Deputado Socialista Revolucionário ao Parlamento Euroupeu visitou Portugal

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O camarada Paul Murphy, eurodeputado eleito pelo Socialist Party (CIT na Irlanda) esteve em Portugal, como convidado à VII Convenção do Bloco de Esquerda, que se desenrolou este fim de semana.

Paul Murphy visitou o Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa (STML), onde manifestou a sua solidariedade pessoal, do seu partido e do CIT à luta dos trabalhadores da Administração Pública e à sua Greve Nacional. Recebido pelo Coordenador do STML e outro elemento da Comissão Executivo do STML, Paul abordou as semelhanças de situação com que se enfrentam os trabalhadores dos dois países e, na verdade, por toda a Europa.

Do curto mas cordial debate havido ficou patente a crescente compreensão da necessidade de articulação e cooperação entre os trabalhadores e suas organizações para fazer frente à ofensiva generalizada do Capital.

No final do encontro o Coordenador do STML convidou o deputado europeu a visitar o piquete de greve do STML nessa noite. Nessa visita reafirmou a solidariedade do SP e do CIT à luta dos trabalhadores e disponibilizou-se para, em cooperação com os deputados da esquerda portuguesa no Parlamento Europeu, apoiar no que necessário a luta dos trabalhadores portugueses.

Paul Murphy esteve também presente num Seminário Internacional sobre a Economia, promovido pelo Grupo Unitário da Esquerda do Parlamento Europeu e pelo Bloco, que juntou economistas e membros de delegações de partidos de esquerda europeus.

Abaixo se transcreve a intervenção de Paul nessa reunião.

Quero transmitir a saudação do Partido Socialista da Irlanda, do Comité por uma Internacional dos Trabalhadores , – a organização internacional socialista que integramos – e da sua secção portuguesa Socialismo Revolucionário, e agradecer pelo convite para esta reunião e também para a Convenção deste fim de semana. Muito obrigado pelo convite.

Creio que é vital, dada a escala da crise do capitalismo e a escala da crise na Europa desencadear um amplo debate entre a esquerda na Europa sobre como construimos uma estratégia dos trabalhadores que leve à derrota do enorme massacre, a guerra de classes desencadeada pelo FMI e a UE, a Troika, e que alternativa apresentamos.

Penso que posso trazer-vos a experiência da Irlanda, o FMI e [agora] a CE e o BCE não mudou os seus alvos desde a ultima vez que esteve em Portugal desde o tempo em que devastaram as economias da América Latina, e que eles estão empenhados a impor uma guerra de classes à classe trabalhadora, tendo como objectivo que os trabalhadores, os jovens, os reformados e pensionistas, os desempregados paguem por esta crise económica, que é uma crise causada pelo capitalismo, pagando as dívidas do capitalismo, mas também reestruturando a economia de tal forma que, ao fazer isso, aumentam os níveis de lucro dos capitalistas e accionistas.

Na Irlanda, o acordo com o FMI significou, em particular, um massacre contra os trabalhadores do sector público. Muitos trabalhadores do sector público sofreram cortes de salários, que chegaram já aos 20% e perderam 30.000 postos de trabalho, os salários do sector privado foram depreciados, um gigantesco corte na despesa pública de 9 mil milhões de euros, com cortes na Saúde Pública, na Educação, um enorme plano de privatizações

E isto é a resposta à crise capitalista. Estas políticas, tal como na Grécia , tal com é previsto até agora e será anunciado em Portugal, não estão a funcionar, do ponto de vista de desenvolvimento da economia. De facto, elas estão a provocar uma espiral recessiva na economia. Mas serão levadas a cabo, porque representam certos interesses de classe, representam os interesses do grande capital, não os interesses da economia como um todo, não os interesses das pessoas comuns.

Isto surge porque, na minha opinião, tal como na Irlanda, a crise do capitalismo é, em particular, uma crise do sector financeiro privado, e o facto dos bancos tirem sido nacionalizados com dívidas de mais de 70 mil milhões de euros – na verdade a maior intervenção de resgate [nacionalização de prejuízos] do mundo – e que temos agora de pagar.

