Escândalo do trabalho escravo na China: Como é que isto pode acontecer?

O sistema capitalista baseia-se na exploração do homem pelo homem. Esta é uma verdade básica que cada vez mais os mecanismos ideológicos do capitalismo querem fazer-nos esquecer. Sociedades “abertas” democráticas” de “estabilidade” tem poderosas centrais de propaganda (TV, Rádios, Jornais, comentadores mas também universidades e académicos, partidos políticos e sindicatos amarelos que reforçam constantemente a ilusão “democrática”e tentam esconder “o sol com uma peneira”: sem a exploração do homem pelo homem não há capitalismo.
O neoliberalismo, a expressão do capitalismo global, ao desregular as relações de trabalho e eliminar sucessivamente todos os constrangimentos à produtividade e competitividade”, isto é ao eliminar as conquistas históricas dos trabalhadores – para potenciar o lucro aos Capitalistas, abriu a “caixa de Pandora” da regressão social, e com ela, formas básicas de exploração do homem pelo homem, como o esclavagismo. Por todo o mundo, surgem notícias do recrudescimento desta forma de exploração: no Barsil, ou Mauritânia, no mundo neocolonial. Mas pergunta que dá título ao artigo agora publicado poder-se-ia aplicar também dos países capitalistas industriais avançados como as ‘democráticas” Espanha e Holanda, aos EUA ou a Grã-Bretanha.
O recente escândalo das dezenas de milhares de escravos nos fornos de tijolos, minas de carvão e minas na China sublinha, por um lado, uma escala assustadora do problema, Por outro realça o carácter do capitalismo selvagem que se está a desenvolver num pais que ainda contem traços de estado operário degenerado, mas que caminha a passos largos para a restauração total do capitalismo.
O artigo que publicamos, traduzido doinglês do site China Worker, é da autoria de um marxista chinês, Vicent Kolo, que participa, na China na luta internacional para a construção de uma Alternativa de Democracia Socialista ao capitalismo e à degeneração politica do estalinismo, no caso na sua forma maoista; nele traça um esboço de programa de acção sobre a luta contra o esclavagismo e da exploração capitalista ao mesmo tempo levantado a crítica ao modelo autoritário do regime chinês.
Uma lição para os ‘comunistas’, ‘socialistas de esquerda’ e outros reformistas que, na Esquerda em Portugal, recusam uma crítica frontal ao capitalismo e a propaganda clara do genuíno Socialismo como única alternativa viável para a reconstrução de um movimento independente de massas dos trabalhadores e juventude contra o capitalismo que nos oprime e explora.

Comité por uma Internacional dos Trabalhadores em Portugal


Escândalo do trabalho escravo na China: Como é que isto pode acontecer?

Os fornos de tijolos e fábricas com trabalho escravo são um produto dos sistema de “mercado” capitalista – o controlo total da industria pelo movimento operário independente é a única resposta!

Vincent Kolo, Beijing

As noticias de escravatura torturas , tráfico humano e prisão de crianças em condições “piores de que em canis” explodiram como uma bomba na China. A questão dominou as discussões públicas e os fóruns da internet e provocou um sério golpe na credibilidade do partido ‘comunista’ governante.

Desde os primeiros e limitados relatos na imprensa foram divulgados em finais de Maio, o escândalo da escravatura nas províncias de Shanxi e Henan evoluiu para uma importante crise política para o regime chinês. Na Sexta feira, 22 de Junho, 591 trabalhadores escravizados, incluindo 51 crianças foram libertados como resultado de uma das maiores operações policiais de sempre. A comunicação social estima que ais um milhar de crianças podem ainda estar escravizadas. Centenas de milhões viram, chocados, uma comovida reportagem televisiva de escravos a emergiram do seu cativeiro confusos, maltratados e semi-esfomeados.
Mas esta mobilização de recursos policiais – segundo os relatos, 45.000 policias nas duas províncias – apenas aconteceu devido ao clamor publico e da comunicação social que se desencadeou quando pais de crianças desaparecidas organizaram-se num grupo de pressão, e então divulgaram o seu infortúnio na internet. (ver o artigo: Who can save our children?). Um grupo de pais juntou o seu dinheiro para comprar um carro para viajar para as pedreiras e fornos de tijolos de Shanxi em busca das suas crianças. Mas também souberam que a policia e autoridades locais não tinham vontade de os ajudar e em muitos casos eram cooperantes com os escravizadores.

