Aniversário da fundação da Quarta Internacional

Posted on 30 de Dezembro de 2008 por

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A defesa da herança de príncipios do genuíno Marxismo feita por Leon Trotsky

Traduzido do original, publicado pela revista Socialism Today do Socialist Party, o CIT na Inglaterra e País de Gales

Niall Mulholland, CIT

Há 70 anos, a 3 de Setembro de 1938, realizou-se, em Paris, a conferência fundadora da Quarta Internacional. O principal inspirador e organizador por detrás da Declaração da nova internacional foi o revolucionário russo Leon Trotsky, que, contudo, não pode estar presente na reunião por se encontrar exilado no México.

Trotsky considerou os seus esforços na criação da Quarta Internacional como a sua tarefa mais importante. Para ele, este trabalho foi mais importante que o seu desenvolvimento da teoria da revolução permanente, a qual antecipou brilhantemente as linhas gerais da Revolução Russa de 1917. Mais importante que o seu papel chave, secundando apenas Vladimir Lenine, na liderança da vitoriosa revolução socialista de Outubro. E mais importante que a sua liderança do Exército Vermelho, o qual defendeu a jovem União Soviética contra os exércitos invasores da contra-revolução.

Apesar de fundada em 1938, a Quarta Internacional emergiu da luta iniciada na União Soviética em 1923, pouco depois da morte de Lenine, e que depois se espalhou por todo o mundo. Foi uma luta pelo genuíno Bolchevismo, iniciado por Lenine e continuado pela Oposição d Esquerda e, mais tarde pela Oposição de Esquerda Internacional, dirigida por Trotsky, contra a burocracia soviética privilegiada liderada por José Estaline.

No principal documento do congresso da Quarta Internacional. A Agonia Mortal do Capitalismo e as Tarefas da Quarta Internacional, Trotsky declarava:

“A Quarta Internacional … é, merecidamente, odiada pelos Estalinistas, Social-Democratas, liberais democratas burgueses e fascistas… A sua tarefa – a abolição da dominação capitalista. O seu objectivo – o Socialismo. O seu método – a revolução proletária…”

Hoje, quando a imprensa capitalista ou os políticos do sistema referem-se à Quarta Internacional, é normalmente para derramar sobre Trotsky o seu desprezo pela sua tentativa de estabelecer as bases de uma Internacional de massas. Esses representantes do sistema do lucro, lado a lado com inúmeros antigos esquerdistas, escarnecem que o destino da Quarta Internacional é mais uma prova que todas as tentativas de forjar uma Internacional socialista para combater o capitalismo estão condenadas ao fracasso.

Este argumento cínico e impressionista ignora a concepção que Trotsky tinha da Quarta da herança de princípios do genuíno Marxismo, numa altura de grandes derrotas e traições para o movimento internacional da classe operária, e preparar os seus novos dirigentes – “promessas para o futuro”” – para as grandes batalhas de classe que se avizinhavam

As suas origens não tinham raízes apenas na luta contra o Estalinismo, mas também nas anteriores internacionais dos trabalhadores.

A Iª Internacional (a Associação Internacional dos Homens Trabalhadores – AIHT) foi estabelecida em 1864 pelos fundadores do socialismo científico, Karl Marx e Friedrich Engels. Isso foi um grande passo em frente para a classe operária a nível internacional, ligando socialistas, sindicalistas radicais e outros militantes. As suas ideias e influência cresceram por toda a Europa e América do Norte, incluindo entre os dirigentes da Comuna de Paris de 1871, que apesar da sua curta vida, deu ao mundo o primeiro exemplo de um governo dos trabalhadores. Contudo, as crescentes e piores dificuldades com o anarquista Mikhail Bakunin e seus apoiantes conduziram a divisões e à dissolução da AIHT, depois da transferência do seu centro internacional para os Estados Unidos em 1872.

A IIª Internacional, fundada por Engels em 1889, foi uma associação de partidos social-democratas nacionais, incluindo no seu seio quer os elementos revolucionários, quer os reformistas. A sua secção mais forte e influente era o Partido Social Democrata Alemão (SPD). Contudo, décadas de crescimento económico capitalista tiveram o efeito de crier uma burocracia conservadora nos sindicatos e nos partidos social-democratas apesar da sua adesão formal ao Marxismo. A Segunda Internacional quebrou-se em 1914, quando a maioria das suas secções apoiaram “o seu lado” na Guerra imperialista.

