Novas Perspectivas para o Chile

Traduzimos o artigo do nosso camarada Patricio Guzmán, da organização chilena Socialismo Revolucionario, agrupamento de militantes do CIT no Chile, publicado no passado dia 30 de Agosto na newsletter CIT-America Latina.

Este texto poderá ser um lembrete para muitos dos militantes que, face à ofensiva brutal do governo Socrates e do patronato, e confrontados pela falta de perspectivas das principais organizações de esquerda, descrêem da capacidade dos trabalhadores e juventude para se auto-organizar e recomeçar de novo…

A irrupção da classe trabalhadora organizada mudou em poucos meses o panorama e as perspectivas políticas no Chile
Patricio Guzmán, Socialismo Revolucionario, Chile,30 de Agosto de 2007
Cada vez mais gente está cansada. A pesar dos empresários e políticos ao serviço dos capitalistas, tanto da direita como da Concertación, no governo, se congratulam com a economia chilena, para a massa das famílias trabalhadoras a vida não melhora. Há uma crescente frustração, face ao contraste com as constantes promessas e a realidade do trabalho precário, sobre-endividamento, baixos salários e , agora também, inflação
No Chile, o movimento operário e popular voltou ao protagonismo. Contudo, falta a muito para andar, mas os capitalistas já não podem continuar a apregoar as supostas bondades do “modelo chileno”, sem que a resistência dos explorados e excluídos lhes negue a evidência Fala-se muito em “crescimento”, mas não se fala muito da destruição do meio ambiente, da concentração progressiva da riqueza (20% da população controla 60% do PIB chileno), da péssima qualidade da educação, da saúde e da habitação, das taxas de endividamento da população muito para além que qualquer racionalidade ( As empresas financeiras chegam a distribuir massivamente cartões de crédito a jovens estudantes que não trabalham.
Tão pouco se fala do trabalho precário, que chega a 70% da força laboral do país .Para impedir a sindicalização e a negociação colectiva as empresas recorrem ao subterfúgio da “externalização ou outsourcing”, subcontratam outras empresas ou criam centenas de entidades sociais fantasmas – empresas no papel – para que os trabalhadores estejam pulverizados e o companheiro de trabalho seja, tecnicamente, de outra empresa. Estes são trabalhadores chamados “subcontratistas” que de acordo com a legislação laboral vigente é –lhes proibida a negociação inter-empresa se o patrão não estiver de acordo, estando na prática proibidos de negocial. Ora qo que acontece é que os subcontratistas ganham muito menos e carecem dos subsídios dos seus companheiros contratados directamente pela empresa matriz.
Este ano, finalmente, esta situação de injustiça explodiu. Mais de 5.000 operários industriais subcontratistas que trabalham para uma gigantesca empresa de exploração florestal – Bosques Arauco, filial del Holding industrial – entraram em greve e conseguiram forçar a negociação colectiva. Pagaram um alto custo, foram fortemente reprimidos pela policía uniformizada e Rodrigo Cisternas, um trabalhador e pai, de 26 anos de idades, morreu, abaito por mais de 100 tiros dos carabineros (força policial).
Mas o exemplo foi seguido pelos trabalhadores subcontratistas da mineira CODELCO, qu depois de uma dura greve também conseguiram a negociação colectiva. Hoje são muitos os sectores movilizados, num processo de sindicalização durante a luta.
Outros sectores também se colocaram em marcha, como o da construção, com altos níveis de subcontratação. E também o s trabalhadores dos sectores agro-exportadores e agro-industriais , tradicionalmente dos sectores mais desprotegidos do país, mas também o sector da banca.
Aos problemas das relações laborais, há que acrescentar as dezenas de milhares de trabalhadores com dívidas de habitação, os quais têm saído às ruas e realizado centenas de manifestações para evitar que lhes sejam tiradas as suas habitações sociais. Os pescadores artesanais, aos quais a sobre-exploração das frotas industriais de arrasto deixam-nos sem meios de ganhar o sustento, tiveram de manifestar-se e enfrentar a repressão policial para conseguir ajuda de emergência. Os povos originários, continuam a ser os mais pobres e desprotegidos da população do país. Aos mapuche que procuram recuperar as suas terras, que lhes foram arrebatadas ardilosamente, são fortemente reprimidos e são-lhes aplicadas as disposições da lei anti-terrorista, recebendo condenações até dez anos por terem queimado um caniçal, e permanecem encarcerados com acusações falsas. Neste momento duas mulheres Mapuche estão em greve de fome no cácere, tentando chamar a atenção para o seu caso.