”Aprendemos a não confiar na policia mas a sermos nós próprios a ir aos fornos de tijolo” confessou Chai Wei, um pai de Henan. Em vez de verem isto como um caso de policia, os pais disseram-nos que “isto é um conflito entre o trabalho e o capital” de acordo com uma reportagem do Canal de TV Metro de Henan. Num confronto transmitido pela TV nacional, dirigentes locais do partido ‘comunista’ disseram aos pais: ”deviam ter tomado melhor conta dos vosso filhos!”
Outro pai disso como localizou o seu filho e outras crianças que conhecia trabalhando numa fábrica de tijolos em Shanxi, mas que a policia apenas lhe permitiu levar o seu filho. ”Apenas encontras-te o teu filho, não te metas nos assuntos das outras pessoas” disseram-lhe.
Dois inspectores de trabalho que levaram a cabo a libertação de um rapaz cativo de um forno de tijolos venderam-no para outra fabriqueta em vez de o devolver aos seus pais.,
A luta dos pais para localizar e libertar os seus filhos fez erguer uma enorme onda de simpatia. Mas da mesma forma, a acção do governo fez levantar-se uma enorme onda de indignação. Como um repórter de TV de Henan explicou à Reuters, ”Nas nossas reportagens, o principal obstáculo foi a falta de cooperação de algumas das autoridades de Shanxi. Algumas ainda continuam a usar vários expedientes para obstruir os pais de resgatarem os seus filhos..”

Que ’harmonia’?

A existência de um comércio organizado de escravos na China não faz sentido para o objectivo confessado do Presidente Hu Jintao de construir uma “sociedade harmoniosa”. Apesar dos dirigentes locais já estarem comprometidos aos olhos do público (ninguém está realmente chocado por saber que os traficantes e donos dos escravos eram protegidos a nível das autoridades locais) desta vez a credibilidade do governo central também está a ser afectada. Muitas questão estão a ser correctamente colocadas nos fóruns de Internet e na imprensa sobre os motivos que levaram o governo central de Pequim a tardar tanto a intervir. Como refere o Oriental Daily News, os relatos de escravatura em Shanxi apareceram duas semanas antes do governo central ter feito qualquer declaração sobre o assunto. Inicialmente apenas autoridades de baixo nível foram acusadas na investigação, um passo que muitos dizem que permitiu aos donos dos fornos de tijolo tempo para encobrir os seus crimes. Mas muitos receiam que seja mais difícil descobrir os que continuam escravizados. Agora já alguns pais de crianças desaparecidas receberam pedidos de resgate, o que significa que alguns dos antigos escravizadores tomaram o passo lógico para assumidos raptores. Outros escravos sofreram um indubitável pior destino,


Não pode haver engano sobre o efeito sério desta crise no seio da liderança central de Hu, e do Primeiro Ministro Wen Jiabao. O Conselho de Estado [o governo chinês] teve uma reunião de emergência sobre este escândalo, na quarta-feira, 20 de Junho. Wen anunciou uma inspecção nacional das condições de trabalho e exorta as autoridades a “aprenderem a lição” de Shanxi. Mas, quais são as lições de Shanxi? Este episódio sublinha que, na base do “mercado” capitalista tais práticas são impossíveis de erradicar. Em Shanxi e outras zonas pobres do interior há centenas de milhares de fornos de tijolo, forjas e minas não registados. Como é que eles escapam continuamente aos controlos legais?

