes que pessoalmente participam das lutas. As análises e trocas de ideias servem para fortalecer a construção de uma alternativa socialista.

A falta de uma alternativa socialista de massas é um tema em comum para todas essas lutas. Em muitos casos as lutas actuais já poderiam ameaçar a própria raiz das crises actuais, o sistema capitalista, mas a falta de uma alternativa faz com que os governos consigam se manter. Ou mesmo no caso em que governos caem, desde o mundo árabe até países como Irlanda ou Portugal, o regime capitalista ainda se mantém.

Por isso uma discussão importante é de como levantar dentro dos movimentos um programa e estratégia socialista, numa situação ainda marcada pelo retrocesso na consciência que vivemos desde a queda do Estalinismo. Infelizmente, a maioria das novas formações de esquerda recuam da tarefa difícil, mas imprescindível de colocar uma alternativa coerente ao sistema capitalista para uma nova geração que entra na luta, justamente quando o sistema sofre a sua pior crise desde a segunda guerra mundial.
Grécia em revolta

Um dos melhores momentos da escola foi o relato sobre as lutas na Grécia. A Grécia é o país onde a crise capitalista na Europa é mais aguda, com enormes ataques contra os trabalhadores. Também é o país onde as lutas têm sido mais intensas. Desde o início do ano passado temos visto 11 greves gerais no país, sendo a última uma greve geral de 48 horas.

“Mas o facto é que as greves gerais não tem sido o aspecto mais importante das lutas na Grécia esse ano, e isso sem dizer que as greves gerais não foram muito importantes”, constatou Andros do Xekinima (CIT na Grécia). A direcção sindical só tem chamado as greves gerais pela enorme pressão que vem de baixo, sem uma estratégia para a luta, já que eles apoiam o governo do PASOK (partido social-democrata), o que diminui o potencial delas.

Várias outras batalhas têm ocorrido. Por meses uma campanha de não pagamento de tarifas mobilizou dois milhões de pessoas contra o pagamento de pedágios(portagens?), tarifas nos hospitais públicos e passagem nos transportes públicos. Por três meses os condutores de autocarros fizeram greve. Os trabalhadores de serviços que trabalham para a cidade de Atenas ocuparam a câmara municipal. 300 imigrantes fizeram greve de fome contra deportações. Na pequena cidade Keratea os habitantes travaram uma luta durante 4 meses contra a construção de um aterro sanitário e conseguiram uma vitória parcial.

Também houve um importante movimento da juventude, inspirado nos “indignados” da Espanha. Como na Espanha havia um sentimento anti-partido e anti-sindical no início, devido ao papel que os partidos tradicionais representam e também devido ao papel desmobilizador das direcções nacionais dos sindicatos. Por outro lado havia uma grande procura por ideias e alternativas, e nenhuma confiança no capitalismo.

Devido às dificuldades de intervir nas assembleias populares (as intervenções eram sorteadas e o tempo de fala era só 1,5 minuto!) era necessário uma intervenção sistemática, que levava dias. No final os camaradas do Xekinima conseguiram aprovar as principais bandeiras na praça Syntagma de Atenas: não pagamento da dívida, nacionalização dos bancos sob o controlo dos trabalhadores, etc.

Infelizmente, como na maioria dos outros países da Europa, a nova aliança de esquerda, Syriza, desempenhou um papel muito tímido. Na verdade o partido mal funciona após as lutas internas entre duas figuras públicas. O partido também falhou em apresentar um programa socialista. Tudo isso levou a um retrocesso do partido, justamente quando uma alternativa era necessária. Devido ao impasse no partido, o Xekinima já não faz parte da organização, mas mantém boas relações com os seus militantes.
Tunísia e Egipto: uma segunda revolução é necessária!

Os relatos dos militantes do CIT que intervieram nas revoluções na Tunísia e no Egipto, junto com os testemunhos de três jovens tunisinos que participaram na Escola, também foi um dos melhores momentos. Como o CIT argumentou desde o início, é necessário desenvolver a luta para derrubar não só os ditadores, mas também o sistema por trás deles. Após a queda de Ben-Ali na Tunísia e Mubarak no Egipto, a luta dos trabalhadores tem continuado, mas também as tentativas de impor uma contra-revolução por parte dos antigos regimes, que em muito ainda permanecem no poder. Muitos falam da necessidade de uma “segunda revolução”.

Há um risco que parte da esquerda cair numa via institucional, fazendo acordos com partidos burgueses, ao invés de apostar na mobilização dos trabalhadores, dos novos sindicatos, da juventude, etc., colocando a necessidade de uma alternativa socialista.

