A Crise que aí vêm… (I) $4.5 triliões de dólares

Economia Mundial – $4.5 triliões de dólares evaporados dos mercados bolsistas num mês.
A implosão da bolha de créditos secundários de hipotecas torna-se global.

Laurence Coates
do Rättvisepartiet Socialisterna, (Partido da Justiça Socialista)
Comité por uma Internacional dos Trabalhadores na Suécia

Até que ponto é séria a turbulência nos mercados bolsistas e financeiros ? Poderão as intervenções do bancos centrais, como a da Reserva Federal do EUA ao baixar a taxa de juro, na passada Sexta-Feira (17 de Agosto), restaurarem a calma? Comentado essa intervenção da Reserva Federal, o Telegraph, (Londres, 19 de Agosto) advertia que o mundo continua a defrontar-se com “ a mais séria crise financeira desde o colapso global dos preços das acções em 1987”.
Por detrás do tumulto nos mercados bolsistas está o que o Washington Post chamou de “uma crise total de crédito e liquidez” provocado pela implosão da bolha de hipotecas nos EUA e em particular no sector de alto risco do mercado secundário de hipotecas. O enorme crescimento do mercado secundário de hipotecas – empréstimos a compradores de habitação com maus historiais de crédito ou com níveis de dívidas excessivos – resume tanto a loucura como o parasitarismo sem restrições do capitalismo moderno.
Nós, socialistas, somos partidários de um sector de habitação de propriedade pública, e sob controle público para garantir habitação decente e com rendas baixas , em vez do actual mercado imobiliário, impiedoso, que toma as suas vítimas entre as familiares dos trabalhadores com poucas opções senão o endividamento por toda a vida.
Enquanto a bolha dos empréstimos à habitação crescia nos últimos seis anos, o mercado secundário de hipotecas crescia como um gigantesco esquema piramidal totalizando mais de 1.300 biliões de dólares ou cerca de um oitavo dos empréstimos total para habitação nos EUA.
A explosão da bolha imobiliária no ano passado levou os bancos e os fundos de investimento de risco , que fizeram enormes lucros da loucura dos sub-prime, a terem enormes perdas. Os fundos de investimento de risco, são companhias de investimento com muito secretismo que exercem uma influência decisiva sobre o mercado financeiro global, representando um terço de todas as transações de valores de Wall Street.
Devido a uma engenharia financeira sem precedentes, as dívidas do mercado secundário de hipotecas e de outras formas de “lixo” financeiro (finantial junk), foram “embrulhadas” e vendidas como “activos” a bancos e fundos de investimento de todo o mundo, operando na ilusão de , como os empréstimos estavam baseados nos EUA eram uma aposta segura. O resultado é o equivalente financeiro da doença das vaca loucas – com as carcaças contaminadas do sub-prime a espalharem-se pela cadeia alimentar global. Ninguém sabe onde ou quando ocorrerá a próxima infecção.
Uma onda de colapsos de fundos de risco – aproximadamente um por dia – abalou o sistema financeiro global, começando com o colapso dos fundos Bear Sterns de New York, em meados de Junho. A este seguiu-se erupções na Austrália, Gra Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Japão, Holanda e Suíça.
“É como grãos de milho num caçarola a aquecer”, disse o director de um fundo de riscos de New York. “Primeiro saltam um grão ou dois, mas depois é uma cacofonia.”
Cada novo colapso ou assinalamento de um fundo provoca um novo ataque de pânico nos mercados bolsistas, onde os próprios fundos de risco somam uma grande participação nas operações diárias. Se, há uma década atrás, os fundos de risco eram amplamente periféricos, hoje em dia estão no centro do sistema financeiro global, quase todos os bancos importantes estabeleceram os seus próprios fundos de risco para ganharem uma fatias dos lucros gerados. Todo o impacto desta situação ficou patente a 8 de Agosto com as frenéticas ondas que atingiram o BNP Paribas, o maior e mais conhecido banco comercial francês, quotado na bolsa, como resultado dos biliões de euros perdidos no mercado secundário de hipotecas em 3 dos seus fundos de risco. Na Alemanha, em finais de Julho, o Governo de Merkel viu-se obrigado a organizar um resgate de $4.8 biliões de dólares para o IKB Deutsche Industriebank, um banco de tamanho médio. Apenas dez dias antes da operação de resgate, o IKB tinha anunciado que praticamente não seria afectado pela sua exposição nos mercados secundários.


