Um bilião de dólares derretido

Economia mundial: Uma crise prevista

Cometário ao livro The Trillion Dollar Meltdown, de Charles R Morris, por Lynn Walsh, Editor de Socialism Today, revista mensal do Socialist Party (CIT Inglaterra e Gales), Traduzido da versão castelhana de Luis Montilla, Espanha.
Na reunido anual da Société Générale, realizada a 27 de Maio, accionistas irritados quixaram-se das movimentações para converter o banco num casino. A SocGen obteve 50.000 milhões de euros (79.000 mil de dólares) de prejuízo como resultado das actividades do “negociante de topo “, Jérôme Kerviel. Contudo, para os accionistas, Kerviel foi apenas um bode expiatório, o produto de a actividade especulativa do banco.
A economia capitalista, no conjunto, especialmente nos EE.UU. e na Inglaterra, assemelha-se cada vez mais a um casino. O sector financeiro representa, na actualidade à volta de 50% dos lucros empresariais. O sector sombrio bancário, composto por um punhado de “fundos de cobertura” (fundos de investimento livre, de risco, ou hedge funds) não regulamentados e bancos de investimento, hoje representa mais da metade de todo o crédito, enquanto que os bancos tradicionais, bancos de retalho estão mais e mais embrulhados em acções especulativas através da actividade não regulada “fora de balanço”.
O sector de crédito foi o sector que cresceu mais rápido na economia mundial desde 1980. No princípio desta década, o total de activos financeiros (acciones, obrigações, empréstimos hipotecas, etc.), todas relacionadas com coisas reais (propriedades, empresas, etc.) foi aproximadamente igual ao produto interior bruto mundial (PIB). No final de 2005, eram o equivalente a 3,7 vezes o PIB mundial, por outras palavras, relacionada não só com a produção deste ano mas também com a maior parte da produção dos próximos três anos. No princípio da década de 1980, os derivados financeiros (créditos sobre instrumentos financeiros) estavam apenas a começar a desenvolver-se. Em 2005 o seu valor nominal total representou três vezes o total de activos financeiros e 10 vezes o PIB mundial. Durante os últimos três anos, o sector financeiro cresceu, sem dúvida, mais do que a economia real que é a produção de bens e serviços (não financeiros).
As finanças foram promovidas em todos os aspectos pela política e legislação governamental, com uma desregularização das actividades do sector financeiro e uma política fiscal favorável. Com tipos de juros historicamente baixos (negativos em termos reais, para mais de 31 meses depois de 2000) que proviam aos grandes jogadores dinheiro fresco. Cada vez que havia uma ameaça de instabilidade, Alan Greespan, e agora Ben Bernanke (anterior e actual Governadores da Reserva Federal, o banco central dos EUA, nota do tradutor português) responderam com novas injecções de liquidez.
A principal actividade dos bancos de investimento e dos “fundos de riso” é comprar e vender dívida entre eles próprios (com lucro em cada transacção). Isto supõem, indubitavelmente, uma forma de jogo de azar levada a cabo à custa da maioria da população, que redistribui a riqueza da maioria da população pelos ricos, e a dos ricos para os super ricos. Entre 1980 e 2005, a décima parte dos maiores contribuintes norte americanos aumentaram a sua base tributável de 34% para 44%. Mas os maiores ganhos foram para a centésima parte de 1% da população, que aumentou a sua quota de ganhos de 9% para 19%. A centésima parte desse 1% (15.000 contribuintes) teve, em média, ganhos de 26 milhões de dólares depois dos impostos!
Essas tendências estão bem analisadas na “O derreter de um bilião de dólares”. Charles Morris é um antigo banqueiro que fez a sua carreira no sector financeiro norte-americano.

Conhece, sem dúvida, como funciona o sistema e dá um claro e conciso relato da infra-estrutura financeira e do seu funcionamento interno, assim como uma descrição rápida do desenvolvimento da economia norte americana nos últimos 25 anos.