Também foi colocado na discussão como parte da esquerda na Europa vacila em se opor aos ataques imperialistas contra a Líbia. O imperialismo não intervém para apoiar a revolução e o povo contra o ditador Gaddafi, mas para tentar conter a revolução, ganhar a parte mais burguesa da direcção da revolta e assumir o controlo do movimento. Enquanto os países imperialistas falam da necessidade de uma intervenção “humanitária”, não fizeram nada contra a intervenção militar da Arábia Saudita contra os protestos no Barein e nada contra os massacres actuais na Síria.
Repercussão internacional da primavera árabe

A revolução é contagiante. Numa situação de grande descontentamento popular, um verdadeiro exemplo de luta pode se espalhar rapidamente. O levantamento na Tunísia espalhou-se rapidamente para o Egipto. O exemplo das vitórias nesses dois países incendiou toda a região. Mas também inspirou o movimento dos “indignados” na Espanha, que depois se espalhou para a Grécia.

Agora vemos como os protestos chegaram também a Israel, com o “movimento das barracas”. Participantes de Israel na escola, judeus e árabes, deram exemplos de como a inflação e a falta de casa acessível para jovens levou a esse movimento, onde milhares montaram barracas nas praças públicas. São centenas de milhares que agora participam nas mobilizações. Isso vem após importantes greves, como a dos químicos do Haifa Chemicals e a greve dos assistentes sociais, além da constante luta contra a ocupação dos territórios palestinos e o racismo. Uma terceira intifada (“revolta”) pode explodir a qualquer momento nos territórios palestinos.

Mas mesmo nos EUA, as mobilizações do mundo árabe inspirou a luta. No pequeno estado de Wisconsin centenas de milhares participaram nas mobilizações contra os ataques do governo estadual, que por exemplo, aboliu contratos colectivos com os sindicatos. Os camaradas da Alternativa Socialista fizeram uma intervenção importante, fazendo um apelo para uma greve geral nas grandes mobilizações. Isso levou a um ataque na TV directamente contra os camaradas do CIT por parte de um comentarista de direita.
Crise capitalista aprofunda-se

A Escola de Verão ocorreu sob o pano de fundo do novo aprofundamento da crise capitalista internacional. Na Europa vemos como a crise das dívidas públicas continua, apesar dos novos pacotes de austeridade. Os juros começaram a subir fortemente na Espanha e na Itália, ameaçando uma nova rodada de crises.

Vemos uma nova fase da crise que estoirou em 2008. Naquela altura, os governos conseguiram estancar a crise com enormes pacotes de resgate do sector financeiro e certos estímulos à economia. Assim conseguiram evitar uma crise profunda e dramática no estilo dos anos 30. Mas a crise do sector financeiro privado transformou-se na crise das dívidas públicas. E enquanto as medidas de estímulo se esgotam, o remédio contra a crise das dívidas que está a ser implementado é de cortes nos gastos públicos, atacando o poder de compra dos trabalhadores. Mas esse remédio está a matar o paciente. Os EUA e a Europa estão a perder fôlego e a economia ameaça entrar numa nova crise.

Um tema que foi debatido na Escola é como essa crise ameaça todo o projecto da moeda única da União Europeia, o Euro. O CIT sempre argumentou que o projecto não é viável, já que os países têm uma força económica muito desigual. Estamos a ver como fica cada vez mais difícil manter a moeda única com a crise. Antigamente países como a Grécia podiam tentar escapar da crise com uma desvalorização da moeda (que os trabalhadores pagavam com inflação alta). Agora o único caminho é a “desvalorização interna” – reduzir os gastos atacando directamente o padrão de vida dos trabalhadores.
China – um vulcão prestes entrar em erupção

A discussão sobre China foi enriquecida pela participação dos companheiros do CIT em Hong Kong, Acção Socialista. A China tem sido um factor importante na recuperação parcial da economia mundial nos últimos anos, mas o crescimento está a tornar-se cada vez mais inviável. Diante da crise o governo chinês lançou um grande pacote de estímulo e abriu as torneiras para o crédito fácil. Mas boa parte do crescimento dos últimos tempos tem sido no sector imobiliário, o que levou a uma enorme bolha especulativa. “Vemos possivelmente a maior bolha especulativa da história”, constatou Vincent Kolo, da Acção Socialista.

A China também sofre de uma subida da inflação. O governo está a implementar medidas para arrefecer a economia, algo que pode fazer cair o crescimento. Há países que dependem directamente do crescimento chinês, como a Austrália e o Brasil, mas a economia mundial como um todo será afectada profundamente se o principal motor de crescimento no mundo começar falhar.

Os companheiros de Hong Kong deram importantes exemplos de lutas que ocorrem apesar da brutal repressão do governo, que teme que o exemplo das revoluções do mundo árabe se espalhe para a China. No ano passado ocorreram, segundo estimativas oficiais, 180 mil “incidentes de massa”, um eufemismo para protestos, greves, etc. Em Hong Kong as manifestações pro-democracia e as vigílias em comemoração do massacre da Praça da Paz Celestial 1989 em Pequim, está a juntar 100-200 mil pessoas.
Deputados ao serviço das lutas

Da Irlanda contamos com a participação de três deputados que a secção irlandesa elegeu por causa do papel que o Partido Socialista Irlandês desempenhou nas lutas dos últimos tempos. Paul Murphy assumiu o cargo como deputado do Parlamento Europeu, quando Joe Higgins esse ano foi reeleito ao parlamento irlandês, junto com Clare Daly, também do Partido Socialista e três outros da Aliança da Esquerda Unida, da qual o PS faz parte.