A Terceira Internacional, ou Internacional Comunista, foi organizada sob a direcção de Lenine e com a autoridade da Revolução Russa de 1917,numa tentativa de criar uma internacional de partidos operários com carácter anti-imperialista e revolucionário. Durante os seus primeiros anos (1919-24), a IIIª Internacional (também chamada Comintern) foi uma estrutura genuinamente internacionalista e organizou os seus congressos anuais, apesar das enormes dificuldades e da fome que a jovem União Soviética enfrentava.

Emergência do domínio burocrático.

O derrube do Czarismo, dos latifundiários e do capitalismo pela classe operária, liderada pelo Partido Bolchevique (que se tornou o Partido Comunista da União Soviética, PCUS), foi um farol para as massas operárias e trabalhadores e para os pobres de todo o mundo. Inspirou movimentos revolucionários por toda a Europa. Mas depois da derrota dessas revoluções, como a Alemã (1918) e a Húngara (1919), principalmente devido à inexperiência dos dirigentes dos jovens partidos comunistas e ao papel contra-revolucionário dos social-democratas, a União Soviética manteve-se isolada. Começou a sentir-se uma degeneração no aparelho do novo regime, numa Rússia cultural e economicamente atrasada. Depois de anos de guerra, revolução, Guerra civil e gigantescas privações a massa dos trabalhadores estava exausta e apática.

Estaline emergiu como o dirigente representativo das camadas dessas camadas degeneradas do aparelho de estado que se tornou preocupada mais com o avanço dos seus próprios e distintos interesses, à custa dos interesses do movimento operário internacional. Fortemente consciente dos perigos que a revolução enfrentava, Lenine, em 1923, apelou à substituição de Estaline do cargo de secretário-geral do PCUS por causa do uso que este fazia do seu posto para burocratizar o Partido e o aparelho de Estado. Lenine preparou a luta contra a burocratização do Partido Comunista Russo e do Estado Soviético, “um estado operário dom deformação burocrática”, mas morreu antes de a levar a cabo. Com Lenine fora do seu caminho, Estaline foi eliminando gradualmente os sues principais oponentes, começando por Trotsky (que foi marginalizado antes de ser exilado em 1929), até se tornar um ditador virtual do Partido e do Estado nos anos 30. Neste processo, a IIIª Internacional foi cada vez mais transformada, sob liderança da burocracia estalinista, num instrumento da política externa russa.

Mas nada disto se passou sem uma luta entre as forças sociais vivas. Em 1923, a Oposição de Esquerda, criada por Trotsky (os Bolcheviques-Leninistas ou «Trotskistas») estabeleceu-se como uma facção no PCUS e propôs o “Novo Curso” em Outubro: combater a burocratização do Partido, a entrada de novos operários com provas dadas, nas posições dirigentes do partido, eleição dos cargos dirigentes partidários e um plano de industrialização e de políticas pró campesinato pobre.

Irrompeu uma disputa à volta da chamada teoria do “socialismo num só país” de Estaline, introduzida em 1924, que postulava que uma sociedade socialista poderia ser alcançada dentro das fronteiras de um único país. A teoria de Estaline era um anátema para os genuínos Marxistas, mas reflectia os interesses das cúpulas privilegiadas. Na resposta, Trotsky demonstrou que, apesar da União Soviética ter de se industrializar e modernizar, amplamente, isso estava muito longe do socialismo, uma sociedade com padrões de produtividade laboral e padrões de vida muito maiores do que as sociedades capitalistas mais avançadas. Para isso, era pressuposto que a classe operária tomasse o poder internacionalmente e estabelecesse uma economia mundial planificada e socialista

Políticas desastrosas

O Socialismo num só país de Estaline, Avisou correctamente Trotsky, iria conduzir a desastrosas políticas dentro da Rússia (nomeadamente a colectivização forçada da agricultura) e transformaria o Comitern numa ferramenta contra-evolucionária de Estaline na politica externa. Em 1943, a pedido dos seus aliados Winston Churchill e Franklin D Roosevelt, Estaline dissolveu a Internacional Comunista.

A política do Comintern nos anos 20 e 30 resultou em desastres para a classe operária internacional e da União Soviética. As advertências de Trotsky provaram estar correctas mas, paradoxalmente, o sentimento de isolamento e desespero ente as massas russas resultaram que essas derrotas internacionais acabaram por fortalecer a burocracia estalinista.

