Capitalismo mundial em crise: Não pagaremos pela falência do sistema de lucros!

Posted on 20 de Maio de 2009 por

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Declaração de 1° de Maio CIT – 30 de Abril de 2009

  • Organiza-te – resista! Por sindicatos combativos e partidos de massas dos trabalhadores!

  • Pela solidariedade internacional e pelo Socialismo!

O Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) envia calorosas saudações de 1º de Maio aos trabalhadores, jovens e oprimidos de todo o mundo. Os socialistas revolucionários, sindicalistas e outros activistas celebram o 1º de Maio com o pano de fundo da pior crise do capitalismo desde os anos 1930.

Após o quase derretimento dos mercados financeiros, o tsunami económico está a atingir agora a “economia real”. Espera-se um declínio da economia global de pelo menos 1,3% em 2009. As maiores economias estão a retrair-se dramaticamente, com a Grã-Bretanha a cair só este ano mais de 4% e o Japão em mais de 6%. Nos EUA, o desemprego e as penhoras de casas continuam a subir ininterruptamente. A Alemanha enfrenta uma perca de 100 mil milhões de euros em 2009, com a sua economia cai em 6%.

Nenhuma parte do mundo pode escapar a este dilúvio. Vinte anos depois do colapso do Estalinismo e das ilusões engendradas no capitalismo, a economia de mercado falhou espectacularmente na antiga União Soviética e no Leste Europeu, jogando cruelmente milhões de pessoas na pobreza da noite para o dia.

Na Ásia, África e América Latina as condições de “vida” já de si bárbaras estão ainda piores, à medida que os efeitos da recessão económica mundial atingem as partes mais pobres do globo. Mesmo antes do início da recessão, pelo menos 80% da humanidade vivia com menos de 10 dólares por dia e 25.000 crianças morriam devido à pobreza todos os dias. Vejam a situação da Nigéria, “rica em petróleo”, que tem a maior população do continente africano: a ONU relatou que em 1996 o índice de pobreza na Nigéria era de 46%, mas em Fevereiro de 2009 esta disparou para 76%. O Gabinete de Estatísticas do governo nigeriano declara que 40 milhões de nigerianos estão desempregados, o que é uma taxa de desemprego de 65% entre os aptos a um emprego.

Esses tipos de grotescos números aumentarão quando a já magríssima  “ajuda” do Ocidente for ainda mais espremida pela recessão económica e quando os patrões tentarem descarregar a crise de seu sistema sobre os mais pobres. O FMI está ocupado impondo “pacotes de austeridade” – enormes cortes nos gastos sociais – da Islândia e os estados bálticos ao Paquistão e a África Subsaariana. Esse sistema movido por lucros significa pobreza endémica, desemprego, destruição ambiental, guerras e a disseminação de doenças preveníveis. Mesmo grandes sectores das classes médias enfrentam demissões e quedas verticais nos padrões de vida.

A classe trabalhadora e os pobres do mundo estão tendo que pagar pelo colapso catastrófico do sistema capitalista. Enormes resgates governamentais têm “socializado os custos” enquanto “privatizam os lucros”. Muitos milhões de trabalhadores enfrentam severos cortes sociais, desemprego em massa, salários menores, impostos maiores e retomada de imóveis. Os jovens, especialmente os que concluíram seus estudos, estão entre os mais atingidos pela crise, com o desemprego entre jovens já alcançando quase 24% na Austrália.

A crise global levou a uma agudização das tensões entre as potências, a nível mundial e regional, e a uma feroz luta por lucros e influência. Isso pode provocar mais conflitos regionais, como vimos ano passado na curta mas sangrenta guerra entre Geórgia e Rússia. Justo quando a situação no Iraque está se tornando mais violenta e instável com a “saída” dos EUA, o imperialismo ocidental está sendo levado para o atoleiro da guerra perdida no Afeganistão, que está se espalhando para o Paquistão e ameaçando uma eventual guerra civil total e mesmo a sangrenta divisão do país.

Mais do que nunca, os socialistas, sindicalistas, anti-capitalistas, estudantes, activistas ambientais e anti-guerra e outros precisam se unir e resistir aos ataques dos patrões e do imperialismo e lutar por um mundo melhor.

