Liberdade de Imprensa, de que liberdade eles falam?

Os escândalos que abalam o sistema estão agora associados à denunciada tentativa de controlo por parte de Sócrates e Companhia da Comunicação Social que lhe é adversa. A direita eriça-se em defesa da “liberdade de imprensa” e a esquerda institucional, ainda que cautelosa, recusa a por o dedo na ferida e perguntar: Mas afinal que “liberdade de imprensa” é que eles falam?

Clientelismo, conspirações e manobras, nada de novo no Capitalismo

É óbvio que não nos move nenhuma espécie de dúvida das manobras e conspirações que estão a ser reveladas. Elas são característica permanente nas sociedade viradas para o lucro privado e onde o poder efectivo joga-se muito mais nos gabinetes dos Conselhos de Administração dos grandes grupos económicos que nas instituições estatais, sejam elas o governo, o parlamento ou os tribunais.
Quando a esquerda institucional não o reconhece explicitamente, está a contribuir para a manutenção de uma das mais eficazes mistificações em que vivemos: que se vive numa democracia.
Acontece que essas conspirações e manobras, – que em tempos de desafogo e crescimento do capitalismo fazem-se com todo o recato -, em tempos de crise, como o que vivemos, tendem a aflorar à superfície, há medida de aspectos menos evidentes do sistema são expostos pelos acontecimentos.
Os percursos de alguns dos intervenientes dos diversos escândalos financeiros, fiscais e políticos que têm abalado Portugal são paradigmáticos da profunda interligação dos partidos capitalistas com os grupos económicos. A circulação permanente entre Conselhos de Administração de Grupos económicos, públicos e privados, e Ministérios, Secretarias de Estado, alto funcionalismo públicos e os “famigerados “adjuntos é a regra nesta “meritocracia” de favores e negócios de bastidores.
O que, nos últimos tempos, agita os círculos políticos institucionais é a grave acusação de tentativa de ataque à liberdade de expressão e imprensa. Conforme os dados divulgados existem fortes indícios de tentativas de silenciamento de programas e jornalistas “hostis ao governo” através da… aquisição de empresas de comunicação social por outras empresas, nomeadamente a PT, e por influência directa de figuras do governo e seus “agentes pardos”, (Vara, Penedos, Rui Pedro Soares, entre outros) criteriosamente distribuídos em lugares de influências nas empresas envolvidas.

Mas afinal que “liberdade de imprensa” é que eles falam?

A verdade é que os que hoje se indignam em defesa da “liberdade de imprensa” são os mesmos que vivem há longo tempo muito bem com a imposição de uma visão monolítica da sociedade, baseada na chamada “economia de mercado”, na liberdade total das empresas e na supressão dos direitos da esmagadora maioria da população: os trabalhadores.
Nesse aspecto estão todos de acordo: Moura Guedes, Vara, Ferreira Leite, Portas, Sócrates e Cavaco: o debate político é feito num circulo fechado de defensores do sistema, entre Rebelo de Sousa, António Vitorino, Pacheco Pereira, Lobo Xavier, António Costa, Medina Carreira, Mário Crespo e todos os demais.
Os programas de “opinião” mostram um constante “unanimismo” quanto às soluções de fundo para os problemas da sociedade: “moderação salarial (nossa, não deles), redução do deficit público – através de mais ataques aos trabalhadores do sector público, de mais privatizações, de mais supressões de serviços públicos não “rentáveis”-, maior flexibilidade do mercado de emprego (mais facilidades de despedimento, mais precarização das relações de trabalho, enfim, a mesma cartilha, como se não existissem outras opiniões na sociedade.
A forma como são construídos os painéis do programa “Prós e Contra” no canal público é um dos exemplos claros da manipulação da opinião pública a favor de um modelo de sociedade.
Os que se indignam episodicamente contra este governo são os que tentaram fazer o mesmo em tempos passados e farão, por certo em tempos futuros. E, uns e outros, suprimem toda e qualquer opinião divergente da cartilha neo-liberal e capitalista, usando os “critérios editoriais” para valorizar as lutas internas nos partidos do sistema e desvalorizar as acções de protesto dos trabalhadores.
Também a precarização crescente da actividade jornalista – como muitos jornalistas a serem pagos à peça – limita fortemente a ideia de um jornalismo independente, sério e plural. É curioso verificar que os dois jornalistas na mira do silenciamento são ambos, jornalistas muito bem pagos e conservadores declarados: Manuela Moura Guedes foi deputada do CDS-PP e pratica um jornalismo tablóide e populista e Mário Crespo assume-se como um admirador de Teatcher e Reagan.
A concentração da Comunicação Social nas mãos de poderosos grupos económicos é um efectivo obstáculo à verdadeira liberdade de expressão e imprensa.

Por uma Comunicação social que dê cara às lutas

Por uma verdadeira liberdade de expressão e de imprensa

Ela só será efectiva quando todos os sectores sociais tiverem acesso, em igualdade de circunstâncias, a expressar e divulgara as suas opiniões e propostas para a sociedade. E isto implica que as maiores organizações sociais no pais, – os sindicatos – sejam ouvidos e publicitados sem o preconceito “neoliberal” e capitalista que domina a Comunicação Social em Portugal.
Não é provável que a classe dominante e o seu governo, – seja este ou o que seguir – assegurem este tipo de liberdade. Necessitam da manipulação e constrangimento social como de pão para a boca, para justificar o seu domínio, muito pouco democrático.
Sem deixar de exigir uma verdadeira liberdade de expressão e opinião à Comunicação Social, os trabalhadores e suas organizações poderão articular-se na utilização e distribuição de conteúdos de meios de comunicação alternativos.
Mas a revolução cientifica e tecnológica abriu campo para que os partidos de esquerda e as organizações de classe dos trabalhadores possam desenvolver meios de comunicação social alternativos .
Jornais, rádios ou TV (estes últimos são passiveis via Internet) – que tomem partido do lado de quem trabalha, dos jovens, nas escolas e nos bairros, que mostrem o que a imprensa capitalista aposta em esconder ou a não considerar dentro dos “critérios editoriais”, órgãos de comunicação social alternativos que denunciem a mistificação pró-capitalista, permanentemente divulguem as lutas e mobilizem os trabalhadores e pobres, respeitando todas as opiniões e sensibilidades no movimento operário e social, mas que construam um corpo de ideias que se distinga do capitalismo e do “socialismo patronal” existentes, e ajudem a construir uma alternativa socialista dos trabalhadores ao sistema dominante.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Liberdade de Imprensa, de que liberdade eles falam?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s