Colapso do crédito
Um colapso do crédito ou crise de liquidez significa que os bancos e outros emprestadores de dívidas de “alto-risco”, negam-se a fazer novos empréstimos. Nas últimas semanas os principais bancos têm estado a recusar emprestar inclusive uns aos outros, através do chamado mercado inter-bancário que lubrifica as rodas do sector financeiro. Isso explica a injecção massiva de liquidez pelos bancos centrais, liderados pelo Banco Central Europeu na Europa, que bombeou 204 biliões de euros adicionais na última quinzena. A Reserva Federal, dos EUA, e os bancos centrais no Japão, na Austrália e noutros mercados regionais, seguiram a medida com injecções de crédito mais pequenas mas ainda assim consideráveis. Até agora, contudo, estas medidas fracassaram excepcionalmente em restaurar a estabilidade nos mercados financeiros.
“As pessoas estão a perder a fé no crédito, e por isso a economia está a contrair-se,” sublinhou o patrão de fundos de risco, Barton Biggs.
As quedas acumuladas dos maiores mercados de valores desde a erupção da crise em Julho são mais de 10%, a definição oficial de uma “correcção”. Esta fez evaporar a assombrosa soma de 4.5 triliões de dólares dos mercados globais de valores em quatro semanas. Apenas na semana passada (13-17 de Agosto), a queda do índice Dow Jones foi de quase dez por cento, ao passo que o índice de acções Topix de Tóquio caiu 9.4 por cento. O índice FTSE de Londres veio-se abaixo em 12.5% e o DAX alemão 9.9% num mês. Alguns mercados “emergentes” mais pequenos sofreram quedas maiores– 21% na Indonésia e 17% no Brasil. O mercado bolsista na China, que ainda continuam encerrado ao mundo exterior, continua coma a sua própria lógica de bolha e, empurrado pela sua própria lógica de bolha, segue conra a corrente, aumentando 25 % no mesmo período.
Alguns analistas em Wall Street estão a fazer paralelos com a “Segunda Feira Negra” de 1897, a pesar de então a liquidação foi muito mais abrupta – o Dow Jones caiu 22% numa sessão de negócios.
Ainda assim, a turbulência do mercado fez estremecer a confiança irracional da classe capitalista e a sua crença que o mundo estava a chegar a um novo “super ciclo” de expansão global prolongada.
“Dizem que uma lâmpada torna-se mais brilhante mesmo antes de queimar-se”, notou o Mercurio de San José (19 de Agosto). “O índice Dow Jones encerrou com 14.000 em 19 de Julho, o mais alto recorde de todos os tempos, mas por detrás desta marcha triunfante, as fundações estavam roídas.”
Bernanke o salvador?
Na quarta-feira 17 de Agosto o FED (Reserva Federal, o Banco Central dos EUA) diminuiu a sua taxa de desconto, isto é, o custo que pagam os bancos a outras instituições financeiras. Ainda que os mercados financeiros se tenham alinhado imediatamente, recuperando algumas das suas percas dos dias anteriores, iniciou-se um furioso debate sobre o porquê do FED estava a lançar bóias aos bancos e fundos de risco– os arquitectos da crise dos mercados secundários de hipotecas – ai mesmo tempo que a taxa de juro sobre milhões de proprietários de habitações hipotecadas permaneciam inalteráveis.
A acção do FED sublinha a profundidade da crise actual. Somente dois dias antes um funcionário do FED tinha declarado que apenas uma “calamidade” faria com que o FED implementasse uma redução das taxas de emergência. Há um temor crescente que o fogo nos mercados secundários possa provocar bancários, e muita gente pergunta “Que é que sabe Bernanke que nós não sabemos?”
Outro risco, igualmente sério, é que uma rápida caída nos preços de activos inflacionados (acções ou outros instrumentos financeiros, mas também propriedades) e os níveis crescentes de endividamento tenham impacto sobre os gastos dos consumidores e empurre a economia para a recessão.
Isto foi assinalado detalladamente pelo Comité dos Mercados Abertos da Reserva Federal como justificação da redução de taxas na quinta-feira : “As condições do mercado financeiro deterioraram-se, e as condições de restrição ao crédito e uma maior incerteza têm o potencial para travar o crescimento económico.”
É possível que a FED tenha actuado porque uma das mais importantes empresas financeiras dos EUA estivera perto do colapso. Uma suspeita recai sobre a Countrywide Financial, a maior emprestadoras de créditos para habitação norte americana, que detêm um em cada seis empréstimos para habitação. Sublinhando o facto de que o contágio dos mercados hipotecários está a estender-se, Countrywide têm relativamente pouca exposição aos créditos secundários de hipotecas e até há poucas semanas atrás estava considerada um dos “jogadores mais sólidos” no sector hipotecário de EEUU. As acções da companhia desfizeram-se em 25 por cento a semana passada.
Assim sendo, a acção da FED, terá conseguido deter a caída em vertical dos mercados globais? Sobre este ponto há não pouco pessimismo entre os actores financeiros.
“A minha recomendação é não entrar em pânico. Mas vai haver umas poucas semanas difíceis nos mercados,” declarou um importante director de Fundos da City de Londres ao The Independent, no Domingo (19 Agosto).
Fiasco das hipotécas secundárias