Paul Murphy, da mesma maneira que Joe Higgins antes dele, tem utilizado a sua posição nesse parlamento, que tem pouco poder, para apoiar lutas importantes. Recentemente fez uma visita ao Cazaquistão, onde milhares de petroleiros estão em greve por melhores condições de trabalho, tendo que enfrentar todo o aparato repressivo do regime de Nazarbayev. Eles lutam também contra o isolamento, por isso a visita de um eurodeputado foi importante para apoiar a luta. Paul enfatizou que todas as secções do CIT têm que fazer trabalho de solidariedade com essa importante luta.

A Irlanda é um dos países mais afectados pela crise. Infelizmente, o nível de lutas tem sido mais baixo do que em outros países após a traição da direcção dos sindicatos no movimento contra o pacote de ataques do governo anterior. Mas o governo do tradicional principal partido da burguesia, Fianna Fail, acabou por sofrer uma grande derrota nas eleições no início desse ano. O novo governo do Fine Gail e do partido trabalhista segue com a mesma política de ataques aos trabalhadores.

Mas a resistência ao novo governo já está a aumentar. Uma nova proposta de imposto por domicílio (“Home Tax”), pode se tornar um importante foco de resistência. O imposto será o mesmo (100 euros) por família, independente do rendimento. O Partido Socialista teve um papel fundamental em barrar a implementação de uma taxa de água semelhante, através de uma campanha de boicote, nos anos 90. Foi o sucesso dessa luta que levou à eleição de Joe Higgins a deputado pela primeira vez em 1997.

Isso ocorreu num período em que a Irlanda crescia rapidamente. Agora o pano de fundo é uma crise aguda e o imposto é visto como algo muito injusto, já que pesa muito mais para famílias pobres e é irrisório para os ricos. O Partido Socialista já antecipou que vai lançar uma nova campanha de boicote contra esse imposto. No dia que ele foi anunciado, recebemos a notícia durante a Escola, que uma estação de rádio fez uma pesquisa, (não científica, mas dá uma indicação) entre os ouvintes e 83% disse que ia apoiar o boicote ao imposto proposto pelo PS!

Isso mostra como foi importante o facto de a esquerda agora ter 5 deputados no parlamento irlandês, quando antes só havia Joe Higgins, para ajudar a mostrar uma alternativa de luta e socialista.
Optimismo sobre a possibilidade de construir uma alternativa socialista

Claro que a situação não é fácil em todos os lugares. Em vários países a situação política ainda é bastante complicada para os socialistas, por diferentes razões. Mas em geral havia um optimismo sobre a possibilidade do CIT avançar nesse período. Em vários lugares conseguimos recrutar importantes líderes das lutas que ocorreram, como um líder dos condutores de autocarros de Atenas, ou um líder da greve do principal hospital alemão, La Charité.

A nova situação abre-se para estabelecer novos grupos do CIT em novos países. Frisamos novamente a nossa bandeira na Espanha, que teve uma boa participação na Escola. O nosso trabalho incipiente na Bolívia tem avançado bastante entre trabalhadores fabris em Cochabamba. Temos aberturas importantes na Tunísia e no Egipto. Novas explosões de lutas abrem a possibilidade para novos avanços, como as lutas dos estudantes e mineiros no Chile.

Na Nigéria, os sindicatos recuaram da greve geral de três dias que foi convocada pelo aumento do salário mínimo, mas há uma pressão forte para que a luta seja retomada. Em um dos estados os líderes sindicais que defendiam a não realização da greve foram apedrejados e os trabalhadores saíram sem a direcção.

Também as secções mais consolidadas podem avançar bastante neste momento. Na Inglaterra e no País de Gales temos o maior número de militantes desde a queda do Estalinismo. Além de um trabalho muito importante na construção de uma esquerda sindical, que desempenhou um papel fundamental na a realização da enorme manifestação de cerca de 700 mil trabalhadores no dia 26 de Março e a importante greve do sector público do dia 30 de Junho. Também vemos avanços no trabalho da juventude. No final do ano passado foram os jovens que primeiro tomaram as ruas contra os ataques do novo governo Conservador-Liberal. A campanha “Jovens na luta por emprego” iniciada por jovens membros do Partido Socialista (CIT na Inglaterra e País de Gales) está a organizar uma marcha por emprego, 75 anos após a lendária marcha de 200 jovens desempregados que marcharam de Jarrow no norte da Inglaterra até Londres (480 quilómetros).

Um exemplo do optimismo e seriedade dos participantes da Escola, perante as enormes tarefas colocadas, foi o resultado da colecta que tradicionalmente é organizada durante a Escola. Esse dinheiro é fundamental para que o CIT tenha os recursos para intervir em novos países e dar assistência aos grupos mais novos. Esse ano a colecta deu um total de 25 mil euros, mais do que o dobro do ano passado.

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