A resposta, é claro, é a protecção política: os proprietários dos fornos são avançados a tempos de periódicas, os polícias e inspectores são subornados, muita vilas e aldeias são governadas pelos proprietários e seus familiares. E que diferença farão as novas leis vindas do governo central? Como refira um comentário de Xinhua, feito na última semana, a China já tem leis que proíbem o trabalho infantil e outros abusos, mas essas leis são simplesmente ignoradas. A única lei que nunca é desobedecida na China de hoje é a lei do lucro!
A planeada ronda de inspecções durante dois meses a fábricas, minas e esteiros, ordenada pelo governo central, não irá resolver o problema. Os seus efeitos, na melhor das hipóteses serão de curta duração, com os donos a encerrar temporariamente, a mudar de instalações ou a ameaçarem os seus trabalhadores para darem falsas declarações quando os inspectores chegarem. Hoje até há empresas que o seu negócio é aconselhar outras empresas como evadirem-se às inspecções!

Negócios e autoridades

O nexos entre políticos locais e patrões privados criminosos ou semi-criminosos é simbolizado por Wang Bingbing, proprietário do infame forno de tijolos na comunidade de Hongtong, Shanxi, no epicentro do escândalo, que está agora sob custódia policial. O pai de Wang é o patrão do partido ‘comunista’, sem a protecção do qual todo este esquema não seria possível. Foi agora despedido e expulso do partido – um pequeno preço para tais crimes!

Os políticos locais de Shanxi estão a ser condenados não apenas pelos testemunhos de escravos libertos e suas famílias mas mesmo pelos seus escravizadores. A esposa de um dos presos proprietário de um forno de tijolo disse à Reuters: ”As autoridades diziam que estávamos ilegais, por isso recebiam dinheiro mas não fizeram nada mais do que isso – eles queriam dinheiro”!
O escândalo deu azo a uma efervescência na comunicação social estatal. O Jornal Nova China chamou ao assunto uma “chocante desgraça”. O principal porta voz do partido, o Diário do Povo, apelou num editorial para uma “profunda reflexão”, avisando que “de outro modo não temos como encarar a ‘harmonia’ mundial”.

Os jornais regionais pelo menos, testaram ainda mais os limites da censura.
”Este assunto é acerca de muito mais do que práticas ilegais de trabalho,” comentou o Diário de Guangzhou. ”Vemos mais crimes sangrentos através deste escândalo, como raptos, sequestros, espancamentos, abusos e mesmo assassínios. Por detrás destes crimes, há um mau comportamento dos dirigentes locais.” (nosso ênfase.).

Falar para sair da curva apertada
As medidas anunciadas pelo governo central são de limitação da danos – evitando que a indignação pública saia do seu controlo. Foram dadas ordens à imprensa regional para parar as reportagens e abordagem da questão. Forem feitas algumas prisões e o regime irá sacrificar alguns dirigentes locais , mas espera manter essas detenções no mínimo. Num estilo características, Wen e outros dirigentes s de topo querem dar a ideia de estarem a fazer alguma coisa, com a esperança que o público em geral se satisfaça e que o assunto desapareça da consciência pública. Em vez de acção rela o que está a ser feito são promessas vazias.
Vejamos o registo do governo em relação a outros escândalos:

  • Em 2005, em Harbin, quando os principais reservatórios de água foram postos for a de uso por um enorme derrame de químicos no rio River, Wen Jiabao caiu de pára-quedas para supervisionar a campanha de limpeza. Novas promessas foram feitas. Foi dito às autoridades para se remodelarem. Mas desde o desastre de Harbin tem havido um derrame químico perigoso nos sistema fluvial da China em cada 3 dias! Ainda no ultimo mês, as principais reserves de água foram suspensas em Wuxi, uma cidade de 2,3 milhões de habitantes, na sequência de aumento da poluição do lago vizinho. No caso de Wuxi, o governo de Beijing que tinha dado mais de mil milhões de yuans para a limpeza do lago em 1998, levantou a questão: Que aconteceu a todo esse dinheiro? Na falta um genuíno movimento operário e sindical para impor rotinas de segurança, mais a rede de corrupção entre as empresas e os governos locais, os brutais e criminosos métodos de produção e o total desrespeito pelos procedimentos de segurança são inatacáveis.
  • Outro exemplo das promessas vazias de Beijing é o continuo massacre na industria mineira do carvão, cujo trajecto está directamente relacionado com o escândalo de trabalho escravo em Shanxi. Morrem mensalmente mais mineiros chineses que soldados norte-americanos e outros estrangeiros no Iraque. Como já relatámos no China Worker em Maio, Wen anunciou um novo método “duro” para encerrar minas de carvão ilegais em Fevereiro de 2006 – mas pouco aconteceu desde então. Xinhua divulga que o plano de Wen ”falhou por causa da oposição dos governos locais”.
  • Mesmo em relação aos fornos de tijolo ilegais, o governo central não pode pretender não saber de nada. Em 2003, Wen Jiabao numa declaração gravada, exigiu uma dura punição no caso de um adolescente forçado à escravatura no Município de Yongji County, Shanxi – uma região que também está presente no escândalo actual. Em quatro anos que se passaram, o problema apenas piorou.

Vazio no Poder Rural
O escândalo sublinha a perca de controlo pelo governo central sobe os seus órgãos regionais e locais. Muita da China rural e ainda pobre foi transformada noa “terra de ninguém” política sob o controlo de patrões locais, gangsters e chefes de clãs, em condições que fazem eco do passado feudal.

”O controlo de estado no interior rural e sobre os camponeses é fraco” refere o Guangzhou Daily. ”Em Algumas aldeias e vilas emergiu um vazio de poder e forças criminosas aproveitaram a oportunidade para crescer e tomar o comando”

Isto é foi graficamente confirmado por um dos escravos libertos, o jovem Chen Chenggong, de 16 anos de idade, que disse à Associated Press que via frequentemente policies à paisana visitando os fornos de tijolos no Município de Hongtong em Shanxi ”Eles eram pagos pelo dono. Toda a aldeia era dele!”

Vários relatos confirmam que os fornos de tijolo e as suas práticas degradantes eram sobejamente conhecidas da população local, mas dado ao nível de protecção oficial e o poder dos mestres de escravos, poucos se atreviam a protestar. Aldeões descreveram as condições locais em Hongtong como ”uma mistura de pobreza, oportunismo e ampla indiferença.” Alguns aldeãos também disseram á Reuters que ”as mesmas autoridades que agora se apresentam a si próprios como heróis por terem resgatado os trabalhadores” tinham previamente conluiado com os proprietários dos esteiros e fornos de tijolo”.

Podem rolar cabeças

Podem as tácticas usais de gestão de crise de Beijing– mais promessas vazias, e umas poucas de prisões mais uns tantos despedimentos – conseguir evitar uma séria crise nacional? Isto ainda tem de ser provado. No momento em que é escrito este relatório o escândalo não dá prova de se estar a atenuar. Na Sexta-feira, 22 de Junho, o governador de Shanxi, Yu Youjun, apresentou desculpas públicas: ”Sinto… um aperto de coração com este escândalo. Em nome do governo provincial, peço desculpas às vítimas e às suas famílias, bem como a todo o povo de Shanxi.”
Este ritual de autocrítica pode bem não Yu e outros gestores provinciais de um crescente clamo pela sua resignação e mesmo punimento. A província de Shanxi, seja qual for o critério de análise, é um desastre administrativo. Não apenas se tornou uma central do novo trabalho escravo, e a província de três das dez cidades mais poluídas da China e consequentemente tem assistido a um alarmante aumento de número de cancros relacionado com a poluição. Está também perto do topo da lista de acidentes fatais na industria do carvão.
Há uma ampla revolta contra a tentativa de Yu e do seu governo de tentar impor um embargo às noticias sobre a questão dos escravos em Shanxi. Se ele tivesse sucesso nem um único escravo teria sido libertado. Felizmente os órgãos de comunicação social de outras províncias ajudaram a rodear o seu governo. este facto sublinha a completa hipocrisia dos pedidos de desculpa atrasados de Yu.