Se queremos saber como funcionam os CDOs (Obrigações de Dívida Colaterales- Colateralisadas, Debt Obligations), CDSs (Derivados de Crédito – Credit Default Swap), CMBSs (títulos comerciais suportados por hipotecas – Commercial Mortgage-Backed Securities) e uma séria de outros instrumentos financeiros, este é o livro a ler. Morris não é um anti-capitalista, mas livro serve como excelente documento para a acusação do capitalismo financeiro contemporâneo.
Morris viu chegar a crise. O seu livro foi publicado em Novembro de 2007, mas antecipa o desenrolar da crise bancária que continua nos nossos dias. Entendeu que a criação de dos créditos “livres de risco” através de uma série de instrumentos financeiros exóticos era uma ilusão perigosa. Mais tarde ou mais cedo, os empréstimos de alto risco, os “toxic waste” (lixos tóxicos) ocultos em vários CDOs, voltariam e atingiriam os bancos que tinham tentado passar essa dívida através da securitação. Em consequência, a partir de Junho de 2007, o banco de investimentos Ber Stearns foi forçado a encerrar os seus fundos de risco que participavam no mercado hipotecário subprime, a grande avalancha começou e ainda contínua.
Mas a crise das hipotecas subprime está apenas a começar. Morris estima o total dos prejuízos das subprime em 450.000 milhões de dólares, o que muitos comentaristas consideram uma cifra baixa. Mas ele estima um prejuízo potencial superior a 345.000 milhões de dólares da divida das empresas, principalmente de diversos tipos de obrigações de alto rendimento (junk bonds- lixo) e outros instrumentos financeiros parecidos. Além disso, poderão haver 215.000 milhões de dólares de prejuízos dos valores de dívida dos cartões de crédito e CMBSs vinculados ao desenvolvimento da propriedade comercial. Todo isto soma 1 bilião de dólares “derretidos”.
No entanto isto não inclui nenhuma estimativa das percas potenciais CDSs, uma forma de derivados usados para assegurar uma ampla gama de outros valores por falta de pagamento. Esses instrumentos só se desenvolveram recentemente, mas têm um o incrível valor nominal de 45 biliões de dólares. Morris considera os CDSs como um risco inerente (partes das transacções, se uma das partes se tornar insolvente, serão forçadas a não cumprir as suas obrigações), ameaçam prejuízos colossais no caso de uma queda deste sector. Os valores predeterminados por defeito no próprio mercado de intercâmbio dariam lugar a gigantescas depreciações no valor dos títulos previamente assegurados pelos CDSs. “Em resumo, enfrentaríamos uma trombose completa do sistema de crédito que poderia fazer do problema das hipotecas subprime seja visto como um passeio no parque. Inclusive, não tem sentido tentar estimar a magnitude dos prejuízos”.
Inclusive a previsão de um bilião de dólares de prejuízo é prudente. Supõe uma “correcção ordenada” dos mercados financeiros. Uma crise caótica, convulsiva, um desastroso colapso do sistema financeiro, poderia produzir prejuízos até 3 biliões de dólares. Isto é similar à estimativa das potenciais percas financeiras apresentada por Nouriel Roubini, desvalorizadas por muitos analistas como absurdamente altas.
Evidentemente, prejuízos entre 1 e 2 biliões de dólares significariam uma importante crise financeira e económica. Contudo Morris também teme que os capitalistas financeiros tentem ocultar os seus prejuízos na medida do possível, adiando o cancelamento dos activos valor e evitando a liquidação que poderia levar a uma queda caída dos mercados financeiros. Isso, diz Morris, é o que fez o capitalismo japonês quando eclodiu a sua bolha de activos no final da década de 1980: “Um colapso proporcionalmente na mesma escala que a actual, e com características similares… em que não se fez frente aos problemas, dada a rede de políticos e banqueiros envolvidos. E quase 20 anos depois, o Japão ainda não recuperou “.
Morris não vê uma saída fácil, mas um cenário com uma aterragem difícil, uma combinação de um colapso creditário com recessão económica. A bolha imobiliária norte americana, um factor importante no recente crescimento da sua economia, foi produzida pelo surgimento massiva de créditos relativamente fáceis, especialmente os créditos subprime. A queda do pique imobiliário já tinha começado a corroer o consumo, a principal força impulsionadora do crescimento norte-americano. O capitalismo dos Estados Unidos deslizou para a recessão
Já houve uma enorme ronda de depreciações no sector hipotecário das subprime, o que representa enormes prejuízos para os bancos de investimento. Contudo, há poucos sinais de alívio do custo do crédito. È impossível prever até onde isto chegará. Mas a previsão de Morris dos finais do ano passado pode confirmar-se: “O cenário é propício para um verdadeiro choque e pavor, com um aumento das depreciação dos activos por toda a maior parte de 2008. A generalização dos CDSs, sobretudo nos fundos de risco de crédito, forçará à venda das contas à margem. As depreciações requereriam desinvestimentos nos fundos de pensões e nas companhias de seguro que violam as regras das empresas de investimento. Os titulares das maiores tranches de CDO liquidaram esses seus activos como dissolução da protecção de crédito, já que tem o direito a fazê-lo. Acrescentar a isto os ligeiros maus resultados dos monolines nos mercados de seguros de crédito, e o sistema financeiro global será uma catástrofe”.
Analisando a crise actual, Morris diz: “Espanta que tenhamos cegado a este ponto”. Ele descreve habilmente as causas aproximadas: a inundação de créditos baratos, desregularização dos mercados financeiros, os desenvolvimentos informação e telecomunicações, que facilitam o desenvolvimento da titularização e do comercio mundial. Mas os excessos da bolha económica atribuem-se simplesmente à excessiva oscilação do pêndulo do período pre-1980-liberal-keynesianista o mercado, consenso monetarista do período seguinte. Mas quais foram as forças económicas e sociales subjacentes a essas tendências?
Morris refere-se à oscilação do ciclo político/ideológico, desde o paradigma keynesiano/liberal das décadas de 1960 e 1970 à Escola de Chicago (mercado ultraliberal) de capitalismo financeiro que se desenvolveu nos começos da década de 1980. Houve indubitavelmente uma mudança político-ideológica da classe governante. Mas Morris não tenta de juntar a sua explicação a uma análise à mudança da correlação de forças das classes e das dinâmicas da produção capitalista.
O crescimento do pós-guerra, de acordo com Morris, desvaneceu-se por causa de um excesso de intervenção governamental e da regulação. Elogia a política adoptada pelo Governador Reserva Federal, Paul Volcker, que em 1980 retirou a inflación para fora do sistema e iniciou um período de taxas de juro positivos (por algum tempo, altos). Isso favorecia os banqueiros e instituições de crédito. As mudanças da era Reagan, incluindo a total desregulamentarização de finanças (continuado por Clinton), abriu o caminho para o auge da economia norte-americana, em meados da década de 1990, como a história da “Menina dos Caracóis de Ouro e dos Três Ursos” (“nem muito quente, nem muito frio “). Contudo, Morris reconhece que a redução da inflação dos preços ao consumo foi acompanhada pelo aumento da inflação dos preços das acções. A classe capitalista acumulou cada vez mais dinheiro e procurou o lucro através da especulação financeira.
Esta evolução, contudo, reflectiu mais que a nova tecnologia e uma mudança governamental. A queda da produtividade e nos lucros no final do crescimento económico do pós-guerra reflectiu o facto de que o capitalismo, restringido pela propriedade privada das forças de produção e no marco do estado-nação, está a chegar aos limites da sua capacidade para desenvolver as forças produtivas. Cada vez mais, os capitalistas abandonam a actividade produtiva para se virarem para a especulação financeira. Durante a época de 1980 e 1990, os capitalistas aumentaram os seus lucros através da intensificação da exploração da classe trabalhadora, enquanto que ao mesmo tempo o investimento de capital caiu para níveis históricos. Uma das características da recente bolha foi o enorme superávit monetário de muitas empresas, desviado através da remuneração e das opções sobre acções dos executivos de topo ou distribuído aos accionistas sob a forma de dividendos ou recompra de acções. “Os lucros foram muito altos durante a maior parte da década de 2000 e os gastos de capital foram suaves…” Este excesso de lucros não investidos é uma das principais fontes de dinheiro que fluiu no sector financeiro. Ao mesmo tempo, os excedentes dos grandes exportadores como a China, o Japão ou os países exportadores de petróleo foram também canalizados para os mercados financeiros centrados nos países capitalistas avançados.
Morris refere-se à “extrema importância dos serviços financeiros no crescimento económico de Estados Unidos” como um factor chave em muitos dos assuntos que se descrevem. Mas esta é uma crise orgânica subjacente de acumulação capitalista que explica em última instancia o desenvolvimento da bolha económica e os seus grotescos excessos.