Além disso, os trabalhadores e jovens – cerca de 6 millones – que na cidade de Santiago se mobilizam em defesa dos transportes públicos, continuam a sofrer as consequências de uma gigantesca restruturação dos transportes da cidade, o Transantiago, que mesmo o governo admite que tenha sido um fracasso. Os tempos de transbordo e espera multiplicaram-se e há pontos onde já não chegam transportes como dantes. Entretanto a banca e as empresas envolvidas no negócio aumentaram os lucros a níveis record – superiores à média dos bancos – no primeiro trimestre de 2007.
Com este panorama, não surpreende que a Central Unitaria de Trabajadores (CUT), cujos principais dirigentes são membros da direcção dos Partidos da la Concertación no gobernó (PS e Democracia Cristã), ou do PC (que agora negoceia um pacto eleitoral com a Concertación e incluve com a direita pinochetista), se tenham visto pressionados a convocar uma jornada nacional de mobilização, no passado dia 29 de Agosto. Apesar das palavras de ordem da Central terem sido genéricas ao estilo de “Contra el Neo liberalismo”, “Por un estado social y solidario” ou “Por el fin a la exclusión” (esta última quer dizer que se aprove alguma modificação legal que permita ao PC entrar no parlamento), o apelo foi recebido numerosas organizações sociais e sindicais, e inclusive pelos activistas da direcção da CUT, dando-lhes um sentido mais preciso: Contra o aumento do pão e dos produtos de primeira necessidade, por aumentos de salário, por melhores condições laborais, , por transporte digno… que os diferentes protagonistas se encargaram de precisar ainda mais nas suas empresas e bairros.
Não é a primeira vez aque a CUT convoca uma mobilização. Em geral sempre Tem sido mais uma saudação à bandeira (para inglês ver) , sem verdadeira decisão. Neste sentido esta vez não foi diferente, não houve apelo à paralisação, não houve instruções claras, “cada qual pode fazer o que lhe parece melhor” foi uma orientação pública de Martínez, o secretário geral da CUT. Não houve convocatória central para um acto único.
Mas se que queriam que tudo se ficasse por uma mobilização para marcar calendário “o tiro saiu-lhes pela culatra”. A gente utilizou a convocatória para expressar a sua frustração. Milhares tentaram manifestar-se. Os presos na jornada foram 750. Houve centenas de confrontos com os Carabineros, que brilharam, como é habitual, pelo seu excesso. Inclusive foi gravada pela TV a agressão, por nenhuma razão, a centenas de pessoas que esperavam tranquilamente numa paragem de autocarros e a um Senador da Republica – o Navarro – um tenente de Carabineros partiu-lhe a cabeça a golpes quando falava pacificamente com um oficial que comandava a força.
Desde que, no ano passado 600 mil estudantes secundaristas ocupara as escolas, o Chile mudou.. La entrada en acción de los trabajadores lo confirma. Uma nova geração que está livre dos traumas da derrota de 73 e da ditadura, entrou em movimento e está a reconstruir as organizações sindicais e sociais, , incorporando um forte sentimento de democracia de base e desconfiança dos partidos políticos tradicionais.
A nova situação chegou para ficar. Abriram-se novas perspectivas para a construção de direcções sindicais honestas e independentes do poder, e para a construção de um partido dos trabalhadores , com um programa socialista, democrático e de luta.
Os trabalhadores, os jovens e os pobres aprenderam uma lição fundamental, que parecia esquecida. Nesta sociedade as soluções colectivas são possíveis, as únicas possíveis para as massas dos trabalhadores, mas para conseguir coisas há que nos organizar e lutar.

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