Em 1923, surgiu novamente uma oportunidade revolucionária na Alemanha, durante uma gigantesca crise económica e com a invasão francesa do Ruhr. A maioria da classe operária alemã virou-se para o Partido Comunista. Mas a direcção do Partido vacilou e falhou uma oportunidade excepcionalmente favorável para lutar pelo poder, permitindo à classe dominante alma que recuperasse do controlo. Os dirigentes do Comitern, Estaline e Grigori Zinoviev, também tiveram responsabilidade nesta oportunidade desperdiçada, já que não tiveram confiança que o Partido alemão tomasse o poder, e exigiram que se refreasse.

Outro golpe na classe operária foi na Greve Geral britânica de Maio de 1926, que foi traída pelos líderes reformistas da TUC, a central sindical. O Comintern, sob a direcção estalinista, teve cumplicidade na traição, já que se tinha aliado com a “esquerda” a direcção da TUC através com Comité de Unidade Sindical Anglo-Russo. Trotsky alertou para o facto do Comité Anglo-Russo agir em defesa e protecção dos reformistas contra as criticas da Esquerda

Na China, a política estalinista conduziu a uma sangrenta derrota. De 1925 a 1927 desenvolveu-se uma situação revolucionária, a qual a burguesia comercial e industrial do nacionalista Kuomintang procurou explorar para os seus próprios interesses de classe. A burocracia russa foi hostil ao desenvolvimento de um movimento operário e camponeses independente na China, no qual não tinha nenhuma fé. Para servir os seus próprios estreitos objectivos nacionalistas, o Comintern instruiu os Comunistas chineses a entrar no Kuomintang. Esta renúncia a uma política independente de classe significou a oposição à criação de sovietes (conselhos de operários e camponeses) durante a o crescimento da onda revolucionária e uma revolução agrária. Quando o exército do Kuomintang marchou sobre Xangai, os operários intuitivamente compreenderam o perigo e levantaram-se, ocupando a cidade. Mas o Comintern disse-lhes que permitissem as forças de Chiang Kai-shek entrarem em Abril de 1927. Então o Kuomintang massacrou os operários comunistas.

As desastradas políticas do Comintern dirigido por Zinoviev  e Lev Kamenev, dois dirigentes “da velha guarda bolchevique”, levaram a que estes quebrassem perante Estaline. Lado a lado com Estaline, estes dois veteranos constituiriam um triunvirato que se ergueu contra Trotsky e a Oposição de Esquerda entre 1923 e 1925. Em Junho de 1926, Zinoviev declarou num plenário do Comité Central do PCUS que

“na questão da repressão do aparelho burocrático, Trotsky tinha razão e nós não”.

Entre Julho e Outubro de 1926, a Oposição de Esquerda juntou-se temporariamente com Kamenev e Zinoviev para formar a Oposição Unida. Opuseram-se à trajectória direitista, pró kulak (grandes proprietários de terras) de Estaline e Bukharin, apelando ao regresso da democracia operária e à industrialização.

Contudo, depois do contra-ataque da burocracia, expulsando os dirigentes da Oposição de Esquerda do Partido, Kamenev e Zinoviev capitularam a Estaline. No final de 1927, a facção dominante de Estaline tinha derrotado decisivamente a Oposição de Esquerda, aprisionando e exilando os seus dirigentes. Alarmado com o perigo colocado pelos kulaks, que se tinham tornado cada vez mais poderosos devido à política estalinista, Estaline rompeu com Nikolai Bukharin, e decretou um brutal plano quinquenal que levou a uma miséria humana indescritível e o país à beira da catástrofe.

Reunindo forças

Em Fevereiro de 1929, Trotsky foi deportado para a Turquia. Nessa altura, um considerável número de dissidentes tinha sido expulso dos partidos comunistas e da Internacional Comunista. Alguns deles criaram pequenos grupos que proclamavam simpatia para com a Oposição de Esquerda. Durante esse período, os principais documentos programáticos da Oposição de Esquerda foram formulados por Trotsky.

Em 1930, os grupos da Oposição de Esquerda numa série de países tinham avançado para uma posição em que sentia a necessidade de coordenar as suas actividades de uma forma mais organizada. A 6 de Abril de 1930, representantes nacionais reuniram-se em Paris e declararam a primeira conferência internacional da Oposição de Esquerda. A clarificação ideológica desenvolveu-se através do Boletim Internacional, as teses, as resoluções e manifestos. MA uma reunião internacional, uma “pré-conferência” apenas se reuniu em Fevereiro de 1933.

