Quando os operários se ergueram contra o Estalinismo

Há 51 anos que um milhão de trabalhadores da Alemanha de Leste se insurgiu contra a ditaduraestalinista no seu país. ROGER SHRIVES revê a forma como os operários alemães tentaram a revolução política.
Numa altura em que o Bloco de Esquerda convida o líder do antigo partido estalinista alemão e dirigente do chamado Partido de Esquerda para vir falar do “socialismo” vale a pena relembrar esta pouco conhecida tentativa de oposição operária e socialista ao estalinismo.

Tradução para português dum artigo no CWI online

Alemanha de Leste, 1953

A 15 de Junho de 1953, cerca de 60 operários da construção civil do estaleiro de construção do hospital de Friedrichshaim pararam o trabalho par5a elaborarem uma carta de protesto contra um aumento de 10% nas normas de trabalho impostas pelo governo estalinista da Alemanha de Leste.

Se não conseguissem alcançar essas normas os operários estavam ameaçados com cortes salariais de 1/3 do salário. Por isso começaram uma revolta que se tornou uma insurreição.

Mesmo parar o trabalho era potencialmente perigoso. Mesmo desde o fim da Segunda Guerra Mundial que a Alemanha fora dividida em dois Estados antagonistas. Na área de Leste , as armas e tanques da Rússia estalinista estabeleceram um regime fantoche segundo o modelo da Rússia de 1945 3 de outros estados do Leste Europeu.-

A Alemanha de Leste tinha uma economia nacionalizada e um sistema de planeamento da produção, o essencial de uma economia socialista. Mas aqui a semelhança acabava. Uma economia genuinamente socialista requer uma democracia operária que controle e faça a gestão do planeamento da produção da mesma forma que um organismo humano saudável requer oxigénio para funcionar.

Mas na Alemanha de Leste, como no resto do Bloco de Leste, uma pequena burocracia, afastada da classe operária, arbitrária nas suas decisões e ditatorial em todos os aspectos, executava o seu plano para manter os seus próprios privilégios.
Esta contradição entre um forma socialista de propriedade e uma elite política burocrática iria, dentro de 40 anos, conduzir à estagnação e ao colapso do Estalinismo.

Revolução política

O ÓDIO a esses burocratas levou os operários que construíam uma esquadra da polícia mesmo ao lado ao estaleiro do hospital Friedrichshaim, e aos operários do estaleiro de obras de Stalinallee a segurem-lhes o exemplo. Na manhã seguinte operários de Friedrichshaim e Stalinallee percorriam outros estaleiros da cidade apelando à greve.

Rapidamente os manifestantes eram 10.000. Os seus lideres levavam uma faixa pintada á mão dizendo “Abaixo o aumento de 10% nas normas!”. Operários das fábricas, empregados de escritórios, mesmo funcionários dos escalões mais baixos da burocracia juntaram-se aos manifestantes gritando em coro: “Somos trabalhadore, não somos escravos! Fim à normas exorbitantes! Queremos eleições, não somos escravos!”

As pessoas gritavam o seu apoio aos manifestantes das janelas das casas e escritórios. Surgiu a palavra de ordem “Ao governo, à rua Leipsiger!”.

A manifestação estava a tomar uma forma política. O ditador da União Soviética, José Estaline, tinha morrido há apenas três meses. A sua morta foi o sinal para alguma da revolta latente contra as burocracias da Europa de Leste vir à superfície.

Esse mesmo mês, um pouco antes, as tropas tinham sido enviadas para dispersar uma manifestação em Pilsen, na Checoslováquia. Agora, menos de uma semana depois, uma revolta operária estava a desenvolver-se em Berlim.

O Secretário do Partido Comunista (SED) em Berlim, Heinz Brant, explicava: “ Os operários da construção civil lançaram uma fagulha para as massas. A fagulha irrompeu em chamas. Esse era o sonho de Lenine tornado em realidade, apenas que agora esta acção de massas eram directamente contra um regime totalitário em nome de Lenine”.

Na realidade, o regime era uma distorção de pesadelo das ideias de Lenine.

Os operários exigiram conversações com os dirigentes do governo, Pieck e Grotewohl. Um operário apelou à greve geral se o governo não aparecesse em meia hora. Não apareceu e os operários saíram em manifestação para alargar a greve.

Carros de som do governo foram enviados para apelar aos trabalhadores que voltassem ao trabalho mas a multidão ocupou-os, usando-os para apelar à greve geral em Berlim para o dia seguinte..