Yu é o arquétipo dos “modernizadores” capitalistas nos círculos de poder do P’C’ da China. Ele foi colocado no governo de Shanxi depois de ter servido cinco anos como presidente da Câmara da cidade mais rica da China, Shenzhen. Na altura da sua nomeação disse à revista China International Business: “Irei copiar as medidas e ideias que se provaram eficientes em Guangdong, Shenzhen e Hunan, mudando os estilo de trabalho das autoridades do governo local em levando Shanxi em direcção a um ambiente mais aberto ao mercado.” [China International Business, 1 de Setembro de 2006]

A escravatura e o tráfico humano explodiram na opinião publica sendo um enorme embaraço não apenas para Yu mas também para Wen e Hu que estiveram por detrás da sua nomeação. É potencialmente ainda mais embaraçante para o Secretário do Partido em Shanxi, Zhang Baoshun, que já está a ser arrastado com o escândalo. Este cargo é sempre o principal dos dois cargos de topo da província. Zhang é próximo de Hu, uma vez que vem da Liga da Juventude ‘Comunista’ – a principal base de apoio do Presidente dentro do aparelho partidário – e trabalho com Hu nos anos 80. Ele é – ou talvez se deva dizer, era – um dos quarto candidates de topo a serem levados ao Politburo no próximo baralhar de cartas no 17º Cngresso do P’C’ Chinês em Outubro.

Se Yu e Zhang, como duas “estrelas em ascensão” da hierarquia do partido, caírem em desgraça como resultado do escândalo dos escravos, será difícil evitar que as consequências políticas cheguem a Beijing a ao duo central de Hu e Wen. Seja qual for o resultado, é difícil ver a direcção central emergir sem ser tocada deste assunto, em termos de perca de prestígio e danos na sua cuidadosa e cultivada imagem de “honestas” e com “compaixão” autoridades, Segundo o modelo confuciano – num brutal contraste com a maioria doas autoridade locais.

”Em muitos países, um escândalo como este seria suficiente para fazer disparar uma enorme crise política e de confiança. Mas aqui não China, até agora, não é nem um sinal de resignações” exclama o Southern Metropolis Daily, outro tablóide estatal. Mas tal cenário não está excluído, mesmo na China. Os escândalos políticos desencadearam movimentos de massas em vários países da Ásia nos anos recentes. O exemplo das Filipinas, onde a Presidenta Gloria Macapagal Arroyo teve uma vitória eleitoral fraudulenta em 2004 mas enfrentou protestos de massas até resignar. Centenas de milhares também saíram às ruas da Tailândia em 2006 depois do primeiro Ministro Thaksin Shinawatra ter concluído um acordo de telecomunicações suspeito, um movimento que seis meses depois despoletou um golpe militar.

Mesmo num Estado autoritário como a China, um movimento popular pode desenvolver-se de um escândalo político como este, rebentando com as barreiras do controlo de estado tradicional. Os 400 pais, cujo apelo na Internet expôs o escândalo, emergiram como um foco potencial da gigantesca indignação publica que existe. Se os pais e os trabalhadores escravos libertos lançarem um apelo para um dia nacional de acções de solidariedade e marchas, para manter sob pressão o governo, pode não ser fácil ao governo boquear tal acontecimento. Mudando para a repressão aberta e tirando recursos policiais da busca dos escravos para caçar manifestantes contra a escravatura é dificilmente o tipo de “compaixão” com que o governo se retracta neste momento. Uma manifestação de massas contra a escravatura em Zhengzhou, por exemplo, o principal interface de transportes onde os mais jovens foram sequestrados ou enganados para falsos “trabalhos”, se a ideia for lançada agora – na internet e noutros fóruns – pode recolher suporte por toda a China. Isso colocaria o governo sobre muito maior pressão, tornando-lhe muito mais difícil repetir meramente as anteriores operações de “cosmética” das companhas de “limpeza”.

Que Fazer?