São necessárias políticas socialistas para o movimento dos trabalhadores

O CIT chama o movimento dos trabalhadores de todos os países a lutar urgentemente por medidas decisivas que garantam empregos, um salário decente, moradia e educação e saúde gratuita. O CIT luta pelas necessidades imediatas dos trabalhadores e dos pobres ao mesmo tempo que defende a construção de movimentos socialistas que podem transformar a sociedade. Os governos pró-capitalistas implementam “nacionalizações” de bancos e outras indústrias às custas dos trabalhadores, com a intenção de privatizar depois as mesmas instituições. Reivindicamos nacionalizações socialistas, que vejam os grandes bancos e as principais indústrias colocados sob o controle e gestão democráticos dos trabalhadores, para o benefício da maioria da sociedade.

A crise do capitalismo está abalando a consciência das massas em todo o mundo. Muitos trabalhadores e jovens inicialmente ficaram aturdidos com a velocidade e selvajaria da crise. Muitos outros não terão escolha a não ser resistir à ofensiva contra seus empregos e condições de vida. E à medida que a crise se prolongar, muitos mais chegarão à conclusão de que devem lutar para defender seus padrões de vida básico. A luta para defender os direitos democráticos também tomará uma nova importância globalmente. O estado capitalista, frequentemente sob o disfarce de “legislação antiterrorismo”, usa medidas repressivas contra toda uma gama de manifestantes, dos activistas anticapitalistas e ambientais, e cada vez mais contra o movimento organizado dos trabalhadores.

As massas procurarão uma alternativa aos partidos do capitalismo em crise, inclusive nos EUA, onde actualmente existem grandes ilusões, ou esperanças desesperadas, em Obama pessoalmente. Mas as políticas de Obama são ditadas pelos interesses das grandes corporações e do imperialismo dos EUA. O enorme pacote de estímulo não impulsionou a economia americana, os resgates para os ricos são altamente impopulares, o desemprego e execuções de penhoras de casas hipotecadas subiram vertiginosamente e mais tropas dos EUA são enviadas para morrer na guerra do Afeganistão.

À medida que os trabalhadores se organizarem e resistirem, eles procurarão por uma saída da crise, por ideias alternativas. Os políticos estão desesperadamente a tentar culpar somente as direcções dos grandes bancos e instituições financeiras pela crise e falam de “regulação” para impedir mais crises. Mas o coração do problema está na própria natureza do sistema capitalista. A crise económica mundial justifica as ideias de Karl Marx – de que o capitalismo é um sistema irracional, caótico e altamente desperdiçador, de booms e recessões, com devastadoras consequências para os trabalhadores. Enfrentamos não apenas uma, mas várias crises. Um não-pagamento de suas dívidas por dois ou três estados do Leste Europeu ou da América Latina, por exemplo, pode accionar os próximos grandes choques, com repercussões globais.

Já passou a época de tentar remendar o sistema capitalista, ele precisa de ser derrubado”, escreveu o grande marxista irlandês James Connolly, há quase 100 anos atrás, e suas palavras são mais relevantes do que nunca. O único meio de superar permanentemente a crise que a humanidade enfrenta é abolindo o capitalismo e o latifúndio. A tarefa da transformação socialista da sociedade é trazer os grandes monopólios, bancos e instituições financeiras para o controle público, e elaborar um plano democrático para a produção e distribuição da riqueza a uma escala nacional e internacional. Uma economia planejada, dirigida e controlada democraticamente pelos trabalhadores, tornará possível o desenvolvimento das forças produtivas em harmonia com o meio ambiente. Apenas uma organização socialista da produção e distribuição pode assegurar à humanidade um padrão de vida decente e acabar com a opressão e exploração.

Greve e ocupações de fábrica

Os trabalhadores estão começando a dar resposta. No final de 2008 e começo de 2009, magníficas manifestações de massa e greves gerais contra os ataques às condições de vida e trabalho ocorreram na Irlanda, Grécia, França, Itália e Portugal, e outras partes da Europa Ocidental e do Sul. Protestos de rua de massas eclodiram contra os regimes corruptos e pró-mercado nos estados bálticos, e as greves estão aumentando na Rússia. Também em relação a isso, ocupações de fábrica ocorreram nos EUA, Irlanda, Grã-Bretanha e Ucrânia. Está a aumentar enormemente a pressão nos locais de trabalho a favor de acções sindicais, da Áustria à Nigéria. “Sequestros de patrões” estão eclodindo por toda a França, assim como lutas defensivas generalizadas, incluindo na fábrica da Toyota. Estudantes do ensino secundário  e universitários e jovens também estão entrando em acção, inclusive na Espanha e França, onde alguns colégios e universidades fecharam por meses. Os jovens estão mostrando claramente que desejam resistir aos esforços de jogar o desastre económico do capitalismo sobre as cabeças de sua geração.