Até 1933, Trotsky opôs-se aos apelos para uma nova internacional feitos por algumas correntes de oposição ao Estalinismo. Argumentava que os partidos comunistas ainda representavam as secções mais militantes e combativas da classe operária, apesar das direcções estalinistas. Apesar de Estaline não permitir qualquer oposição real dentro da Internacional, se a Oposição de Esquerda voltasse as costas a esses operários, eles ficariam ainda mais isolados, como queria Estaline. Trotsky acreditava que grandes eventos, dentro e for a da União Soviética, poderiam reerguer as massas e dar à Oposição de Esquerda uma hipótese de crescer rapidamente.

Contudo, Trotsky mudou a sua posição quando Adolf Hitler tomou o poder em 1933 e esmagou as poderosas organizações da classe operária e dos trabalhadores alemães. Face à crescente a ameaça nazi, Trotsky advogou uma frente unida das organizações dos trabalhadores – comunistas e social-democratas. Mas, sob a direcção do Comitern, os comunistas alemães seguiram a política ultra-esquerdista de denunciarem os social-democratas como “social-fascistas” e mantiveram a classe operária dividida, o que permitiu a Hitler chegar a poder.

A pré-conferência da Oposição de Esquerda Internacional, em Fevereiro de 1933, teve lugar apenas uma semana antes de Hitler ser apontado como chanceler alemão, antes de ter consolidado a sua vitória e quando a Oposição de Esquerda ainda esperava que a classe operária alemã resistisse aos nazis, mesmo que isso levasse a uma guerra civil. Mas os estalinistas alemães mostraram uma falência política completa e Hitler pouco depois esmagou, com facilidade, o movimento operário.

Para Trotsky, a destruição da classe operária alemã sem combate assinalou o colapso da IIIª Internacional e a adopção pelos dirigentes estalinistas de uma politica consciente de contra-revolução. Quando os líderes do Comitern declararam que a sua política na Alemanha tinha sido impecável e proibiram qualquer debate entre comunistas sobre o assunto, o que foi seguido docilmente, Trotsky declarou:

“Uma organização que não tenha sido acorda pelo trovão do fascismo… está morta e não pode ressuscitar”

Para o resto de sua vida, Trotsky trabalhou na difícil tarefa de reunir as forças duma nova internacional. Ele não tinha dúvida nenhuma sobre as questões em jogo e do seu papel histórico:

“Acho que o trabalho em que estou envolvido neste momento, apesar do seu carácter extremamente insuficiente e fragmentário, é o trabalho mais importante da minha vida … agora o meu trabalho é a mais “indispensável” no sentido pleno da palavra … levar a cabo a missão de armar uma nova geração com o método revolucionário “. (Diário do Exílio)

A ruptura com o Comitern

Depois da vitória de Adolf Hitler, a Oposição de Esquerda concluiu, em Agosto de 1933, que mais esforços para regenerar ou reformar o Comintern eram fúteis. A Oposição de Esquerda deixou de ser uma facção do Comintern e tornou-se um movimento independente no sentido da criação de uma nova internacional e novos partidos revolucionários em todo o mundo. Para traduzir esta mudança, mudou o seu nome para a Liga Internacional Comunista (Bolchevique-Leninistas). A LCI também chegou à conclusão de que seria necessária uma “revolução política” na União Soviética para derrubar a burocracia estalinista e para restaurar uma real democracia dos trabalhadores.

Para reunir as forças necessárias para o lançamento de uma nova internacional, em circunstâncias extremamente difíceis, Trotsky viu-se para vários partidos de esquerda centristas que tinham sido repelidos pela política estalinista na Alemanha e tirou algumas lições. A Declaração dos Quatro, assinada em Agosto de 1933, entre a Oposição de Esquerda Internacional e outras organizações de esquerda (o SAP alemão, e partidos holandeses OSP e o DER), foi um exemplo desta orientação. A Declaração proclamava a necessidade de uma nova internacional e os novos partidos revolucionários. Os resultados da respectiva declaração para a LCI foram mínimos. O SAP alemão deslocou-se para a direita e denunciou a Declaração. Os partidos holandeses fundiram, tornando-se no RSAP e uniram-se à LCI, mas posteriormente divididos sobre a guerra civil na Espanha, apesar da oposição da juventude do RSAP, este saiu da Quarta Internacional.

A crescente radicalização na Europa Ocidental na década de 1930 levou ao crescimento dos partidos social-democratas, sobretudo com o crescimento da sua juventude e as alas esquerdas. A LCI apelou às suas secções para se orientarem para esses elementos que se deslocavam à esquerda de forma a ganhá-los para a posição revolucionária. Em Outubro de 1934, foi aprovada uma Resolução numa reunião da LCI, que pressionou os camaradas franceses a entrar no Partido Socialista francês. A “viragem francesa” foi, posteriormente, também levada a cabo por outras secções.