O “fanatismo anti-regulamentar” dos últimos 25 anos foi demasiado longe, diz Morris. Como que alguns outros estrategas da classe dominante nos últimos meses, chegou a rejeitar a ideia de que os mercados têm sempre razão, que resolveram qualquer problema. A crise subprime (depois de toda uma série de crise financeiras e escândalos) está a minar a credibilidade do sistema de mercado norte-americano. Os recentes acontecimentos podem representar o “último suspiro” do rude mercado da escola de Chicago, a marca do capitalismo financeiro…” A restrição da função do governo, diz, foi demasiado longe: “O sector público nacional nos Estados Unidos empobreceu e corrompeu-se, e estamos a pagar um preço por isso…Necessitaremos de restabelecer um certo equilíbrio. A primeira prioridade será restabelecer uma supervisão efectiva sobre o sector financeiro”.
“A minha crença pessoal é que a mudança na década de 1980, de um governo centrado no estilo de gestão para um mais impulsionado pelos mercados, foi um factor decisivo na recuperação económica da América nos anos 1980 e 1990. Mas a amplitude da queda financeira actual sugere que chegámos ao ponto em que o dogmatismo de mercado converteu-se num problema, em vez de ser uma solução. E depois de um quarto de século, é hora do pêndulo oscilar na outra direcção “.
Historicamente, contudo, a transição de um período para outro, não sucede suavemente, como na oscilação do pêndulo. Não se trata simplesmente duma questão da classe capitalista abandonar um paradigma ideológico/político e adoptar outro. Os estrategas do capital realmente não têm nem a ideia de como encontrar uma saída. Os governos capitalistas retroceder para a ideia da regulação, mais isso não consertará o sistema, que está organicamente doente. Uma importante crise internacional no capitalismo produzirá acontecimentos convulsivos e agitação. E os governos capitalistas confrontar-se-ão com revoltas de massas da classe operária e demais trabalhadores, de camponeses pobres e dos despojados e excluídos que estão a ser empobrecidos pela super-exploração do capital financeiro.

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