O crescimento do sector de hipotecas secundarias foi o ingrediente chave na bolha do crédito de habitação – crescimento anormal de um sector económico – provocada pelas políticas da FED como sequela da quebra das empresas de novas tecnologias dot.com com em 2000-01, onde as taxas de juro foram reduzidas às mais baixas dos últimos 40 anos. Um fluxo de crédito barato provocou políticas de empréstimo loucas por parte das companhias financeiras dos EUA, em busca de mercados de lucro rentáveis. De alguma forma isto tinha semelhança da forma como os bancos ocidentais pressionam os países pobres nos anos 70 para que aceitassem enormes empréstimos em condições fáceis, que logo fracassaram massivamente na forma da “Crise da Dívida do Terceiro Mundo “. Ao mesmo tempo que crescia a bolha imobiliária, as companhias financeiras desenvolveram esquemas loucos para convencer e pressionar a secções cada vez mais amplas da população dos EUA para contrair mais dívidas. Uma dessas estratégias foi a dos “empréstimos Ninja” para pessoas que contraiam empréstimos “sem rendimentos, sem emprego e sem bens” ( do inglês “No INcome, no Job or Actives”!
Quando explodiu a borbulha do imobiliário, nos finais de 2006, os preços das casas começaram a cair e a morosidade dos empréstimos disparou a níveis recorde. O ano passado, mais de um milhão de norte americanos perdeu a sua habitação por execução de hipoteca. Pelo menos 70 companhias hipotecárias entraram na bancarrota ou colocaram-se à venda, o que provocou um efeito dominó que ainda está a decorrer no mercado financeiro.
Ainda que o sector de hipotecas secundárias seja significativo em si mesmo, há crescentes provas que a crise está-se a estender às hipotecas norte-americanas “de primeira”. Nas últimas semanas houve pedidos de socorro de varias companhias que transaccionam com empréstimos “jumbo”, assim chamados porque superam o nível de $417.000 dólares que companhias patrocinadas pelo governo como Freddie Mac comprariam.
“Feito na América”
Na era da globalização capitalista com uma interligação sem precedentes dos mercados financeiros, a crise actual não pode circunscrever-se aos EUA. A prática de “securitização “2 especialmente, mediante a qual pequenas participações de hipotecas secundarias e de outras dívidas de alto risco foram re-embaladas e vendidas a bancos e companhias de seguros em todo o mundo sob a forma de produtos financeiros complexos tais como obrigações de dívida colatariazadas (CDOs), agravou enormemente a situação. Até há poucas semanas esta mezinha financeira entusiasmava os economistas capitalistas que defendiam que ela dispersaria – e por tanto diminuiria – o risco financeiro.
A verdade é que, em vez de diminuir o risco, a dispersão global teve o efeito oposto como se verifica agora. Os fundos de risco transformaram-se nos transportadores do vírus das hipotecas secundárias a cada recanto do sistema financeiro global.
Como explicou The International Herald Tribune (6 de Agosto), “Este ciclo curativo vai levar muito mais tempo porque não está concentrado no sistema bancário como foi nos anos 90”.
A falta de transparência e regulação no que concerne aos fundos de risco e mercados derivados significa que as autoridades, mas também as administrações dos Bancos e de fundos, agora estão a trabalhar às cegas, sem capacidade de calibrar, em toda a sua extensão, o “contágio” financeiro da combustão das hipotecas secundarias. Por sua vez, isto fez aumentar a aversão a todo o risco dentro do sistema bancário – inclusive face a produtos financeiros não ligados a empréstimos de hipotecas secundárias.
Ponto de viragem
Sem dúvida que estes acontecimentos marcam um importante ponto de viragem para a economia capitalista global, assinalando o fim da era do crédito barato – pelo menos nos EUA e na maioria dos países da Europa Ocidental – que alimentou o crescimento económico global desde 2001. Juntando as reservas de intercambio internacional de moeda e a base monetária dos EUA, o volume global de dólares aumentou a uma taxa média sem precedentes de cerca de 18% nos últimos 4 anos, de acordo com o The Economist (8 de Fevereiro de 2007).
Como advertiram repetidamente os marxistas e alguns dos comentadores capitalistas mais conscientes, esta maré de liquidez criou desequilíbrios insustentáveis na economia global – a enorme disparidade do valor das moedas, balanças comerciais e níveis de investimento, especialmente entre as economias capitalistas mais antigas de Ocidente e as potências económicas emergentes da Ásia. Também entre cada economia nacional há disparidades extremas uma vez que a participação dos salários no produto na maioria dos países caiu significativamente como consequência das políticas neoliberais – subcontratação, precarização e desregulação. Isso produziu lucros sem precedentes mas também uma dependência maior que nunca do endividamento para evitar um colapso do consumo.
Dez anos depois da crise asiática que mostrou aos lideres hipócritas norte americanos e ocidentais dando lições aos governantes e às massas asiáticas de como o seu tipo de capitalismo era gastador, não rentável e opaco, os bancos ocidentais e o governos ocidentais, com pouco dinheiro, podem ser forçados a uma dependência ainda maior dos “bolsos profundos” do sector bancário asiático, na sua maioria controlado pelo estado, para manterem-se acima da linha de água. Isso provocará agudos conflitos quando fundos avaliados por governos entrem nas economias ocidentais não somente como credores mas, cada vez mais, como compradores em busca de ganhos entre os escombros do mercado de valores.