Os três anos seguintes à pré-conferência de 1933 foram gastos no estabelecimento de contactos e a reunir quadros dirigentes da Quarta Internacional e ao desenvolvimento das suas posições programáticas. Em Julho de 1936, a LCI patrocinou uma conferência internacional pela Quarta Internacional. Trotsky, então na Noruega, queria que essa conferência fosse a fundadora da Quarta Internacional, mas os delegados discordaram, argumentando que o momento ainda não tinha chegado. Eles estavam apenas dispostos a mudar o nome da LCI para Movimento para a Quarta Internacional.

As possibilidades para o avanço da emergente nova Internacional sofreram um um duro golpe quando a secção espanhola, uma das maiores, rompeu com Trotsky e fundiu com o centrista Bloco Operário e Camponês para formar o Partido Operário de Unidade Marxista (POUM), em 1935. O POUM acabou por participar ao governo espanhol da Frente Popular.

A política do Comintern de frentes populares ou frentes do povo apelou para a alianças entre os partidos de trabalhadores e da ala liberal da burguesia, em nome da luta contra a guerra e o fascismo. Governos de Frente Popular chegaram ao poder na Espanha e na França em 1936. Ao subordinar os interesses independentes da classe trabalhadora aos chamados “capitalistas democráticos”, o frentismo popular levou a classe operária a históricas derrotas sangrentas, abrindo o caminho ao fascismo e à guerra mundial.

A Conferência de Fundação

E, 1936, receando que o exemplo heróico da revolução espanhola inspirasse o ressurgimento da militância de classe na União Soviética, Estaline desencadeou a farsa dos julgamentos de Moscovo e a exterminação de massa da Oposição de Esquerda e dos “velhos bolcheviques” na URSS. “Um rio de sangue separa o Bolchevismo do Estalinismo” notou Trotsky

Foi com o pano de fundo destas derrotas históricas para a classe trabalhadora que o congresso de fundação da IV Internacional (o “Partido da Revolução Socialista Mundial”) realizou-se a 3 de Setembro de 1938 na França. Apenas 21 delegados, representando onze países, reuniram-se em condições de segurança extremamente apertado, com sessões plenárias limitadas a um único dia. Muitas das secções e simpatizantes não puderam comparecer por motivos de segurança. O longo braço da repressão estalinista, no entanto, encontrou o caminho para o congresso, como foi revelado depois que o delegado russo era, de facto, um agente da GPU (polícia secreta).

Bem como a liquidação física da maior secção (a Oposição russa) nos meses anteriores à reunião, o movimento também perdeu figuras proeminentes nas mãos dos agentes estalinistas, inclusive Rudolph Klement, responsável pela preparação da conferência fundadora. Uma tragédia pessoal atingiu Trotsky, quando o seu filho, Leon Sedov, um destacado dirigente da Oposição de Esquerda, morreu num hospital de Paris em circunstâncias que apontavam para um assassinato da GPU.

Os dois delegados polacos ao Congresso apresentaram uma resolução opondo-se à fundação de uma nova Internacional, argumentando que era prematuro. No principal documento do Congresso, “A Agonia Mortal do Capitalismo e as Tarefas da Quarta Internacional” (também conhecido como Programa de Transição), Trotsky respondeu directamente aos cépticos:

“Os cépticos perguntam: Mas o momento para a criação da Quarta Internacional já chegou? É impossível, dizem, criar uma internacional “artificialmente”, podendo ocorrer apenas a partir de grandes eventos, etc, etc A Quarta Internacional já surgiu dos grandes eventos: a maior derrota do proletariado na história…

A assinatura do pacto entre Hitler e Estaline, em Agosto de 1939, conduziu a uma crise politica no seio da secção dos EUA (SWP) da Quarta Internacional, com uma facção, liderada por James Burnham e Max Shachtman, argumentando a necessidade de mudança de posição do SWP de defesa da URSS. Esta minoria, reflectindo a pressão da opinião pública burguesa, questionava sobre a caracterização da União Soviética como um estado operário que necessitava de ser defendido contra o imperialismo apesar da casta burocrática que tinha usurpado o poder. A maioria do centro executivo da Quarta Internacional, que se tinha transferido para Nova Iorque no começo da Guerra na Europa, provou apoiar o grupo de Shachtman-Burnham.