Todas essas lutas são apenas uma amostra do que está por vir. Contudo, para serem vitoriosas, as lutas de massas precisam de uma direcção e liderança de classe conscientes. Em muitos casos, os líderes burocráticos e de direita querem apenas desviar e dissipar a raiva dos trabalhadores. A transformação dos sindicatos em organizações combativas e democráticas é um objectivo vital para a classe trabalhadora. Em muitas partes do mundo, um primeiro passo é a criação de organizações genuinamente independentes da classe trabalhadora, incluindo sindicatos.

Nos anos recentes, novas organizações da esquerda começaram a se desenvolver à medida que os antigos partidos de trabalhadores se transformaram em entidades puramente capitalistas. O NPA (‘Novo Partido Anticapitalista’) foi fundado formalmente na França, no início deste ano, e obteve respeitáveis intenções de voto, apesar dos limites de seu programa. Infelizmente, muitas das novas formações foram incapazes de defender seriamente as lutas dos pobres e da classe trabalhadora ou apresentar políticas socialistas claras. Como resultado, eles não descolaram ou ganharam algum sucesso eleitoral para logo depois fracassar. A direcção do Partido de Esquerda na Alemanha virou à direita numa altura em que ideias socialistas reais podem ganhar uma popularidade mais ampla. A Aliança da Esquerda Ampla, o SYRIZA, na Grécia, caiu nas sondagens quando um sector de direita de sua direcção deixou claro que quer entrar em uma coalizão com o partido social-democrata de direita PASOK.

Apesar dos retrocessos de algumas das novas formações de esquerda, novos partidos amplos da classe trabalhadora surgirão inevitavelmente, em algum momento, por causa da profunda crise capitalista e das lutas de massa dos trabalhadores. A aliança para as eleições europeias ‘Não à UE – Sim à democracia’ na Grã-Bretanha, que foi iniciada pelo combativo sindicato dos transportes, o RMT, e em que participa o Partido Socialista (CIT Inglaterra e Gales), é um importante passo à frente.

Para as novas formações e partidos de esquerda terem sucesso, eles devem adoptar políticas socialistas combativas e serem organizações abertas e democráticas.

Perigo do racismo e do populismo reaccionário

O dramático fracasso da economia de mercado significa que haverá enormes oportunidades para se construir poderosas organizações de classe e aumentar o apoio para as ideias do socialismo e do marxismo. Contudo, devido à falta de uma forte alternativa de esquerda, o vácuo político pode ser parcialmente preenchido por outras ideias e forças.

Sectores dos jovens mais alienados e frustrados podem voltar-se  cada vez mais para a violência, como vimos durante o movimento da juventude grega no fim de 2008. Pequenos sectores de jovens podem até se voltar para o terrorismo individual para “atacar” o sistema e o estado opressivo. Mas esses falsos métodos são um beco sem saída mortal para os jovens e contra-produtivos aos interesses dos trabalhadores. Apenas a classe trabalhadora organizada, armada com políticas socialistas, pode mudar a sociedade.

Ideias e movimentos racistas e populistas reaccionários também podem crescer. O movimento político anti-imigrantes em torno do “Partido da Liberdade” de Geert Wilders na Holanda está liderando as sondagens para as eleições de Junho da UE, à frente dos partidos governantes e da oposição oficial. O ultra-direitista BNP pode conseguir mandatos na Grã-Bretanha nas mesmas eleições. Isso reflecte o profundo ódio aos principais partidos pró-mercado por um sector desiludido da população. O movimento dos trabalhadores deve responder activamente à ameaça da extrema-direita e lutar contra todas as formas de discriminação e racismo; pela unidade dos trabalhadores contra o verdadeiro inimigo – os patrões e seu sistema de lucro. Isso deve se ligar a uma campanha unida por empregos para todos, um salário decente, habitação decente e serviços públicos totalmente subsidiados.

