Irlanda – Waterford Crystal – Trabalhadores, unidos, jamais serão vencidos

Posted on 12 de Fevereiro de 2009 por

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Cristilaira internacionalmente conhecida

Cristilaria internacionalmente conhecida

Um exemplo para todos os trabalhadores

ver declaração de Joe Higgins, antigo deputado do SP no Parlamento irlandês

Kevin McLoughlin, Socialist Party (CIT in Ireland)

Membros de segurança especialmente contratados entregaram cartas dizendo que na Segunda-feira seguinte já não valia a pena irem trabalhar, já que a mundialmente conhecida Fábrica vidreira Waterford Crystal seria encerrada!

Chocados, mas amargamente zangados que o executor da falência tivesse decidido parar a produção, os operários da Waterford Crystal começaram a deslocar-se para o centro de visitas. Ali, mais seguranças contratados bloquearam-lhes o caminho, ao que parece com alguns deles a dizerem que tinham tacos de baseball. Se pensavam que essa intimidação iria esmagar os operários estavam lamentavelmente enganados. Centenas de trabalhadores contornaram os seguranças. Assim começou a ocupação da Waterford Crystal, na Sexta-Feira, dia 30 de Janeiro.

Os operários não tiveram outra opção senão ocupar. Mais de 700 operários e outros trabalhadores estavam empregados na Waterford Crystal, com cerca de 500 operários vidreiros. Se ao remetente fosse-lhe permitido encerrar a fábrica, as suas capacidades e o seu futuro seriam desmantelados num só golpe.

Estavam 700 postos de trabalho em causa, mas indirectamente muitos mais. O encerramento da fábrica significaria que as firmas, que andavam à volta da Waterford Crystal como abutres, seriam capazes de desmembrá-la e reduzir substancialmente os salários e condições de trabalho para quaisquer trabalhadores que viessem a contratar.

Com os problemas financeiros que se viviam na empresa, um número significante de trabalhadores estavam preparados para aceitar os despedimentos. Em ocasiões anteriores, tais operários de longa data teriam recebido até €150,000 de indemnizações. Agora, com a falência, iriam receber subsídio básico de desemprego. A defesa das reformas foi também um motivador crucial da acção dos trabalhadores.

Ocupação do Centro de Visitas

Ocupação do Centro de Visitas

É assim que os operários e demais trabalhadores da Waterford Crystal não tiveram escolha senão ocupar e assumir o controlo efectivo da fábrica e do seu equipamento, como forma de lutarem pelos seus direitos. Esta conclusão, que foi retirada de uma forma extremamente rápida, reflecte o que estava em jogo. E também reflecte que as tradições combativas e de esquerda entre os operários vidreiros, como o forno da fábrica, não se podem extinguir.

As falências na Irlanda duplicaram no último ano. Este ano espera-se que seja muito pior, com alguns a estimarem que mais de um terço de todas as empresas acabem insolventes. Com o que se passou na Waterford Crystal, provavelmente visitada por muitos mais operários e outros trabalhadores, a luta na Waterford é extremamente importante.

Waterford Glass foi fundada em 1783. Este ano, Wedgwood iria celebrar o seu 250º aniversário em Stoke-on-Trent. As companhias fundiram-se em 1986 quando a Waterford comprou a Wedgwood por €323 milhões, ao preço de hoje.

Poucos anos depois da fusão, contudo, o valor combinado era menor do que a Waterford tinha pago pela Wedgwood. Os débitos que vinham dessa altura foram críticos na deterioração da empresa. Apesar de ter essas dívidas, o patrão Tony O’Reilly continuou a coleccionar troféus, acrescentado marcas reconhecidas de vidro, cristais e porcelanas à Waterford, como as porcelanas Doulton e Rosenthal na Alemanha e a All-Clad Metalcrafters nos EUA.

A Waterford Wedgwood empregava mais de 8.000 a nível internacional. As suas dívidas cresceram para €450 milhões de euros, mais ou menos metade do valor de vendas anual. No inicio deste ano, o Bank of America apontou um executor de falências para algumas das companhias, a fábrica em Waterford e a de Wedgwood em Stoke-on-Trent, mas outras unidades da empresa, empregando 5000 trabalhadores, continuam a laborar.