Depois da reunião da semana passada do Conselho de Estado, Wen anunciou que “os que infringem a lei empregado crianças, forçam as pessoas a trabalhar ou maliciosamente agridem e maltratam trabalhadores serão severamente punidos”

Esta declaração não tem absolutamente nada de novo. Os escravizadores de Shanxi sabiam que agiam ilegalmente, mas descobriram uma forma lucrativa de contornar a lei. O que falta em todas s declarações oficiais é uma idea de como e porque meios se pode evitar este tipo de situações. As reportagens noticiosas tornaram claro que o problema não está limitado a Shanxi e Henan. A revista do partido Democracia e Lei noticiou o caso de jovens raparigas forçadas a prostituição num forno de tijolo ilegal na província de Hebei. O China Daily também relatou casos de escravidão nas províncias do Sul como Guangdong, a mais rica da China.
É também claro que o fenómeno não é novo, tendo surgido há dez anos segundo a maioria dos relatos. E é um problema internacional. É uma característica da podridão e decadência do capitalismo globalizado. Anualmente, na Europa, dois milhões de mulheres são vítimas de tráfico humano – a maioria dos países empobrecidos os devastados pela Guerra de algumas áreas dos Balcãs e dos países da antiga União Soviética – para a indústria do sexo da Europa Ocidental. Em éreas do Sul e Sudoeste Asiático existem formas similares de exploração à que foi exposta na China. Além disso, sendo chocantes as práticas nos fornos clandestinos de tijolos em Shanxi, as condições de trabalho de dezenas de milhões de operários são apenas marginalmente melhores. As fábricas em regime de sobre-exploração no Delta do Rio das Pérolas e noutros centros de exportação costeiros também parecem campos de trabalho, com disciplina militar, multas salários não pagos, de jornadas de trabalho intoleráveis e condições de segurança de trabalho extremamente perigosas. Os donos dos escravos de Shanxi apenas levaram a exploração ao “nível seguinte”

As medias policiais terão, quanto muito, um efeito temporário. As fábricas e minas que são fechadas num dia, reabrem no outro. Isto acontece rotineiramente no sector privado da industria do carvão, a qual desenvolveu um sofisticado esquema de evasão às vistas de controlo. A lição é simples: Onde há Mercado, e lucros a obter, há sempre exploradores prontos para fazer a colheita. Da mesma forma, onde há uma pobreza generalizada, e mais de metade da população é sistematicamente descriminada e prejudicada pelos sistema hukuo (o qual classifica os cidadãos como ou ’urbanos’ ou ’rurais’, e nega aos últimos o direito de residência permanente nas cidades e a maioria das formas de protecção social), não exite, infelizmente, falta de vítimas. Talvez a história mais chocante foi nas reportagens dos media terem-se visto escravos libertos a não quererem sair das suas anteriores prisões, dizendo que, pelo menos ali tinham alguma comida e tinham abrigo.

Milhões de adolescentes e jovens pobres em cada ano são forçados a deixar as suas aldeias, nunca sabendo exactamente onde chegarão ou que tipo de trabalho encontrarão. Sem um programa de emergência do Estado para expandir a educação, abolir as proibitivas propinas escolares e universitárias, criação de emprego decente para jovens e o desenvolvimento de infraestruturas essenciais nas áreas rurais, é impossível extirpar pela raiz as condições que levam ao surgimento da escravatura e do tráfico humano. Da mesma forma, a falta de um movimento sindical e de organizações operárias independentes significa que os operários e as comunidades do povo trabalhador são incapazes de resistir a esta flagrante violação das leis pelo patronato e políticos locais. As tentativas dos sindicatos fantoches do governo de cavalgarem nestes acontecimentos são, apenas frases vazias e, pior, mentiras e dissimulações conscientes. Como é que estes ditos sindicatos, que permitem aos patrões e aos seus gestores de confiança serem membros das direcções sindicais, terem qualquer papel independente ou fazerem soar o alarme contra os abusos? Mais do que nunca, a necessidade de sindicatos genuínos, democraticamente controlados pelos trabalhadores, é um tema central na China.
Controlo Estatal – porque não?
O que é marcante nas deliberações governamentais das últimas semanas é que nenhuma das secções do partido governante – cujo nome em chinês significa “o partido da propriedade pública” – levantou a ideia de voltar a impor o controlo estatal sobre as industrias que usam escravos, como a do carvão, a metalurgia e a dos materiais de construção. É verdade que o governo provincial de Shanxi anunciou que deixaria de comprar tijolos do tipo fabricado pelos escravos; mas isso não parará esta forma de produção, primitiva e desregrada, apenas forçará os patrões e encontrar novos mercados ou a mudar os seus métodos. Apesar das suas declarações, o governo “comunista” em Shanxi reduz-se a si próprio aos métodos de um grupo de pressão de consumidores.