Ainda que a velocidade e a profundidade da crise continue a ser uma pergunta em aberto, o estreitamento da liquidez global que está em curso terá importantes consequências em todo o espectro económico desde os preços (ainda inflacionados) dos activos, ao consumo e ao investimento. Uma contracção do consumo nos EUA reverberá à volta do mundo, reduzindo a procura de exportações chinesas e de outros exportadores asiáticos e provocará um aumento do proteccionismo comercial.
Os analistas globais, como o FMI, de momento, continuam aferrados às suas previsões optimistas de um robusto crescimento económico global de 5.4 % para 2008. Em particular, esperam que continue o crescimento acelerado na China, Índia e outros estados asiáticos. Mas em dado ponto a explosão das bolhas da habitação e dos activos e o estreitamento do crédito, terão impacto inclusive nessas regiões da economia global que na actualidade tem taxas de crescimento mais rápidas. Como assinalou o porta-voz do Primeiro Ministro de Singapura, “o principal risco negativo é a probabilidade dos problemas actuais no mercado de crédito norte americano se expandam a outros mercados financeiros.”
Inclusive se os bancos centrais estão a começar a reduzir as taxas de juro novamente, não há garantia que as condições de crédito melhorem se o sistema financeiro está sobrecarregado com – ainda não declarados – créditos mal parados. Depois do estoiro da sua bolha de propriedades e activos em 1990, o capitalismo japonês experimentou mais de uma década de estagnação económica, apesar do Banco do Japão (BoJ) ter rebaixado as taxas de juro a 0%.
Como predisse um analista: “Tudo o que o governo pode fazer é adiar o dia do juízo final imobiliário, não o podem deter. O mercado imobiliário norte- caminha para uma séria quebra, tal como os restantes mercados imobiliários por todo o mundo.”

[1] Créditos sub-prime
[2] Consolidação (como empréstimos hipotecários) e venda a outros investidores para revenda ao público sob a forma de bónus ou valores.
[3] Empréstimos marginais são empréstimos para adquirir acções ou valores.

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