Os trabalhadores em Waterford e em Stoke-on-Trent estão a pagar o preço da instabilidade financeira, da crise económica e doa flagrante má gestão. Os indicadores mostram que se o pagamento de dívidas fosse eliminado, a fábrica em Waterford seria lucrative e na verdade aumentaria a sua quota no mercado chave dos EUA:

Quando se chega ao centro de vistas ocupado, à direita da entrada pode-se ver uma faixa do sindicato UNITE que diz: “Nacionalização da Waterford Crystal”. Quando se entra dentro da fábrica, agora sob controlo dos operários, vê-se tudo em ordem, com os trabalhadores a receberem-nos calorosamente, oferecendo chá, café, sandes e mesmo gelado.

Temos um vislumbre das profundas capacidades e poder da classe operária. O que eles estão a fazer, Segundo a lei, é ilegal mas outra faixa diz “Trabalhadores, Unidos, Jamais Serão Vencidos!” O Estado será incapaz de os desalojar dada a sua determinação e o apoio da comunidade. Waterford demonstra que, com uma acção bem organizada e o apoio da classe trabalhadora, pode-se por de parte as leis anti-sindicais e o próprio Estado.

Os trabalhadores mostram o seu poder

Com a ocupação, o sindicato UNITE deveria ter lançado uma campanha imediata para a nacionalização, que é apoiada claramente por alguns trabalhadores. Contudo, o facto que a liderança do sindicato ter-se focado exclusivamente na procura de um comprador privado, mostra que não pensa na nacionalização.

Os operários confiam na direcção sindical, que é constituída por antigos vidreiros, e aceitam o enfoque na procura de um comprador privado, esperando que os problemas se resolvam de alguma maneira. Mas há claramente alguma inquietação e receio do que essa orientação possa alcançar. Um operário, citado no Waterford News & Star, dizia: “das duas formas seremos derrotados mas com um pau mais mole se a Clarion comprar isto.”

Refere-se à empresa de investimentos Clarion Capital, que é a opção preferencial do sindicato. Mas mesmo as projecções mais optimistas são que, se a Clarion comprar será com substancial assistência financeira do estado, e que apenas 300 postos de trabalho serão salvaguardados, com os salários e condições de trabalho substancialmente cortados. Qualquer comprador privado irá tentar evitar qualquer responsabilidade pelos deficits de pensões e de indemnizações

É possível que as condições do género das que prevê-se que a Clarion faça sobre emprego, despedimentos e reformas não sejam aceites pelos trabalhadores. Todas as tentativas de dividir os trabalhadores e pressioná-los a um acordo devem provocar resistência.


Mas esta luta não é uma escolha de qual é a melhor derrota. A nacionalização não é a última resposta se não se encontrar comprador. Os argumentos para a nacionalização da Waterford Crystal são muito fortes. A companhia é viável e, por isso, não há rgumentos para cortar 400 postos de trabalho.

Se a Clarion tomar a empresa e mesmo garantir a produção por um par de anos, é quase certo que irá saltar porco depois, possivelmente mantendo o Centro de Visitas, uma loja e apenas os postos produtivos suficientes para fornecer a loja.

Devemos lutar pelos 700 postos de trabalho. Os trabalhadores que saírem devem ser substituídos por novos operários e os salários e condições, ganhos ao longo de anos de lutas, também devem ser defendidos. A nacionalização, sob o controlo e gestão democráticos dos trabalhadores, é a única via para um futuro real para a Waterford Crystal e que os seus operários podem garantir.

A ideia que as nacionalizações não são possíveis tem sido desmentida pelos acontecimentos. O governo está agora a finalizar a sua fiança de 7 mil milhões de Euros do Allied Irish Bank e Bank of Ireland. Acabaram de nacionalizar o Anglo Irish Bank! Uma campanha para exigir a intervenção e investimento estatal para defender a Waterford Crystal e a economia do sudeste através de nacionalizações teria uma resposta pública muito positiva.

O UNITE devia aproveitar esta oportunidade. Lançando-se numa luta pela nacionalização defenderiam a classe trabalhadora da Waterford mas também poderiam mudar o debate que se está a desenrolar sobre a forma de tratar com a crise económica. Tudo o que ouvimos é propaganda sobre pacto de solidariedade social onde as pessoas comuns afiançam o estado e os ricos.

Uma luta pela nacionalização da Waterford Crystal pode ser o começo de um novo movimento que coloca no centro na necessidade do Estado de usar a riqueza e os recursos económicos para defender os empregos e as condições de vida e subsistência do povo, em vez de afiançar o grade capital e os ricos.