ESTRATÉGIA E TÁCTICAS DA LUTA DE CLASSES

Por Karl Marx e Frederik Engels (Rascunho inicial de Engels, 17-18 de Setembro de 1879

Uma Carta de circulação privada de Marx e Engels para a direcção da Socialdemocracia Alemã — Bebel, Liebknecht, Fritzsche, Geiser, Hasenclever, Bracke

Esta carta é em grande parte em resposta ao artigo escrito em Agosto de 1879 por Hochberg, Eduard Bernstein, e Carl August Schramm, intitulado “Retrospectivas sobre o Movimento Socialista na Alemanha “.

O artigo da revista advogava a transformação do Partido Socialdemocrata Alemão de um partido revolucionário numa plataforma reformista.

É um fenómeno inevitável, bem estabelecido no decurso do desenvolvimento, que pessoas vindas da classe dominante também se juntem ao proletariado e lhe forneçam com elementos cultos. Isso já nós tínhamos declarado claramente no Manifesto. No entanto, tem de ser feitas duas notas:

PRIMEIRO, tais pessoas, para que sejam realmente úteis ao movimento proletário, têm de trazer com elas elementos realmente educados. Contudo, isto não é o caso da grande maioria dos burgueses alemães convertidos. Nem o “Zukunft” [revista quinzenal de Berlim] nem o “Neue Gesellschaft” [jornal mensal de Zurich] deram nada para que o movimento avançasse um passo. São completamente deficientes em material real, factual ou teórico. Em vez disso, fazem esforços para harmonizarem ideias socialistas superficiais com variados pontos de vista que os senhoras das universidades, ou de outros lados lhes trazem, e entrte os quais cada um é mais confuso que o outro graças ao processo de decomposição em que se encontra a filosofia alemã actual.

Em vez de aprenderem em primeiro lugar afundo a nova ciência [Socialismo Científico], cada um baseia-se mais no seu próprio ponto de vista, fazendo um atalho para a sua ciência pessoal, e imediatamente avança com pretensões de ensinar a sua ideia. Portanto há entre esses senhores tantos pontos de vista como as suas cabeças; em vez de clarificar alguma coisa, eles apenas produzem uma notória confusão – felizmente, que sempre apenas eles próprios. Tais elementos cultos, cujos princípios de orientação são ensinar aquilo que não aprenderam, o partido pode bem dispensar

SEGUNDO, quando tais pessoas vindas de outras classes se juntam ao movimento proletário, a primeira exigência que se lhes deve fazer é que não tragam com eles nenhuns resquícios de preconceitos burgueses, pequeno-burgueses, etc., mas que assimilem irreversivelmente o ponto de vista do proletariado. Mas esses senhores, como se tem visto, aderem esmagadoramente a concepções pequeno-burguesas. Num país tão pequeno-burguês como a Alemanha, certamente que tais concepções têm a sua justificação, mas apenas “fora” do Partido Operário Social Democrata. Se os senhores querem construir um partido socialdemocrata pequeno-burguês têm todo o direito de o fazer; depois poderemos negociar com eles, estabelecer acordos, conforme as circunstâncias. Mas num partido operário eles são um elemento falsificador. Se há motivos que nos forcem a necessitar deles é um dever apenas tolerá-los, não lhes permitir nenhuma influência na direcção do Partido e manter presente que uma ruptura com eles é apenas uma questão de tempo.

Em qualquer caso, parece ter chegado a altura.

Para nós é inconcebível como é que o Partido ainda pode tolerar no seu seio os autores de tal artigo [Hochberg, Bernstein, Schramm]. Se a direcção do Partido cai mais ou menos nas mãos de tal gente, o partido irá simplesmente castar-se e definhar, e com ele a ordem proletária.

Naquilo que nos diz respeito, depois de todo o nosso passado, apenas temos um caminho. Durante quase 40 anos realçamos a importância da ideia da luta de classes como a força condutora imediata da história, e particularmente a luta de classes entre a burguesia e o proletariado como a grande alavanca de revolução social moderna; assim sendo dificilmente poderemos continuar com essa gente que quer tirar a luta de classes do movimento. Na fundação da Internacional formulámos expressamente a palavra de ordem:

A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores

Não podemos, por isso, continuar com pessoas que defendem abertamente que os trabalhadores são demasiadamente ignorantes para se emanciparem a si próprios mas que têm de ser emancipados desde cima pelos grandes e pequenos burgueses filantropos. Se o novo órgão do partido tomar uma posição que corresponda às ideias desses cavalheiros, tornando-se burguês e não proletário, então não nos resta, por mais que nos custe, a falar contra isso publicamente e a dissolver a solidariedade na qual nós até agora temos representado o Partido alemão no estrangeiro. Mas esperamos que não se chegue a isso.

Esta carta será comunicada a todos os cinco membros do Comité na Alemanha bem como a Bracke…

Por nossa parte, não temos objeções que seja comunicada aos cavalheiros de Zurique.

Anúncios