Mas também há colapso do investimento. Um colapso de 70% num espaço de 2, 3 anos. E refiro que o capitalismo, o sector privado, não está interessado em criar empregos, não está interessado em desenvolver a economia porque não encontra um sector suficientemente lucrativo e isso leva-nos, na minha opinião, à necessidade de apresentar uma alternativa claramente socialista.

Temos, no dia a dia, que seguir e apoiar as lutas dos trabalhadores e na sociedade em geral, mas ligando-as à necessidade de desenvolver e popularizar a ideia de transformação da sociedade.

Na minha opinião, e creio que discutiremos aqui, eu estive a semana passada com os eurodeputados de Portugal na Islândia, o modelo da Islândia não é o modelo que a esquerda deve propor. Neste momento na Islândia temos o Movimento da Esquerda Verde e os social-democratas a implementar um programa de austeridade do FMI. Não quero dizer que seja o mesmo programa que seria aplicado pela direita, mas é um programa de austeridade. E cortou 7% nos apoios sociais, 20% de cortes na despesa pública, na Saúde, na Educação.

Falámos com representantes oficiais mas também com pessoas que votaram contra o acordo do FMI, com o Movimento da Esquerda Verde. E isto na Islândia, onde um movimento de massas se pronunciou e ganhou dois referendos. Mas infelizmente a esquerda ficou do lado errado, em ambos os movimentos. E o perigo é que a esquerda, nas próximas eleições, sofra uma grande derrota e se abra o caminho à direita.

Isto leva-nos à conclusão de que coligações com a social-democracia, na base da gestão do capitalismo, particularmente nestes tempos de crise, resultam na implementação de austeridade e num desastre para a esquerda.

A alternativa, na minha opinião, é a questão chave da dívida, – quero dizer que estou de acordo com as questões levantadas sobre a dívida, é absolutamente crucial e na Irlanda é um tema central – e a reivindicação que lavantámos foi “Não pagaremos a dívida”. Nós, os trabalhadores, os reformados e pensionistas, os jovens, não beneficiámos com a dívida, foram os banqueiros e especuladores que construíram esta dívida para seu próprio lucro e benefício, não foram as pessoas comuns e recusamos pagá-la. Tentamos popularizar essa ideia por toda a Europa.

A questão da solidariedade internacional: temos que dar confiança às pessoas – e na Islândia foi claro – muita gente não tem confiança na possibilidade de resistir, e na Irlanda é o mesmo caso.

Temos de ligar as lutas em todos os países periféricos na Europa, e por toda a Europa, de forma a dar às pessoas confiança. Lutar no seio do movimento sindical por acções comuns de massas, mobilizações de massas, pela construção de uma Greve Geral Europeia de 24 horas, porque é o tipo de acção que pode dar uma mensagem clara ao patronato e às classes dominantes por toda a Europa. E a esquerda tem um papel central nesta luta, na popularização desta ideia, mesmo desencadeando acções simbólicas nesse sentido, como fizemos no ano passado.

Como último ponto: a esquerda, e os activistas por todo o mundo, mas particularmente na Europa, têm agora os olhos postos em Portugal, por causa da crise, por causa do FMI, mas também por causa da ocasião única que existe para a esquerda em Portugal. Para além do FMI, vocês têm uma esquerda forte, com uma forte base social, um forte peso eleitoral, – é claro que compreendo que há complicações, vi as sondagens de hoje, não é um processo em linha recta , mas como tivemos a experiência na Irlanda, a intervenção do FMI irá radicalizar ainda mais toda a situação.

E aqui considero e deixo a questão aos intervenientes portugueses – que é da responsabilidade do Bloco de Esquerda defender uma Frente unida com o Partido Comunista, as duas principais forças da esquerda em Portugal, de formarem um frente unida para ajudar a organizar a batalha contra os ataques capitalistas, mas também para colocar a ideia de um governo de esquerda, um governo baseado na ruptura com o capitalismo através da execução de medidas socialista, como a nacionalização dos sectores chave da economia, e colocando-os ao serviço do povo.

Porque o cenário que existe, de crescente radicalização, rapidamente se tornará evidente para muita gente. Estamos definitivamente interessados em debater com mais pessoas ao longo deste fim de semana sobre como se está a desenvolver este processo. Obrigado.

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