A 17 de Junho a greve tinha-se espalhado pela maioria das cidades industriais da Alemanha de Leste, envolvendo 300.000 operários. Realizaram-se plenários em fábricas de Berlim, levando a detalhadas discussões sobre os crimes do regime do SED.
Foram eleitos comissões de trabalhadores e apelos a novas manifestações.

Em Merseburg, 10,000 operários, cantando canções revolucionárias, marcharam pela cidade onde se encontraram com outros milhares de trabalhadores. Ocuparam a esquadra da polícia, destruíram as sedes do SED e invadiram as prisões para libertar os prisioneiros. Em Halle, 8.000 operários ferroviários tomaram de assalto a sede central do SED, as instalações da Câmara Municipal e as prisões. Em Leipzig ocuparam a sede da Juventude e destruíram todos os retratos menos os de Karl Marx. Em Brandenburg os chamados “juizes do povo” e “promotores de justiça” foram espancados.

Contra Revelução

OS GOVERNANTES DA Alemanha de Leste tinham perdido o controlo mas então os tanques e tropas russos – que tinham colocado o SED no poder – entraram em Berlim. Foi proclamada a lei marcial.

Apesar do enorme heroísmo operário, a insurreição foi esmagada. O SED fez concessões económicas temporárias mas estas apenas duraram o tempo da crise revolucionária. Seis dos dirigentes da insurreição foram executados, quatro foram condenados a prisão perpétua e mais1.300 foram levados a tribunal. Estima-se que 260 operários foram mortos por balas russas.

Inevitavelmente a burocracia estalinista classificou esta insurreição de “contra-revolucionária” – na realidade, os trabalhadores nunca exigiram privatizações da industria ou o retorno ao capitalismo. O facto é que os dirigentes do SED desencadearam uma purga contra os seus próprios militantes – 71% dos secretários locais do Partido foram despedidos por apoiarem os trabalhadores – confirma isso. Um terço dos que dirigiram a insurreição tinham sido membros do Partido Comunista desde antes da guerra. A “contra-revolução” foi levada a cabo pelos estalinistas!

A insurreição mostrou o instinto dos trabalhadores na luta pela democracia operária – o seu exemplo foi seguido nos anos seguintes elos operários na Hungria, na Checoslováquia, na Polónia e foi uma inspiração para os trabalhadores da Alemanha de Leste em 1989 quando a ditadura estalinista colapsou.

Desde o colapso do estalinismo, e a consequente restauração capitalista, a Rússia e na Europa de Leste foram arruinadas, apesar da Alemanha de Leste ter sofrido menos com esse processo. Agora, a reivindicação da revolução social será novamente ouvida e o exemplo d3e 1953 na Alemanha de Leste continuará a ser uma inspiração.

Churchill apoiou a repressão.

“Se a Grã Bretanha – a sua excentricidade, o seu grande coração, a sua força de carácter – pode ser resumida numa pessoa, essa pessoa terá de ser Winston Churchill” Assim disse a trabalhista Mo Mowlam defendendo Churchill na sondagem da BBC sobre a mais importante personagem britânica. Talvez a sua excentricidade explique porque é que Churchill apoiou o esmagamento da insurreição de 1953 pelos sucessores imediatos de Estaline.

Porque é que Chruchill apoiou o regime estalinista contra os trabalhadores? Afinal de contas, ele era um inveterado guerreio de classe, um campeão do capitalismo contra o “comunismo”. Nos anos 20 via os dirigentes fascistas com admiração, descrevendo Mussolini como “dando o necessário antídoto ao veneno russo” e “protecção contra o crescimento do Bolchevismo”. Mais tarde, foi o arqui-apoiante da Guerra Fria .- inventando o termo “cortina de ferro”.

Parte da razão foi que Churchill, um político imperialista, estava preocupado com a força da Alemanha, durante anos rival da Grã- Bretanha pelo domínio da Europa. A Segunda Guerra Mundial extirpou muito desse poder à Alemanha, mas em 1953, o rearmamento da Alemanha estava na ordem do dia, como uma fortaleza da Guerra Fria contra a União Soviética. Churchill preveria uma Alemanha dividida.

Contudo, é também possível que Churchill percebesse que os estalinistas estavam a defender o status quo contra a força de uma potencial classe operária revolucionária e que visse que uma vitória dos trabalhadores num chamado estado operário viesse a ter impacto no Ocidente capitalista tal como no Leste estalinista

Roger Shrives in The Socialist, semanário do Socialist Party, o CIT na Inglaterra e País de Gales.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s