Uma conferência de emergência da Internacional foi convocada para discutir as questões políticas debatidas na sequência do Pacto Hitler-Estaline, para avaliar a natureza e desenvolvimento da Guerra e estabelecer uma direcção coesa e funcional. Trotsky escreveu o Manifesto da Quarta Internacional sobre a Guerra Imperialista para a conferência de emergência de Maio de 1940, o seu último trabalho programático.

Uma nova Internacional

Trotsky previra que a iminente guerra mundial provocaria movimentos revolucionários de massas, que iria mudar a influência da Quarta Internacional. As suas pequenas forças, no entanto, foram duramente atingidas pela condições de guerra, com muitos dos seus jovens militantes mortos quer às mãos do fascismo, quer do estalinismo. O maior golpe sofrido pela jovem Internacional, uma perda inestimável, foi o assassinato de Trotsky, às mãos de um agente estalinista, no México, em Agosto de 1940.

No entanto, o prognóstico político de Trotsky estava, em geral, correctos. A Europa foi varrida por movimentos revolucionários após a Segunda Guerra Mundial e a classe operária poderia ter chegado ao poder em vários países, se tivesse uma liderança digna do nome. Uma revolução bem sucedida em qualquer um país europeu teria marcado o início de uma revolução socialista europeia e mundial, que teria também varreria o estalinismo e reintroduziria a democracia dos trabalhadores na União Soviética. Mas os partidos social-democratas e de comunistas, que tinham uma base de massas e influência entre a classe trabalhadora na Europa, na época, desviaram-se da possibilidade duma transformação socialista, e, assim, salvaram o  capitalismo.

A Quarta Internacional foi incapaz de desempenhar um papel decisivo. Além disso, no período do pós-guerra, não conseguiu tornar-se uma força de massa por causa de uma combinação desfavorável de factores objectivos e dificuldades, em conjunto com os erros cometidos pelos seus dirigentes. Em alguns casos, o Trotskismo tinha um efeito poderoso sobre os movimentos dos trabalhadores, como no Sri Lanka, na América Latina, no Vietname, em França e, na Grã-Bretanha na década de 1970 e 1980, sob a bandeira do Militant[1] (organização precursora do Socialist Party) . A «Tendência Militat  dirigiu a luta do Conselho Municipal de Liverpool, entre  1983 e 86 na luta contra o governo Thatcher e  ao sucesso da luta de massas contra a “Pool-Tax” em 1989-90[2].

O Comité por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT), criado em 1974, desenvolveu rapidamente nos anos 1970 e 1980 e agora tem secções e grupos de cerca de 40 países, em quatro continentes.[3]

Hoje, com o capitalismo mundial na sua mais grave crise desde a década de 1930, há uma gritante necessidade de uma alternativa política de massas da classe trabalhadora.

A tarefa do CIT é ajudar a criar as condições para a constituição de uma tal Internacional. No entanto, isto só é possível na base da aprendizagem com as lições do passado e, sobretudo, a partir das falhas dos anteriores Internacionais.

A criação de partidos de massas, à escala nacional, será um gigantesco passo rumo a uma nova Internacional de massas. Mas não podemos esperar pelo surgimento de tais partidos, antes disso necessitamos de desenvolver os andaimes de uma tal Internacionais no novo período, que se avizinha explosivo. O CIT pode desempenhar um papel fundamental neste processo.


[1] Militant era o nome do jornal marxista à volta do qual os trotskistas ingleses se organizaram no seio do Partido Trabalhista. A luta consequente em defesa das ideias, programa e métodos socialistas levaram à expulsão dos seus militantes que posteriormente fundaram o “Socialist Party“, a secção Inglesa e Galesa do CIT (nota do tradutor)

[2] O “poll-Tax” foi um imposto local que a arqui-reaccionária Margaret Teatcher tentou impor e que estava desenhado para “sacar aos pobres e dar aos ricos”. A luta dinamizada pelo Militant, levou a uma campanha de desobediência civil em que 18 milhões de contribuintes se recuaram a pagar o imposto, com muitas centenas a serem presas. Marcou o fim da era Teatcher.

[3] . (Ver: Um Mundo Socialista é Possível – História do CWI, por Peter Taaffe, disponível no www.socialistworld.net (em inglês) para mais sobre o motivo pelo qual Trotsky original da concepção da Quarta Internacional não ter tido sucesso, e para obter detalhes sobre as origens e desenvolvimento da CIT.)