A solução óbvia é reintroduzir o monopólio estatal na s industrias de materiais de construção. Dessa forma, ao levar toda a industria e os seus fornecedores para a propriedade estatal tornará os fornos ilegais incapazes de sobreviver. O facto que nem o governo central nem o provincial referirem a “palavra n” (nacionalização) é um comentário loquaz às realidades políticas da China de hoje. Como a industria do carvão o demonstra mais uma vez, o regime encorajou uma privatização ainda mais acelerada ao mesmo tempo que faz muito barulho lamentando as mortes nas minas.

Da mesma forma, em relação aos disparo do preço do porco e de outros produtos alimentares, o Governo ofereceu a abertura das suas reserves alimentares de porco, mas meticulosamente evita falar em qualquer tipo de controlo de preços. Um comentário editorial de direita típico, no jornal official China Daily refere ”É de referir que ninguém apela para um controlo governamental dos preços como nos velhos tempos. Apesar de todas as deficiências, uma economia de mercado é melhor que uma economia comandada”
Digam isso aos operários e aos camponeses que não se podem dar ao ‘luxo’ de comer porco!

O partido ‘comunista’ da China está tão determinado como qualquer governo capitalista – ou mais determinado – a resistir a qualquer medida que possa indicar uma reversão do seu programa de “reformas e abertura” neoliberal. Tais medidas de renovado controlo estatal, mesmo que implementadas burocráticamente e de forma antidemocrática como sob o Maoismo, iriam fortalecer a posição dos operários e trabalhadores contra o capital, e poderiam desencadear reivindicações mais medias drásticas contra os exploradores.

O escândalo dos escravos pode bem ser um momento de definição para a liderança Hu-Wen, dando um enorme golpe nas ilusões de uma considerável camada da população de que este governo é capaz de promover melhorias para os pobres.
As mudanças reais não virão do partido ‘comunista’ ou de nenhuma constelação dos seus dirigentes e facções. A mudança real requer a construção de uma alternativa socialista democrática e de massas e, como primeiro passo, o estabelecimento de verdadeiros sindicatos preparados para enfrentar o patronato e a sua policia.

O Operário Chinês reivindica:

  • Abolição da escravatura e do tráfico humano! Isto necessita de um movimento de massas que corra com os escravizadores e tome posse das suas propriedades e bens criminalmente adquiridos.!
  • Manter a pressão! – não deixar que o governo se escape. Pais e escravos libertos devem convocar um dia nacional de solidariedade com manifestações e marchas contra o trabalho escravo.!
  • Por sindicatos independentes e totalmente democráticos para lutar por salários decentes, uma jornada de trabalho de oito horas e condições de trabalho seguras e humanas!
  • Nacionalização das industrias do carvão, da metalurgia e da construção, sob controlo democrático dos operários e um plano centralizado e democrático de produção para todos os recursos naturais e para a produção agrícola e florestal.
  • Confiscação das propriedades dos exploradores e das empresas que violam as leis laborais e ambientais. Uso desses recursos para a criação de verdadeiros postos de trabalho com salários e condições de trabalho decentes e sob o controlo democrático dos Sindicatos.
  • O trabalho escravo e a exploração de classes são inevitáveis – juntem-se à luta por uma alternativa socialista!
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