Neste 1º de Maio, o CIT envia saudações de solidariedade a todos os que resistem à opressão, discriminação e injustiça. Saudamos o Partido Socialista Unido (United Socialist Party USP – CIT do Sri Lanka), que se opõe ao massacre de inocentes à medida que o exército desse país fecha o cerco ao LTTE (Tigres Tamis) com sangrentas consequências. O USP, corajosamente, chama pela unidade dos trabalhadores cingaleses e tamis no meio de um violento chauvinismo. Também saudamos os corajosos camaradas do CIT no Paquistão, que ajudaram a construir importantes sindicatos em um país sob o domínio de elites corruptas e reaccionárias com a intrusão do imperialismo, dilacerado pelo reaccionário terrorismo islâmico político. Nas barbas do nacionalismo de direita, o CIT em Israel lutou contra o massacre do exército israelita em Gaza no início de 2009.

O 1º de Maio também é uma ocasião de lembrar e aprender com as lutas passadas dos trabalhadores. Este ano comemoramos o 90º aniversário das mortes dos líderes imortais da revolução alemã, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, assassinados com a conivência dos líderes social-democratas de direita. Se a Revolução Alemã tivesse sido vitoriosa, desencadeando uma transformação socialista de um dos maiores países capitalistas avançados, teria rompido o isolamento da jovem União Soviética, o primeiro Estado de Trabalhadores, e agido como um grande estímulo à revolução socialista mundial.

A revolução alemã mostrou o poder e o papel da classe trabalhadora, mas também a necessidade de um programa, estratégia e liderança claros, para derrubar o capitalismo. Igualmente, o 30º aniversário da Revolução Iraniana mostra o enorme potencial da classe trabalhadora para transformar a sociedade numa perspectiva socialista, mas a falta de uma liderança perspicaz viu a revolução ser cruelmente desviada e estrangulada pelo governo dos reaccionários Mullahs. Hoje, está se acumulando um enorme descontentamento sob a superfície da sociedade iraniana, pressagiando futuros movimentos revolucionários. Em todo o Oriente Médio, os trabalhadores e jovens estão a agir de forma mais independente, como indicado pelas greves e protestos de trabalhadores no Egipto nos últimos meses e pelas recentes greves no Líbano. Isso aponta o caminho para as massas do Oriente Médio – acção independente e unida de classe para derrubar os despóticos regimes árabes, expulsar o imperialismo e trazer a genuína autodeterminação para os palestinos e outros povos oprimidos.

Socialismo de volta à ordem do dia

A crise mundial do capitalismo colocará a questão do socialismo de volta à agenda. Na América Latina, vários líderes populistas radicais de inclinações esquerdistas foram eleitos. Embora algumas reformas bem-vindas tenham sido conquistadas pela classe trabalhadora e os pobres em países como Bolívia e Venezuela, a mudança social fundamental não virá simplesmente através de líderes individuais, mas da acção de massas da base. Para derrubar completamente o capitalismo e o latifúndio, e criar uma democracia dos trabalhadores e camponeses genuína, são necessários partidos de massa da classe trabalhadora, armados com políticas socialistas audazes.

Comparada com os anos de Bush, a administração de Obama está a ter uma abordagem mais sofisticada para com a América Latina e fazendo até mesmo com algumas aberturas a Cuba. Mas o objectivo dominante do imperialismo dos EUA é deter o alastramento de ideias radicais e socialistas pelo continente, para se livrar ou derrotar com segurança os movimentos na Venezuela, Bolívia e outros, e restaurar o capitalismo em Cuba. O único modo de salvaguardar e aumentar os ganhos sociais da Revolução Cubana, cujo 50º aniversário também comemoramos este ano, é se opor a todas as tentativas de restauração capitalista, introduzindo a democracia operária e o controle e gestão democráticos da economia pela classe trabalhadora, e pedindo o apoio da classe trabalhadora internacional.

A crise mundial do capitalismo e o profundo senso de volatilidade e incerteza resultante já provocaram o aumento de jovens e trabalhadores que se voltam para as obras de Marx e Engels. À medida que a crise se aprofundar e prolongar-se, e os trabalhadores procurarem uma alternativa ao sistema em bancarrota e sua bancarrota ideológica, o socialismo e o marxismo genuínos encontrarão uma resposta maior. Mais sectores dos pobres e oprimidos concluirão que o capitalismo é um sistema podre e bárbaro que deve ser derrubado e que deve-se resistir ao sistema global de lucros por meio de uma solidariedade e colaboração internacionais dos trabalhadores e oprimidos.